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sábado, 4 de dezembro de 2010

UM POUCO DA SAPABELA.

— Minhas roupas não combinam, só canto do meu jeito, sem técnica vocal, rolo na grama feito uma sapinha, sou atrapalhada quase sempre, esqueço as coisas, mas jamais esqueço o essencial, adoro dirigir, amo a velocidade, mas não desprezo a lentidão. Veja como crescem as azaléias!
— Que belo depoimento, Sapabela!
—  Quer que eu continue?
— Claro! Hoje é sábado...
— Não tenho namorado nem namorante, mas continuo romântica para sempre... Sou tímida e espalhafatosa, e é dessa mistura que surge a verdadeira Sapabela...O toque é essencial em minha vida. Não acredito em Sapos que não se toquem...Sapos que conversam mantendo distância...Não mato bichinhos. Joaninha? Não se mata de jeito nenhum, não é? Barata? Sempre aviso para que ela saia de minha casa, pra ela ser esperta e se mandar... Sempre dou uma chance... Adoro sussurros, mas também adoro falar alto... Gargalhadas? É comigo mesmo! Se tiver samba, vou. Só pelo prazer de ouvir...
—  Sapabela, mas por qual motivo está me falando isso tudo?
— Hoje é sábado, Rospo! Dia de abrir as cortinas... Experimente.
— Farei isso. A minha alma já está sambando.
— Posso lançar a minha gargalhada no ar?
—  Demorou.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 -359
Marciano Vasques
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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

ROSPO E A CHEGADA DO SAPINHO

O sapinho, ao nascer, já surge num mundo pronto.
- O mundo nunca está pronto, Rospo.
- Certamente, mas, o que quero dizer é que o sapinho deve aprender desde cedo que o mundo foi edificado para recebê - lo. Nem sempre as coisas foram da forma como ele conhece. Veja a máquina de costura. Ela já existe quando o sapinho chega, mas nem sempre existiu...
- Uma das maiores invenções foi a máquina de costura.
- Responsável por uma revolução cultural
- E social.
- Se o sapinho conhecesse a gênese das coisas, aprenderia a valorizar mais a vida...
- Rospo, estou pensando: se a gente costurasse as nossas conversas , teceríamos uma bela roupagem da vida. Somos uma máquina de costura da História?
- Uma tecelagem, talvez.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 358


Marciano Vasques
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terça-feira, 30 de novembro de 2010

O NATAL QUERENDO ENTRAR

Calçada ensolarada e lá ia o Rospo, sorvete em punho, quando surge a velha amiga.
— Bom sábado, Rospo!
— Bom sábado, Sapabela! Faz tempo não a vejo. Anda meia sumida.
— Você me viu ontem, Rospo.
— Mas ontem é passado. No presente não a vi. Faltava vê-la no presente, não é?
— Pois aqui estou. Alguma novidade?
— O Natal está querendo entrar...
— Entrar onde?
— Mas não consegue, pois estão todos usando cadeado e correntes...
— Entrar onde?
— Ou fingem que não ouvem as batidas...
— Entrar onde?
— Em cada coração.
— No meu nem uso trinco...

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 357

Marciano Vasques
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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O GIGANTE QUE SE REVELOU

- Sapabela, estou com saudade de uma conversa...
- Então comece, Rospo.
- Sempre lembro do  Adamastor.
- Deve ser um bom sujeito, pois tem "dama" no nome...
- Ora, Sapabela. O Adamastor é o gigante...
- Que gigante?
- Já leu " Os Lusíadas"?
- É gigante mesmo.
- Quem?
- O poema.
- Não, Sapabela! Gigante é o Adamastor, um morro que está impedindo a travessia dos navegantes.
- E então?
- Então o gigante, que é um morro, não permite a passagem.
- Prossiga.
- Eles não podem prosseguir...
- Não são os portugueses, Rospo. É você que tem que prosseguir. "Prosseguir é preciso".
- Sim, prosseguir é certo. Sendo assim, vamos: o gigante era um desconhecido. Vasco da Gama pediu que ele se revelasse...
- E então?
- "Mostre-nos quem você é!"
- E ele?
- Ele se revelou. E quando você se revela por inteiro, você se torna frágil diante dos adversários e das adversidades...
- Nossa!
- Aí os Lusíadas puderam passar pelo gigante... que, ao se mostrar foi vencido.
- Rospo, você já falou sobre isso numa outra conversa... Mas agora, fiquei muito curiosa...  Então, ao se mostrar por inteiro você se torna frágil diante dos adversários?
- Sim, Sapabela. Lembre-se sempre o gigante  Adamastor.
- Se nem um gigante escapa, já pensou eu, que tão pequena sou...?


HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 356

Marciano Vasques
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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O SAPO AFLITO

Sapo em alvoroço com os braços abertos procurando aflito...
- Rospo? O que se passa? Parece tão agitado.
- O Natal, Sapabela! O Natal!
- Cadê? Do que está falando?
- O Natal! Onde está ele afinal? Dizem que o seu manto descerá à terra, mas eu não vejo nada. Eu quero o Natal!
- Calma, Rospo, que ele há de aparecer.
- Eu quero o Natal! Diga logo onde ele está...
- Rospo, você é o Sapo mais impaciente do brejo. Não custa esperar um pouco...
- Não tenho tanto tempo, Sapabela, quero logo ver o Natal. Natal, apareça se for Natal. Espere um pouco, minha amiga, veja!
- O que me pede para ver?
- Aquele sapinho a sorrir. Que coisa linda o sorriso dele!, faz tempo não via um sorriso assim de criança...
- Viu? Não falei? O Natal está chegando em você, não precisa tanta aflição.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 355
Marciano Vasques
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SAPABELA E A ILUSÃO

- Rospo!
- Sapabela, por que tanta afobação?
- Eu vi!
- O que afinal você viu?
- O Natal. Ele está chegando. Ele já chegou.
- Já?
- Sim.
- E onde você viu o Natal para ficar tão afobada assim?
- Nas lojas, nos supermercados... Precisa ver, Rospo! Estão repletos de brinquedos, de enfeites, de panetone...
- Compreendi, Sapabela, foi uma ilusão de ótica.
- Ilusão de ótica?
- Sim, para ver se o Natal está mesmo chegando basta olhar para dentro do coração de cada sapo...
- Rospo, descobri algo!
- Diga.
- A ilusão também causa afobação.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 354

Marciano Vasques
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VERDADES E DEMAGOGIAS

- Rospo, o fato de muitas demagogias hoje soarem como verdades faz com que muitas verdades venham a soar como demagogias.
- Naturalmente.
- Isso não causa receios em você?
- ?
- Sim, de que as coisas que acredita serem verdades possam ser encaradas ou interpretadas como demagógicas.
- Depende dos ouvidos.
- Como um ouvido pode ser treinado para saber diferenciar uma demagogia de uma verdade pretendida...?
- A demagogia tornou-se Ciência de alguns bem sucedidos na Política. Deveriam inaugurar cursos de demagogia para principiantes na carreira política.
- De retórica...
- Não.  De demagogia.
- E os ouvidos?
- Precisa estar sintonizado com o olhar. O ouvido precisa aprender a ver as expressões do rosto. A sinceridade intencional ultrapassa as palavras.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 353

Marciano Vasques

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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O SAPO E AS CIRCUNSTÂNCIAS

- Sapabela, no dia em que cada sapo descobrir as suas circunstâncias, a vida será melhor para todos.
- Não entendi.
- O que um sapo precisa para abrir os portões da sua estrada é o pleno conhecimento de suas circunstâncias.
- Precisa falar mais, Rospo.
- Se um sapo desconhece ou não presta a devida atenção às circunstâncias reais e concretas de sua vida, seu caminho fica bloqueado ou parcialmente aberto. Só a partir do conhecimento  das circunstâncias que regem a sua vida, o sapo poderia enfim resolver os empecilhos, os entulhos, que fecham e estreitam o seu caminho.
- Pelo que diz, são as circunstâncias que fecham os portões da estrada do sapo.
- Fecham ou abrem.
- Entendi. O sapo só pode seguir em frente a partir do domínio das suas circunstâncias.
- Às vezes as suas limitações se tornam ideias tão fortemente sedimentadas, que parecem coisas naturais.
- Como a ideia sobre o cavalo?
- Cavalo?
- É, tão fincada está na mente do sapo que o sapinho já nasce acreditando que a natureza do cavalo é ser montado, ser cavalgado.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 352

Marciano Vasques
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PANDORA E AS SAPAS

- " Quando Pandora sorriu os deuses viram malícia em seu sorriso, e depois os homens passaram a vida inteira sorrindo com malícia para ela".
- Rospo, gosto da forma como você interpreta a Mitologia dos humanos, principalmente a leitura que faz de Pandora, a primeira mulher.
- Sapabela, tenho alguns colegas ... que não suportam o sorriso de uma Sapa.
- Por que, Rospo?
- Vivem garimpando para encontrar um sinal de malícia.
- Até quando haverá essa teimosia de sempre ver a Sapa como um sinal de perigo?
- Aprender a compreender a fêmea é o aprendizado de uma vida...
- O sapo precisa ter a alma feminina para compreender a Sapa?
-Valores e sentimentos atribuídos às Sapas, como o gosto pela poesia são puras convenções culturais...
- E sociais...
- A Sapa não é só um momento, é a andança de séculos e séculos...
- Tanto a Sapa quanto o sapo são resultados de milhares de anos... Isso quer dizer que também os valores atribuídos aos sapos são puras convenções seculares...
- Isso mesmo.
- Tem coisa mais ridícula que um sapo exibindo seus músculos numa academia? É puro exibicionismo, isso é uma anomalia do sapo autêntico. Sei que os sapos foram dotados de força física maior que a Sapa.
- É, a natureza o preservou para as aventuras agrestes ... A barba...
- Mas o sapo ideal seria o que mesclasse em seu viver os valores da arte e os sentimentos mais profundos, e que a força física fosse usada apenas para ajudá-lo a viver no equilíbrio da vida...
Rospo, você é contra academia?
- Claro que não! Sou, como você, avesso ao exibicionismo. Isso se aplica também às Sapas, ou seja, o puro exibicionismo do corpo é uma tolice, é de um vazio tal que afasta o olhar contemplativo.

HISTÓRIAS DO ROSPO 351
Marciano Vasques

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terça-feira, 23 de novembro de 2010

O SAPO E A IMAGINAÇÃO

- Rospo, a imaginação é sempre um bem?
- Nem sempre, Sapabela.
- Estou estranhando, Rospo. Sempre pensei que a imaginação fosse um bem em qualquer circunstância...
- Para o sapinho, sim, mas, para o Sapo às vezes a imaginação pode ser prejudicial. Nem sempre ela é benéfica...
- Poderia dar um exemplo?
- Só um?
- Alguns.
- É pra já.
- Estou imaginando o que virá.
- Pois bem: quando o sapo adulto imagina que a culpa pelos seus fracassos é sempre do outro, quando ele imagina que todos o perseguem, quando se torna supersticioso, quando imagina que sua vitória sempre depende apenas de forças externas ou superiores a ele...
- Entendi, quando o sapo se torna supersticioso ele está se valendo da imaginação para se apoiar em muletas do intelecto...
- Ele não está se valendo, ele está sendo dominado pela imaginação, ela está direcionando a sua vida...  Não se trata mais das criaturas fantásticas da infãncia e até do leitor adulto, mas sim de criaturas atemorizantes que sugam a energia do Sapo e o deixam imobilizado e prisioneiro de temores e forças imaginárias...
- Sei, ele não está recorrendo à força e à riqueza da imaginação, como fazem os escritores, mas está se tornando dependente, está anulando a sua própria fortaleza, que é a sua maior riqueza.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 350
Marciano Vasques

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O APRENDIZADO DO QUERER

- Ninguém entende o que uma Sapa quer, vivem a dizer...
- Já ouvi isso, Sapabela...
- Ninguém sabe o que uma Sapa quer, é o que dizem...
- Andam dizendo isso...
- Eu sei o que eu quero... Como terá surgido essa lenda de que uma Sapa não sabe o que quer? E tem outra coisa...
- Fale, Sapabela, será que irá dizer que os sapos precisam evoluir muito para entender o que as sapas querem?
- Rospo, por que será que isso acontece com algumas Sapas? Isto é, por que realmente algumas Sapas não conseguem expressar adequadamente o seu querer?
- Posso falar agora sobre o "Querer"...
- Fale, que eu quero.
- Talvez essas Sapas tenham perdido o aprendizado do querer...
- Querer tem aprendizado?
- Tem, Sapabela.
- Não basta "Querer" e pronto?
- Não! O aprendizado do querer começa logo cedo, desde que a Sapa é uma sapinha...
- Muitas Sapas sonham a vida inteira.
- Os sonhos, às vezes, ocupam o lugar do querer autêntico...
- Nunca ouvi falar disso.
- Isso estava reservado para aqui...
- Quem sonha por acaso também não está exercendo uma espécie de querer?
- O querer autêntico exerce um poder transformador em si, que é o poder da ação, e agir é mergulhar na aventura do querer.
- E não ensinaram isso para as sapinhas?
- Ao contrário, elas foram ensinadas a não querer... Tiveram o querer amordaçado desde cedo, aprenderam a querer o que os outros querem para elas...
- Quem são os outros?
- É a sociedade patriarcal que tenta desde os primeiros séculos ocultar a força da Sapa...
- Quais são os primeiros séculos?
- Sapabela, você está querendo ir longe demais ...
- Eu sou uma Sapa privilegiada. Aprendi a querer desde cedo.


HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 349
Marciano Vasques

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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A VIDA É ELA MESMO

Rospo encontra a sua amiga Sapabela.
- Sapabela, você se lembra que certo dia, bem recentemente, contei que havia encontrado uma parceira para o meu projeto de um livro didático?
- Lembro-me: você estava empolgado e feliz.
- Sim, hoje em dia é difícil encontrar uma parceria que dê certo, não é?
- E para você, é tão importante fazer esse livro didático, Rospo, que só posso dar os meus Parabéns por ter encontrado a sapa certa para tocar em frente esse sonho.
- Não deu certo, Sapabela.
- O que houve, Rospo?
- Ela não pode.
- Por que, meu querido?
- A mãe dela está doente, ela precisa ocupar o seu tempo cuidando da mãe...
- A mãe é a primeira fonte na vida de alguém... Tudo começa na mãe...
- Eu sei, Sapabela. É justo. Mas é claro que eu queria que ela pudesse...
- Mas às vezes recebemos alguns recados da vida...
- Por exemplo...
- A vida costuma dizer assim: "A Vida é ela mesmo".
- Que bonito, Sapabela!
- Você parece que vive correndo atrás do tempo, Rospo...
- Estou vivendo pela primeira e única vez... Quando você tem a consciência de que está vivendo pela última vez, e que a vida é curta...
- Sei, você quer fazer aquilo que já existe em forma de sonho...
- Arrebatou, Sapabela! Por isso você é minha linda amiga.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 348

Marciano Vasques

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O SAPO E O DESFILE

A convite da escola da sobrinha Joelminha, no dia da Bandeira, Rospo e Sapabela assistem a um desfile militar.
- Rospo, você é um artista.
- Não é hora de falar, Sapabela. Depois diz que sou eu que não sei me comportar.
- Falei baixinho, Rospo.
- Está bem, mas, procure assistir ao desfile. Senão a Joelminha ficará triste.
- Você faz arte...
- Eu sei. Convivo comigo.
- É uma cabeça pensante.
- Sei, sei.
- Engano meu?
- Não! Você está certa, mas, por favor, não é momento de falar.
- Nesse sentido tem razão. Um desfile qualquer que seja é como uma peça de teatro ou uma apresentação musical. Exige e merece silêncio. Mas...
- Mas o que, Sapabela?
- Faz arte para a paz.
- Isso é verdade.
- Não consigo me enganar hoje.
- Sapabela, eu não posso rir agora, portanto, fique quieta.
- Vive para a paz, produz para a paz.
- Sapabela, está me emocionando...
- Oba! Estou chegando lá!
- Não existe uma sapa igual a você no brejo.
- Faz arte para construir um mundo de paz...
- Sapabela, por que os militares foram necessários no mundo?
- Por que o mundo nunca teve artistas o suficiente.
- Sapabela, vamos assistir ao desfile?
- Vamos, estou caladinha.
- Consegue?
- Viemos aqui para isso...
- Assim é a vida, Sapabela. Cada momento é para si.


HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 347

Marciano Vasques
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QUE HÁBITO SERÁ?

- Rospo, você vai ter que descobrir o que é.
- Adora essas brincadeirinhas, não é, Sapabela? Pois então, comece.
- É um hábito.
- Dê mais uma pista.
- É um hábito que causa uma sensação de conforto, de bem estar... De satisfação...
- Comer bombons? Tablete de chocolate?
- Não! É algo que dá mais prazer, causa uma sensação de conforto e de realização maior...
- Ouvir música...
- Mais que isso. Deixe-me ajudar:  é um hábito que tem, que ocorre nos mais variados lugares.
- Por exemplo?
- Na escola, entre os professores, e também nas conversas dos alunos. No serviço público entre os funcionários, nas empresas, em casa, em família, e no casamento, principalmente... Também nas relações de amizades e nas rodinhas dos amigos... Nas baladas e até nos namoros...
- Sei não, Sapabela, que hábito será esse?
- Falar mal dos outros, criticar, reclamar do outro...
- É mesmo?
- Principalmente reclamar do outro.
- Sapabela, então não é um hábito!
- Não?
- Não! É um vício.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 346

Marciano Vasques
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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

UM NOVO LIVRO INFANTIL E A CRIANÇA

 - Soube que o Rospo está escrevendo um novo livro infantil, Cobibrã?
- Sim, Sapabela.
- Vai tratar do assunto "morte"... e também  estará presente na história o assunto "Política"...
- Ele não pode fazer isso, Sapabela!
- Por que não?
- Certos assuntos, como Religião, Política, Morte... Não podem ser tratados na Literatura Infantil...
- E agora? " O lobo comeu a vovó!".
- O que você disse?
- Nada. Foi uma nova expressão que inventei.
- Ora, Sapabela, muitos temas são proibidos para crianças. Literatura Infantil não pode tratar de sexo, de violência, de Morte, de Religião, de Política, de...
- Colibrã, minha querida, não sei em que brejo você vive, nem em que época, mas já faz tempo que as crianças são tratadas como seres inteligentes...
- Devemos proteger os sapinhos de muitos assuntos... Devemos esconder certas verdades...
- Colibrã, devemos agradecer aos autores que sabem que a criança é capaz de entender de tudo, e se ela tem a sua própria lógica, que é mágica, é através dela, a magia da infância, que a Literatura Infantil poderá ajudá-la a crescer, mas jamais a tratando como imbecil ou idiota, ao contrário, respeitando-a como um ser autônomo, capaz de discernir e de entender as mais variadas coisas... A criança está no mundo, e por isso o mundo precisa ser levado até ela, e é preferível que a arte e a Literatura façam isso... Você nem imagina como um sapinho e uma sapinha são espertos, curiosos e inteligentes... Vou comprar o livro do Rospo para o meu sobrinho.
- Ele ainda não lançou o livro, nem escreveu...
- Tem razão, o meu sobrinho pode esperar.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 345

Marciano Vasques

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POLÊMICA NO BREJO

- Rospo, soube da novidade?
- Conte, Sapabela.
- Um comandante dos bombeiros aqui do brejo emitiu uma ordem polêmica.
- Sim?
- Proibiu crucifixos e símbolos católicos em todas as unidades do bombeiro, alegando que a exibição de símbolos de uma única religião em repartições públicas causa constrangimento nos sapos que professam outra fé.
- Isso vai dar fogo!
- Ele se valeu da Constituição do brejo, que estabelece que o Estado é laico, e a exibição de símbolos é ilegal, e inconstitucional.
- Teve reação?
- Os vereadores.
- O que eles fizeram?
- Um documento repudiando a iniciativa do comandante, dizendo que ela é arbitrária...
- Isso vai causar muito barulho, Sapabela...
- Os vereadores estão indignados...
- É realmente uma atitude rara... O tal comandante é audacioso.
  No dia seguinte, lá está o Rospo diante da Câmara Municipal.
- Sapo! - dizia o segurança - Não pode deixar esse símbolo aqui...
- Por que não?
- Porque é proibido. Não pode deixar uma imagem de Iemanjá aqui na Câmara.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 344

Marciano Vasques
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SAPABELA E O ESCRITOR

- Rospo, você é o meu escritor favorito.
- Sei disso, Sapabela.
- Convencido! Mas, preciso falar algo...
- Quando uma sapa precisa falar algo, o mundo que fique atento...
- Posso falar?
- Jamais peça permissão para isso...
- Mas temos sempre que esperar o momento certo...
- O momento é agora...
- Você só escreve poesia, contos de reflexão, histórias de amor...
- Reparei isso...
- Acontece que precisa atingir ao público contemporâneo... Principalmente o jovem.
- Sim?
- Deve escrever intrigas, histórias policiais, de suspense, de aventuras, numa linguagem rápida, de muita ação, e preferencialmente, com algum sangue, pelo menos um morto. Você precisa acompanhar o ritmo, meu amigo.
- Entendo.
- Tem que escrever histórias pensando  que elas deverão se tornar séries de televisão, coisa assim...
 Pense também em jogos eletrônicos, cinema, em todas as mídias. O escritor hoje, ao escrever, não pode pensar apenas no livro. Ele precisa ter "todas as mídias" na cabeça... Tem que estar "antenado". A cabeça tem que ser polivalente, múltipla...
- Meu coração também?
- Entendo como se sente, mas precisa evoluir...
- Talvez tenhamos ideias distintas do que seja evoluir.
- Talvez, mas o tempo que passa é o que você vive...
- Uma coisa eu sei...
- Diga.
- Todo sapo escritor deveria encontrar uma "Sapabela".
- Como você encontrou a sua?

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 343

Marciano Vasques
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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

É PROIBIDO ESTACIONAR

Rospo e sua amiga passeavam quando, ao ver uma placa na calçada, o sapo começou:
- Essa é a minha placa predileta, Sapabela.
- É mesmo, Rospo?

- Sim, Sapabela. "Proibido estacionar". Adoro isso na minha vida.
- Masoquismo?

- Engano seu, querida.
- Uau!
- Nossa! Por que tal alegria?
- Um novo engano. Não é qualquer um que pode se enganar todos os dias.
-  Pare com isso! Acontece que "estacionar" deveria ser mesmo proibido na vida de qualquer sapo. Estacionar é ficar parado, retroceder, caminhar para trás, pois afinal o velhão segue em frente, sempre renovado.
- Velhão?
- É. O velho mundo.
- Sempre renovado?
- Sim, o mundo é uma cebola.
- Será que é por isso que tem tanta gente chorando?...
-  Ora, Sapabela... Uma cebola é coberta por camadas de cascas. Assim é o mundo, um palimpsesto. A cada camada que retira, é como se estivesse se despindo e numa lousa branca reescrevesse a sua história, ou seja, escreve um novo capítulo. Camada sobre camada, na nudez da memória. Ele apaga uma página e ressurge renovado...
- Ele não apaga, mas põe em conserva na memória.
- Não se deixa abater e segue em frente.
 Assim é o nosso mundo... Uma infinita esperança que gira no celestial.
- O cosmo agora virou celestial?
- O céu é o nosso ponto de vista, a nossa visão, o nosso foco, a nossa referência, a nossa ilusão de ótica...
- Entendo... E um sapo já idoso? Não pode estacionar?
- Sapabela, principalmente esse...
- E como ele deve fazer?
-  Aprender um idioma, procurar uma namorada, ler um poema, caminhar no campo, redescobrir as flores, as gargalhadas, ficar emocionado diante do mar e também da montanha azulada...
- Rospo, com tanta vivacidade de pensamento não haverá estacionamento em sua vida...
- E você, Sapabela?
- Eu? Estacionar? Nem pensar! Agora que estou aprendendo a dirigir?

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 342

Marciano Vasques

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A INVENTORA DE DIAS

- Rospo! Inventei mais um dia...
- As condições para isso existem. O Sol nascendo, o ar, o céu, a claridade, a natureza. Só compete a cada um de nós inventar o dia...
- É tão fácil inventar o dia...
- Será?
- Esse "Será?" me incomoda...
- Inventar o dia parece apenas fácil...
- Parecer é um bom começo...
- Mas o começo é apenas o ponto de partida.
- Sou uma inventora de dias.
- Isso eu já percebi. Por isso gosto tanto de você.
- Não falei?
- Não entendi.
- Inventei o "Dia da Declaração", e você acaba de declarar que gosta de mim.
- E isso é preciso declarar? Mas...
- Lá vem o "mas"...
- Quando falei que vocé é inventora de dias quis dizer: viver intensamente, em dias plenos de novidades e de fazeres.
- Nisso sou especialista, ou melhor, fiz doutorado.


HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 341

Marciano Vasques
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O SAPO E A VELOCIDADE

- Sapabela, a velocidade das transformaçõoes é algo que muito me impressiona.
- Trasnformações, para o bem e para o mal, acontecem a vida inteira. Não se pode fechar os olhos para elas.
- Nem penso nisso. Mas, é impressionante. Quando me vejo diante da tela escrevendo direto no computador, digitando pensares, aventuras e poemas, fico boquiaberto.
- Entendo. Escrevia com a caneta, e jurava que sempre escreveria primeiro no papel. O esboço estaria direto na folha, e havia um calhamaço de palavras escritas, rabiscadas, apagadas... Mas hoje, produz o esboço direto na tela, não é?
- O que é esboço?
- É, bem, deixe pra lá... Mas, hoje, não temos mais a trajetória do texto. A tecnologia engoliu a memória. O texto já nasce praticamente pronto, acabado, na tela. Um texto não tem mais história, isto é, a sua própria história.
- Verdade. Efetuamos  apenas alguns acertos, pontuações, etc... O " apagar " e o "refazer " se foram...
- São transformações profundas... E você já sabe, quando sentir saudades...
- Vá até o YouTube. Será, minha amiga, que isso é bom?
- Uma coisa eu digo, Rospo, viver sem isso não mais é possível...
- Avançamos séculos e séculos em poucos anos... Por isso dizem que a criança já nasce esperta...
- É, o sapinho chega ao mundo respirando velocidade...

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 340
Marciano Vasques
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