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sexta-feira, 5 de março de 2010

PROMETEU




PROMETEU
 
O mais esperto dos titãs, após lutar ao lado de Zeus contra Cronos, o devorador, voltou-se para a humanidade, tendo inclusive impedido, com astúcia e habilidade, que o deus pai destruísse os humanos.
Após derrotar o próprio pai, Zeus ficou arrasado e decidiu destruir a raça humana para recomeçar tudo novamente, mas Prometeu (PRÉ–MEDITAÇÃO), agindo cautelosamente, conseguiu convencer o deus de que tal ato destrutivo só aumentaria o seu desgosto.
Graças a essa intervenção, a humanidade sobreviveu.
Circulava antiga lenda afirmando que o seu coração humanizado se originara no dia em que ele criou o homem a partir de argila e água.
Talvez por ter sido o mais perfeito artesão de todos os tempos, Prometeu teria feito o homem à semelhança dos deuses juntando argila e água de um riacho.
Segundo a lenda, apenas o fez materialmente, sem o animar.
Coube esta função à deusa Atena, que, encantada com a perfeição da obra, soprou na criação de barro de Prometeu, o espírito.
Num entardecer esplêndido, da boca da deusa o alento transformando-se em espírito passou para o homem de argila. O sopro apareceu como um feixe nebuloso e azulado. A cena fluídica encantaria o maior dos céticos.
- “Por que escolheste a argila?” – teria perguntado a deusa ao titã.
- “Porque na terra está a semente dos céus! Posso transferir de cada animal, de cada criatura viva da terra, uma característica para a minha obra, mas não lhe posso dar a vida!
A deusa, ao ouvir isso, insuflou no homem o espírito. Assim teria nascido a humanidade.
De alma belicosa e guerreira por ter nascido da cabeça de Zeus, e não do útero materno, porém sempre procurando agir com serenidade e prudência, por ser dotada de sabedoria, a protetora dos guerreiros e das cidades, sem jamais ter demonstrado amor irracional pela guerra, justamente por ter a consciência de que personificava a sabedoria divina, considerou a sua missão cumprida.
A deusa de olhos claros como o verde dos mares, deixou Prometeu contemplando a própria obra.
Portando o seu escudo no qual estava gravada a figura da medusa, dirigiu-se ao Pártenon, passando antes pela árvore chamada oliveira, na qual recolheu a sua coruja, que a esperava.
Assim deu-se esse encontro entre a deusa e Prometeu, segundo contam as lendas muito antigas.
Prometeu ensinou aos homens muitas artes e ofícios, entre os quais o estudo das estrelas. Graças a ele os homens puderam navegar com segurança.
Ao ensinar aos homens as órbitas estelares, percebeu que faltava algo e deu aos seres humanos, o mais precioso dos dons, o pensamento.
A criatura que adquirira vida com o sopro divino de Atena, agora governaria sobre todas as formas de vida terrestres.
Zeus olhava com desconfiança o exagerado amor de Prometeu pela humanidade, mas a coisa se agravou quando o atrevido titã enganou os deuses em favor dos humanos. Inaceitável!
Abateu um boi e o repartiu em duas partes enroladas em couro. Na maior, gordura e ossos, na menor, a carne. Ofertou aos olímpicos a porção menor. Zeus não gostou disso...
- “Glorioso Zeus, escolha a parte que quiser.”
Ao escolher a parte maior, Zeus percebeu que fora enganado.
Sua vingança foi imediata.
A ira de Zeus se transformou em ausência de calor.
Tirou da humanidade o fogo.
- “Que vivam no frio, e que comam a carne crua...
E aprisionou o fogo na carruagem do sol, que percorria em círculos o monte Olimpo.
A humanidade sofria com a ausência do fogo.
O capricho de Zeus representava o pior castigo para os seres humanos e uma vingança terrível contra Prometeu, que pensativo, sentado num frio rochedo, olhava para um talo de erva-doce.
Não suportava ver a agonia dos seres humanos.
Decidiu.
Foi ao Olimpo e roubou o fogo da magnífica carruagem do sol, que percorrendo em círculos o lar dos deuses, iluminava e aquecia o monte divino.
Trouxe-o de volta protegido num talo de erva-doce. Ensinou a humanidade a cozinhar. Ela, agradecida ergueu milhares de fogueiras, cujo brilho chegou ao monte Olimpo.
Zeus, tomado por incontrolável fúria, decidiu castigar Prometeu por tamanha premeditação, por tamanho atrevimento.
Nenhuma vingança seria tão terrível como a que sondava o coração do deus enraivecido.
Um ferreiro coxo daria inicio à vingança de Zeus.
O deus vingativo ordenou-lhe que fizesse uma criatura de argila, a qual chamou mulher, fisicamente semelhante às deusas, que trouxesse, além do amor, sofrimento aos humanos.
Hefesto atendeu.
A obra do ferreiro fora levada ao altar dos deuses e lá permaneceu deitada.
Zeus explica à fraternidade divina o motivo do encontro.
Os deuses em círculo lhe deram um nome que Zeus apreciou: Pandora, a cheia de dons.
Os deuses, um por um, deram à Pandora, como presentes, os atributos.
Com as vibrações dos deuses, a criatura de barro desapareceu lentamente e em seu lugar foi surgindo um belo corpo feminino. Zeus acompanha a metamorfose com vitorioso sorriso.
Apolo lhe deu o dom da música.
Hélio lhe insuflou a divindade.
Ártemis, a graça e a leveza.
Atena, a inteligência e a habilidade de tecelã.
Afrodite, a beleza e o desejo.
E assim por diante...
O último foi Hermes, que, cúmplice de Zeus, lhe transmitiu a astúcia, o cinismo, a mentira e as artimanhas. Disse o deus:
- Você, com o desejo recebido de Afrodite,viverá para seduzir e atormentar os sentidos, e com os atributos que eu lhe dou, também para enganar. Peregrinarás pelo mundo seduzindo e trazendo malefícios. Espalharás o amor, mas também a mentira, e usarás das artimanhas, dominarás a arte das manhas.
E assim Hermes instalou no coração de Pandora o dom do fingimento.
- Erga-se! – conclamou Zeus. - Você simbolizará as fêmeas.
A partir de agora a humanidade estará dividida entre masculino e feminino.
A humanidade deverá adormecer, e quando acordar, não mais será andrógina. E a parte feminina será portadora de todos os seus dons!
E assim, cheia de dons, a mulher de argila adquiriu vida.
Pandora sorriu sem compreender direito o que acontecia, mas todos os deuses viram malícia em seu sorriso.
Hermes sorriu satisfeito. A vingança estava se consolidando.
Zeus, orgulhoso, deu por encerrado o evento.
A primeira mulher criada foi entregue de presente para um dos irmãos de Prometeu, Epimeteu, em quem a reflexão sempre tardava.
Epimeteu, fascinado pela beleza feminina, esquece dos avisos do irmão, para que recusasse qualquer presente de Zeus.
Pandora tornou-se esposa de Epimeteu.
Aos distribuir os dons para a humanidade, Prometeu, para poupá-la de sofrimento, aprisionou os males numa pequena caixa oval chamada boceta, que foi dada como presente nupcial para Pandora, com a recomendação de que jamais deveria ser aberta.
A curiosidade é mãe da evolução, mas às vezes se torna irmã da imprudência.
Pandora não suportou a curiosidade em saber o que havia naquela caixinha, e, um dia, inadvertidamente, abriu-a.
Da caixa saíram todos os males e infortúnios que afligem e atormentam a humanidade, como as doenças, as dores, a inveja, o ciúme, a vingança...
Pandora, apavorada, recolocou a tampa na caixa tentando evitar que a tragédia se alastrasse totalmente, mas era tarde.
A velocidade do mal sempre surpreende os puros.
Mas, uma coisa ainda ficou presa no fundo da caixa: Esperança, que aflita e chorando a chamou.
Pandora ouviu o chamado desesperado e abriu a tampa. Soltou assim Esperança no mundo para que ela pudesse confortar a humanidade.
- “Não importa a extensão do mal, Esperança sempre estará com o afligido”, pensou Pandora, refletindo curiosa sobre o fato de Esperança estar guardada na caixa.
Muitos, através dos tempos, consideram a esperança também um mal. Para outros, para a maioria, é um bem, o que parece tornar incompreensível que estivesse junto com todos os males numa caixa, mas outros viram nessa atitude de Prometeu, um gesto de sabedoria.
Enquanto isso, prosseguia a vingança incansável de Zeus, que acorrenta brutalmente Prometeu num rochedo montanhoso.
Prometeu sofre com o sol escaldante, com o frio e com as intempéries da natureza. Seu grito sufocado não atinge a sensibilidade de Zeus.
O titã permanece acorrentado. Não há atenuantes para Zeus. O titã foi longe demais, o roubo do fogo, a zombaria do boi. É o fim.
Não haverá perdão no coração endurecido de Zeus, personificado no rochedo.
Diariamente uma águia ia bicar o seu fígado, que à noite crescia. O fígado regenerado era novamente devorado pelo animal.
O martírio nunca terminava. A pavorosa águia bicando seu fígado e a cada amanhecer o recomeço da tortura.
- “Implacável Zeus!” - gritava o pobre titã quando via ao longe, entre as nuvens do horizonte, a silhueta da enorme águia se aproximando.
Seu suplício teve fim.
O persistente Prometeu, mesmo no sofrimento, reencontrou as forças e, zombando, disse a Zeus que conhecia o segredo que o lançaria no esquecimento.
Às vezes a memória é a nossa salvação, e Prometeu tentando encontrar uma forma de se libertar, lembrou de uma antiga profecia que muito poderia agora lhe ser útil.
Enquanto a águia perfurava o seu fígado, ele se esforçava desesperadamente para lembrar da profecia em todos os detalhes, até que uma palavra, um nome, veio consolidar a sua lembrança: Tétis.
Zeus compreendeu que o titã não estava tentando ganhar tempo e sabia que a sua sarcástica afirmação tinha sentido. Prometeu conhecia um segredo valioso e Zeus não suportava a idéia de cair no esquecimento.
Ordenou a seu filho Hércules que libertasse Prometeu. E assim foi feito.
Quando no Cáucaso Prometeu viu Hércules se aproximando, compreendeu que a liberdade se aproximava.
Compreendeu também que o poder era algo muito especial para Zeus.
Hércules matou a gigantesca águia.
Prometeu estava finalmente livre.
Agradecido, revelou a Zeus o segredo de Tétis.
Ele conhecia mesmo a profecia que dizia que a Nereida Tétis geraria um filho mais poderoso que o pai.
Com a recusa de Zeus, Tétis se casa com um rei mortal.
O filho do casal foi chamado Aquiles.





PROMETEU, recontado por Marciano Vasques

domingo, 21 de fevereiro de 2010

CRONO

CRONO
   

Crono enfrenta o pai Urano
CRONO


Filho de Géia no mundo astral, o titã Crono ficou contra o próprio pai, Urano, para auxiliar a mãe.

Ele odiava o pai desde o dia em que descobriu que a mãe era maltratada.

Urano, implacável, aprisionou os filhos no ventre de Géia e o sofrimento se instalou no coração da mulher quando os viu  encerrados nas profundezas da Terra, o seu corpo físico.

Implorou a Urano para que libertasse seus filhos, para que da luz pudessem participar.

- Eu não os quero para sempre em minhas entranhas. Eu os quero na natureza, participando da vida. Eu os quero lutando, correndo, gozando luz, eu os quero vivos, porém fora do meu ventre.

O irônico Urano respondeu que ela sempre quisera vida pulsando em suas entranhas, portanto, que não reclamasse, e a mãe de Crono, nascida da divisão de Nix, chorou, umedecendo a Terra.

A mulher que nasceu porque havia Luz, estava chorando e seu pranto escorrendo sobre os vales, feito fiapos de dor.

Urano, incompreensível, vagava etéreo em sua forma infinita que se expandia em azul.

Senhor do firmamento, aquele que odiava os filhos, por isso os encerrava no corpo da mãe, mas os filhos imploravam vingança, e Urano não podia imaginar que um deles o enfrentaria.

Sabia que os filhos o temiam, porém não sabia que um não aprendera a sentir medo.

- Estarei sempre ao seu lado, mãe! – ao pronunciar essas palavras, Crono afirmou-se como o senhor do tempo, pois só ele, o tempo, traz em seu bojo a solução para os conflitos e o sofrimento.

Já era assim desde a geração de Géia pelo Caos, talvez por ela trazer em seu ventre a inscrição da possibilidade de gerar Crono...

Ao ouvir as palavras do filho mais jovem, a mãe de todos os seres chorou.

O casal primordial não podia prever a tragédia que se aproximava.

O jovem Crono estava preparado para criar uma nova ordem na natureza.

A mãe abraçou-o forte.

Um dia ela se tornou submissa e se entregou ao amante, mas o sofrimento medrou em sua face, e o filho não suportou isso.

Parou diante da mãe, olhou a sua face, e assumiu a dor do que iria fazer, mas se abraçou também fortemente ao ódio que sentia pelo injusto Urano.

Olhou para o alto e murmurou: - “Não mais fecundarás!”

Urano continuava com o seu insaciável desejo de fecundação, sua voracidade sem limite, sua capacidade infinita de fecundar, sua proliferação extremada que causava destruição por causa do excesso, enquanto Géia, sentindo - se um poço de depósito do prazer desvairado e egoísta, olhava com tristeza para as  escuras profundezas do seu ventre transformado em Tártaro, e seu desespero aumentava pela impossibilidade de dar à luz aos filhos aprisionados pela estupidez de Urano.

Que sofrimento maior podia nascer em seu coração que a consciência de que não podia dar à luz, não podia oferecê-la aos filhos por causa da intransigência masculina de Urano, tão imensa quanto o seu fecundo poder?

Talvez o sofrimento de ser usada.

Escorria pelos montes e vales a sua consciência.

Desde o começo, a consciência quando brota altera tudo. 
Géia encharcada de dor e desgosto queria que seu corpo se transformasse em algo além da coisa que satisfazia Urano. Não havia mais sentido naquele relacionamento.

Se antes se entregara com prazer, passou a odiar uma procriação sem sentido, buscava algo e sentia-se preparada para lutar.

Como fazia diariamente, Urano viria fecundar Géia, porém suas secreções teriam fim.

A mãe forneceu uma foice ao filho e ele, num preciso gesto, cortou os testículos do pai.

Quando Urano chegou, Crono esperou escondido que ele iniciasse o ato e assim que seu membro penetrou em Géia, antes que ejaculasse cortou-lhe os testículos.

O filho castrou o pai.

-  Agora você é o senhor do céu!
– disse a mãe - Case-se com Réia, ela o ama.

Encerrada a fecundação incessante, Géia esboçou o primeiro sorriso.

Com o término do relacionamento entre Géia e Urano, o titã ordenou o mundo, separando o céu da Terra.

O insaciável, que a tudo devora, casou-se com a irmã Réia e com ela teve filhos.

Por causa de uma profecia, passou a devorá-los.

Cada filho que nascia, era por ele devorado. Trágico destino, por ódio castrou o pai, por medo de ser destronado, devorava os filhos.

E assim fez com todos, menos um, Zeus.

Enganado por Réia, engoliu uma pedra embrulhada no lugar do recém-nascido.

Os testículos de Urano foram jogados no oceano. Decepados, flutuaram sobre as águas.

Das espumas ensangüentadas nasceu Afrodite. 

Afrodite, de Sandro Botticelli

A deusa do amor surge esplendorosa nas águas vermelhas do oceano.

Termina, com o seu nascimento a era da fecundação estéril, sem limite.

A visão de Afrodite emergindo das espumas e caminhando sobre as águas, brotando das sementes de Urano, para estabelecer e espalhar o amor no mundo, agitou os mares, que em gigantescas ondas saudaram a nova deusa.

A mais bela jovem nascida do esperma do deus derrotado ergueu os braços para o céu, que imediatamente trovejou.

A voz poderosa de Urano, estremecida, anunciou a chegada da deusa.

- Esta é Afrodite, filha da minha dor! É a deusa do amor, nascida do meu sangue, deixo-a como um presente para o mundo.

Como nasceu dos testículos de Urano, não poderia evitar, como deusa, que com o amor também viessem às vezes a dor e o sofrimento, mas quando a humanidade surgisse, em cada coração humano estaria sempre a condição de evitar o sofrimento.

Afrodite subiu aos céus. O oceano se acalmou.

Géia, paralisada pelo espanto, via das águas agitadas e do rodamoinho de espumas o surgimento da deusa.

Das gotas de sangue de Urano sobre o corpo físico de Géia, nasceram as três misteriosas Erínias. Os deuses, buscando um eufemismo, passaram a chamá-las de Eumênides e também apelidaram-nas de “Cães de Hades”. Chamando-as de benfeitoras procuravam dissipar o temor que elas causavam.

Guardiãs da lei, agiam com fúria na implantação de suas vinganças e com rigor nos castigos.

As três Erínias: Alecto, Megera e Tisífone, tudo faziam para enlouquecer as suas vítimas, e espalhavam tragédias e epidemias, colocando freqüentemente com seus caprichos vingativos a natureza em fúria.Zeus, Museu Pio Clementino, Roma
Zeus, o filho sobrevivente de Crono, um dia reapareceu e destronou o próprio pai, enviando-o a seguir para o Tártaro. Porém Crono fugiu e foi viver entre os mortais na Itália, então chamada de Ausônia.

Lá reinou com o nome de Saturno, nome tomado de um antigo deus da região, e instaurou a “era do ouro”.

Em sua homenagem foram instituídas as Saturnálias.

Com esse novo reinado, Crono garantiu, além da prosperidade nas colheitas, a paz, a justiça e a igualdade entre os mortais.

O novo deus itálico passou a receber dos humanos, oferendas. Agradecidos com as prósperas colheitas, todos faziam questão de presenteá-lo.

Para comemorarem a generosidade do deus, que se manifestava na semeadura e na fertilidade do solo, os mortais realizavam banquetes e dançavam.

Surgia o costume de trocaram entre si presentes, como uma forma de homenagear o reaparecimento do deus.

Em cada dezembro, a alegria e a paz invadiam os corações e o deus ficava satisfeito, retribuindo anualmente com valiosas colheitas e hospedando a harmonia em cada alma.

E assim reinou Crono, que transformado em Saturno, deixou de ser o devorador e passou a ser o deus agrícola, trazendo fartura aos mortais.

Seu reinado continuou durante séculos e a troca de presentes inspirou outros povos.


Recontado por MARCIANO VASQUES

Imagens em RIOTOTAL

    
 

sábado, 13 de fevereiro de 2010

MITOLOGIA - 1

A FILHA DE DEMÉTER


Quando, num dia de sol vermelho cobrindo as paisagens do mundo, Cronos e Réia tiveram o filho, não puderam imaginar o seu estranho destino. Na hora do parto, as plantas se agitaram, insetos fremiram as antenas, a vegetação perturbou-se, animais enlouqueceram inexplicavelmente, e nas águas dos rios os minerais reluziram, adquirindo extraordinário brilho.
Quando o pai ergue o bebê, anuncia, como que predizendo o futuro:
- Você dividirá com seus irmãos o universo!
E assim quis o tempo.
Zeus tornou-se o senhor dos ares, Poisedon dominou os mares e ao recém-nascido foi reservado o mundo subterrâneo. A partilha foi feita após uma impressionante batalha entre os titãs.
Dominando o mundo subterrâneo, Hades foi também o senhor dos metais, por isso passou a ser adorado e cultuado por muitos poderosos da Terra. O seu coração não era maligno, mas era impiedoso, e o seu julgamento, implacável e temido pelos vivos. Seu nome passou a ser impronunciável pela maioria das pessoas devido ao fabuloso medo que inspirava em todos, inclusive entre os poucos adoradores. Seu reino subterrâneo passou a ser chamado pelo seu próprio nome,  e por alguns foi chamado de Plutão, devido a crença generalizada num suposta riqueza e também como uma das inúmeras tentativas de evitar a sua fúria.
Hades dividiu o seu reino em duas partes subterrâneas: o Érebo, local de purificação das almas, onde instalou o seu maravilhoso tribunal; e o Tártaro, a prisão eterna dos condenados. Os absolvidos no tribunal de Hades, após passarem pelo período de provação em Érebo, eram levados aos Campos Elísios, lugar de bem-aventurança e felicidade, que ficava próximo ao monte Olimpo. As irrecuperáveis, iam para as profundas trevas do Tártaro.
Após a morte, Hermes libertava a alma do corpo e esta enfrentava um pré-julgamento. Depois era levada num rio sinistro pelo terrível barqueiro Caronte (considerado também um carniceiro mercantilista) para o mundo dos mortos. Ele a levava até Radamanto, oficial de Hades que encaminhava a alma, após o julgamento no tribunal presidido pelo Senhor da escuridão e das labaredas, para um dos três níveis do reino.
No Tártaro, Hades, dotado do poder da invisibilidade, inspecionava as almas que afundavam no charco negro pedindo clemência e perdão enquanto eram atormentadas pelos demônios auxiliares do grande senhor, que impunham suplícios. No Érebo, as almas vagavam tateando em busca de luz, banhadas internamente pela esperança de que alcançariam o direito de serem levadas aos Campos Elísios.
As profundezas do reino de Hades eram cortadas pelo rio do esquecimento, no qual todas as almas eram banhadas ao chegarem, para esquecerem do mundo exterior. Entre os vivos corria uma crença: Caronte cobraria pelo transporte das almas e por isso todos eram enterrados com uma moeda dentro da boca.
Nos Campos Elísios as almas se preparavam para o renascimento, mas, todos comiam a semente de romã, que tinha a propriedade de fazer as almas retornarem ao mundo de Hades, caso não se fizessem merecedoras do renascimento ou por uma vontade qualquer do senhor dos infernos.
Para que reinasse absoluto, Hades contava com o auxilio das Erínias (as fúrias), três deusas negras e aladas, que puniam quem fosse cometido pela híbrys. As Harpias atraiam os homens aos vícios. As moiras, que personificavam os destinos impossíveis, ao lado das Harpias e das Erínias abasteciam diariamente o hades com novas almas. Para satisfação de Hades, não houve um só dia que não chegassem levas de almas trazidas pelo horrível barqueiro.
Em algum lugar na escuridão estava localizado o palácio de Hades, e nele, solitariamente sofria o poderoso senhor dos infernos, pois, com tanto poder e tanto domínio sobre as almas e os frutos minerais da terra, não foi capaz de impedir que a solidão invadisse o seu coração e nele se instalasse.
Do seu mundo subterrâneo, observava freqüentemente no mundo da superfície uma linda moça que corria pelos verdes campos e colhia flores de todas as cores. A paixão gradativamente foi ocupando os espaços do seu estranho e atemorizante coração. E com ela viria o seu capricho.
A deusa da semeadura e da colheita, aquela que decide a escassez e a fartura dos trigais, deusa da fertilidade, a mãe da terra, filha de Cronos e de Réia, e irmã de Zeus, Hades e de Poisedon, orgulhosa e feliz, olha a filha Core, que, como faz diariamente, a cada manhã, colhe flores silvestres para enfeitar o templo de adoração em Eleusis, no qual as duas são adoradas pelo povo.
Que felicidade maior pode haver no coração de uma mãe do que ver a sua filha colhendo as flores do campo? E com a felicidade no coração de Demeter, a terra é farta: o verde viceja, os frutos se revigoram, há abundância e a vida verdejante se instala no ventre da terra.
Certa manhã, corre a moça pelo campo, colhendo flores, feliz, sem imaginar que está sendo observada atrás de uma árvore por Hades, que pela primeira vez sobe com a sua carruagem ao mundo da superfície. A carruagem de Hades permanece oculta entre rochas, enquanto ele, audacioso, observa a jovem virgem colhendo as flores. Hades, solitário em seu mundo, se apaixona por alguém da superfície e, mesmo sabendo que a moça dos campos é a sua sobrinha, a filha da colheita, a filha de Deméter, resolve levá-la, e de tocaia, se prepara covardemente para arrastá-la ao seu obscuro mundo.
Core, sem saber do perigo que corre, continua o seu passeio matinal pelos jardins naturais do campo. Se soubesse, talvez invocasse o triste destino de algumas mulheres e fugisse do seu raptor. Após espionar a moça durante toda a manhã, investe contra ela, que, tomada de surpresa, não consegue fugir e se desgarrar do seu carrasco. O poderoso e traiçoeiro deus leva à força a sobrinha para a carruagem e parte em velocidade.
Os cavalos vermelhos como fogo, correm como ventos alucinados. Repentinamente, uma fenda se abre no chão e a carruagem desaparece, tragada pela terra. Os inúteis e desesperados gritos da moça não alteram a decisão injusta de Hades. Ao anoitecer, Deméter, preocupada com a ausência da filha, vai ao campo procurar por ela. Encontra dois camponeses, que relatam ter visto a carruagem em alta velocidade. Pela descrição dos camponeses, logo compreende.
Cai no desespero, pois sabe que somente Hades poderia ser o portador de um gesto tão brutal, de uma violência assim, sem sentido. Mas o sentido está no desejo do deus. Verdes emudecem diante da sua tristeza, e Deméter decide se vingar.
Nada se compara à cólera de uma deusa ferida, e a mãe descarrega a sua mágoa na terra, que até então se mantivera produtiva, em sintonia com a felicidade da deusa. A tristeza e a dor de Deméter logo se verifica nos galhos secos, nas sementes mortas, nas raízes apodrecidas, na seiva que seca, na clorofila que se ausenta. Sua tristeza, e a infinita dor pela perda da filha, se espalham pelo campo, desertificando-o. Nada mais floresce.
A vida vegetal definha. Algas morrem, cogumelos murcham, liquens desaparecem, musgos e arbustos agonizam, todas as flores morrem, azaléias, prímulas, nenhuma inflorescência resiste às lágrimas de Deméter, tudo se vai: girassol, flor-de-lís, dália, margaridas, gardênias...
Não há mais flores no campo! E também todos os aromas da fertilidade terrestre desaparecem em todos os lugares: o manjericão, o alecrim, a hortelã, a sálvia. O campo, sem as cores do acanto, sem a generosidade colorida da érica, sem a delicadeza do crisântemo, se aproxima do espectral deserto.
Povos clamam pelas videiras, pelo retorno do amarelo da flor de arruda, pelo rosa da flor de malva, pelo vermelho da papoula, pelo lilás da violeta, pelo odor do louro, da cânfora, pelas ervas, pelo coentro, pela erva-doce.
A fome procura desesperadamente, pelos campos e hortas secas e abandonadas, a acelga, o couve, o repolho, a chicória, o aipo... Nos mais distantes e diversos lugares da Terra, povos choram a ausência das leguminosas: o grão de bico, o amendoim, as ervilhas, as lentilhas. Prantos pelas faces escorrem.
O mundo sem vagens, sem lírios, sem colmos e sem raízes, é um mundo estéril, vazio, pronto para a morte e para o deserto. Vozes clamam pelo androceu, por orquídeas, pelo narciso, pela polinização, pelos frutos, pela framboesa, pelo figo, pela maçã, pela amora, pela tangerina, pelo damasco.
Não há mais os saltos dos anterozóides após a chuva. Mas é tudo inútil.
Enlouquecida de dor, a pobre mãe sai vagando pelos campos e proíbe o crescimento das plantas, dos trigais, das flores e do mato. A escassez parece definitiva, a fome ameaça todos os mortais. Em todas as moradas erguem-se lamentos de dor. A humanidade sofre com Deméter. A fome enlouquece os homens. As crianças são as primeiras a morrer, as pestes se alastram. O deserto vai pouco a pouco se impondo. A tragédia se abate sobre a natureza. Os prantos dos velhos e dos moços formam uma correnteza de gemidos e ais, que chegam ao monte Olimpo.
Zeus, ao ouvir os gemidos que o vento trouxera, interrompe o seu manjar. Preocupado com a situação dos campos, o sofrimento e a fome dos humanos e a devastação causada pela dor implacável de Deméter, o pai dos deuses tenta por todas as formas acalmar o coração da deusa e implora através de seus mensageiros que ela, embora sofrida, promova o renascimento da vegetação.
Mas Deméter nada ouve. A dor de uma mãe não cabe no mundo. Seus olhos estão encharcados de lágrimas permanentes. Suas lágrimas não se transformam em rios fertilizantes, mas queimam dentro de sua alma violentada.
No auge da aflição, Zeus ordena à Hades que liberte a filha de Deméter, pois a dor e o sofrimento estão estabelecidos e Zeus não quer isso. Se Core não retornar ao mundo da superfície, o deserto tomará conta de toda a terra e a vida desaparecerá. E o deserto da terra simbolizará a paisagem do coração de Deméter. Isso está em desarmonia com a vontade dos deuses.
No inferno, Hades transforma Cora em sua esposa e entre gemidos e dores, ela, ao ser transformada em mulher, recebe do raptor seu novo nome.
- Você agora se chamará Perséfone, e será a rainha do meu reino.
Pede aos demônios que lhe tragam as suas novas vestes.
Core, agora Perséfone, veste um longo vestido vermelho, de um tecido indestrutível, e uma capa dourada, simbolizando, segundo Hades, os metais da terra.
Ela chora inutilmente.
Olha para o lugar tão medonho, para os corredores escuros, para as assombrosas grutas, para o lodaçal e vê, entre martírio e sofrimento, as almas condenadas vagando. Diante dessa paisagem terrível, contempla o seu triste destino.
Hermes chega ao reino de Hades, depois de passar pelo cão chamado Cérbero, guardião da entrada do inferno, e lhe comunica a vontade de Zeus.
Hades, contrariado, pede a Hermes que diga a Zeus que concorda. Realmente Hades cede, mas antes que Perséfone parta, pede-lhe que coma sete sementes de romã. O que a jovem mulher inocentemente faz.
Zeus, no mundo da superfície, diz a Deméter que sua filha retornará, porém se não tiver comido nenhum alimento do mundo dos mortos.
O Coração de Deméter, após tanto tempo de angústias se alastra de esperanças. Um sorriso ameaça brotar em seu rosto. No hades, antes da partida da carruagem, Hades comenta com Perséfone:
- Você é infeliz aqui. Vou devolvê-la para a sua mãe.
Perséfone retorna ao mundo dos vivos.
Quando chega em Eleusis, na carruagem conduzida por Hades, sua mãe corre ao seu encontro. Mas a pobre comera as sementes da romã, por isso o cocheiro sorri triunfante.
Deméter chora sem controle ao abraçar novamente a filha querida. Mas, quando Hades lhe conta sobe as sementes, ela cai no desespero e entre gritos soluça:
- Minha filha! Minha filha! Nunca mais serei feliz! Então, a terra será para sempre estéril, o inverno descerá sobre o solo definitivamente. Deserto, venha! Esta é a minha vontade!
Mas, para Zeus é insuportável a dor da inconsolável Deméter e, habilidoso conciliador, propõe uma alternativa: durante um quarto do ano a filha de Deméter será Perséfone e viverá ao lado de Hades no inferno. O resto do ano, ficará com sua mãe, na terra, e será Core.
Hades, aborrecido, quer discutir, mas aprendeu a não contrariar Zeus, pois é impensável um confronto com seu irmão. E a decisão é acatada.
Nos dias em que a moça está ao lado da mãe, a vegetação floresce, as flores desabrocham e a primavera ressurge. Não falta alimento ao povo e as colheitas são abundantes.
Deméter, como nos velhos tempos, acompanha Core ao campo para a colheita das flores silvestres. A alegria renasce em corações felizes. Depois chega o verão e o Sol abraça majestosamente a verdejante beleza do solo. A vida retorna com toda a sua graciosidade.
No outono, Deméter começa a entristecer, pois se aproxima o tempo da partida da filha amada. As folhas começam a cair ao solo e a natureza se prepara inconformada para receber o inverno agreste.
No inverno, quando a filha retorna para Hades, transformada novamente em Perséfone, Deméter, ressentida, amaldiçoa o solo e nenhuma planta frutifica.
A terra volta a secar, a escassez retorna. Porém os povos resistem com resignação e coragem. Sabem que Perséfone retornará e com ela, a primavera.
 


  RECONTADO POR MARCIANO VASQUES

Imagens: RioTotal

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