quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A PARTIDA DA FLOR DE OUTONO

Sapabela encontra o velho amigo.
—Rospo! Fiquei sabendo!
—Ficou sabendo o quê, Sapabela?
—Hoje é o seu primeiro dia sem a Flor de Outono.
—Nossa! Tristeza tem pernas ligeiras...
—Pois é, alegria é meia lenta. Mas também chega lá.
—Fique tranquila que a tristeza não vai contagiar. Mas é duro.
—Rospo, qual a maior dor do mundo?
—Para o sapo é a perda da Sapa amada...
—Rospo, a flor de Outono era a coisa mais preciosa em sua vida, não é?
—Uma flor de Outono tem em si o status primaveril...
—O espírito da primavera, não é?
—Naturalmente, mas ela também parte, também se vai...
—Murcha? Perde as cores?
—Não, Sapabela, isso não. Ela não perde as cores. Ela é sim o colorido da vida, a alegria que não morre...
—Mas por que então, ela tem que partir?
—Para que a dimensão da compreensão da vida seja expandida...
—Mas viver só tem sentido ao lado das cores da vida. Ou seja, de que vale a vida longe da flor de Outono?
—É, Sapabela, a flor de Outono estará sempre no coração... Partir é apenas um disfarce...
—Rospo, isso é apenas uma filosofia... concretamente a sua flor de Outono se foi... Sabe o motivo?
—Não sei ao certo, mas penso que a contribuição de uma partida sempre é dos dois...
—Tome, Rospo, um presente para você...
—Um espelho? Que presente estranho!
—Estranho mas absolutamente necessário neste momento.
—Necessário?
—Sim, para nele você poder ver um dos culpados.


HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 659
Marciano Vasques

terça-feira, 30 de agosto de 2011

PARA AGOSTO DIZER


PARA AGOSTO DIZER


Vi
Sua luta sincera
Sua vontade latente
E o sol espalhando as ramas
E os remos levando os caiçaras
No rio.
E as crianças, as iaras.
Eu rio.

Acompanhei
Seu choro abafado,
Valente,
Sua dor no mormaço
Sua palavra arrancando
Um verso
No bagaço do inverso.

Talvez tenha sido eu
Aquele assovio
Entre as folhagens.
A ventania, a fumaça, a poeira.
E as fúrias, os ciúmes
E os gritos
Do cotidiano.

Talvez, um cigano,
Um artista circense,
Um engano,
Vou, molambo
Em mocambos,
E me lambo no próprio poema
Ausente.

Edifícios, igrejas,
Diversões, livrarias.
Meu olhar se perde
Na imensa aventura.


MARCIANO VASQUES


domingo, 28 de agosto de 2011

VESTIDINHO, SORVETE E DOMINGO

Sorvete em punho numa mão, e na outra, um livro para adoçar, lá ia o Rospo quando encontrou a velha amiga:
—Sapabela! Que vestidinho florido!
—Só vê isso, Rospo,  e eu?
—Ora, Sapabela, o vestidinho diz tudo.
—Diz o quê?
—Que é domingo.
—Tem razão, meu vestidinho é todo domingo, e o domingo sou eu, quer dizer, começa em mim. No domingo, todas as sapas usam vestidos floridos.
—Não é bem assim, Sapabela. Algumas sapas estão no exercício de seus trabalhos, e usam outras cores. Uma enfermeira, no hospital, usa branco, uma policial usa cinza...
—Mas uma sapa assim como eu, que está de domingo, usa floridos... E eu fico feliz ao ver que você gosta dos meus vestidinhos. Embora eu me vista assim de forma colorida porque eu gosto, para me sentir bem... Não para agradar ninguém.
—Não precisa esse discurso bobo, Sapabela. Sei que você se veste para si, mas quando põe um vestidinho de tirar, tão bonito como esse...
—Vestidinho de tirar? Que papo é esse?
—Estou brincando, Sapabela, o meu sorvete acabou...
—O próximo é comigo.
—Aceita o meu convite?
—Já estou na sorveteria, Rospo.
—Como a vida é maravilhosa, Sapabela. Em toda a sua plenitude do domingo. As flores, as nuvens, o ar, o azul, o sorriso da criança, o vestidinho florido...
—Rospo, a delícia do sorvete já começa no convite.
—É igual criança quando vai ao circo. O espetáculo começa no passeio. Quando chega ao circo, apenas transborda.
—É, a criança já leva o circo com ela antes de chegar.
—Sapabela, obrigado!
—Por que me agradece, Rospo?
—Pela amizade.
—Então, já que a temos, vamos aproveitá-la bem no domingo...



HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 658



MARCIANO VASQUES

sábado, 27 de agosto de 2011

FRAGMENTOS PARA UM SÁBADO

Na manhã de sábado tudo se avizinha numa alegria de azucrinar alma embaraçada ou cinzenta. Fico com aquela vontade de caminhar na cidade, como fazia nos velhos dias, que só são velhos na expressão popular, no modo de dizer, e eu era apenas um moço que caminhava nas calçadas, passava pela Ladeira da Memória, subia a Xavier de Toledo, e sentava alguns minutos na entrada da Biblioteca. Depois seguia em frente, para aonde ia? Não sei, não me dou mais conta daquele rapaz com o tórax azul repleto de poemas doces como churros, que eram rabiscados na mente e depois se perdiam, como sempre acontece com as coisas que realmente importam, e que se perdem numa ousadia imperdoável. E lá estava eu abismado no azul acima do prédio do Diário

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

SITUAÇÕES DE RISCO

—Veja Rospo!
—O que, minha querida?
—Aqueles sapinhos.
—Estou vendo, estão na rua, e parecem abandonados, dormindo na calçada, ao relento. Estão numa situação de alto risco.
—Verdade, estão correndo perigo. Que sociedade é essa que deixa crianças vivendo em situações de risco?
—Não podemos nos esquecer de que é a mesma sociedade na qual vivemos, a mesma dos anúncios na televisão, dos cartões de crédito, dos grandes impérios financeiros...
—Eu sei, Rospo, a mesma sociedade que seduz uns, abandona outros.
—Às vezes, quem é seduzido, depois  também se sente abandonado.
—Tem razão, Rospo.
—Veja, Sapabela! Aquela criança naquela casa.
—Qual é o problema com ela, Rospo?
—É uma criança abandonada.
—Que bobagem, Rospo! Ela está em casa.
—Está vivendo uma situação de alto risco.
—Não entendo, amigo meu.
—Já reparei que ela sempre está diante da tevê, às vezes diante do computador. E está sempre sozinha, e fica horas diante da tela, ou das telas. É realmente uma situação de risco.
—Tem certeza do que está falando, Rospo?
—É uma situação de risco para o pensamento, para a imaginação. As lesões serão irreparáveis. Essas crianças nem sentirão o aroma de uma história ao ar livre, numa tarde sem cercas...
—Rospo, sapinhos abandonados em casa diante da TV ou do computador, estariam mesmo vivendo uma situação de riso?
—Naturalmente, e pode acreditar, eles estão precisando de abrigos.
—Abrigos?
—Claro, uma palavra acolhedora, um sorriso, qualquer coisa que possa movê-los da ausência da aventura de viver e brincar, ou seja, brincar de viver.


HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 657
Marciano Vasques

NA VOZ DE NIL MEDEIROS

video

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

PAIXÃO E SAUDADE

Acabo de retornar de PORTO FELIZ. 
Fiquei apaixonado pela Cidade e sua gente.
Mas agora, aqui, quero confessar 
que estou com uma saudade imensa
do Rospo e da Sapabela.


domingo, 21 de agosto de 2011

DOMINGO À NOITE

SE FICAR UM TEMPO...

Se ficar um tempo assim um pouco mais longo sem falar de Spinosa, penso que os aborrecimentos do cotidiano jamais serão breves como a vida.
Se ficar um tempo a mais sem falar de Drummond, de Cecília, de Quintana e de quintal, será um tempo seco, sem aquele caudaloso sentimento de doçura e de amizade que vigora na contemplação da saga das coisas.
Se ficar um tempo sem Cora Coralina será como um tempo sem perdões, sem pardais e sem doceiras para adoçarem as nossas bocas, e sem a ventania, o orvalho, sem a neblina e sem o sol aquecendo as telhas.
Se ficar um tempo sem poemas, sem um livro, sem uma doce canção, será um tempo árido, meio brusco, sem a quentura das palavras pronunciadas num aconchego de amizades sinceras.
Se ficar um tempo só, um tempo miúdo que seja, sem rabiscar uns versos, sem ler um gibi daqueles em P&B, com aventuras para não se esquecer, será um tempo sem graça.
Se ficar um tempo sem dizer frases de amor, sem abraçar e sem buscar lábios para beijar, será um tempo sem asas e azuis.
Se ficar um tempo sem sorrisos e sem roseiras, sem conversas e declarações aveludadas nas cantadas dos recantos das noites, será um tempo sem motivações, sem conquistas e sem tesouros.
Se ficar um tempo sem falar sobre as injustiças do mundo, sem angústias pelas violências contra a humanidade, será um tempo sem cores e sem crenças na inabalável força do amor.
Se ficar um tempo sem ir ao cinema, ao parque de diversões e sem ver as espumas do mar, será um tempo sem aventuras e ternuras,
Se ficar um tempo sem brincar ou apenas contemplar as crianças que brincam e correm, os meninos com seus carretéis, e as meninas no Adoletá, como borboletas zonzas de luz, será um tempo sem aplausos, sem gargalhadas e sem claridade no rosto.
Se ficar um tempo sem cantarolar, sem cochichar frases tímidas e gloriosas, será um tempo sem uma réstia luminosa de verbos encantados e sem ramalhetes.
Se ficar um tempo sem Jorge Amado, sem Clarice e sem Florbela Espanca será um tempo vazio, sem o conhecimento da dimensão que norteia a alma para a grandeza que passa.


MARCIANO VASQUES

sábado, 20 de agosto de 2011

A AVENTURA DO OLHAR

—Rospo, o meu olhar é aventureiro.
—Eu sei, Sapabela, você foi uma menina que escapou de todas as opressões. Teve a felicidade de ter ao seu redor adultos protetores que incentivaram o seu olhar desde cedo.
—É verdade, Rospo. E sabe qual é a maior aventura do olhar?
—É estar sempre mirando a novidade do mundo. Aliás, o que é o mundo senão uma eterna novidade?
—Sim, Rospo, mas para mim tem uma aventura ainda maior.
—Pois comece.
—É ir ao âmago das coisas, ir sempre no mergulho. Quero dizer, a maior aventura do olhar é justamente perceber, desvendar, ver a saga de todas as coisas...
—Sapabela, você sempre me surpreende!
—Claro, Rospo, é assim que tem que ser com os amigos. Nós devemos brincar de mundo.
—Brincar de mundo? E como é isso?
—A cada dia uma novidade.
—Até que a novidade seja chamada de mundo.
—Então, Rospo, na maior aventura do olhar devemos sempre penetrar na essência. Somos portadores da responsabilidade de ver a saga de cada coisa. Pois nada surge pelo simples ato da magia. Tudo é história. A aventrra é infinita. Todos os cordéis do mundo não dariam conta, e o olhar tem a função orgulhosa de consolidar a aventura.


HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 656
Marciano Vasques


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

AKIRA


AKIRA

Quero Akira, disse poema ao vento.
Akira cura o cotidiano
Versando estrofes e cores.
Corra Akira , meu caro,
Na memória da poeira
Cá poeira de meninos que viram
Capinzais e sumiram nas ruas
Com seus carretéis.

Corra, Akira, meu caro,
Na cara da ventania,
Corcel que ninguém segura
E que traz poesia da pura.


Aqui Akira, na lavra, na doce canção
Dos ciganos
Das ruas de São Miguel Paulista.
Tudo se mescla acarajé e caqui o cuco.
E aquilo que encanta e dança
Numa ciranda sem fim.
E diz que o verbo desembestou
Feito mel eu diria, mais que tudo,
Na letra de cada artista.


Marciano vasques 




quinta-feira, 18 de agosto de 2011

AVISANDO O CORPO

—Rospo, já é luar, e eu vou avisar o meu corpo que amanhã é sábado.
—Que papo é esse, Sapabela? Hoje é quinta!
—Todas as noites eu faço isso.
—O que você faz, Sapabela?
—Aviso ao meu corpo que o dia seguinte é sábado. Todos os dias são. E você sabe, sábado temos que capturar logo cedo. Bem na manhã devemos aconchegá-lo entre nossos braços e aí...
—Pode deixar mais claro isso?
—Deixar claro é comigo mesma. Por isso sempre preferi ler Filosofia por conta... Sem ler os críticos resenhadores primeiro... Só depois que eu leio no original é que vou aos críticos e então descubro como é tão complicado um sistema filosófico que no original parecia mais simples.
—Tudo bem, Sapabela, não precisava essa cutucada, mas...
—Cutucar? Mas não estamos na Rede!... Bem sabe que as palavras estão sendo alteradas em seus sentidos, graças à Internet. Carregar virou outra coisa, e cutucar também...
—Sapabela, você não sossega! Fale das suas noites...
—É verdade, Rospo. Todos os dias são sábados, podem ser, e então aviso o meu corpo.
—Por qual razão faz isso, minha amiga?
—É que assim meu corpo, ao ser avisado à noite, então acorda na leveza, aquela leveza que o sábado quer.
—Está bem, Sapabela, tenho muito o que aprender com você. Vamos tomar um sorvete?
—Já estou lá. E falando em Spinosa...
—Eu não falei!
—Estou antecipando o sorvete.
—Entendo, a conversa vai junto...
— Claro, sorvete que se preza é como sábado. Só leveza, só alegria.
—E, para você, discutir Filosofia é alegria?
—Falar sobre livros, Rospo. Eis a chave da alegria. E haja sorvete.


HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 —  655

Marciano Vasques

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

terça-feira, 16 de agosto de 2011

ERA ALGUÉM, VIROU MALA

—Veja, Rospo! Veja! Será que é a tecnologia?
—Mostre, Sapabela, eu não estou vendo nada. Só aquela mala andando... O que eu disse? Uma mala andando?
—Pois é, Rospo, uma mala ambulante. Você o conhece?

UMA CERTA MODALIDADE

—Rospo, qual é a pior arrogância?
—Nem sabia que havia distintos graus na arrogância.
—Há sim. E todos são tristes, nocivos. Mas tem um altamente desalentador e até destrutivo. É uma terrível modalidade de arrogância.

VOLTEI!


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

ALGAZARRA DAS LETRAS NA FELIT

Foto: Danilo Vasques

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

LANÇAMENTO HOJE


O CAFEZINHO E AS PIADAS

—Rospo, a minha amiga está desesperada. Telefonou ontem à tarde.
—Quem?
—A Colibrã.
—Sei, a do único nome, a que é mil.
—Pois é ela.
—E o que aconteceu?
—Como sabe, ela trabalha numa repartição pública. E então, sequestraram a funcionária que faz o café.
—É mesmo? Já li uma piada semelhante, que anda pela rede...
—Não é piada, Rospo! Os sequestradores estão exigindo milhões de $. Ninguém trabalha mais lá.
—Sei, agora não.
—Estão organizando um movimento. Vai ter manifestação, passeata, daquelas de rasgar ao meio uma cidade.
—Sapabela, estou adorando essa brincadeira.
—Rospo, não está me levando a sério. A Colibrã está mesmo desesperada.
—Ora, Sapabela, a piada que andei lendo, como a maioria das piadas, é carregada de estereótipos, quando não, de preconceitos. Na verdade, a história do leão que comeu a funcionária que fazia o cafezinho, é também assim.
—Explique, meu amigo...
—Geralmente, e sempre, as piadas são anônimas. Piada não tem autoria. Consegue por acaso identificar um só autor de qualquer piada sobre as loiras?...
—Ou sobre os negros.
—Sobre os negros ninguém mais tem coragem de contar publicamente.
—Quer dizer que o racismo ainda existe!
—Perambula pelo brejo, com certeza.
—Mas, e então?
—Então que piadas são um rico manancial de estereótipos.
—E o que tem isso a ver?
—Veja no caso da piada do fazedor de cafezinho na repartição pública: tenta incutir na mente dos ouvintes que funcionário público não trabalha, que todos são iguais...Nem imagina o quanto as sapas trabalham numa creche ou numa escola infantil... Nem tenha ideia de como professor trabalha e outras tantas categorias, como na Saúde, por exemplo...
—Sei, mas o que isso de fato quer dizer?
—Quer dizer que se realmente tem, e tem, funcionários lá no alto, aqueles de indicação política, que  geralmente, com exceções, não trabalham, uma boa parte então do acervo de piadas quer fazer crer que os pequenos, os que estão na base... Não trabalham, todos fazem corpo mole.
—É verdade, Rospo. Tem razão.
—Às vezes, tenho.
—Não ouvirei mais piadas. A partir de hoje não gosto mais de piada, pois todas, no fundo, são carregadas de estereótipos, não existem piadas inocentes.
—É mais ou menos isso.
—E você? Irá comigo?
—Ir aonde?
—Na manifestação contra o sequestro da sapa que faz o cafezinho...
—Você é demais, Sapabela. Vamos tomar um...
—Café?
—Sorvete, né, menina? Sorvete!
—Já estou.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 652

Marciano Vasques

RESISTÊNCIA

—Sapabela, tem algo que me comove.
—Isso é tão bonito, Rospo.
—Mas eu nem falei ainda!
—Um co  - piloto em nossas vidas.
—O que está dizendo, Sapabela?
—Quando somos co-movidos, quer dizer, somos orientados pelos nossos sentires, os nossos sentimentos, ou seja, o nosso coração, então, não estamos a nos mover sozinhos.
—É, você sempre divagando, sempre extrapolando em beleza as coisas simples que se diz.
—Mas, fale, amigo, o que afinal o co-moveu?
—Até que enfim! Então, vamos lá: o "Algo" que sempre me comove é justamente saber que somos resistentes, que temos resistência a tudo que nos é imposto.  Assim, como somos capazes de ficar horas diante da tela apenas para escrever um poema.
—Mas você não faz isso, Rospo, seus poemas não têm história, não têm rastros... Você escreve na hora, de uma vez só, direto.
—Mas foi um exemplo que eu dei, Sapabela. Veja outro exemplo. Uma professora, que se empolga diante da construção de um poema pelo seu aluno, e sente prazer em ensinar, em transmitir, essa mesma professora sente uma aversão imensa por preencher papéis impostos...
—Entendi, mas, fale um pouqinho mais sobre essa tal resistência.
—É justamente isso: somos resistentes a tudo que nos é imposto. Ainda temos essa fortaleza em nós. Nada de imposição. Só queremos ser autênticos em nossas dores, nossas esperanças, nossas alegrias e nossos sentires.
—Rospo?
—Sim?
—Xeque-mate!
— Isso! Eis um bom exemplo!
—Que exemplo?
—Essa preguiça que dá quando temos que pesquisar se tal expressão tem hífen ou não... Justamente por causa da resistência ao que é imposto. Até penso uma coisa: quando eu olhar para algumas palavras que tinham trema e nem lembrar disso, algo muito lindo terá morrido em mim.
—Rospo, vamos em frente com a nossa resistência. É o nosso tesouro. Agora, que tal um sorvete?
—Bem, aí não tem quem resista!

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 —  651
Marciano Vasques

terça-feira, 9 de agosto de 2011

SEM ABSTRAÇÕES

Lá ia linda no seu vestidinho, um esmero de alegria. Uma paixão pela claridade do dia, fã do afã de viver, quando encontra o velho amigo, que, como vinha a cismar, engatilhou a conversa.
—Sapabela, tem sapa reclamando que com o passar dos anos o fantasma da rotina apaga a chama do amor, e o relacionamento entra no seco córrego da mesmice. O amor se vai, e a falta de diálogo é recheada com palavras vazias.

CONTOS E FÁBULAS DO BRASIL


segunda-feira, 8 de agosto de 2011






SERES DE REGENERAÇÃO



Somos regeneração, permanente, cíclica, cotidiana. Somos assim como o rabo da lagartixa. Quem presta atenção nas coisas, no mundo, na novidade que é o mundo, também repara em nós um coração de aço, que não se abate nem se curva, ou bem dizer, se curva num jardim para colher flor. Novidade que se faz mundo. Novidade que renasce diariamente como se fosse alfenim encantando criança, nódoas esmaecidas de girassol pincelando o matutino, palavras como alecrim criando abraços e colibris.
Então, olhos cativos na novidade do mundo, no azulejo nosso de cada azul, sabem que somos como a cauda da lagartixa: renascimentos constantes, regenerações, uma fortaleza impressionante capaz de suportar atritos, indelicadezas, temores, traições, falsidades.

sábado, 6 de agosto de 2011

SÁBADO

NA FELIT

No próximo sábado, estarei na FELIT, em São Bernardo, conversando com os amigos, no lançamento do livro ALGAZARRA DAS LETRAS. 


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O TEMPO QUE O TEMPO TEM

—Lá vai um limitar.
—Sapabela! Você trocou as sílabas, parece uma algazarra das letras. Não é limitar, é militar.
—De vez em quando faço isso, Rospo. E você? Como anda? Faz tempo não o vejo por aqui.
—Mas estou por aí.
—Meu amigo, um pouco só do tempo sem você por aqui é para mim um século de solidão.
—Não sei bem se isso é uma homenagem sua ao Gabo ou apenas uma hipérbole, mas, veja só que curioso: quando fala do tempo...
—O que tem ele?
—Será artigo de luxo no futuro. Você terá que comprar uma cota de tempo, pois o tempo terá sido tão desperdiçado que, bem, sabe, ele não é renovável, é como algumas fontes de energia: o petróleo, por exemplo, Então o tempo precisa ser melhor aproveitado.
—Os sapos não estão gastando adequadamente o tempo?
—Estão jogando fora. Muitos sapos ficam horas pendurados na televisão. O tempo será tão precioso na vida de qualquer alguém no futuro, que quem perder tempo, dançou. Perdeu para sempre. E depois, bem sabemos, não adianta chorar.
—Rospo, você está pessimista hoje.
—É impressão, Sapabela. O tempo imprime a sua ausência, e depois, um dia, será a falta mais dolorida. Quem nunca teve tempo pra nada, pois sempre desperdiçou o seu, verá então que o tempo que o tempo tem não será suficiente para cobrir a sua necessidade de viver.
—Nossa! Qual será então a solução?
—É simples. Não ridicularize o tempo, não o despreze, não o desvalorize, não tenha para com ele um só fiapo de descaso.
—Nossa! Você está meio dramático, Rospo.
—Estou? Espere para ver o que é realmente drama quando as cortinas se abrirem para o espetáculo do tempo e não haverá mais tempo para palco. Você irá que o tempo que passa é generoso, mas ao mesmo tempo implacável.
—Rospo, vamos tomar um sorvete? Quero aproveitar bem o tempo meu.
—E isso é tão simples, não é, Sapabela? A melhor forma de aproveitar o tempo é viver intensamente, e isso, pode crer, às vezes começa num convite para um sorvete.

HISTÓRIAS DO ROSPO — 2011
História nº 649

Marciano Vasques

TROVA PARA O PEQUENO DE MOGADÍCIO

Quem não abandona vício,
Vive a desperdiçar,
O bebê de Mogadício
Ensinaria amar.
 
Marciano Vasques

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

MONTSERRAT

ANIVERSÁRIO

Feliz Aniversário minha alma em forma de casa...azul e bela!

Cristiane Ferreira

PARABÉNS PRA VOCÊ...

Agora é ANO 3.

AZUL

Parabéns pelo azul da tua casa.

Escobar Franelas

terça-feira, 2 de agosto de 2011

NETOS E ESTRELAS — COISAS DO BREJO

—Sapabela! Oi.
—Oi.
—Sim,  Oi.
—O que está acontecendo, Rospo? Quando fica assim brejeiro...
—É coisa do brejo mesmo.
—Então fale, querido, meu ouvido está um diapasão só.
—Já pensou em ser neta de um ex-presidente?
—Pare com isso, Rospo!
—E já pensou em ser uma estrela?
—Eu sou.
—Mas uma estrela de 1 Milhão de $s, para fazer um blog de poesia.
—Rospo, vamos esquecer essas coisas. Afinal, a vida tem tantas interessâncias acontecendo.
—Que palavra é essa?
— É uma palavra "sapabélica".
—Muito bem, senhora palavra. Diga algo, consegue se conformar com essas coisas que acontecem no brejo? Esses patrocínios, esses financiamentos... Enquanto um caboclo que é artista, mas não é neto nem...
—Rospo! Pare com isso! Vão dizer que é inveja.
—Mas não é, é consciência. E não é certo flecharam a minha consciência assim.
—É verdade, mas assim é o mundo, parece que foi feito para os espertos...
—É só impressão, Sapabela. O mundo foi feito para todos, apenas que algumas vozes não ecoam o suficiente.
—Rospo, vamos a um sorvete?
—Nossa! Faz tempo!
—Também pudera! Com esse frio.
—Mas muito tempo sem sorvete é prejudicial para a saúde.
—Que saúde, meu bem?
—A saúde da alma, do coração.
—Então, sorveteremos.



HISTÓRIAS DO ROSPO — 2011

História nº 648
Marciano Vasques

ANIVERSÁRIO

Amanhã, 3 de agosto, 
aniversário de CASA AZUL DA LITERATURA,
que entra no ANO 3.

Rospo! Não é Natal! 
É só um aniversário! 


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

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