—O tempo vai mudar, Rospo.
—Para onde ele vai, Sapabela?
—Ele quem?
—O tempo, onde ele vai morar?
—Qualquer pergunta sobre o tempo deve ser feita ao próprio tempo, se você tiver tempo para isso, claro. Mas adorei a sua brincadeira, Rospo. Acontece que o tempo, veja só, vai mudar, vamos viver um tempo de esplendor.
—Jura, Sapabela?
—Nunca hei de jurar, meu amigo.
—Verdade, perdão, amiga. Mas está acontecendo algo agora.
—O que é, Rospo?
—Uma espécie de formigamento na alma. Uma coisa estranha, que de vez em quando me ocorre.
—Já sei o que é.
—Repentinamente começo a pensar em amores circenses, em espantalhos ao vento, folhas voando ao léu, ciganos apaixonados, luares e mormaços, estrelas cativando janelas... riscos de peixes dourados no ar azulejado de uma tarde de capinzal...
—Sabe o que é isso, Rospo? É a Poesia... Quando ela começa o seu chamamento, não tem jeito...
—Alguém consegue recusar a poesia, Sapabela?
—Tantos sapos, milhares, milhões, é triste, Rospo. É só pensar nos trens que transportam os operários, nas fumaças, nas chaminés, nas maquinarias...
—A Poesia está em todos os lugares, Sapabela.
—Sai disso. O problema é a falta de atenção para com ela, a ausência de doçura, que se agiganta no cotidiano dos explorados...
—Sapabela, você me comove. Muitos buscam profissionais, especialistas, para tratar de algum problema que na verdade nada mais é do que um sintoma da vida incompleta...
—Sei o que você está dizendo, Rospo. E uma vida completa começa onde? Em que ponto?
—Suponho que deva começar no ponto do chamamento. Isso sempre requer uma pausa, um momento voltado para si, um mergulho, um passeio no interior de si mesmo.
—Rospo, como você se sente quando surge esse "formigamento"?
—Sinto-me feliz, com vontade até de seguir o tempo.
—Seguir o tempo?
—É, como ele vai mudar, quero ver até onde ele irá, ou onde irá morar.
—Rospo, você tem espaço reservado para um inquilino dentro de você?
—Tenho sim.
—Pronto, pois então faça com que o tempo more em você.
—Claro, Sapabela! Desde que a sua palavra seja a fiadora.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2012 — 790
Marciano Vasques
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quinta-feira, 5 de julho de 2012
segunda-feira, 2 de julho de 2012
O SAPO E O PARAÍSO
—Rospo, a vida foi feita para a felicidade.
—Pleno, Sapabela, pleno! A vida jamais se beneficiará da tristeza.
A tristeza talvez seja apenas a necessidade do equilíbrio, porém, pela sua razão corrosiva da alma, deve ser afastada de imediato.
—Se tivesse um paraíso!...
—Tem!
—Onde está? Onde está?
—No único lugar onde tem sentido a sua existência.
—Rospo, vá com calma.
—Só velejo na calma. Aprendi o azul desde cedo.
—Mas também adora temporais.
—Não me recuso à aventura de viver.
—Porém, diga que lugar é esse, no qual o paraíso pode ser encontrado.
—É tão óbvio que os leitores já sabem.
—Adoro metalinguística.
—Eu também.
—Mas, não enrole, Rospo! Diga logo onde é o lugar do paraíso.
—Dentro de você.
—Dentro de mim?
—De cada um de nós.
—E como faço para viver nesse paraíso, Rospo?
—Para fazer é preciso desfazer.
—Que papo é esse, amigo?
—Desfaça a ideia de paraíso como um lugar sem vida, só gozo...
—Rospo, mas já sou um feixe luminoso de lutas que travo a cada dia...
—O paraíso que está em você pode se chamar recompensa. E isso quer dizer: não apenas gozo, no sentido do gozo improdutivo.
—É muito pra minha cabeça, Rospo.
—Estou querendo dizer que existe o gozo produtivo. Ou seja, um lugar onde você possa ler, compor, escrever, montar um teatro, realizar coisas, não apenas no universo da arte...
—Tudo isso dentro de mim?
—A fonte primária de todo evento está dentro de você.
—Tudo bem. Mas então você está subvertendo o conceito, a ideia original de paraíso?
—Se você se torna habitante desse paraíso só para gozar, sem produzir... Esse perde o seu sentido, até como metáfora.
—Rospo.Por tudo que eu estou tentando entender, então o paraíso pode valer a pena?
—Considerando que "valer a pena" pode significar que vale ser escrito, creio que sim. Então, se quer conhecer o paraíso, que está em você, comece a edificar mundos, produza, e verá como será feliz.
—Rospo, preciso ir, mas levo essa conversa comigo.
—Gostei Sapabela. Todos os sapos deveriam fazer isso: levar a conversa consigo.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2012 — 789
Marciano Vasques
—Pleno, Sapabela, pleno! A vida jamais se beneficiará da tristeza.
A tristeza talvez seja apenas a necessidade do equilíbrio, porém, pela sua razão corrosiva da alma, deve ser afastada de imediato.
—Se tivesse um paraíso!...
—Tem!
—Onde está? Onde está?
—No único lugar onde tem sentido a sua existência.
—Rospo, vá com calma.
—Só velejo na calma. Aprendi o azul desde cedo.
—Mas também adora temporais.
—Não me recuso à aventura de viver.
—Porém, diga que lugar é esse, no qual o paraíso pode ser encontrado.
—É tão óbvio que os leitores já sabem.
—Adoro metalinguística.
—Eu também.
—Mas, não enrole, Rospo! Diga logo onde é o lugar do paraíso.
—Dentro de você.
—Dentro de mim?
—De cada um de nós.
—E como faço para viver nesse paraíso, Rospo?
—Para fazer é preciso desfazer.
—Que papo é esse, amigo?
—Desfaça a ideia de paraíso como um lugar sem vida, só gozo...
—Rospo, mas já sou um feixe luminoso de lutas que travo a cada dia...
—O paraíso que está em você pode se chamar recompensa. E isso quer dizer: não apenas gozo, no sentido do gozo improdutivo.
—É muito pra minha cabeça, Rospo.
—Estou querendo dizer que existe o gozo produtivo. Ou seja, um lugar onde você possa ler, compor, escrever, montar um teatro, realizar coisas, não apenas no universo da arte...
—Tudo isso dentro de mim?
—A fonte primária de todo evento está dentro de você.
—Tudo bem. Mas então você está subvertendo o conceito, a ideia original de paraíso?
—Se você se torna habitante desse paraíso só para gozar, sem produzir... Esse perde o seu sentido, até como metáfora.
—Rospo.Por tudo que eu estou tentando entender, então o paraíso pode valer a pena?
—Considerando que "valer a pena" pode significar que vale ser escrito, creio que sim. Então, se quer conhecer o paraíso, que está em você, comece a edificar mundos, produza, e verá como será feliz.
—Rospo, preciso ir, mas levo essa conversa comigo.
—Gostei Sapabela. Todos os sapos deveriam fazer isso: levar a conversa consigo.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2012 — 789
Marciano Vasques
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2012
domingo, 1 de julho de 2012
DIÁLOGOS ANCESTRAIS
—Rospo, precisa ser um pouco vaidoso.
—A vaidade deixo com exclusividade para você, Sapabela. Uma sapa vaidosa é tudo de bom.
—Hoje, Rospo, o sapo também se preocupa com a aparência. Ele também se cuida.
—?
—Se ficou mudo é sinal de que vai pensar. Promete? Vai?
—Sapabela, certa vez um professor de Metafísica comentou em tom debochado: "Os gregos tinham deuses para tudo".
—Promete que vai pensar, Rospo?
—Eu fiquei anos pensando na fala daquele professor...
—E então?
—Então esperei o dia em que eu viesse a compreender essa questão.
—Com o professor?
—Não! Com os gregos.
—E chegou a alguma conclusão?
—Fiquei emocionado ao saber que a imaginação ocupou de forma tão profunda e criativa o espaço do conhecimento científico que eles não tinham.
—Isso é fascinante. Emocionante. Maravilhoso!
—Verdade. Na ausência do conhecimento científico a imaginação exerceu o seu poder numa expansão jamais vista nos tempos que viriam. Terremotos, vulcões, ondas, vagalhões no mar, noite, tempestades...Tudo isso deu origem à monstros, criaturas terríveis, e também deuses, titãs, deusas...
—É de fato encantador, a incompreensão dos fenômenos da natureza engendrou um universo de deuses e criaturas jamais vistas em qualquer outro tempo
—E tem mais.
—É?
—Os mitos são tesouros da mente humana, atravessando milênios.
—Por que diz isso, Rospo?
—O mito se refere ao seu interior, à sua mente, ele estará dentro de você...Se você tiver o dom de ouvir.
—Ouvir virou dom?
—Em nossos dias sim.
—Então, o mito diz sobre nós, ele fala ao nosso interior, ao ser de cada um, ele tem mensagens para a alma de cada um.
—Isso, Sapabela. São mensagens entesouradas em nós. Cada um deve procurar a sua conversa com o mito...E permitir que ele entre dentro de si, o lugar sagrado...
—Sagrado?
—Sim, dentro de cada um colidem universos, mundos... Reinos...
—Reinos?
—Exato. Dentro de cada um está o céu, e todos os mundos... E o reino Daquele que é. E muitos já sabem: Ele é em você.
—Rospo, tem sapo que já escreveu isso.
—A palavra, Sapabela, está numa corrente universal infinita e pertence à todos. Quando ela sai do papel e penetra no interior de alguém, esse alguém torna-se portador da palavra. E se alguém escreveu algo sobre os mitos nos tempos dos tempos, esse alguém nos herdou, nos devolveu a necessidade de ouvir, ou ler. Por isso, como eu já disse, procure salientar a sua conversa com o mito. E não se esqueça, tudo isso está num plano superior. Basta simplesmente ser portador da coisa mais difícil.
—O que vem a ser essa coisa mais difícil?
—O "Querer".
—Coisa mais simples.
—Vai pensando, vai pensando...
—Rospo, ouvir uma narrativa mítica é ouvir. Não conversar.
—Ouvir verdadeiramente é uma forma de conversa. E quando você se inclina para o chamamento do mito, você já está em pleno diálogo dentro de si. Ouvir nesse caso é uma ação dialógica.
—Eu sempre leio.
—É o passeio ancestral dos olhos.
—Rospo, que bom me dizer essas coisas, mas, fale: vai pensar no que eu falei sobre o sapo também ser vaidoso? Lembre-se: a boa vaidade melhora o mundo.
—Sapabela, você não desiste?
—Por acaso já procurou o significado do meu nome?
—Não. Qual é?
—Sapabela significa "Aquela que não desiste".
—Impressionante!
HISTÓRIAS DO ROSPO 2012 —788
Marciano Vasques
—A vaidade deixo com exclusividade para você, Sapabela. Uma sapa vaidosa é tudo de bom.
—Hoje, Rospo, o sapo também se preocupa com a aparência. Ele também se cuida.
—?
—Se ficou mudo é sinal de que vai pensar. Promete? Vai?
—Sapabela, certa vez um professor de Metafísica comentou em tom debochado: "Os gregos tinham deuses para tudo".
—Promete que vai pensar, Rospo?
—Eu fiquei anos pensando na fala daquele professor...
—E então?
—Então esperei o dia em que eu viesse a compreender essa questão.
—Com o professor?
—Não! Com os gregos.
—E chegou a alguma conclusão?
—Fiquei emocionado ao saber que a imaginação ocupou de forma tão profunda e criativa o espaço do conhecimento científico que eles não tinham.
—Isso é fascinante. Emocionante. Maravilhoso!
—Verdade. Na ausência do conhecimento científico a imaginação exerceu o seu poder numa expansão jamais vista nos tempos que viriam. Terremotos, vulcões, ondas, vagalhões no mar, noite, tempestades...Tudo isso deu origem à monstros, criaturas terríveis, e também deuses, titãs, deusas...
—É de fato encantador, a incompreensão dos fenômenos da natureza engendrou um universo de deuses e criaturas jamais vistas em qualquer outro tempo
—E tem mais.
—É?
—Os mitos são tesouros da mente humana, atravessando milênios.
—Por que diz isso, Rospo?
—O mito se refere ao seu interior, à sua mente, ele estará dentro de você...Se você tiver o dom de ouvir.
—Ouvir virou dom?
—Em nossos dias sim.
—Então, o mito diz sobre nós, ele fala ao nosso interior, ao ser de cada um, ele tem mensagens para a alma de cada um.
—Isso, Sapabela. São mensagens entesouradas em nós. Cada um deve procurar a sua conversa com o mito...E permitir que ele entre dentro de si, o lugar sagrado...
—Sagrado?
—Sim, dentro de cada um colidem universos, mundos... Reinos...
—Reinos?
—Exato. Dentro de cada um está o céu, e todos os mundos... E o reino Daquele que é. E muitos já sabem: Ele é em você.
—Rospo, tem sapo que já escreveu isso.
—A palavra, Sapabela, está numa corrente universal infinita e pertence à todos. Quando ela sai do papel e penetra no interior de alguém, esse alguém torna-se portador da palavra. E se alguém escreveu algo sobre os mitos nos tempos dos tempos, esse alguém nos herdou, nos devolveu a necessidade de ouvir, ou ler. Por isso, como eu já disse, procure salientar a sua conversa com o mito. E não se esqueça, tudo isso está num plano superior. Basta simplesmente ser portador da coisa mais difícil.
—O que vem a ser essa coisa mais difícil?
—O "Querer".
—Coisa mais simples.
—Vai pensando, vai pensando...
—Rospo, ouvir uma narrativa mítica é ouvir. Não conversar.
—Ouvir verdadeiramente é uma forma de conversa. E quando você se inclina para o chamamento do mito, você já está em pleno diálogo dentro de si. Ouvir nesse caso é uma ação dialógica.
—Eu sempre leio.
—É o passeio ancestral dos olhos.
—Rospo, que bom me dizer essas coisas, mas, fale: vai pensar no que eu falei sobre o sapo também ser vaidoso? Lembre-se: a boa vaidade melhora o mundo.
—Sapabela, você não desiste?
—Por acaso já procurou o significado do meu nome?
—Não. Qual é?
—Sapabela significa "Aquela que não desiste".
—Impressionante!
HISTÓRIAS DO ROSPO 2012 —788
Marciano Vasques
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2012
quinta-feira, 28 de junho de 2012
A MEDUSA DE CADA UM
—Já encarou a sua Medusa hoje?
—Que papo estranho é esse, Rospo?
—Encarar a Medusa é justamente petrificar-se, ficar de frente para a sua própria vaidade.
—Como é?
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2012
sábado, 23 de junho de 2012
REMOVER SIM, REMOER NÃO!
Ao encontrar um
amigo, Rospo observa seu semblante cabisbaixo e para romper a mudez
arrisca um diálogo.
—O
que está acontecendo, amigo?
—Tudo
anda difícil. Não consigo nem pensar direito. São tantas as
dificuldades...
—Sei,
está remoendo.
—E
deveria fazer outra coisa?
—Sim,
tem sapo que neste mesmo instante está removendo.
—Remoendo,
removendo. Aprecia brincar com as palavras, não é, meu amigo?
—Remover
é mover novamente, mas também é um remo que movimenta o olhar.
Remover pode ser remar a visão. Remover pode ser desentulhar a
mente.
—Lembra
do que me disse em nosso último encontro?
—Perfeitamente.
Nos despedimos sob José
Ortega y Gasset...
—"Eu
sou eu e minhas circunstâncias", vive a repetir isso, Rospo.
— Considero
interessante. Mas compreendo também que a serenidade socrática nem
sempre é possível. De qualquer forma, quero que saiba que entre se
pôr a remoer e a remover, melhor sempre optar pela segunda.
—Falar
sempre é mais fácil.
—Nem
sempre. Às vezes, falar é o mais difícil.
—Rospo,
passei a vida inteira ornando o meu ser, e agora, estou numa
indecisão tremenda. Todo desesperado.
—Num
certo momento, de nada adianta emplumar-se a alma, quer dizer, de
nada adiantam solenidades. O que importa para o ser são os cuidados.
Se você descuidou-se de si, não viverá o apogeu da alegria.
—Rospo,
seja mais claro. Excesso de leitura deu nisso?
—Ao
contrário. A leitura torna o ser mais claro, mais objetivo, mais
nítido...
—E
por qual motivo então do lado de dentro do muro tantos se tornam
cada vez mais labirínticos, mais complicados, com o pensamento mais
rebuscado, mais enigmático? Seria excesso de prevenção? Seria uma
espécie de égide? Um escudo usado para se preservar da "ganância"
popular em se adentrar no mundo da Filosofia?
—Meu
amigo, você está de bem com a vida, só não se deu conta. O que
significa que está na hora de remover os entulhos que tanto o
incomodam.
—Sabe,
Rospo, talvez eu necessite do amparo da solidariedade dos amigos.
—Será
que esse amparo, no seu caso, não seria por acaso, um sentimento
gerador de pena comunitária? Às vezes a tristeza é tão atraente!
Frequentemente o fracasso é regozijo da alma alheia. Deve ter
reparado o quanto é difícil para a maioria aplaudir o sucesso de
alguém próximo? Se você se mostrar remoído, certamente despertará paixões
improdutivas...
—É
muito para a minha cabeça, Rospo. Deixe-me aqui remoendo. Isso me
causa um certo conforto.
—Pois
então que continue a viver confortavelmente. Cá eu tentei
removê-lo, mas parece que a argumentação está encontrando
bloqueios sedimentados. Tchau, meu querido.
No
caminho, Rospo encontra a velha amiga.
—Sabapela!
—Rospo! Agora meu coração sabadoficou.
—Rospo! Agora meu coração sabadoficou.
—É?
—Não
está vendo? Sabadofiquei-me. Veja como estou alegre.
—Para
onde vai, amiga?
—Vou à padaria Rubi, comprar o pão nosso...
—Vou à padaria Rubi, comprar o pão nosso...
—Sorvete?
—Viva!
O sábado começou! Venha comigo.
—Como
estão as dificuldades, querida?
—Clamando para serem removidas, meu amigo.
—E como se faz isso, minha bela?
—Enfrentando-as;
—Ás vezes as dificuldades são tão poderosas e imensas que parecem até deusas.
—E daí? Sou uma titânide.
—E como se faz isso, minha bela?
—Enfrentando-as;
—Ás vezes as dificuldades são tão poderosas e imensas que parecem até deusas.
—E daí? Sou uma titânide.
—Yupiiii!
HISTÓRIAS DO ROSPO 2012 — 786
Marciano Vasques
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2012
sábado, 16 de junho de 2012
SÁBADO DE NANQUIM E SORRISOS
Lá estava o Rospo sabadoficando.
—"Como é bom não ter compromisso! Poder caminhar na calçada sem rumo."
Falando em rumo, encontra a amiga Sapabela.
—Rospo!
—Bom dia, Sapabela. Eu a convido...
—Aceito!
—Então, vamos até a padaria, e durante o sorvete conversaremos um pouco. Está com um bom sinal de domingo no rosto.
—Você disse Rospo?
—Rosto, Sapabela. Rosto.
—Mas que bom sinal é esse?
—Está sorridente, amiga.
—Interessante, lembro de como as palavras se formam.
—Sei, pensou que aguardente surgiu da junção de água ardente, e que sorridente...
—Não é?
—Pode ser. Na verdade, até um sorriso suavemente meigo pode ser ardente pelo que ele pode desencadear. Todo sorriso é uma pausa no cotidiano para a vida suspensa que está precisando ser vivida. O sorriso é o encontro com algo que nos resgata.
—Por acaso desencadearíamos um domingo ao sorrir?
—No acaso acuso você de poesia, Sapabela.
—Rospo, que saudades você me traz...
—Saudades?
—Andar pela cidade, assim, solta e feliz, como sempre fui. Incrível! Como sou feliz, Rospo! Como é feliz uma sapa que caminha numa calçada de manhã azul num sábado e encontra o seu amigo de conversas versadas...
—Pois é, pelo visto... e pelo vasto, já entendeu bem o que eu quis dizer com o sinal de bom domingo. É tudo isso que o seu sorriso traz. Sou privilegiado.
—Onde começou essa certeza de que você é feliz, Rospo?
—Eu disse isso?
—Estou vendo os sinais em seu rosto.
—Começou certamente nas tiras de nanquim.
—Ainda pensa nelas, não é?
—Sabe, Sapabela, sou aceito pela tecnologia, estou plenamente inserido na maravilha de estar aqui...
—Aqui...
—Também ama essa palavra?
—Sim. Como é importante o AQUI, mas continue. Você dizia que estava plenamente inserido na época...
—Mas jamais sairá de mim o gosto pela tinta nanquim, no papel, e meus olhos percorrendo aqueles quadrinhos. Isso ninguém tira de um menino jamais, mesmo que ele tenha se tornado um sapão.
—Rospo, que sorvete feliz! Estou sabadoficada.
—Mas com o sinal de bom domingo no rosto.
—Faz aquilo, Rospo.
—Estamos na padaria. O povo ainda está meio sonolento.
—Acorde o povo, ora!
—Está bem: Yupiiii!
—Rospo, obrigado por tudo, principalmente pelo seu Yupiiii!
—Sapabela, é muito privilégio para um sapo só. A memória do nanquim no papel e o seu sorriso de sinais.
—Rospo, que vontade de expôr para as minhas colegas a minha felicidade.
—Sempre surge essa vontade, minha querida. No íntimo de seu ser é a velha necessidade filosófica de repartir a felicidade...
—Mas sempre tenho receio. Às vezes, ao repartir com muitos, você acaba ficando sem. Nem todos torcem por mim...
—Você não precisa de torcida, Sapabela. Precisa lançar o seu sorriso sobre a vida distorcida que por acaso possa encontrar no cotidiano e seguir em frente num azul ciano de céu querendo ser dominical.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2012 —785
Marciano Vasques
—"Como é bom não ter compromisso! Poder caminhar na calçada sem rumo."
Falando em rumo, encontra a amiga Sapabela.
—Rospo!
—Bom dia, Sapabela. Eu a convido...
—Aceito!
—Então, vamos até a padaria, e durante o sorvete conversaremos um pouco. Está com um bom sinal de domingo no rosto.
—Você disse Rospo?
—Rosto, Sapabela. Rosto.
—Mas que bom sinal é esse?
—Está sorridente, amiga.
—Interessante, lembro de como as palavras se formam.
—Sei, pensou que aguardente surgiu da junção de água ardente, e que sorridente...
—Não é?
—Pode ser. Na verdade, até um sorriso suavemente meigo pode ser ardente pelo que ele pode desencadear. Todo sorriso é uma pausa no cotidiano para a vida suspensa que está precisando ser vivida. O sorriso é o encontro com algo que nos resgata.
—Por acaso desencadearíamos um domingo ao sorrir?
—No acaso acuso você de poesia, Sapabela.
—Rospo, que saudades você me traz...
—Saudades?
—Andar pela cidade, assim, solta e feliz, como sempre fui. Incrível! Como sou feliz, Rospo! Como é feliz uma sapa que caminha numa calçada de manhã azul num sábado e encontra o seu amigo de conversas versadas...
—Pois é, pelo visto... e pelo vasto, já entendeu bem o que eu quis dizer com o sinal de bom domingo. É tudo isso que o seu sorriso traz. Sou privilegiado.
—Onde começou essa certeza de que você é feliz, Rospo?
—Eu disse isso?
—Estou vendo os sinais em seu rosto.
—Começou certamente nas tiras de nanquim.
—Ainda pensa nelas, não é?
—Sabe, Sapabela, sou aceito pela tecnologia, estou plenamente inserido na maravilha de estar aqui...
—Aqui...
—Também ama essa palavra?
—Sim. Como é importante o AQUI, mas continue. Você dizia que estava plenamente inserido na época...
—Mas jamais sairá de mim o gosto pela tinta nanquim, no papel, e meus olhos percorrendo aqueles quadrinhos. Isso ninguém tira de um menino jamais, mesmo que ele tenha se tornado um sapão.
—Rospo, que sorvete feliz! Estou sabadoficada.
—Mas com o sinal de bom domingo no rosto.
—Faz aquilo, Rospo.
—Estamos na padaria. O povo ainda está meio sonolento.
—Acorde o povo, ora!
—Está bem: Yupiiii!
—Rospo, obrigado por tudo, principalmente pelo seu Yupiiii!
—Sapabela, é muito privilégio para um sapo só. A memória do nanquim no papel e o seu sorriso de sinais.
—Rospo, que vontade de expôr para as minhas colegas a minha felicidade.
—Sempre surge essa vontade, minha querida. No íntimo de seu ser é a velha necessidade filosófica de repartir a felicidade...
—Mas sempre tenho receio. Às vezes, ao repartir com muitos, você acaba ficando sem. Nem todos torcem por mim...
—Você não precisa de torcida, Sapabela. Precisa lançar o seu sorriso sobre a vida distorcida que por acaso possa encontrar no cotidiano e seguir em frente num azul ciano de céu querendo ser dominical.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2012 —785
Marciano Vasques
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2012
sexta-feira, 15 de junho de 2012
A RECEITA INFALÍVEL DO SAPO
—Rospo no ponto de ônibus esperando a amiga Sapabela quando chega uma conhecida e a conversa toma gosto.
—Estou chateada, Rospo, nada dá certo. Tudo que eu planejo sai errado. Não suporto mais isso.
—Que coisa!
—Nada dá certo, amigo. Sempre algo de errado acontece.
—Está se sentindo infeliz?
—Infeliz, frustrada, estou me sentindo um bagaço, uma vala, Rospo.
—Tenho uma receita infalível que fará com que se sinta melhor. Funciona mesmo. Pelo menos, com a maioria sempre resolve.
—Qual é essa receita, amigo? Diga!
—Ponha a culpa em alguém. Arrume um culpado. Culpe o outro.
—Eu sempre faço isso, quer dizer, jamais faria tal coisa, Rospo. Onde já se viu? Culpar os outros pelos nossos fracassos?
—Primeiro que essa palavra "fracasso" é muito forte, não pode ser usada em vão. Segundo, essa receita é infalível mesmo. Você culpa alguém pelos seus erros, pelas suas confusões, e se sente mais leve, parece que fica melhor quando joga para outro a responsabilidade das suas mancadas...
—Sei não, Rospo. No meu caso não adianta. Posso até culpar alguém, arrumar um culpado, mas vou continuar fracassando.
—Querida, a nossa conversa está uma beleza, mas o ônibus chegou, e a Sapabela está nele. Tchau, boa sorte.
—Tchau, Rospo. Divirta-se. Eu ficarei por aqui lamentando a minha falta de sorte.
—Tchau, amiga, e não se esqueça:
—?
—Procure o outro.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2012 — 784
Marciano Vasques
—Estou chateada, Rospo, nada dá certo. Tudo que eu planejo sai errado. Não suporto mais isso.
—Que coisa!
—Nada dá certo, amigo. Sempre algo de errado acontece.
—Está se sentindo infeliz?
—Infeliz, frustrada, estou me sentindo um bagaço, uma vala, Rospo.
—Tenho uma receita infalível que fará com que se sinta melhor. Funciona mesmo. Pelo menos, com a maioria sempre resolve.
—Qual é essa receita, amigo? Diga!
—Ponha a culpa em alguém. Arrume um culpado. Culpe o outro.
—Eu sempre faço isso, quer dizer, jamais faria tal coisa, Rospo. Onde já se viu? Culpar os outros pelos nossos fracassos?
—Primeiro que essa palavra "fracasso" é muito forte, não pode ser usada em vão. Segundo, essa receita é infalível mesmo. Você culpa alguém pelos seus erros, pelas suas confusões, e se sente mais leve, parece que fica melhor quando joga para outro a responsabilidade das suas mancadas...
—Sei não, Rospo. No meu caso não adianta. Posso até culpar alguém, arrumar um culpado, mas vou continuar fracassando.
—Querida, a nossa conversa está uma beleza, mas o ônibus chegou, e a Sapabela está nele. Tchau, boa sorte.
—Tchau, Rospo. Divirta-se. Eu ficarei por aqui lamentando a minha falta de sorte.
—Tchau, amiga, e não se esqueça:
—?
—Procure o outro.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2012 — 784
Marciano Vasques
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2012
quarta-feira, 13 de junho de 2012
DOCE DEMAIS ENJOA?
—Doce demais é enjoativo.
—É?
—É!
—Pensa isso mesmo, Rospo?
—Eu? Não!
—Por qual motivo falou? Está querendo uma conversa?
—É que alguém escreveu isso, em algum lugar na facesfera.
—Compreendo. Mas, você concorda?
—O doce se reparte em mil sutilezas, meu bem. A vida é repleta de doces, precisamos primeiro situar a qual doce devemos nos referir. A voz doce da sapa amada jamais será enjoativa. A doçura nas coisas de que fato importam, como poderia enjoar? O doce metaforizado na poesia, jamais seria enjoativo, desde que a poesia transporte a alma do esmeril da palavra. A amizade de uma doçura autêntica jamais poderia ser enjoativa. Um doce não compactado, não enjaulado, como deveria pois enjoar?
—Vamos simplificar, meu doce amigo?
—Sapabela, veja só: se estiver se referindo ao doce que contém açúcar, ou seja, se estivermos num eixo fora da literatura e da leitura, que também é doce, originalmente todo doce, ou seja, todo alimento doce, poderia ser enjoativo, mas esse "poderia" é importante.
—Com efeito, o "futuro do pretérito" deve merecer toda atenção. Poderia falar mais desse poderia?
—O doce de abóbora, que era feito no panelão, no caldeirão, na infância de algum sapo, jamais será enjoativo, mesmo que resista ou sobreviva apenas na memória afetiva.
—Eu jamais enjoaria de doce de abóbora.
—Nem eu. Resumido: Nem sempre tudo que é doce enjoa.
—Verdade, Rospo. A amizade trançada em versos e conversas palmilha delicadezas de azulejos num alvorecer de sol acanhado.
—Sapabela, sempre fico feliz com essa invasão da alma lusitana em nossas conversas.
—Que doçura!
HISTÓRIAS DO ROSPO 2012 — 783
Marciano Vasques
—É?
—É!
—Pensa isso mesmo, Rospo?
—Eu? Não!
—Por qual motivo falou? Está querendo uma conversa?
—É que alguém escreveu isso, em algum lugar na facesfera.
—Compreendo. Mas, você concorda?
—O doce se reparte em mil sutilezas, meu bem. A vida é repleta de doces, precisamos primeiro situar a qual doce devemos nos referir. A voz doce da sapa amada jamais será enjoativa. A doçura nas coisas de que fato importam, como poderia enjoar? O doce metaforizado na poesia, jamais seria enjoativo, desde que a poesia transporte a alma do esmeril da palavra. A amizade de uma doçura autêntica jamais poderia ser enjoativa. Um doce não compactado, não enjaulado, como deveria pois enjoar?
—Vamos simplificar, meu doce amigo?
—Sapabela, veja só: se estiver se referindo ao doce que contém açúcar, ou seja, se estivermos num eixo fora da literatura e da leitura, que também é doce, originalmente todo doce, ou seja, todo alimento doce, poderia ser enjoativo, mas esse "poderia" é importante.
—Com efeito, o "futuro do pretérito" deve merecer toda atenção. Poderia falar mais desse poderia?
—O doce de abóbora, que era feito no panelão, no caldeirão, na infância de algum sapo, jamais será enjoativo, mesmo que resista ou sobreviva apenas na memória afetiva.
—Eu jamais enjoaria de doce de abóbora.
—Nem eu. Resumido: Nem sempre tudo que é doce enjoa.
—Verdade, Rospo. A amizade trançada em versos e conversas palmilha delicadezas de azulejos num alvorecer de sol acanhado.
—Sapabela, sempre fico feliz com essa invasão da alma lusitana em nossas conversas.
—Que doçura!
HISTÓRIAS DO ROSPO 2012 — 783
Marciano Vasques
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2012
segunda-feira, 11 de junho de 2012
O CHAMAMENTO DA LITERATURA
—Rospo, estive pensando: o filósofo é um ser para a vida, não é?
—Sim, um ser para a felicidade.
—Como seria o mundo se Epicuro tivesse vencido, em vez de Platão?
—Boa pergunta, Sapabela.
—E a boa resposta, Rospo?
—"Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades."
—Que mais, Rospo?
—"Não temos nada que temer aos deuses."
—Sofreu muito.
—Que encanto a sua vida!
—Acredita em outra possibilidade para a filosofia?
—Não. Só a felicidade. Se a filosofia não causar alegria no ser, não terá cumprido a sua essência.Os momentos de tristeza da humanidade foram momentos de afastamento da alegria da filosofia.
—A filosofia tem uma irmã?
—Tem, a literatura.
—É possível afirmar que a literatura é também alegria e felicidade?
—Sim.
—Mas tem literatura que nos leva à reflexão, e outras que abordam questões tristes...
—Por isso mesmo.
—Esmiuçando, por favor.
—O leitor apaixonado fica feliz diante da reflexão. Esse é o bem maior da literatura. Assim, dessa forma, veja só: mesmo quando a literatura expôr situações de tristezas e infortúnios da humanidade, estará regando o espírito do leitor.
—Gosta da palavra espírito, não é, Rospo?
—Sanchoniaton !
—Isso é uma gíria nova?
—O "espírito" não tem aqui nenhuma conotação religiosa. É a palavra em seu sentido filosófico.
—Verdade que ganhou um livro de Goethe de presente de aniversário e nunca leu?
Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister. Mas li pelo menos umas cem páginas.
—Pretende ler o livro inteiro, Rospo?
—Pretendo, Sapabela, só não sei quando.
—Sobre a literatura eu pensava que só a infantil fosse sinônimo de felicidade.
—Nada, menina!
—Nunca me chamou assim. Gostei.
—Eu também, Sapabela. Veja só: às vezes sinto uma felicidade estranha. Essa felicidade estranha é a literatura. Quando Montaigne falou que na biblioteca estão os melhores espíritos, os espíritos encantados da humanidade, ele se esqueceu de dizer que esses espíritos estão com você, em você quando subitamente sente uma vontade inexplicável de reler um livro.
—Sim, um ser para a felicidade.
—Como seria o mundo se Epicuro tivesse vencido, em vez de Platão?
—Boa pergunta, Sapabela.
—E a boa resposta, Rospo?
—"Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades."
—Que mais, Rospo?
—"Não temos nada que temer aos deuses."
—Qual é para você o filósofo da felicidade?
—Espinosa.—Sofreu muito.
—Que encanto a sua vida!
—Acredita em outra possibilidade para a filosofia?
—Não. Só a felicidade. Se a filosofia não causar alegria no ser, não terá cumprido a sua essência.Os momentos de tristeza da humanidade foram momentos de afastamento da alegria da filosofia.
—A filosofia tem uma irmã?
—Tem, a literatura.
—É possível afirmar que a literatura é também alegria e felicidade?
—Sim.
—Mas tem literatura que nos leva à reflexão, e outras que abordam questões tristes...
—Por isso mesmo.
—Esmiuçando, por favor.
—O leitor apaixonado fica feliz diante da reflexão. Esse é o bem maior da literatura. Assim, dessa forma, veja só: mesmo quando a literatura expôr situações de tristezas e infortúnios da humanidade, estará regando o espírito do leitor.
—Gosta da palavra espírito, não é, Rospo?
—Sanchoniaton !
—Isso é uma gíria nova?
—O "espírito" não tem aqui nenhuma conotação religiosa. É a palavra em seu sentido filosófico.
—Verdade que ganhou um livro de Goethe de presente de aniversário e nunca leu?
Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister. Mas li pelo menos umas cem páginas.
—Pretende ler o livro inteiro, Rospo?
—Pretendo, Sapabela, só não sei quando.
—Sobre a literatura eu pensava que só a infantil fosse sinônimo de felicidade.
—Nada, menina!
—Nunca me chamou assim. Gostei.
—Eu também, Sapabela. Veja só: às vezes sinto uma felicidade estranha. Essa felicidade estranha é a literatura. Quando Montaigne falou que na biblioteca estão os melhores espíritos, os espíritos encantados da humanidade, ele se esqueceu de dizer que esses espíritos estão com você, em você quando subitamente sente uma vontade inexplicável de reler um livro.
—Uma das maiores tragédias da humanidade foi o incêndio que destruiu a biblioteca de Alexandrina. Como será no futuro, se as bibliotecas, dizem, serão todas virtuais? Estarão preservados para sempre o tesouro infinito? Mas fale da vontade inexplicável.
—Sim, repentinamente surge aquela vontade de reler um livro, de Jorge Amado, por exemplo, como Jubiabá...
—Felicidade pura.
—Ou "Memórias de minhas putas tristes", ou "Tia Júlia e o escrevinhador"...
—Como você explica isso?
—É o chamamento da literatura.
—Chamamento da literatura?
—Acredite! Quando você está em certas circunstâncias cotidianas a literatura a chama.
—A poesia sempre pisca pra mim.
—Pois é, esse chamamento é um mecanismo de defesa interior da mente, que busca, sempre, a felicidade.
—Rospo, e eu comecei falando de filosofia.
—Dessa irmandade não escapamos, Sapabela.
—Vamos ao nosso chocolate expresso?
—Sim, vamos, esse é o chamamento da amizade.
—Só me faz rir, Rospo.
HISTÓRIAS DO ROSPO —792
Marciano Vasques
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sexta-feira, 8 de junho de 2012
FALANDO DE RALACIONAMENTOS
Rospo encontra uma amiga.
—Rospo, não consigo me entender com meu namorado.
—O que não acontece?
—Rospo, não consigo me entender com meu namorado.
—O que não acontece?
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quarta-feira, 6 de junho de 2012
AS AMIZADES DO SAPO
—Sapabela, lembra de quando nos conhecemos?
—Claro, Rospo, como poderia esquecer? Você fez um escândalo quando me viu saindo da floricultura.
—Foi a primeira vez que vi uma flor fugindo da floricultura.
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terça-feira, 29 de maio de 2012
ELA FUGIU DA FLORICULTURA
—Não é possível! Ela escapou novamente! Deixaram-na fugir. Será que ninguém reparou que ela escapuliu?
Ao alvoroço do Rospo, muitos sapos começam a se aglomerar na calçada.
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domingo, 27 de maio de 2012
O CÉU VARRIDO DO SAPO
—Vizinho! Acorde! Venha ver o céu. Só no outono você vê uma coisa assim.
—Rospo, estou dormindo. E você vem me acordar no domingo às 10h da manhã?
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terça-feira, 22 de maio de 2012
QUANDO O PASSADO NÃO PRESENTEIA
—Rospo, por que o passado incomoda tanto alguns sapos e algumas sapas?
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segunda-feira, 21 de maio de 2012
O SAPO FIEL
—Sapabela, a palavra fiel é muito utilizada. Você a encontra em adesivos, em torcidas...—O que mais tem é sapo fiel no mundo.—Sei. Cada sapo é um autêntico Orfeu.—Fala sério, vai.—Devemos ser perseverantes conosco a cada novo amanhecer. Uma cópia fiel de nós.—Eu me contento em ser uma amiga fiel.—O importante nessa história é ser fiel de si mesmo. O fiel da balança deve estar em sua própria consciência.—Ser fiel virou artigo de luxo. Esse é o adjetivo mais caro hoje?—Ser fiel é o requisito básico em qualquer relacionamento.—A sociedade deveria ser fiel para conosco. Cada cidadão deveria ser sentir privilegiado por pertencer a uma sociedade fiel a ele.—Está sonhando alto, Sapabela.—Devemos mesmo ser fiéis conosco. Gostei disso. Pois eu garanto, amigo. Sou fiel a mim. Sendo fiel a mim, sou fiel aos meus amigos.—Muitos se dizem fiéis, mas são apenas anagramas.—Que maluquice é essa de anagrama, Rospo?—Coisa da gramática, Ana.—Pare de brincadeira, Rospo, meu nome é Sapabela.—Pois, é, amiga. Tem quem se diz fiel, mas é o anagrama...—Rospo, estou curiosa.—Filé, Sapabela. Eis o anagrama de fiel.—Pois sou contra-filé.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2012 —785
Marciano Vasques
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domingo, 13 de maio de 2012
LEVE SUA MÃE
—Que culpa tenho se sou uma festa de viver?
—Rospo, a palavra "culpa" não existe em nosso vocabulário.
—Verdade, Sapabela. Foi um erro meu pronunciar uma palavra inexistente.
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terça-feira, 1 de maio de 2012
DOIS COPOS
—Noite de feriado, e Rospo encontra a sua grande amiga.
—Como vai, Sapabela?
—Num outono já assanhado para ser inverno. E você, meu querido amigo?
—Colei dois copos.
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quarta-feira, 11 de abril de 2012
A FILA CIRANDOU
Fulo na fila, Rospo puxa conversa.
—Está curta a conversa, não é, meu amigo?
—Que conversa, sapo? Ninguém está conversando.
—Está curta a conversa, não é, meu amigo?
—Que conversa, sapo? Ninguém está conversando.
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sábado, 7 de abril de 2012
CONTEMPLANDO AS ESTRELAS
—Que pensamento o aflige, meu amigo?
—Nem havia reparado a sua chegada.
—Nem havia reparado a sua chegada.
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sexta-feira, 6 de abril de 2012
NUMA SEXTA DE LUAR
Sexta-feira, lá vai a Sapabela sabadoficando seu coração, tremeluzindo ao luar. Vontade de abraçar, de cantarolar, de cantar alto, de abrir sua voz na voz do vento suave de outono que roça a noite, glorificando a sexta. Então:
—Rospo! Aqui Rospo! Aqui, deste lado!
—Sapabela! Também veio "curtir" a Praça Azul?
—Rospo! Aqui Rospo! Aqui, deste lado!
—Sapabela! Também veio "curtir" a Praça Azul?
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