sábado, 23 de outubro de 2010

O SAPO RELENDO

Sapabela encontra o amigo lendo um livro sob uma árvore.
- Adora ler, Rospo?
- Reler, Sapabela, reler.
- Reler?
- Ao reler um livro o leitor já é um novo sapo, um outro sapo.
- Mas o livro é o mesmo.
- Porém cumpriu a sua função primeira.
- Função?
- É o modo de falar.
- Qual é a "função primeira"?
- Modificar o sapo. Após a primeira leitura de um livro, o sapo não é mais o mesmo.
- E o que acontece quando o novo sapo lê pela segunda vez o mesmo livro?
- Como é um novo sapo, descobrirá outras coisas  que o sapo da primeira leitura não descobriu.
- E se o sapo ler pela terceira vez?
- Descobrirá outras coisas... A possibilidade de exploração de um texto é imensa...
- Então o livro sempre tem coisas novas para oferecer? ...
- Sempre! Ele sempre está pleno de novidades... Para cada nova leitura...
- Ou seja, cada novo sapo.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 302

Marciano Vasques

LUA


EXPOSIÇÃO PROFESSOR ARTISTA


EXPOSIÇÃO PROFESSOR ARTISTA


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

LUA AFRICANA NA ESCOLA, NO TREM...


A SOBERBA E SABEDORIA

 - Rospo, como sempre responde com rapidez, responda rápido: A vida é ríspida?
-  Às vezes é ríspida, às vezes é rústica, às vezes é brusca...
- Brusca? A vida é brusca?
Sim, Sapabela, e nos cabe buscar a sua grandeza, o seu mistério, a sua estética...
- E onde isso pode ser encontrado?
- Na simplicidade...Veja aquelas sapas.
- O que tem elas?
- Uma é imponente, arrogante, presunçosa, convencida, auto-suficiente... e a outra é simples, apenas isso, simples.
- Quem são elas?
- A primeira é a soberba, a segunda, a sabedoria...

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 301

Marciano Vasques

A ESTÉTICA DO SAPO

Rospo, reparei que você jamais fica estático, parado. Qual é a sua estética de vida?
- Gostei do seu vestido esmeralda, Sapabela.
- Obrigado! Qual a sua estética de vida?
- Verdade, Sapabela. Mesmo quando estou no ócio, passeando ao sol... Não estou parado.  Belo vestido esmeralda.
- Obrigado novamente. Qual é a sua estética de vida, Rospo?
- A do esmero, do amor. Se não pôr amor nas coisas que faz nem vale a pena fazer. Essa é a minha estética preferida.
- Falar em preferida, fiquei pré-ferida só de ver como a campanha eleitoral aqui em nosso brejo tenta aviltar a minha consciência. Será que ignoram que tenho cérebro? E cérebro de Sapa antenada...
- Tem razão, Sapabela. É uma campanha que não respeita  o eleitor. Pensam que ele não pensa. Ora, o eleitor é um ser pensante. Não é ardiloso como a maioria dos políticos, mas que tem pensamento, isso lá tem.
- O que falta na campanha, Rospo?
- A estética.
- A do amor?
- Isso mesmo!
- Rospo, penso que nossos políticos estão longe disso.
- Mas não podem querer arrastar a todos para uma distância tão abismal.

HISTÓRIAS DO ROSPO  2010  - 300

Marciano Vasques

O SAPINHO E OS SINÔNIMOS

Rospo passeia com Rospinho, seu sobrinho estudante, um sapinho esperto que só ele.


  -“O que é sinônimo, tio?” - pergunta o pequeno, sempre curioso.
- Sinônimo é a palavra que tem o mesmo sentido, o mesmo significado que uma outra.
- Quero um exemplo!
- Muito bem. Querer é sinônimo de desejar.
- Não é sinônimo de poder?
- Não exatamente, Rospinho. Mas vamos a outros exemplos: amigo é sinônimo de companheiro...
- Continue, estou gostando...
- Valente é sinônimo de corajoso, pequeno é sinônimo de miúdo, longe é sinônimo de distante. Compreendeu, Rospinho?
- Sim, tio Rospo, entendi... Eu queria mais alguns exemplos...
- Está certo; perto é sinônimo de próximo, belo é sinônimo de lindo, enorme é sinônimo de imenso, calmo é sinônimo de tranqüilo, feroz é sinônimo de bravo... Está satisfeito, Rospinho?
- Sim, estou contente.
Agora dê você também um exemplo, por favor.
- Na hora o sapinho se prontifica.
- VIAJAR É SINÔNIMO DE GOVERNAR!
- “ Sei não,esse menino está ficando esperto. Hum, hum...Será que esperto e inteligente são sinônimos? 

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 299

Marciano Vasques

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O TEMPO NÃO PODE SER RECICLADO

Rospo liga para um amigo.
- Olá! Liguei agora por que é hora do Reality Show.
- Eu sei, Rospo, estou assistindo...
- Por isso mesmo. Alguém tinha que ajudá-lo.
- Não quero ajuda, Rospo!
- Decidi testar a força da amizade.
- Do que está falando?
- Se conseguir resgatar você, será um a menos...
- Mas que negócio é esse da força da amizade?
- Amizades costumam influenciar, para o bem ou para o mal.
- Diga logo o que tem para dizer.
- Ora, está desperdiçando o seu tempo, jogando  ao lixo, perdendo o que tem de mais precioso...
- Rospo, cada um cuida da sua vida, e tudo bem: Reality Show é desperdício de tempo, é perda total? Mas, o tempo é meu! Faço com ele o que quiser! FAÇO COM ELE O QUE QUISER! ENTENDEU?
- Calma! Não precisa gritar! Investir na burrice é ser tolo além da conta, além do mais, o tempo é seu, mas o amigo é meu.
- Ora digo eu, Reality Show ajuda a passar o tempo.
- Passar o tempo? Ora, isso é a subtração do tempo, Não queira perdê-lo de forma tão escancarada... Lembre-se: O tempo não é reciclável... Perdeu, perdeu. Não deixe escorrer pelo ralo algo tão valioso. Seja o ourives do seu próprio tempo,
- Acabou, Rospo?
- Acabei !
- Então, tchau! E deixe-me assistir em paz.
- Tchau, eu tentei.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 298
Marciano Vasques

O SAPO E O ÓCIO

Sapabela encontra o Rospo passeando numa ladeira da cidade.
- Rospo, que anda fazendo por aqui?
- Aproveitando o ócio...Tornando o tempo livre produtivo.
- Mas você está apenas caminhando!...
- Engano.
- Oba! Faz tempo não me enganava.
- O meu pensamento está a todo vapor.
- Entendi. Está organizando a criatividade.
- O ócio é por demais precioso e necessário, Sapabela. O tempo livre é um tesouro. Quem tiver a chance das horas livres ...
- Quem encontrar um sapo caminhando na calçada saberá que ele está aproveitando o tempo. E quando um sapo assiste aos Reality Shows?
- Lamento muito. É difícil educar sapo adulto. Mas é triste o sujeito jogar fora o tempo, desperdiçar dessa forma algo tão precioso.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 297

Marciano Vasques

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

OS TENTÁCULOS DA FELICIDADE

O sol retorna e o sorvete também. Sapabela e o amigo se encontram numa calçada.
- Rospo, já estava me acostumando a vê-lo de guarda-chuva azul.
- Guarda -chuva azul é uma bela visão na chuva, mas cá estamos, novamente ao sol.
- Só por ser sábado, tenho uma pergunta.
- Perguntas sempre são bem vindas. Aliás, são elas que movimentam a vida e tornam os sapinhos fascinantes...
- Qual é, para você, o nome da felicidade?
- Sapabela.
- Ora, Rospo. Sapabela é nome de sapa, ou seja, eu!
- Mas é minha amiga. E amizade é um dos tentáculos da felicidade.
- Tentáculos?
- Sim, um livro, um amigo, são tentáculos. A felicidade busca formas de se manifestar. Ela espalha as ramas no coração.
- Ramas?
- É. Tentáculos. Sapabela. Tentáculos...
- O livro, a amizade, são apenas tentáculos que  levam ao eixo, ao centro do coração, onde ela reside.
- O coração é a morada da felicidade?
- É no coração que todos os reinos residem, desde os tempos imemoriais...
- Então é preciso cuidar do coração?
- Sim, comece cultivando grandes amizades...
- E como saber se uma amizade será grande? ...
- É só adubar bem a semente... Fortalecer o caule...
- Vamos ao sorvete?
- Vamos, o sábado não espera.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 296

Marciano Vasques

AMOR E DESEJO


- Rospo? Há diferença entre amor e desejo? São realmente sentimentos diferentes?
- De certo modo sim. O desejo basta a si mesmo. O amor necessita de complementos. Ele é dependente...
- É mesmo, Rospo? 
- Sim, Sapabela. O desejo corresponde ao sentimento de posse. Quando um sapo deseja algo, ao ter a posse do objeto desejado, ele se considera satisfeito. O desejo foi realizado, cumpriu a sua natureza.
- E o amor?
- O amor também pode atender ao capricho da posse, mas não basta a si mesmo...
- Muito profundo, Rospo, pode ser mais objetivo? O desejo é prejudicial à vida?
- De maneira nenhuma. O desejo move o mundo. Sou a desejabilidade. Estou a dizer: meu nome é desejo!
- E então?
- Falamos aqui de um desejo que em seu significado é diferente da vontade. Refiro-me ao desejo que só pressupõe a posse.
- Nossa!
- O amor, para sobreviver e continuar existindo, necessita e clama por zelo, cuidados, cultivo, carinho. O amor precisa ser alimentado diariamente. Precisa ser abastecido. Só o afeto e a dedicação garantem a sua manutenção.
- E quando o amor deseja e luta pelo objeto desejado?
- Ao conseguir o objeto desejado, se não houver o afeto, o cuidado, a dedicação, o amor transforma-se em pura posse.
- Amor e desejo não combinam?
- Estão entrelaçados, mas só o amor resiste sem a posse. Você pode apenas amar. O desejo maior do amor é a felicidade do ser amado. E nem sempre a posse garante isso.


HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 295

Marciano Vasques

O SONHO SAPECA DO SAPO

Rospo encontra a sua melhor amiga.
- Sapabela, tive um sonho sapeca ontem à noite.
- E está querendo contar, não é?
- Não conto sonhos, Sapabela.
- Sei, só tenta realizá-los.
- Ou compreendê-los.
- E esse sonho? É para ser decifrado ou realizado?
- Um sonho sapeca sempre necessita de outro alguém para ser realizado.
- Uma sapa, certamente.  Alguém que na vida real possa entrar no seu sonho...
- E você, Sapabela?
- O que tem eu?
- Já teve algum sonho sapeca?
- Claro! Sapas também sonham.
- Sonhos sapecas são desejos reprimidos?
- Nada tenho reprimido em mim.
- Por que certas coisas tão naturais são consideradas tabus? Por que surgem os preconceitos?
- Nada do que é natural é pecaminoso, Rospo... Sobre a origem dos preconceitos, melhor viajar no tempo, por séculos e séculos, amém.
- E o meu sonho, Sapabela?
- O que tem ele?
- Vai deixá-lo assim, desamparado? Apenas um sonho sonhado?
- Não teve nem um convite para um sorvete no seu sonho?
- Foi o começo de tudo.
- Nessa parte eu participo.
- E o resto do sonho, Sapabela?
- Sonho apressado é como sonho ligeiro. Quase sempre se desfaz no ar...
- Sem radicalismo, Sapabela. Às vezes um sonho demorado também se desfaz  de tanto esperar...
- Está bem, eu aceito.
- !
- O que aconteceu? Perdeu a  voz, Rospo? Nossa! Nunca vi um sapo tão vermelho. Eu disse que aceito o sorvete.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 294

Marciano Vasques

terça-feira, 19 de outubro de 2010

ROSPO RICO

Lá vinha o Rospo correndo, gesticulando, chacoalhando os braços, todo eufórico...
- Estou rico! Estou rico! Sapabela! Estou rico...
- Rospo! Que escarcéu! Que escândalo! Não consegue se comportar?
- A minha alegria fura os bloqueios do cotidiano...
- Eu sei, meu querido, mas você é muito barulhento. Diz, ou melhor, berra, que ficou rico. Ganhou na loteria?
- Tenho amigos, escrevo poemas, adoro ler, contemplo a natureza, defendo os animais, amo as crianças, sou sincero, creio no amor...
- Entendi, é outro tipo de riqueza...
- Exato.
- Rospo, você não está rico...
- Não?
- Você está é milionário.
- Iuuuuuuuuuuuuuuuupi ! Iuuuuuuuuuuuuuuuuupi!
- Rospo, por favor, fique quieto! Comporte-se, pelo menos uma vez na vida...

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 293

Marciano Vasques

CONVITE

LANÇAMENTO DE LIVRO

Dia 22/10, às 20h, será a noite de autógrafos para o lançamento do livro Eu me Lembro: crônicas, contos e poesias no hall de entrada do Edifício Matarazzo, sede da Prefeitura da Cidade de São Paulo, no Viaduto do 
Chá, nº15.

Marciano Vasques, um dos vencedores do Concurso, estará presente autografando.

FELIZ CAFÉ DE OUTUBRO!

Um Café de Outubro para você 
neste dia tão importante!

A CHUVA E AS AMIZADES

Plena chuva, Rospo decide visitar a amiga Sapabela.
- "Que ótima ideia tive! Assim estreio o meu novo guarda-chuva azul!" . Antes de sair, decide telefonar.
- Sapabela! Tem pipoca?
- Não, Rospo, mas tenho o microondas.
- Que joia! Tem bolo de cenoura?
- Não, mas tenho o forno.
- O que falta para o bolo de cenoura?
- A própria.
- Maravilha! Eu levo. Tem algum DVD inédito?
- Não, mas na minha quadra tem uma locadora...
- Está chovendo forte aí?
- Rospo, eu sou quase sua vizinha!
Mais tarde, após o filme...


- Rospo, que maravilha poder levar o cinema para casa!
- Não, Sapabela! Nós só conseguimos levar o filme. O cine ainda term uma magia que é só dele. Quer mais pipoca?
- Rospo, estive pensando...  A chuva renova as amizades.
- Uma amizade verdadeira a  não despreza...
- Tem sapo que não gosta dela...
- Tem os que também não gostam do sol nem do frio...
- É, tem sapo que não entra mesmo no "clima".

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010  - 292

 Marciano Vasques

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

NOVA PALAVRA FIANDEIRA

DIRETAMENTE DE COLÔMBIA!

PALAVRA FIANDEIRA
Pedro Arturo Estrada

Leia AQUI

APOSTANDO CORRIDA

- Rospo, que maravilha encontrar você aqui à beira do lago lendo um livro...
- Estou apostando corrida, Sapabela. É uma aposta natural.

No outro dia.
- Rospo! Nem sabia que pintava! Que belo quadro!
- Estou apostando corrida. É uma aposta natural.

Na semana seguinte:
- Rospo, fico feliz ao vê-lo ouvindo música. Nem sabia que gostava tanto assim de música....
- Estou apostando corrida. É uma aposta natural...

Num sábado:
- Rospo, ontem, à tarde, eu o vi saindo do curso de idiomas. Está aprendendo uma nova Língua?
- Apostando corrida, minha Cara, apostando corrida...
- Rospo, vai ter que me explicar. Todas as vezes que o encontro fazendo algo, diz que está apostando corrida. Que papo é esse? Sou uma sapa inteligente, mas essas suas estrepolias intelectuais...
- Ora, Sapabela, estou apostando corrida com a velhice. Só temos uma forma de impedir que ela nos alcance antes do tempo....Melhor dizendo, não tem tempo de velhice...
- Fale, Rospo, diga e explique...
- É só fazer algo, é só manter a mente ocupada...
- Isso retarda a velhice? Ela não o alcança? Acredita nisso, Rospo?
- Experimente ficar parada com a mente desocupada...
- Sinto que você tem razão...
- Mente é para ser usada, nega. Todos os nossos órgãos: Os olhos, para aprender a ver, os braços, para abraçar, a boca, para beijar, o coração para amar, os ouvidos para se ouvir a voz do ser amado e a algazarra das crianças, o...
- Está bem, Rospo, pode parar. Se bem o conheço, sei que vai falar de todos os órgãos...
- Bem, Sapabela. Vamos ao cinema?
- Vamos. Lá eu tenho certeza de que a velhice não o pega.


HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 291

Marciano Vasques

PREOCUPADA COM O AMIGO

Sapabela, uma jovem de dezoito anos, encontra o velho amigo Rospo.
- Rospo, um dia você não mais terá vinte e cinco anos.
- Eu sei, Sapabela. Estarei idoso e se não cuidar da cabeça...poderei até envelhecer...
- Disso não tenho receio. Mas, poderia cuidar do corpo...
- Tudo que eu gosto é parado...
- Eu sei. A leitura de um livro... Assistir a um filme...Tudo isso só movimenta a cabeça... Mas, precisa correr de vez em quando, pedalar bicicleta...
- Tem razão, Sapabela... O corpo sempre envelhece primeiro...
- Na verdade, se você quiser, é só o corpo que envelhece...
- Você é Supimpa, Sapa!
- Ora, Rospo, Sapa veio ao mundo para organizar sapo.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 290

Marciano Vasques


A CANTORA DE CASA AZUL DA LITERATURA

A CANTORA DE CASA AZUL DA LITERATURA

OS COMPANHEIROS DO PROFESSOR

 - Lá vai o professor para sala de aula. Veja que carrega livros... Muitos livros. Deve ter longos planejamentos... Será que conseguirá dar uma aula que o deixará feliz?
- Ora, Rospo, a pior coisa é professor infeliz. Certamente ele dará uma boa aula.
- Para ter certeza disso, precisamos saber se ele vai sozinho...
- Rospo, claro que ele vai sozinho! Além do mais, seja Geografia, História, Português, seja que matéria for, ele deve estar sempre bem preparado... E deverá ir sozinho para a sala de aula, ou deveria ir acompanhado?
- Justamente, Sapabela. Para uma Educação que seja produtiva e deixe os alunos felizes, tem que ser uma Educação poética...Principalmente no ensino do idioma... A poesia deverá fazer parte do currículo...
- Certamente, Rospo. Não vejo sucesso numa Educação fora da poesia. Mas o professor deve ir sozinho para a sala de aula.
- Engano seu, minha querida.
- Viva! Mais um engano para  a minha coleção. Mas diga, qual é o motivo do engano?
- Ele deve levar consigo sempre o Carlos Drummond de Andrade, a Cecília Meireles, a Cora Coralina, o Mário de Andrade...
- Sei, sei... A melhor aula é com eles...
- Sim, deveriam ser companheiros inseparáveis do mestre.


HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 289

Marciano Vasques

NUMA TARDE DE CHUVA...

Sapabela prepara um bolo de cenoura quando o telefone toca.
- Oi, Sapa, sou eu!
- Rospo! Que alegria!
- Aqui está chovendo forte. Também chove aí?
- Moramos na mesma quadra, Rospo!
- Quer jogar dama? Tenho farinha, cenoura, ovos...
- Rospo, você não precisa fazer bolo de cenoura. Já estou fazendo um... Tem guarda-chuva?
- Tenho, um novo, azul. Levarei um filme, um disco, além da dama e do xadrez...
Assim que o  Rospo chega, Sapabela diz:
- Quando se tem uma casa, um abrigo, a chuva tem grandes vantagens. Pode se convidar um amigo para um xadrez, uma dama, uma conversa... Ou ainda, para quem preferir, ficar sozinho com um livro...
- Sapabela, você errou uma coisa.
- Um erro só?
- Com um livro jamais estamos sozinhos. Mesmo que não haja personagens, estamos com o autor.
- Verdade! Bem, vamos começar pela dama, pelo xadrez, pela música ou pelo filme?
- Tenho uma sugestão melhor.
- Eu sempre acato.
- Que tal começar pelo bolo de cenoura?

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 288
Marciano Vasques

domingo, 17 de outubro de 2010

SAPABELA E A PRIMAVERA

SAPABELA   E  A PRIMAVERA

Já está chegando a primavera e não vejo nenhum jardim. É a estação das flores, mas, cadê as flores? – indaga cabisbaixa a Sapabela.
- Você quer flores? Quer jardins?
- Sim, Rospo, mas onde estão?
- Por favor, dê um sorriso, faça alguma boa ação, leia um livro.
- Eu já vivo sorrindo.
- Ótimo!
- E de vez em quando leio um livro.
- E as boas ações?
-Não faço fofocas, ajudo a minha mãe, a minha tia, os meus amigos, já ajudei umas velhinhas a atravessarem a rua, sou carinhosa com os animais, não maltrato as plantas, odeio a guerra e a inveja, não agrido o meio ambiente, me preocupo com as crianças que passam fome...
- Ótimo! Agora, se você olhar para dentro de você encontrará o que está procurando.
-Como assim, Rospo?
-Ora, Saapbela. As flores que quer, o jardim que procura, estão dentro de você. Cada boa ação, cada livro lido, cada sorriso, são novas flores que você vai plantando neste seu jardim interior.
- Então a primavera está dentro de mim?
- Pois é. 


HISTÓRIAS DO ROSPO - 287

Marciano Vasques

O PROVOCADOR DAS MANHÃS

O PROVOCADOR DAS MANHÃS

Zanoto, o cronista de Varginha, é um provocador. Na sua paz vai, com seu estilo de ser, provocações pincelando. Uma dessas provocações foi em 28 de março de 2000 com um tópico da sua coluna.
Comenta como é dura a vida de cronista neste país. Recolhe opiniões, remexe nas cartas e então me vejo convidado para dar uma resposta, opinar sobre o assunto, enfim, participar do debate esboçado na página do Correio do Sul.
O cronista, artista da manhã porque a manhã é a sua hora, o jornal é a sua casa, a morada das crônicas; ele tem uma ligação,digamos, uma cumplicidade com o leitor que é única. É, podemos afirmar, o café literário, o encontro possível no dia rotineiro, essa é a sua particularidade. Ele esboça o desfazer da rotina. Uma crônica não se esquece. Ela nos engana, vem chegando de mansinho, disfarçada, fazendo de conta que não é pretensiosa.
O cronista também está no rádio, sempre esteve. Lembro-me de um homem diante do espelho se barbeando, e dos seus olhos lágrimas vertidas,ou melhor, traduzidas, por causa do cronista que retratava, ao meio-dia do domingo, a vida de um jogador de futebol. O jogador de futebol era o grande ídolo, o belo modelo, o herói que se colocava acima da vida dos homens que ouviam o rádio no fim de semana. Um exemplo a ser seguido, exemplo de persistência, de coragem, de lealdade,de amor, de dignidade, exemplo ético incomparável.
Isso não volta mais. Nem o futebol como era, nem a vida que virava crônica que emocionava. O jogador não estava associado com o dinheiro, com o comércio, e a crônica era ainda a alma do domingo, que revelava distraidamente lágrimas no rosto do trabalhador.
O cronista com sua simplicidade literaliza a vida, torna-a mais atrativa quando revela o lado poético das coisas que são, a alma oculta do cotidiano, o coração do dia. Penso no homem, na mulher que nunca leu uma crônica. Um conto é um conto, uma poesia é uma poesia, mas a crônica é algo intermediário, um passeio matinal por uma calçada.
O cronista tem um compromisso diferente com o cidadão, um compromisso diferente,  por exemplo, do escritor best-seller. Talvez ele seja o verdadeiro mago no sentido de que o leitor do jornal, que sai para tecer o dia, quando leva o espírito imbuído de uma crônica , é alguém com mais chance de opinar, de mergulhar no pensamento reflexivo, de questionar amigavelmente uma circunstância, uma idéia política, uma aspecto da cidade. O cronista vai catando nas esquinas, nas faces, nas ladeiras, nas conversas, os fragmentos para a sua crônica. A crônica efetivamente não é algo pequeno.
Já li, não me recordo onde, que a crônica é um gênero menor (como se fosse certo se afirmar isso em literatura!) ou, uma literatura menor,como já se falou da Literatura Infantil e da trova. Sobre a crônica já se disse que se aproxima mais do jornalismo do que da literatura (como se um estivesse absolutamente tão distante do outro!), etc. Bem, já li tanta coisa...
De qualquer forma você pode trilhar em várias interpretações, inclusive acadêmicas, que normalmente têm os seus próprios caminhos, não que eu lhes tire os valores,mas reconheço que nem sempre é interessante ir à contra-mão.
Mas é difícil, caro Zanoto. Como é difícil! Tão quanto a vida do poeta ou de qualquer outro artista neste país,inclusive e principalmente o do circo ou o que exala de sua pena o cheiro do pão quente, da graxa, dos trigais, do pó da estrada, da poesia que se desprende das folhas entardecidas ou do orvalho que se abre para o assentamento do olhar rotineiro e se oferece como a fresta para a recuperação poética do dia.
Se não fosse difícil a sua vida, algo estaria deturpado, pois é o artista da palavra que remexe com o coração,que busca na riqueza dos detalhes esquecidos as formas para se expressar, que garimpa, quando o dia, a política nacional, o mundo, a vida, recebem o seu crivo, o crivo do cronista,que significa um descuido (e também um cuidado) minucioso, uma escrita arraigada de atenções, de cortesia. É o que nos chega assim, de forma tão cortês, nas manhãs, e nos alerta para a necessidade de uma distração, nos retira da mesmice- para usar uma palavra em graça (e um tanto quanto sem graça!).
O seu coração é crônico, está nas pautas, é crônico no sentido de duração, de prolongamento do sentir, da percepção, e uma crônica, acredito, não é mesmo algo que se dissipa.
Espero, amigo, que tenha contribuído de alguma forma para o debate , e correspondido ao seu chamamento.
 

MARCIANO VASQUES

VASQUEANAS AZUIS - 3

O sonhador é o ser mais necessário em nossas sociedades.



FRASE 3

sábado, 16 de outubro de 2010

O LEÃO ESTÁ SOLTO NAS RUAS

YELLOW SUBMARINE

JURA-ME

DA JUVENTUDE PARA AS CRIANÇAS

CASA AZUL DA LITERATURA inaugura um novo marcador:
DA JUVENTUDE  PARA AS CRIANÇAS
Inspirado na vida real, nos discos que dou de presente para as meninas e os meninos, aqui estará uma novidade. A música alegre da "Jovem Guarda", dos Beatles, e assim por diante, que os jovens ouviam, curtiam nos bailes da década de 60, hoje são discos que as crianças de cinco, seis anos, precisam conhecer e cantar e dançar. Por isso o nome do marcador: DA JUVENTUDE PARA AS CRIANÇAS. E por ter reparado na alegria das crianças a bailarem é que CASA AZUL DA LITERATURA resolveu mostrar isso. E assim nossa CASA decidiu antecipar um fenômeno cultural.

OS BRUTOS TAMBÉM AMAM

Cenas do belo filme


OS BRUTOS TAMBÉM AMAM

BAILE NA ROÇA

VASQUEANAS AZUIS - 2

FRASE 2


O patinho feio e o soldadinho de chumbo são grandes mestres da infância.

VASQUEANAS AZUIS -1

CASA AZUL DA LITERATURA inaugura um novo marcador, intitulado "Vasqueanas Azuis". São frases de minha autoria, que passo a recolher em sites onde foram originalmente publicadas.
FRASE 1


“Não ofenda as suas asas com a desistência do vôo!”

A AMIZADE E O JARDIM

Ela, a amizade, é como Ele – diz a bela apontando para o jardim.
- Sapabela, isso é um jardim! Não vejo semelhança!- responde a Colibrã.
- Veja, Colibrã, o jardim precisa de cuidados diariamente.
- Evidente!
- É preciso que ele seja regado, que ervas daninhas sejam arrancadas, que a terra receba nutrientes, que o mato seja tirado, que...
- Eu entendi, Sapabela, mas, o que o jardim tem a ver com a amizade?
- Você está mesmo vagarosa hoje. A amizade precisa de cuidados diariamente, concorda?
- Concordo e já compreendi. Para a amizade apresentar belas flores é preciso que seja tratada como um jardim.
- Grande, Colibrã, grande! 

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 286
 
Marciano Vasques


Para Tere

A DEUSA DA EVOLUÇÃO

A DEUSA DA EVOLUÇÃO



No mar também vivem as lampreias. Que espécie de ser vivo é a lampreia? Como é possível a convivência entre seres tão distintos, uns de rara beleza, outros assustadores, e cada qual com a sua função ou o seu modo de sobreviver. A que propósito, com que razões eles vivem? Quais as razões da natureza?
Estar dentro do vento que agita as águas, sentir na visão das ondas o fascínio dos ventos, os mistérios do vento que move o mar, o choque das águas contra os rochedos. Quem passou uma madrugada numa rocha em Ilhabela ouvindo o som das águas, ou então deitado na areia em Ubatuba, sente a vontade do universo, a verdade de que ele possui uma força mágica e compreendê-la é o mesmo que saber que não é possível permanecer fora dessa força.
Numa rocha, seria um fungo ou uma alga? Os olhos do menino estão sempre repletos de perguntas, essa é a sua beleza, esse é o seu dom. Isso é o que o caracteriza: a capacidade de perguntar, a aventura das descobertas, o prazer, a incontrolável necessidade interior de questionar.
Bem mais tarde ele saberá sobre o mutualismo dos liquens, e que o caule da planta cresce sempre em direção à luz; talvez nessa mesma época compreenderá o poeta Rimbaud.
Quando questionou pela primeira vez o mistério da planta sempre se curvando para o sol não imaginava o dia em que conheceria o fototropismo, um fenômeno natural, e descobriria que a natureza é repleta de fenômenos.
Talvez saberá de Sanchoniaton, o que um dia, encantado diante das ondas do mar chamou pela primeira vez o vento que move as águas de “o espírito de Deus”.
Antes de compreender melhor as coisas talvez deva conhecer Voltaire, encontrar nesse filósofo a porta e os primeiros degraus da torre chamada vida. E quando decidir fazer da sua existência uma vida poética demorará muito ainda para compreender que quando era menino e brincava entre as coisas e se aproximava das vidas que se moviam entre as folhas e se sentia atraído pela brisa no rosto e pela complexidade da simplicidade da natureza, a poesia se preparava para orientar a sua vida e ele já estava sendo escolhido para ser o porta-voz dos ventos, das folhas, das águas, dos seres pequenos que se movem e voam, e das crianças.Ora, isso significa apenas erguer as vozes da natureza, ofertá-las ao universo.Talvez para isso devesse antes sofrer pelo destino de Rimbaud.
Dependendo das andanças do seu espírito, terá sempre dentro de si a complexidade das perguntas incômodas, entre as quais: como é possível a convivência com a escravidão do cavalo?
Um dia obterá as respostas, pois elas sempre chegam, e verá que para libertar o cavalo, é necessário primeiro que não haja um só humano escravizado neste planeta. Mas talvez sejam necessárias infindáveis gerações para que isso ocorra, para que seja para sempre erradicada da mente humana a idéia da escravidão.
E o que o deixará calmo é a revelação de que o maior beneficio para a sua vida foi ter preenchido a alma com perguntas, ter despertado desde cedo para o questionamento sem trégua, ter convivido sempre com a curiosidade, a grande deusa, a deusa da evolução.


MARCIANO VASQUES

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

AMIGOS SINCEROS

Numa tarde outonal em plena primavera, Sapabela encontra seu amigo de velhos encontros...
- Rospo! Estou preocupada com você...
- O que aconteceu, Sapabela?
- Dentro de alguns anos terá sessenta anos...
- Que maravilha!
- Será um sexagenário...
- Um sexigenário, você quis dizer...
- Não exagere, meu amigo... Anda muito convencido...
- Ora, Sapa, cada um tem consciência de seus atributos. Diga se você desconhece os seus encantos...
- Eu? Euzinha? Encantos?
- Sapabela... Preciso ir, mas continuaremos as nossas conversas... Porém, não entendi as suas preocupações... Qual o problema de um sapo ter sessenta anos?
- Nenhum, apenas penso que você não se cuida... Depois que inventaram Internet e o tal de blog, fica horas sentado em frente à tela... Precisa de movimentos, entendeu?
- Tem razão, Sapa, mas depois continuaremos a nossa conversa. Preciso mesmo ir, a biblioteca está fechando e tenho que devolver o livro...
- Tchau, Rospo, tchau! É bom ter um amigo...
Depois, a Sapa se põe a pensar:
- "Pareceu uma cantada. Às vezes, o que parece é. Bem, somos amigos, e isso é por demais precioso..."
E prossegue em sua andança:  - "Eu? Encantos?! Bem..., como ele foi sincero, eu concordo..."

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 -285
Marciano Vasques

A EDUCAÇÃO E A DOCEIRA

 No dia 15 de Outubro de um ano qualquer, Rospo e sua amiga Sapabela passeiam numa calçada quando surge a conversa:
- A Educação deveria ter o sabor de um doce de Cora Coralina.
- Sabor de doce? Rospo! E doce de Cora Coralina? Eis a Educação que todas as crianças iriam apreciar...
- Cora Coralina foi uma doceira especial, que transformou seus doces em poemas...
- Anda descontente com a Educação?
- Precisamos do retorno da alma poética... Não queremos na Educação nenhuma alma penada...
- Do que está falando, Rospo?
- Alma penada se refere ao que já ficou ultrapassado, mas encontra, incrível!, vigor e resistência numa Educação que não se move...
- A Educação deveria se mover?
- Ela é puro movimento. Isto é, deveria ser... Mas parece que para muitos talvez interesse uma escola amarga feito losna...

- Que exagero, Rospo! Eu diria, talvez insípida, insossa... Mas, o que seria uma alma poética?
- Uma escola repleta de educadores que apreciassem os doces da Cora Coralina, a sapa doceira mais importante do brejo.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 284
Marciano Vasques

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