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quarta-feira, 24 de março de 2010
terça-feira, 23 de março de 2010
ÉDIPO
ÉDIPO Numa bela manhã ensolarada, Laio tomou por esposa a filha de Meneceu, a bela rainha Epicasta, apelidada de Jocasta.
Laio, ao receber a notícia da gravidez da esposa, foi ao Oráculo de Delfos para saber sobre o destino do filho.
O Oráculo deu a notícia que um pai jamais queria ouvir:
- Ela terá um filho que o matará e se casará com a própria mãe.
O choro de Jocasta invadiu o ar e entristeceu o dia.
Insuportável acreditar que o fruto de seu ventre teria um destino tão trágico, melhor não acreditar nos deuses, pois tal previsão é injustificada.
Tentou abortar.
- Vamos aguardar, não é justo você matar o próprio filho. Talvez a previsão não se cumpra ou talvez nasça uma menina. Sim, uma menina evitaria a tragédia, não faça nada, querida, vamos esperar...
Vendo o quanto o pensamento de Laio era prudente e sensato, Jocasta decidiu seguir a sua vontade e desistiu do aborto. Não mataria mais o filho antes do nascimento.
No parto, o pai pega o filho e não deixa Jocasta ver, entrega-o para um escravo, após colocar a criança num cesto.
- Era um menino! – disse, ao ver que Jocasta procurava ansiosamente ver o filho.
As lágrimas da mãe encheram de dor o coração de Laio, mas não havia outra alternativa. Precisava se livrar daquela criança, para evitar a tragédia anunciada pelo Oráculo.
O escravo levou a criança para o monte Citéron. A cada passo, a sua indecisão aumentava. O seu coração apertava. Não se conformava com a missão que recebera do amo. Como poderia matar uma pobre e indefesa criança? Como poderia tirar a vida de alguém que nenhum mal fez ao mundo?
Não poderia cumprir tal tarefa.
Não teve coragem de matar o bebê.
O bondoso escravo, com os olhos marejados, perguntava ao pequeno:
- Como posso fazer para salvá-lo? Diga, meu querido! Por favor... Não faça isso com esse pobre homem...
Como não teve a coragem de matar a criança, decidiu aleijá-la.
- Sim, querido, vou aleijá-lo para salvá-lo...
Perfurou os calcanhares da criança.
Abandonou-a no cesto, na beira do rochedo.
Prometeu, atrás de uma rocha via tudo.
- “Como são tolos os homens!” – pensou o titã.
- “A vontade modifica a profecia. A vontade divina pode ser modificada pela ação do homem, mas ele não sabe, e se entrega, se abandona diante de uma simples profecia, mal sabe que com essa atitude, traça o rumo da profecia. Se quiser, pode invalidá-la”.
Um pastor aparece.
Prometeu observa.
O pastor recolhe a criança. Entrega-a para a esposa, que a amamenta.
O bebê é amamentado pela esposa de Forbas, o pastor.
- Ele se chamará Édipo.
A criança trouxe dias de felicidade para o casal, mas, impossibilitado de criá-la, decidem entregá-la para alguém. Vão à Corinto.
O pastor entrega o pequeno Édipo para Pólibo, rei de Corinto.
Acreditando que a criança fora enviada pelos deuses, Pólibo a recebe e providencia os cuidados. O pequeno é tratado pelos médicos da corte, e cresce amado pelos pais e pelo povo de Corinto.
Pólibo e Mérope não descuidam um só dia da educação e do desenvolvimento afetivo de Édipo.
Na adolescência, Édipo foi ao Oráculo de Delfos.
O que ouve acaba prematuramente com a sua paz. O que fazer diante de uma previsão como a que o Oráculo lhe revela?
Melhor não acreditar, mas Édipo acreditou.
- “Você está condenado a matar o próprio pai e se casar com a mãe!”.
Apavorado, Édipo quis contornar o destino anunciado pelo oráculo.
Não voltou mais ao Corinto.
Decidiu tomar outro caminho. Montou em seu cavalo e seguiu rumo oposto ao da sua cidade.
No caminho encontrou uma carruagem.
Seu bastão caiu. Ele parou o cavalo e desceu.
Como sempre, enfrentou dificuldades para montar no animal.
O cocheiro o maltratou e quis afastá-lo.
- Seu manco desgraçado! Saia do caminho!
Furioso, Édipo o matou.
O rei Laio saltou da carruagem e o atacou.
Com um bastão matou o rei e um escravo, que desceu em sua defesa.
O último dos passageiros, um escravo, conseguiu fugiu e, covardemente, abandonou os outros.
Ao chegar em Tebas, o escravo, para ocultar a sua covardia, adulterou o acidente e forjou uma narrativa. Inventou os bandoleiros, dizendo que a carruagem fora atacada por um grupo em vez de apenas uma pessoa.
O protagonista das mortes da carruagem decide tomar o caminho para Tebas. Encontra um ancião.
- Não vá para Tebas!
- Por que não devo ir para Tebas?
- Por causa da esfinge.
- Esfinge?
- Um monstro que guarda a entrada de Tebas. Metade mulher, metade leão, com alto poder destrutivo. Propõe enigmas indecifráveis. É terrível! Ninguém decifra os seus enigmas. Todos os jovens que tentam entrar em Tebas são mortos.
Ao chegar nos portões da cidade, Édipo encontra a terrível criatura que lhe propõe um enigma.
Édipo consegue decifrá-lo.
A esfinge derrotada se atira de um rochedo. Édipo destruiu o monstro.
Entra em Tebas aclamado pelo povo.
Levado à presença de Creonte, o irmão de Jocasta, que assumira o trono após a morte de Laio, o recém-chegado se apresenta:
- Sou Édipo, de Corinto.
- Você será condecorado. Além disso, a mão de Jocasta estava prometida para aquele que conseguisse matar a Esfinge.
Édipo e Jocasta se casam.
Festa simples por causa da recente morte de Laio.
Nos aposentos, Édipo é seduzido pela beleza da mulher que ignora ser a própria mãe.
- “Como é bela! Como é atraente!”
- “Procure a mulher dentro de si!” – ouve uma estranha voz.
- O que foi, querido?
- Devo estar perturbado com a sua beleza...
- “Você é muito jovem. Deve ter sido enviado pelos deuses!”
Os amantes vivem a sua primeira noite.
Felicidade.
A felicidade às vezes é um enigma indecifrável.
Tiveram filhos: Polinice, Ismênia, Etéocles e Antígona.
Todos os filhos são iguais em amor, mas Édipo sempre foi muito apegado à Antígona.
Prosperidade em Tebas.
A cidade se desenvolveu e o povo viveu em felicidade.
Um dia algo terrível desabou sobre todos.
Uma peste arrasou a cidade.
O povo foi dizimado. A fome se alastrou como um monstro voraz, a aridez a tudo assolou.
Destruição.
O Oráculo: - “A peste é uma vingança divina. Um alerta”
- “O que isso significa?”- perguntou, Édipo, incrédulo.
- “Não foi vingada a morte de Laio”- resposta do Oráculo.
Édipo foi ao adivinho Tirésias.
- “Édipo, rei de Tebas, matou o rei Laio, seu pai, e se casou com a própria mãe.”
O adivinho nunca falhou.
Édipo discute com Tirésias. Creonte interfere. Jocasta conciliadora, afasta Édipo de Tirésias e Creonte e termina com a discussão.
À noite, Édipo conta a Jocasta sobre a previsão do Oráculo e sobre as palavras de Tirésias.
- Laio matou o próprio filho no monte Citéron e recentemente foi assassinado por um grupo de bandoleiros saqueadores.- retruca Jocasta.
Édipo, intrigado com a previsão do Oráculo e com a revelação do famoso adivinho, manda chamar o escravo que contou a história dos bandoleiros que atacaram a carruagem e mataram o rei.
O escravo é buscado no campo.
Um mensageiro de Corinto chega anunciando a morte de Pólibo.
- “Sua mãe Mérope quer a sua volta, o seu retorno.
- Não posso retornar. Aqui é o meu lugar, ao lado de Jocasta, ao lado dos tebanos, meus fieis amigos.
- Você não é filho de Pólibo. Foi recolhido por ele das mãos de um pastor".
Édipo estremece.
O escravo chega.
- Jamais disse a alguém que foi o meu amado rei que matou Laio. Fui um covarde abandonando os companheiros mortos e para esconder essa minha covardia, inventei a história dos bandoleiros.
Transtornado, Édipo principia a chorar.
- Fui eu que fiz essas marcas nos seus pés! – disse o escravo.
- Chega! Já não me bastam as outras dores? O que mais tem para me revelar? Saia daqui. Deixe-me em dores.
- Perdão. Não pude matá-lo! Como pode ver, sempre me faltou a coragem. Naquele dia não suportei o seu choro e não tive coragem de matar um pobre bebê e o deixei abandonado num cesto, porém fiz as marcas em seus pés para que nunca fosse identificado. Perdão.
Com o rosto encharcado de lágrimas, foi ao encontro de Jocasta, passando pela amada filha Antígona, que o olhou com olhar invadido por uma profunda tristeza.
Encontrou Jocasta sobre o leito. Ao se aproximar viu que estava morta, enforcada.
Antígona, que o seguiu, banhou o rosto de pavor ao ver a cena mais cruel da sua vida: um homem manco, desesperado, chorando inconsolável diante do corpo sem vida da mãe. Desesperado, arrancou um broche de Jocasta e rasgou os próprios olhos.
Aquele que nunca conseguiu ver as coisas que se apresentavam em sua vida, agora estava cego.
- Sou um incestuoso assassino!
- Não! Você é meu pai. É isso que você é, o meu pai querido.
Pai e filha se abraçam num charco de lágrimas que almas feridas costumam presentear aos olhos.
- Irei com você,- diz Antígona, decidida-, irei com você, meu querido pai! Estarei sempre ao seu lado. Onde você estiver, estará Antígona.
A fortaleza da voz da filha perfura o bloqueio da dor de seu coração e Édipo se reanima.
Passam pela multidão, que num comovido silêncio, abrem passagem para um manco cego abraçado com uma moça que a cidade aprendera a respeitar.
Antígona e Édipo deixam Tebas.
****
ÉDIPO: Recontado por Marciano Vasques
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domingo, 14 de março de 2010
PSIQUÊ
PSIQUÊ
“De que me adianta a beleza? De que adianta ser considerada a mais bela das princesas? De que adianta o rosto que miro no espelho, se durmo sozinha...”“De que adianta, se o verde dos meus olhos passará, como passam os pastos verdejantes que ilustram a bela manhã ainda orvalhada de sereno...”
“De que adianta esta pele alva, essa expressão viva a latejar em minha face, como reflexo da alma preenchida pelo desejo de felicidade?”
“De que adianta esse corpo belo e sinuoso, esse joelho contemplado pela perfeição, esses braços claros e clamorosos de abraços, esses seios ricos de vida, visão exuberante, signo da vontade dos deuses, de que adiantam esses cabelos negros, nos quais reflete-se a luz azulada do anoitecer, de que adianta tudo isso, se durmo sozinha...”
“De que adianta a beleza, se ela significa solidão, se o que eu mais quero é justamente o que mais necessito, o calor do companheirismo, a delicadeza do amante, o desejo sincero do homem, as plangentes confissões do amor...”
E pensando essas coisas, Psiquê se deita sobre o seu travesseiro de macela, e se envolve com as rosas que a circundam, adormece, e como sempre, abraçada à solidão sonha com lábios quentes e vermelhos a lhe tocar timidamente a face rosada, sonha com as mãos masculinas passeando em seu corpo suave, sonha com suspiro de namorado, com os gemidos de amor, com as palavras de afeto.
E o vento da madrugada toca suavemente o seu rosto adormecido, enquanto os archotes são substituídos pela Lua, a mais fiel testemunha das confissões perdidas...
Psiquê, de todas as princesas, a mais bela, incomparável beleza, que desafia o encanto das deusas.
No entanto, continuava solitária, contemplada pelos homens, dormia solitária, pois nenhum homem dela se aproximava, nenhum se declarava, nenhum com ela queria se casar ou pelo menos, manifestava essa vontade. A sua beleza era uma barreira, um muro alto, de distância infinita, que impedia que ela fosse cortejada, que ela tivesse um companheiro.
A sua beleza era transformada pelos olhos masculinos em beleza de uma deusa, mas Psiquê não é uma deusa! É humana, sente como humana, É uma mulher.
Uma princesa, certamente, rodeada de confortos, de uma fonte azulada onde molha o seu rosto a cada manhã, de ramos de rosas entrelaçados nas paredes de seu quarto enluarado. Um palácio onde ela vive confortavelmente, tratada como a princesa que realmente é, admirada pelos jovens do reino e pelos príncipes viajantes que em seu lar param para descansar.
Mas, acima de ser uma princesa, é uma mulher.
Na ausência de confissões de amor, Psiquê vê se dissolvendo a cada manhã pelas escadas solitárias do palácio, os sonhos de felicidade, e nos ciprestes observa a sua solidão tomando forma, e no lago azul da ternura aonde vai freqüentemente renovar a sua vida e contemplar o reflexo do sol, vê refletir-se também o desespero de ser bela.
“Os homens têm receio de pedi-la em casamento, por pensar que você é uma deusa!” – diz, apreensivamente, o pai, solidário da tristeza da filha querida. - “Eles até estão edificando um templo para a sua adoração!”
“Que tolos são os homens!”- suspira a bela jovem.
Pai sempre se preocupa. O destino da sua filha o atemoriza.Vê a tragédia que se avizinha, sofre pela sua solidão.
Um templo erguido para a sua beleza. Isso pode trazer muito sofrimento, pois despertará a fúria da deusa Afrodite, a deusa do amor e da beleza, cujos templos de adoração estão sempre repletos de jovens, a maioria com o desejo de casamento no coração. Afrodite não perdoará. Nenhum deus aceitaria isso, um simples mortal ser adorado, um templo ser erguido para um mortal, isso é uma afronta, um desafio, uma estupidez.
O pai precisa salvar a filha...
Olha a cada manhã a jovem caminhando sozinha entre os pilares do palácio e toma uma decisão: decide consultar um oráculo.
No Olimpo, Afrodite furiosa, está dominada pelo ciúme.A deusa do amor e da beleza, sofre com o ódio que se instala em seu coração e com a feiúra do despeito. Para ela é insuportável a idéia de que um ser humano esteja sendo adorado, de que homens estejam erguendo templos de adoração para uma jovem humana.
“Bem que havia reparado que os meus templos estão pouco a pouco se esvaziando...”
Convicta da ousadia de Psiquê, e sem averiguar a inocência da jovem, que afinal não tem culpa da própria beleza, Afrodite resolve acabar com a farsa, pois compreende que um templo de adoração para um simples mortal não passa disso. Toma uma decisão e chama o seu filho, Eros, o deus do amor.
A linda deusa, vestida de branco, cabelos esvoaçantes, lábios vermelhos, olhos azuis como a safira, como o céu que entardece, como a serenidade do lago, pede a Eros que fleche Psiquê.
“Quero que você fleche uma mortal indolente, atrevida, que me desafia com um templo de adoração, quero que você a fleche e que o néctar de sua flecha se transforme num veneno e faça com que ela se apaixone pela criatura mais horrenda que existir”.
“A serpente do vale nefasto?” – indaga, perplexo com o descontrole emocional da mãe, cuja fúria ele bem conhecia, por tantas vezes que a vira transformada num vendaval arrasador.
“Sim! Se não houver outra mais horrível!”
E assim o jovem deus, com suas flechas prateadas, e as asas lilases, parte em busca da triste missão.
Não está satisfeito, ao contrário, está bastante aborrecido, pois se acostumara a injetar o amor no coração dos humanos com o néctar das suas flechas prateadas e agora, carrega consigo uma flecha negra. Mas não fora educado para contrariar a mãe.
A mancha lilás que sobrevoava a cidade era Eros, que cautelosamente se aproximou do palácio de Psiquê.
Primeiro a rodeou, observando-a, escondido atrás dos pilares. Durante todo um entardecer admirou a jovem, que com seu belo vestido dourado e o manto vermelho, passeava sobre as pedras do palácio, ao redor dos jardins.
Como que flechado pelo néctar enfeitiçado das suas próprias flechas, Eros se apaixona pela bela visão da sua vítima, e embaraçado diante da ordem da mãe, começa a questionar a sua própria atitude. Finalmente, serenamente decide que modificará a sua missão e desobedecerá a própria mãe, enganando assim a deusa do amor e da beleza.
Ao ver o pai da moça se aproximar, procura se ocultar atrás da pilastra, tomando o cuidado para que não vejam as suas asas lilases, e assim, cuidadosamente, ouve a conversa entre eles.
- “Filha, estou severamente preocupado com o seu destino. O que terão os deuses reservado para você? Tomei uma decisão. Vou consultar um oráculo”.
Eros, ao ouvir a conversa, teve uma idéia que o aproximava demasiado dos humanos. Como era amigo do oráculo, decidiu procurá-lo antes do pai de Psiquê.
Ao propor que o adivinho mentisse, teve uma surpresa inesperada:
- Eu não posso fazer isso. Um oráculo não pode mentir, por outro lado, não posso contrariar o filho de Afrodite. Não é justo, o que você me pede é muito difícil.
- Mas é por amor...
- Sim, eu sei. No amor vale tudo. Mas, se algum mortal souber disso, se algum humano desconfiar que o oráculo mentiu..., o que você está fazendo é muito arriscado. Nunca ninguém pediu uma coisa dessas...
Porém, o persistente Eros acabou sendo convincente e em nome da amizade o adivinho consentiu em participar de uma farsa. Estava decidido: mentiria para o pai da jovem. Além do mais, a causa era justa. O amor certamente move os mais intransponíveis dos obstáculos e a sua reputação continuaria íntegra, ninguém ficaria sabendo que, uma vez na vida, o oráculo mentiu.
E assim foi feito.
Ao ser consultado pelo pai de Psiquê, o oráculo profetizou algo atemorizante que tiraria dali em diante a paz do coração do homem.
Psiquê deveria ser levada ao tenebroso penhasco da Solidão. Lá deveria ser abandonada, pois a mais terrível das criaturas iria desposá-la.
O pai entristeceu. Sua alma sentiu-se atirada num precipício. Sua filha não merecia esse destino! Pela primeira vez, o bondoso rei questionou a justiça dos deuses: como é possível que uma criatura bela e doce pudesse ser atormentada por um destino tão atroz?
Mas, acostumado a obedecer aos desígnios divinos, comunicou o fato à sua amada filha. O pranto e a dor invadiram o coração de Psiquê.
Suas irmãs também choraram com a sorte da princesa. Todos, inconformados com a vontade dos deuses, entraram em luto e começaram a preparar a despedida de Psiquê.
No dia anunciado pelo Oráculo, a jovem foi deixada no penhasco pelos parentes.
Com lágrimas nos olhos, o pai e as irmãs abandonaram Psiquê ao destino dos deuses. Deitada sobre as rochas do penhasco, ficou a jovem com suas vestes brancas aguardando o tenebroso anoitecer.
Veio o vendaval, veio o frio, e permaneceu Psiquê no penhasco aguardando a chegada da maligna serpente.
Vestida de noiva, Psiquê começou a chorar e a lamentar a sua sorte, tanto gemeu, tanto chorou que, vencida pelo cansaço, acabou adormecendo.
Zéfiro se aproximou e a envolveu em seus braços. Psiquê foi levada para um lugar encantador, semelhante a um paraíso. Quando despertou permaneceu imóvel: estava em um palácio magnífico. Não compreendeu como chegara até ali. A delicadeza de Zéfiro, o deus do vento, o transformou no transporte digno de uma princesa.
O pasmo do seu olhar não se desfez. Estava num lugar maravilhoso, encantador.
Zéfiro voltava para as nuvens e no caminho comunica ao deus do amor que a sua missão estava cumprida.
Psiquê levantou-se e começou a caminhar por aquele belo lugar. Além das flores, das fontes, das frondosas árvores, descobre que está num palácio de cristal. Um lugar irreal? Seria uma alucinação, talvez o efeito da picada da terrível serpente? Teria sido possuída pelo monstro?
Não. Não pode ser. O que os seus olhos viam era verdadeiro. Estava mesmo num paraíso, e diante de si tinha um palácio de cristal, contornado por altos e belos eucaliptos. Mas, porque estava ali? Esse lugar em nada se parecia com a predição do oráculo. Que espécie de monstro habitaria tal lugar? Quem a possuiria num maravilhoso palácio de cristal? A serpente? Começou a rir. Só podia estar vivendo uma loucura.
Mal sabia que, enquanto caminhava, era observada por Eros.
Uma suave voz, vinda dos ventos, invadiu o ambiente e conquistou os ouvidos de Psiquê.
- Venha minha querida. Você tomará um banho de água cristalina, com aroma de ervas. Assim quer o nosso amo.
- Quem é você? Quem é o seu amo? Seria uma serpente horrível?
Sem obter respostas, Psiquê achou melhor obedecer. Ao se despir para o banho logo percebeu que estava sendo tratada como uma deusa. A sua incompreensão aumentou. Mas, são tantos os enigmas da vida...
Eros escondido numa nuvem, encantado observava a sua jovem.
Como nunca a usaria, parte ao meio a flecha negra e a atira longe. Aguarda ansiosamente o anoitecer, para descer ao palácio, onde terá o amor...
A princesa de extraordinária beleza, a única mortal que despertou a ira de Afrodite. Aquela, cuja beleza mortal esvaziara os templos de adoração da deusa da beleza divina, a mulher por quem Eros feriu-se de amor, caminha por um palácio de cristal.
Quando desce o anoitecer, uma voz pede que ela vá se deitar e lhe indica os seus aposentos. Quando chega ao quarto, Psiquê se deita e fecha os olhos, procurando adormecer.
Não tem idéia do que acontecerá com ela, mas tem a impressão de que o que a espera não é uma serpente alada, e o amor que viverá será tão belo quanto o palácio de cristal, para onde foi levada.
O quarto na escuridão. Está quase adormecida quando sente a suavidade tocar em seus cabelos.
- Não se amedronte. Amo-a tanto que jamais a machucaria.- disse a voz mais terna, que ela jamais ouvira.
A portadora da beleza humana cobiçada por um deus, ouve em silêncio e compreende que a voz suave que lhe acaricia os ouvidos, não pode ser de uma serpente maligna.
Mal sabe que ao seu lado está Eros, aquele que tornou o oráculo de Apolo o seu aliado nesta conquista amorosa. Aquele que enganara a própria mãe.
A mulher sente medo, mas o medo é afastado pelas ardentes carícias de Eros.
Entrega-se ao amante velado e assim foi a cada noite.O amor se fez sem que a amada desvendasse o rosto do seu amante. “Ninguém viveu tal felicidade”! - pensa Psiquê, com saudades da sua família.
E todas as noites Eros a visita em sua cama, e ela, cada vez que o ama, toca suavemente suas mãos de princesa nos contornos do rosto do amado e, embora a escuridão não permita que ela o veja, sente que não se trata de uma serpente medonha.
Certa noite, ao tocar no rosto do formoso deus, comenta:
- Eu confio no seu amor, mas eu não sei quem você é. Não poderia ver o seu rosto pelo menos uma vez? Não compreendo porque tanto mistério. Quem é você?
- São tantas perguntas. Peço apenas, por enquanto, que você continue me amando, um dia saberá quem eu sou, mas por enquanto, não é conveniente que me conheça .Mas,você é minha esposa. Continue confiando em mim...
E a princesa adormece confiante, sem saber que, ao ser amada por um deus, com esse amor torna-se definitivamente inatingível por um mortal.
E na escuridão, mesmo com o luar invadindo as frestas do seu quarto, ela jamais vira o rosto do amado. E cada vez que se amavam, se descobria mais apaixonada.
Porém, como sempre, mal o dia clareava e o sol despontava no horizonte das colinas, Eros desaparecia. E os dias começaram a se tornar solitários. Psiquê era feliz, mas durante o dia a solidão trouxe a saudade das irmãs e, embora numa noite o deus do amor tenha lhe prevenido da possibilidade de uma tragédia caso ela reencontrasse os mortais, Psiquê lhe pede um favor:
- Querido, eu confiei tanto em você e agora lhe faço um pedido. O meu coração chora a saudade da minha família. Permita que eu a veja. Por favor, é só isso que lhe peço...
- Você sabe o perigo que isso representa. Uma tristeza profunda poderá se abater sobre nós, é melhor você desistir dessa intenção...
- Mas, se me ama, como pode impedir que eu seja completamente feliz? Se me ama, como pode me negar um favor?
- Sim, eu a amo, mas quero o seu bem, e sei o mal que se aproxima. No entanto, se a sua vontade é irremovível, não sou eu que devo negar-lhe. Embora sabendo do perigo, certamente você terá o meu consentimento, afinal não saberia como dizer não para o amor...
E assim ela foi levada por Zéfiro, o impressionante deus do vento, ao encontro de sua família. Lá chegando, a alegria foi imensa. Psiquê conta ao pai e às irmãs a sua aventura amorosa.Desponta nas irmãs um dos mais comuns dos sentimentos humanos, a inveja.
- Esse príncipe, esse esposo, esse amante, afinal quem é ele? Você nunca viu o seu rosto, como se entrega assim?
- Sei que ele não é um monstro...
- Mas você precisa saber exatamente como ele é...
- Um dia eu saberei...
- Você confia muito no amor. Mas, e se ele a engana? Quem é afinal? Essa história não é convincente... Eu jamais faria amor com um estranho...
- Nem eu...
- Ele não é um estranho. Eu o sinto tão próximo, ele está dentro do meu coração, dentro de mim...
- Mas você precisa ver o seu rosto, pelo menos uma vez. Não se pode amar sem ver a beleza...
E assim os diálogos com as irmãs foram pouco a pouco implantando a dúvida no coração da princesa.
-“Estarão certas? É justo e seguro amar um estranho? Sei que não é o monstro que me aguardava, mas talvez eu deva mesmo ver o seu rosto. No entanto, será que tudo não passa de inveja? Que tormento! Como é difícil tomar decisões...”
Realmente, a jovem apaixonada não dera nenhuma importância aos avisos do amado misterioso e também não consegue decidir entre a suposta inveja das irmãs e a curiosidade de desvendar o rosto do seu amor...
A indecisão costuma implantar a fragilidade, e enfraquecida, Psiquê ouve as palavras das irmãs, que aos seus ouvidos soam carregadas de uma imaginária preocupação. Resolve seguir os conselhos, parte do principio de que a família só iria querer o seu bem.
- Não se assuste Psiquê, mas certamente com a luz do dia ele se transforma na serpente que o oráculo falou .Você deve tomar uma atitude. Só os demônios ousam se ocultar...
- Digam, o que eu devo fazer?
- É simples. Faça amor com ele como em todas as noites, mas assim que ele adormecer, você acende uma vela e a aproxima do seu rosto. Assim que você ver o seu rosto saberá se ele é a criatura monstruosa ou um belo príncipe...
- Sim, farei isso, cuidadosas irmãs, mas eu sempre pensei que a verdadeira beleza estivesse ocultada, que ela morasse dentro do coração...
- Engano seu,Psiquê, a beleza está no rosto, na aparência. Se esse seu amado se esconde na escuridão é porque boa coisa não é. Tome, leve essa vela...
- Obrigada.
Ao retornar, a princesa recebe uma nova advertência do amante, que se mostra aborrecido com a visita à família. Para ele um gesto premonitório, um sinal de que coisas trágicas poderão acontecer. Pede-lhe que tal coisa não se repita. Essa sua preocupação excessiva desperta em Psiquê a curiosidade e a desconfiança.
Na madrugada, após ter se certificado do sono de Eros, aproxima a vela de seu rosto.
Ao ver o belo rosto do jovem deus, estremece.O espanto com a beleza se mescla e se confunde com a felicidade imensa que sente.
“ Eu sabia! O tempo todo eu soube que ele não era um monstro”.
Mas a sua felicidade é bruscamente interrompida com o despertar de Eros.
- O que significa isso, Psiquê?
- Perdoa, meu amado...
- Você não confiou em mim. Vou-me embora. O amor exige confiança.
- Mas eu sempre o amei...
- Você não me amou o suficiente...
- Não seja ingrato, eu me entreguei ao seu amor, sem conhecê-lo.
- Mas não sossegou enquanto não visse o meu rosto. Certamente a beleza está para você em primeiro plano. Certamente a aparência regozija-lhe a alma. Adeus, Psiquê.
Enquanto o amado partia, finalmente o reconhecia como o deus do amor, pelas esculturas que havia visto nas cidades por onde passou.
O filho de Afrodite parte para as nuvens. Nenhum poema poderia traduzir as lágrimas de Psiquê com a medonha solidão que repentinamente se instala em seu coração.
A jovem que um dia atraiu mais gente do que Afrodite, agora chora em seu leito de solidão.
Seu amado, surgido do caos, não mais voltará?
Nada se compara a visão de Afrodite quando ela aparece para um mortal e Psiquê tem esse privilégio. Após meses de andanças, invoca aos prantos o nome da deusa, sem imaginar o quanto esta tentou prejudicá-la.
- Ajude-me, formosa deusa.
- Por sua causa, meu filho me traiu. Como posso ajudá-la?
- Eu imploro! - clama a jovem banhada em lágrimas. O tom plangente das suas palavras sensibiliza a deusa, que afinal sempre sentira ciúme da beleza de Psiquê, porém não o ódio.
- Está bem, vou ajudá-la, mas você terá que cumprir algumas missões.
Quando você necessita de ajuda aceita quaisquer condições. E Psiquê, desesperada, concordou com a deusa.
- Atrás daquele arbusto há um saco repleto de sementes que você deverá separar, uma por uma, até o anoitecer.
- “Mas é impossível!”- pensou.
- Tenho certeza de que você conseguirá, pois nada é impossível para quem desafiou a ira de Afrodite. - disse ironicamente a deusa, como se pudesse ler os seus pensamentos.
Psiquê executa a árdua tarefa com a ajuda das formigas. Ao apresentar-se para a deusa, causa-lhe espanto.
- Como você conseguiu? Era humanamente impossível! Bem, não importa. Você é corajosa.
Dizendo isso, Afrodite apresentou-lhe a segunda tarefa: tosquiar as lãs de ouro de um carneiro.
- Psiquê contou com a ajuda de Zéfiro, que lhe mostrou a solução. Bastava arrecadar os novelos de lãs que ficavam presos nos espinhos dos roseirais, quando os carneiros passavam por entre eles. E assim foi feito.
Mais uma vez, a jovem surpreendeu a deusa, que lhe ofertou um novo desafio, enquanto ordenou –lhe que dormisse diariamente no chão e se alimentasse apenas de pão e água, para que o agreste interferisse na sua beleza e a fraqueza diminuísse a sua determinação.
- Você deverá descer ao inferno e pedir a Perséfone um frasco com a fragrância da sua beleza. Traga-o sem abrir! O que estará aprisionado no frasco é a água da juventude. Eu preciso de um pouco da beleza de Perséfone para me revigorar.
Mas, a exemplo de Eros com o oráculo, Afrodite combinara com Perséfone, a do triste destino, para que ela colocasse, no lugar das essências da sua beleza, outra coisa.
Partiu. Acompanhada por Zéfiro chegou ao inferno. Lá do alto viu o barqueiro, e desceu aos portões. Atormentada pelos demônios, conseguiu chegar até Perséfone, cuja beleza impressionante a perturbou.
Aproximou-se da esposa de Hades, que vestida de vermelho, com os longos cabelos dourados, cor de fogo, e olhos fundos, extremamente solícita, perguntou-lhe o que queria.
Psiquê implorou pelo frasco. A estranha figura, comovida com o sofrimento da jovem, preveniu-a :
- Não abra jamais este frasco. Entregue-o fechado para Afrodite. O seu conteúdo lhe pertence. Seja prudente, menina.
Talvez prudência não combine com vaidade nem com curiosidade, e no caminho as palavras bondosas e o alerta de Perséfone, se dissolveram na memória dos ouvidos de Psiquê.
Abriu o frasco.
Em vez de encontrar a água da juventude, do frasco espalhou-se no ar um mortífero gás, que a envolveu num infinito sono.
Vaidade, unida aos poderosos tentáculos do ciúme, levaram-na para as subterrâneas trevas do sono.
Inconsciente, com o sono da morte, Psiquê despertou a atenção de Eros, que do Olimpo acompanhava todos os passos da amada.
O grande amor desfere nas rochas da mágoa golpes profundos e a rocha dissolvida abriu as portas do coração de Eros, para que entrasse a sensata brisa do companheirismo.
Foi até Psiquê e, ao encontrá-la desfalecida, tocou em seu corpo com uma de suas flechas. A jovem despertou e ao ver o rosto do amado, não conteve o choro da felicidade.
Levou-a ao Olimpo.
Com o consentimento de Zeus, se casaram.
Psiquê tomou o néctar dos deuses, tornando-se imortal.
Quando Zeus lhe oferece a Ambrósia, comenta:
- Seja bem vinda!
Unindo-se a Eros, vive o seu merecido amor por toda a eternidade.
Certa noite, Eros sobe no mais alto dos penhascos e, diante das estrelas, ergue o fruto do seu amor: Volúpia.
PSIQUÊ, recontado por Marciano Vasques
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quarta-feira, 10 de março de 2010
ORFEU
ORFEU
Para o velho Eagro, o temido e admirado rei da Trácia, amante da guerra, homem das armas, a música é barulho e a educação do filho caçula, um fracasso.Esse é o seu desgosto: não conseguira educar Orfeu para a guerra.
A sua belicosa pedagogia não conseguira sensibilizar para a guerra o jovem com alma de artista.
Eagro sofre. É um rei, tem poder, mas perdera o próprio filho.
Quando o chama, tem entre os dedos a última e desesperada tentativa de cativar o neto de Ares, deus da guerra, para o mundo do guerreiro. O filho o acompanha à sala. Na parede: elmos, armaduras e armas.
"Quero que receba de seu velho pai este presente. Nele está depositado o meu coração" diz ao jovem. Quando Orfeu abre a caixa vê diante de si um arco e um par de flechas, banhados a ouro.
Ao retesar a corda, Orfeu produz um som encantador e repentinamente as coisas da sala parecem adquirir vida.
Cadeiras balançam, armas caem da parede. Tudo parece se movimentar. O som flutua no palácio, sensibilizando os empregados.
Eagro fica furioso. Seus olhos sangram, na voz palavras terríveis lançadas ao ar como chamas: - Vá embora! Desapareça! Não o quero mais aqui! Eu não o queria assim, um ... um cantador... um artista...um...um..." - mal consegue pronunciar as palavras: - "Você decepcionou seu pai". Eu o queria um guerreiro, um bravo, um amante das guerras, por isso vá embora!"
Expulsa o próprio filho da sua casa, do seu reino.
Ninguém pode penetrar na dor de Eagro, nem compreender a alma da música que invadiu o coração de Orfeu.
Orfeu olha para Eagro, pensa em Calíope, sua mãe. Em seu pensamento dançam as lembranças das aventuras vividas na velha Trácia. Olha para o monte Olimpo, pois habitava perto dele. Mas é o fim. A sua música não seduziu o velho pai.
Orfeu corre sem parar. Penetra cada vez mais na floresta. Verdes bailam em sua passagem, a ventania se esquiva, a floresta emudece, pássaros silenciam. A cacatua, a cotovia...
Ao chegar na clareira da floresta, caiu ao chão e adormeceu. O cansaço o venceu. Quando desperta constrói para si um instrumento musical, uma cítara. Coloca nove cordas no instrumento.
Seu enverdecido pensamento pensa que a música será a sua única companheira e então, ao tocar, inventa o antídoto do mal. Tem a imensa convicção de que a música espanta os males.
Ninguém o seguirá, será o cantador solitário das florestas. Aonde ele for, a sua música estará com ele. "Sou Orfeu"! quer gritar, mas seu pensamento é transformado em terna melodia.
Verdes o reverenciam, caules e flores abrem passagem para a sua música. Mas, ele se enganara, não segue solitário.
Por onde passa, encontra amigos, todos o seguem para ouvi-lo, querem apreciar a sua música, que se mostra curativa da alma. A cada acorde seduz a natureza.
Pássaros aperfeiçoam seus cantos com Orfeu, pardais, gralhas, rouxinóis, cotovias, melros. Ele entrelaça o seu canto com o dos pássaros.
Animais esquecem a rivalidade natural e, com a natureza subvertida, passam a conviver em harmonia. Raposas, texugos, veados, leões, corças, javalis.
Até os insetos o seguiam atraídos pela mágica sonora. Tomados pelo encantamento, borboletas, libélulas e gafanhotos o seguem.
As flores adquirem novas cores, os girassóis se iluminam, verdes e azuis se renovam. A sua música opera milagres indescritíveis.
Certa vez, quando a floresta entardecia, Orfeu teve o pressentimento de que estava sendo observado.
Sentiu olhos pelas frestas, e ficou apreensivo.Estaria sendo seguido? Teria invadido território sagrado? Teria ofendido aos deuses? Para espantar os males, decidiu cantar e seu canto revelou entre as folhagens a bela criatura que o espreitava.
Surgiu diante dele, dançando, uma ninfa de cabelos longos e possuidores da cor da floresta. Ele, atônito, ficou paralisado diante da ninfa. Ela começou a falar. A voz penetrou no coração de Orfeu.
"Eu sei quem você é" - disse a ninfa, que se mostrou conhecedora das proezas de Orfeu, que, transformadas em lendas, percorriam as florestas e varavam os povos.
"Já ouvi muitas histórias sobre você. Você derrotou o leão montanhês, o seu canto abriu o rio, as águas se ergueram, o rio se dividiu. As ondas foram detidas, e você abriu uma passagem entre as águas. Formaram-se duas paredes de água e você caminhou pelo corredor entre essas paredes. Você fez rochas dançarem, enfrentou e acalmou o dragão de três cabeças que guardava o Velocino de Ouro. Também salvou os argonautas da sedução do canto das sereias. Você, que é um sedutor..."
Realmente a ninfa sabia muita coisa sobre Orfeu. Conhecia as aventuras, sabia das lendárias histórias que se contavam sobre o cantador da floresta e enquanto falava essas coisas, deixava escapar que estava apaixonada pelo jovem.
"Qual o seu nome?" perguntou Orfeu, atordoado pela beleza da ninfa de cabelos florestais.
"Eurídice" respondeu.
"Sim, Eurídice. Agora eu sei quem é você. Você é a bela dançarina da floresta, e eu a quero a meu lado. Com você comigo sou mais forte, você com a sua dança aperfeiçoa o meu canto"
E ali, naquele enternecido momento, entre verdes, animais, pássaros e flores, se tornaram amantes.
Quis o destino que esse encontro trouxesse felicidade para a floresta, pois assim foi. Por onde passaram, a felicidade se espalhou. As frestas de sol invadiram as solidões da floresta, adeuses se afastaram, lamentos e dores, tragédias e tristezas, tudo desapareceu. Os prantos se dissolveram, as mágoas foram esquecidas, só alegria, amizade, ternura, felicidade...
Os povos da floresta, animados e agradecidos pelo bem que a música de Orfeu e a dança de Eurídice trouxeram, resolveram preparar uma bonita festa de casamento.
Todos participaram dessa preparação, animais e pessoas.
Os animais enfeitando as árvores, os homens construindo um altar e as mulheres tecendo um pano maravilhoso para o vestido de noiva de Eurídice.
Trabalharam dias seguidos na preparação desse significativo evento, a cada manhã, a cada entardecer e a cada noite, iluminados pelos candelabros naturais de milhares de vaga-lumes, e pela luz prateada da lua, que vagando no céu espreitava comovida a felicidade do casal.
O casal continuava espalhando a felicidade com a bela união.
Os habitantes da floresta ansiosamente aguardavam o grande dia, quando entre caules, galhos e rochas, percorreu a aterrorizante notícia de que terrível criatura se aproximava destruindo tudo, arrancando árvores, rochas despedaçando.
A assombrosa criatura, uma fera medonha, enorme, incapaz de ser detida por um exército de guerreiros, já dizimara aldeias, aniquilara famílias inteiras, e rasgara ao meio os mais fortes animais selvagens. Nada poderia detê-la. A única esperança, o canto de Orfeu.
Talvez, com a música, ele pudesse salvar da fatalidade, da desgraça e da tragédia os povos da floresta.
Os habitantes florestais imploraram para que ele fosse até a região montanhosa, onde estava a criatura medonha que se aproximava, para enfrentá-la.
Os anciões, reunidos em conselho, convenceram Orfeu a partir na véspera do seu casamento para enfrentar a criatura. "Só você, com seu canto, conseguirá deter a criatura". disse um pastor.
E assim ele se foi, deixando a visão esplendorosa da preparação do seu casamento. No caminho colheu uma flor lilás e entregou-a a Eurídice. "Fique em paz, eu retornarei. Guarde esta flor, ela simbolizará o meu canto até a minha volta".
Partiu em direção ao perigo, não podia se negar a salvar a vida de tão preciosos amigos e sabia, mais do que ninguém, que a sua música nascera para beneficiar a humanidade.
Tinha plena consciência que, se o seu canto não conseguisse acalmar a estranha criatura, tudo estaria perdido e, tantos os habitantes das florestas, quanto os animais e as árvores, estariam arrasados, tudo estaria destruído.
"Eu voltarei"! - disse para a sua dançarina, que, cortada pelas lágrimas do temor, abraçou forte o seu guerreiro do canto, e murmurando pediu proteção aos deuses, enquanto apertava o corpo ao de Orfeu, que emudecido num soluço, partiu para a arriscada missão.
Eurídice ficou sozinha com a sua flor lilás na morada da floresta, mas dias depois, despertada pela curiosidade natural das fêmeas, se dirigiu à clareira da floresta para ver como andava a preparação do seu casamento.
Acompanhada pelos pássaros e os olhos dos animais amigos entre as verdes frestas, a doce ninfa seguiu seu rumo, quando alguém a agarrou.
Pensando se tratar do amado que voltara, pronuncia o seu nome, mas logo descobre o engano fatal.
Está diante do guerreiro agricultor, filho de Apolo, que sempre fora apaixonado por ela, mas como não conseguira conquistar o seu coração com o afeto e as armas naturais do amante, resolveu usar a força e covardemente a ataca.
Como nunca conseguira transmitir encanto para Eurídice, queria violar sua própria paixão.
- Solte-me Aristeu! Você não pode fazer isso! Ninguém manda no coração de uma mulher! Você sabe quem eu amo...
Uma força maligna subiu ao coração de Aristeu, o seu sangue transformou-se em chamas, dos seus olhos o ódio e o desprezo invadiram o ar.
Ele, o filho de um deus, um forte, ser derrotado por um músico, ter perdido o amor de Eurídice por um artista, é uma humilhação sem fim...
Furiosamente, dominado pelo ódio da perda, atirou Eurídice ao chão. Ela aproveitou e tentou se levantar e fugir, mas, mal dera alguns passos, foi picada por uma serpente.
O veneno e a dor imediatamente atingiram seu sangue. Contorcendo - se, caiu ao chão. Aristeu, tão covarde como chegara, foge, abandonando-a.
Quando o povo da floresta a encontrou, sua azulada alma já se dissolvia por entre as folhagens e se recompunha no ar, voando como que levada pelos ventos em direção ao mundo dos mortos.
Dois lenhadores a ergueram com cuidado e um deles, com a voz trêmula e encharcada pela dor, disse:
- "Não há nada a fazer! O veneno penetrou em seu coração. A sua alma já não está entre nós. Vamos levá-la para o altar".
E assim, quando o sol se recolhia entre as frestas das folhas, o povo da floresta entristecido, levava o corpo de Eurídice, enquanto a sua alma já se aproximava dos enormes portões do mundo dos mortos.
Entre os gravetos do caminho, uma flor lilás murchava...
Quando Orfeu retornou vitorioso após ter acalmado a horrenda criatura com o seu canto, numa feroz batalha entre a arte e a fera, e assim ter salvado os amigos da floresta, foi invadido por uma súbita felicidade ao avistar ao longe a multidão ao redor do altar.
Pensou se tratar da animação dos últimos preparativos do seu casamento. Sorriu.
Ao chegar perto do altar, ao ver a tristeza infinita nos animais e também nos olhos do povo da floresta, pressentiu que algo estava errado e cautelosamente se aproximou da multidão.
Ao deparar com o corpo de Eurídice estendido no altar e ver o seu rosto pálido como a cera, gelado, sem vida, caiu em prantos e abraçou desesperado o seu corpo.
Seu pranto varou a floresta, atravessou árvores, e transformado em melodia voou sobre lagos e rios. Levado por uma forte e repentina ventania subiu aos ares.
O mais dolorido dos choros, transformado na mais triste melodia, chegou ao monte Olimpo, a morada dos deuses.
Zeus, comovido pelo plangente tom da melodia, ordenou a Hermes, o mensageiro dos deuses, que descesse à terra e levasse Orfeu ao mundo dos mortos. Hermes chegou à floresta de Orfeu, e transmitiu ao músico a mensagem do deus dos deuses.
Zeus, convencido da força da melodia de Orfeu, acreditou que talvez ele pudesse enternecer o coração de Hades, o senhor dos infernos.
Ninguém jamais conseguira tocar o coração de Hades, mas Zeus, diante da dor de Orfeu, resolveu se arriscar. Se o músico conseguisse comover ou pelo menos sensibilizar o senhor dos infernos, ele permitiria que levasse a sua amada de volta para o mundo dos vivos.
Hermes acompanhou Orfeu até o barco de Caronte, o terrível barqueiro que transportava as almas para o mundo subterrâneo. Orfeu carregou consigo a lira, o presente de casamento que lhe daria o povo da floresta.
Ao chegarem, enormes portões foram abertos.
Demônios e almas medonhas guardavam a entrada daquele lugar assustador, mas Orfeu só tinha uma coisa no pensamento: reencontrar Eurídice e levar a sua alma de volta para o mundo dos vivos.
Entrou.
O poeta dos verdes inicia a sua descida aos infernos.
Então surge diante dele, a esplendorosa visão de Hades, ao lado da esposa e companheira Perséfone, a do triste destino.
Orfeu fica momentaneamente paralisado diante de tão rara e impressionante visão, pois nenhuma alma viva jamais vira Hades, porém logo em seguida começa a entoar a mais doce e profunda melodia que jamais então se ouvira.
E algo estranho aconteceu.
O coração de Hades foi atingido. O senhor do mundo dos mortos se comoveu. De seus olhos uma lágrima surge, imediatamente evaporada pelo calor daquele horrível lugar. Perséfone, a do triste destino, ouve em silêncio o esposo perguntar a Orfeu o que ele queria: - "Fale meu jovem, o que você quer de mim"?
- "Eu vim buscar a minha amada. Quero levar de volta a alma de Eurídice para o mundo dos vivos"! disse Orfeu com determinação.
"Eu consinto"! - disse Hades, enquanto fazia um gesto para um demônio, para que buscasse a alma de Eurídice.
- "Mas tem uma condição. Você não poderá em nenhum momento olhar para trás. Isso é um acordo. Se você olhar para trás, perderá para sempre a sua amada".
Orfeu concordou e começou a caminhar em direção ao mundo dos vivos. Do lado de fora dos portões, o barco esperava por ele.
Atormentada por demônios e almas prisioneiras, atrás vinha a sua Eurídice, gritando.
Também demônios o atormentavam, tentavam arrancar a sua lira e o chicoteavam. Mas Orfeu seguia corajosamente, sem hesitar, e quanto mais subia em direção aos grandes portões, mais se aproximava da certeza de que breve teria de volta em seus braços a doce dançarina.
Mas a sua vontade começou a fraquejar.
A dúvida começou a invadir o seu coração, a incerteza começou a abalar os seus passos. Estaria realmente sendo seguido por Eurídice? Aqueles gritos não seriam apenas alucinações? A dúvida instalada em seu coração o colocou diante do precipício do perigo de se romper um acordo, e despedaçado pela dúvida, olhou para trás.
No mesmo instante a alma de Eurídice se dissolveu. Em pó ao mundo dos mortos retornou.
Desesperado quis voltar, tentar segurar a sua amada que desaparecia para sempre no mundo subterrâneo.
Aos gritos, foi levado pelos demônios de volta para o mundo dos vivos e então se entregou ao abandono. Nunca mais quis saber do canto, entrou na mais triste solidão e se esqueceu, deitado, na mesma rocha da floresta onde um dia se sentou para construir a sua cítara, e lá ficou.
Orfeu, abandonado, não quis ouvir ninguém. O pastor do povo da floresta tentou reanimá-lo, mas não conseguiu. Disse o pastor: "Todos nós participamos da sua dor, mas só depende de você que a tristeza se transforme em canto", mas Orfeu nada respondeu, continuou no seu silêncio gelado de pedra, deitado na rocha, transformada em leito de morte.
O jovem amante cantor das florestas, decretou a eternidade do seu amor e a ele devotou seus últimos dias.
Folhas choraram orvalhadas diante da sua fragilidade.
Orfeu para sempre esperaria pela sua amada, na certeza de que a teria novamente nos braços e, a cada dia, foi perdendo o interesse por tudo.
O jovem que com o seu canto suavizava a dor, que desceu ao mundo das trevas, passou a viver para a eternidade do seu amor.
Um grupo de mulheres da Trácia, as bacantes, seguidoras da alegria, seguidoras do vinho, não suportavam a fidelidade de Orfeu para com a sua amada.
Como era muito difícil para elas suportarem a fidelidade do homem Orfeu, armadas com paus e pedras mutilaram o cantor das florestas.
Retalharam, trucidaram, despedaçaram atrozmente o jovem fiel.
Jogaram os pedaços ao rio, e junto, a lira, que Orfeu nunca mais tocara.
Seus restos, sua cabeça e a lira chegaram à ilha de Lesbos.
Os poéticos habitantes da ilha prestaram-lhe as homenagens fúnebres.
Edificaram um túmulo.
O músico, que não conhecia fronteiras entre a vida e a morte, descansou na ilha onde a poesia habitava.
Quando anoiteceu, o povo da floresta ao olhar para o céu, encontrou pela primeira vez a Constelação de Lira.
RECONTADO POR MARCIANO VASQUES
Originalmente em RioTotal
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