terça-feira, 7 de dezembro de 2010

II FEIRA LITERÁRIA DE BOQUEIRÃO

De 24 a 27 de março de 2011, venha viver Boqueirão, 
a "Cidade das Rimas e Letras"

O ESPÍRITO DE NATAL

— Sapabela, se houvesse uma rebelião dos leitões ... no Natal...
— Rebelião dos leitões?
— Sim, contra o "Espírito de Natal" .
—  Então, seria uma rebelião liberada por um "Espírito de porco"...
—  Sapabela, você é muito espirituosa. Muito engraçadinha...
— Isso vem de longe...
— Como assim?
— Meus antepassados, gerações e gerações, todos devem ter sido bem engraçados...
— Uma Sapabela realmente  deve ser o resultado da gerações de Sapabelas, mas, eu estava falando do "Espírito de Natal"...
— Sei, comer, comer... 
 Tem coragem de perguntar a um peru ou a um leitão se eles amam o Natal?
— Na natureza é assim, Sapabela. Uns comem os outros...
Só assim pode haver alegria completa. 
—  No caso do Natal, só é feliz o que come, ou você gostaria de trocar de lugar com o leitão ou o peru e ser o comido?
— Sapabela, tem certeza de que não incorporou o "Espírito de porco"?

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 363
Marciano Vasques

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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

MIOSÓTIS

Nomes Populares: Miosótis, Não-me-Esqueças, Não-te-Esqueças-de-Mim.
 



Foto publicada no blog 
FLORES DO MEU JARDIM

O BLOGUEIRO - 35

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SAPABELA E A CIÊNCIA

—  Sapabela, devemos tanto à Ciência... Deveríamos agradecê-la diariamente.
— Por que a Religião temeu tanto a Ciência no passado?
— Oh, meu Santo Galileu! Faz cada pergunta incômoda, Sapabela!
— São elas que sacodem a mente...Uma vida sem perguntas incômodas não promoverá mudanças em si.
— Entendo, mas ao elogio da Ciência já está implícita a resposta...
— Compreendo, basta só o reconhecimento dos benefícios da Ciência para favorecer a compreensão da atitude teológica no passado...
— É quase isso. Na verdade, a teologia não era exatamente contra o progresso em si...
— Mas todo progresso significa evolução...
— Nem todo progresso significa evolução. Bombas nucleares, bombas atômicas, armas letais...
— Mesmo assim, entendi que certas perguntas não são absolutamente necessárias... Pois a respostas podem já estar camufladas, inseridas, no que se diz...
—  Então, viva! Viva a Ciência...
—  Rospo, será que tem algum sapo hoje que é contra a Ciência?
— Não creio que haja alguém escrevendo com bico de pena de ganso ou que se recuse a usar o interruptor da luz.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 -362
Marciano Vasques
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AS NECESSIDADES CONTEMPORÂNEAS

— Sapabela, às vezes a leitura de um filósofo é espinhosa.
— Espinosa? Eu gosto!
— Eu não disse isso! Eu quis dizer que às vezes a leitura é difícil pelo fato de que complicam tanto para dizer algo simples...
— Talvez seja essa uma forma da filosofia se proteger...
— Certamente.
 Mas hoje os homens-sapos que influenciam a vida são outros...
— Não são filósofos?
— Não! São homens-sapos como Steve Jobs...
— Quem é esse?
— É o criador do I-Paid...
— Compreendo, Rospo, compreendo..., mas, então, a filosofia não é mais necessária?
— A filosofia e a poesia sempre serão necessárias...
— Mas a tecnologia criou outras necessidades...
— E o sapo não consegue mais viver sem elas...
— Rospo, eu sou aquela que se realiza pela quantidade de necessidades que tem... Quanto mais necessidades, mas tenho a chance de me realizar...
— É mais ou menos isso, Sapabela...

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 361
Marciano Vasques
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domingo, 5 de dezembro de 2010

PAPAI NOEL PARA MISSIVALDAS

Inflorescências da manhã. "Vou bem, graças a Deus!". E Missivalda fecha a porta do barraco e se dirige ao ponto de ônibus. Dali, do Parque Guarani até a Vila Carmosina, tomará dois ônibus. Cada dia trabalha num lugar diferente: Conjunto José Bonifácio, Pinheiros, Patriarca. Sempre na casa de funcionárias da creche do Parque Guarani, da creche da Via Ramos, ou na casa de alguém que resolveu confiar na indicação. Passa, lava, faz qualquer coisa, além de ajuntar latinhas para vender, pois o importante é ganhar algum dinheiro, ainda mais nessa época do ano. Missivalda, a filha, fica sozinha no barraco. Às vezes, ela leva. Depende da patroa.
Violentada aos treze anos pelo homem de cinquenta e cinco, de nome Moacir e apelido Cigano, a mãe deu conselhos: "Viva com ele, minha filha. Será um homem bom para você. etc". Missivalda viveu dez anos como esposa. Sua filha nasceu três anos depois. Desde que Moacir morreu, ela dá um duro danado para viver. Ficou bem pior sem ele.
Vai Missivalda e vem Missivalda. Sua filha cresce bem. Herdou traços alagoanos do homem. Muito atrasada na escola. Missivalda, a mãe, se dá bem com todos os vizinhos da favela do Parque Guaraní. Gosta muito de seu Vitorino. Homem bom, ela acha. Só não sabe qual é o seu trabalho. Mas não tem nada com isso.
Emociona-se ao ver a filha folheando um gibi, ou fazendo bolo de barro, ou ainda, jogando pedras nas águas do córrego, se divertindo com as ondulações e contemplando os insetos ao lume das águas.
Numa tarde vai à Penha. Como é Dezembro, ajuntou um dinheirinho. Quer comprar aquela caixa de giz de cera. Sua filha com gizes de cera. Seria o maior Natal, o mais colorido, rabiscado em todos os lugares, em todas as tábuas. Também compra uma bonequinha na Rua das Noivas.
Depois, vai ai Shopping e vê, na Praça Central, o Papai Noel sentado e aquela fila de crianças. Um beijo e um abraço no bom velhinho.
Ao se aproximar, reconhece debaixo da touca vermelha e da barba postiça, os olhos do vizinho Vitorino. Estremece. "Sim, é ele!". Volta para o Parque Guarani com o pensamento febril. "Sim, por que não?".
Pertinho do Natal procura o seu Vitorino. Primeiro, jura guardar o seu segredo. Depois, roga para ele ser o Papai Noel da sua Missivalda na noite do 24. Vitorino aceita. Missivalda vê confirmada a certeza de que ele é essencialmente um homem bom, apesar de ser tido na favela como um homem rude, distante. Deixa com ele o pacote da boneca e a caixa de giz de cera. Ela tem o direito de realizar essa fantasia. Ainda mais que a filha está doentinha.
Vai dormir com a janela aberta, e deixa, do lado de fora, uma pequena escada de quatro degraus e a luz acesa. A menina ardendo em febre.
À meia noite, conforme o combinado, o vulto entra pela janela. Missivalda, a mãe, finge dormir. Missivalda, a filha, sonha sonhos de dipirona. Vê chumaços de luzes e bolas de algodão voando numa ventania. O Papai Noel deixa o pacote nas mãos de menina, que com os olhos agradece com um sorriso largo. O velhinho passa a mão em seu rosto, em sua testa, e a beija suavemente nos  cabelos. A menina sorri como se estivesse acordada.
Ao amanhecer, Missivalda busca pãezinhos na padaria em frente à escola Antonio Duarte. Tem ovos e leite. Fará rabanadas. A pequena adora.
Ao retornar, a vizinha, entre os varais da manhã, comenta a triste notícia - Logo na noite de 24 de Dezembro! Vitorino está no Hospital de Ermelino Matarazzo, foi uma parada cardíaca, ou um derrame. Ninguém sabe direito. Está em estado de coma desde ontem, às seis horas da tarde. Foi encontrado caído na Avenida Imperador, ali, na esquina da Laranja da China, caído, quase sete da noite. Vai ser difícil sobreviver. Passou a noite no Hospital. Seu estado é grave. Teve fratura do crânio por causa da queda. Bateu a cabeça num paralelepípedo.
- "Mas como?" - pensa Missivalda.
Vai imediatamente ao hospital e tem a confirmação: ele deu entrada às seis e quarenta e cinco e foi transferido para o Santa Marcelina às vinte e uma horas.
- "Como é possível?"
Ao chegar em casa, encontra a filha feliz, brincando, sem nenhuma febre, com uma vivacidade nunca antes vista. A menina mostra o desenho feito numa folha com o giz de cera. Um rosto de Papai Noel.
Treme ao ver o desenho da menina. - "Que rosto perfeito!" - pensa, abismada, Missivalda.
E do abismo da sua perplexidade, olha para o azul e as nuvens brancas que lembram barbas. No horizonte, naquela parte alta, que é a Cidade A E Carvalho, o céu, com pinceladas vermelhas do sol, lembra paisagem de giz de cera.

MARCIANO VASQUES

Marciano Vasques
  


O COLECIONADOR 
DE LÁPIS DE COR

 
 
“Se sabe que el que vuelve no se fue”
Pablo Neruda

 
Olhou para a coleção de lápis de cor e fechou a porta. “Quanto já terá? ” Perguntou-se. Mais de mil, com certeza, pois começara faz anos. Coisa de maluco! É o que no pensamento dizem todos. Deixou registrado no cartório a sua vontade de que os lápis fossem doados para uma instituição que cuida de crianças carentes. Após a sua morte. Claro. Antes continuará com ela, até o infinito.

Era uma promessa.

Na infância a mãe não conseguia comprar um lápis de cor para ele. Então jurou que quando crescesse teria tantos quanto quisesse. Iniciaria a coleção para que nunca viesse a esquecer o seu passado. Faz gosto ver todos que vão à sua casa e se impressionam com a quantidade de lápis.

Há poema no nome Apoena, pensou ao saber da morte do indianista. Olhou os jornais. Nas capas três mortes. “Como deve ser bom ser alguém importante e sair na capa do jornal, ter a sua morte em manchetes”. Um foi o Super Homem. Outro um escritor mineiro. O terceiro viveu com os índios. Mortes que merecem manchetes, mas ele não: se morrer, será apenas um desconhecido, que nada fez de importante na vida, além de colecionar lápis de cor.

Sempre gostou das mortes ilustres. No dia em que morreu Jorge Amado chorou. Em sua vida só leu um livro do escritor baiano: Seara Vermelha. Mas o que já fantasiara com a cena da injeção que o tal médico Epaminondas dava na tal de Marta...

Tem um amigo que nasceu no dia da morte de John Lennon. Sua mãe chorou muito quando soube. Evitaram ao máximo a notícia. Se pudessem deixariam passar todo o tempo do resguardo, mas sempre tem alguém que conta, e ela ficou sabendo em menos de um mês. Então jurou que o filho seria um grande lutador pela paz e defenderia a solidariedade entre os povos.

A mulher pôs na cabeça que o filho seria importante por ter nascido no dia da morte do ex - Beatle. Como para ela, em sua juventude, o cantor simbolizava a luta pela paz, então o seu filho...

Infelizmente a morte do jovem não virou manchete. Fora apenas um assalto. Reagiu de bobo. Mas o colecionador de lápis de cor ficou triste e depressivo. Afinal eram amigos. A aquarela dentro do peito a resistir como vela votiva perdeu as cores. Seu amigo sempre contava a história do nascimento no dia do ídolo da sua mãe, e jurava que ainda faria algo pela paz.

Os dois se conheceram na adolescência. E a amizade vingou.

Estudaram juntos, cultivaram o prazer pela boa música, não se apegaram aos modismos. O gosto musical foi se acentuando com o passar do tempo e tornou-se um gosto ilustre (gostavam de dizer isso) depois que assistiram ao filme “Buena Vista Social Clube”. Viviam a repetir que gostariam de ser na velhice parecidos com o Compay Segundo.

Lamentável que um jovem que nasceu no dia do assassinato do John Lennon venha a ser assassinado por causa de um trocado.

O colecionador chorou muito no enterro do amigo. E fez uma promessa para si. Enquanto o corpo baixava, ele jurava sob o guarda - chuva azul que o protegia da garoa interminável, que iria dedicar a sua vida à paz e a solidariedade entre as pessoas. Só não sabia como fazer isso, mas encontraria o jeito certo.

Passou a vasculhar pela internet o nome de tudo que é ONG.

De alguma forma iria tornar-se um benfeitor da paz. De alguma maneira iria contribuir com a solidariedade humana...

Da sua janela ouviu as piadas no quintal sobre a morte do Super Homem. “Ele pensou que ia voar, por isso não se segurou e caiu do cavalo!”. É sempre assim: piadas, conversas tolas, assuntos medíocres.

Nunca pronunciou uma palavra sequer contra Michael Jackson. Nunca fez piada com a dor e o sofrimento alheios. Nunca entrou na da mídia mundial quando ela cisma com alguém. Sempre foi solidário para com as vítimas do poder.

Falta algo em sua vida. Emprego nunca deu muito certo. Fez um teste para trabalhar num banco, mas na entrevista foi reprovado pelo psicólogo. Não atende ao perfil exigido pelos bancos. Trabalhou durante um ano no correio, como carteiro, mas pediu a conta. Então montou uma banca de jornal. Adotou ao pseudônimo de Zero e pôs o nome da banca de “Banca do Zero”.

Em homenagem a quem? Perguntaram alguns clientes. Sei lá, talvez a um romance do Inácio de Loyola Brandão. Você leu? Apenas umas duas ou três paginas. Mas gostei do titulo.

Isso é comum nele. Ter em casa livros que nunca abriu, como o “Romançario”, de Stella Leonardos. Nunca tocou nesse livro. Nem sabe mais como o adquiriu.

Para cada um dava uma resposta diferente sobre a história do nome da banca. Para um soldado disse que é para homenagear o seu personagem preferido dos quadrinhos, o Recruta Zero.

Arranjou uma namorada e já pensa em casar, afinal quem passa dos vinte anos solteiro corre o risco de ficar sozinho.

A namorada além de ser “instruída”, é leitora numero um de Literatura Infantil, vive puxando conversa com ele sobre o assunto, como se ele realmente tivesse vontade de ouvir.

“E viveram felizes para sempre”. Muita gente contesta esse final nos contos de fadas. Mas é por que não entendem. Esse final nada tem a ver com a tradição ocidental cristã. Realmente nessas historias os casais vivem felizes para sempre, pois o “pra sempre” está ligado a uma idéia diferente da nossa, que somos regidos pela instituição cristã do casamento, lá o “pra sempre” significa viver eternamente o momento. A noção de eternidade nessas histórias é diferente. O momento é eterno, A eternidade está no momento que se vive.

“Como no poema do Vinícius?”

“Mais ou menos”. Responde a namorada. “É algo mais ou menos assim, que seja eterno enquanto dure”.

Ela formou-se em letras e em seguida começou uma pós de literatura infanto-juvenil.

Ele começou a sofrer influência da namorada e do seu próprio trabalho na “Zero” pois sempre sobrava um bom tempo para a leitura e acabava lendo de tudo.

Decidiu ser escritor.

Não de literatura infantil, mas de histórias para adultos, contos. E pôs-se a escrever o primeiro. Se conseguisse iria escrever outros e mais outros, e um dia escreveria o seu primeiro romance.

Colocou no papel as idéias sobre paz e solidariedade. Mas a namorada foi severa nas críticas, e ele pela primeira vez passou a sentir-se um zero de verdade.

“Falta harmonia nos textos, e as idéias se repetem. E pior de tudo, não tem uma idéia central, um eixo para conduzir. O que você quer dizer afinal? Qual a sua idéia de paz e de solidariedade? Precisa ser mais convincente. E a linguagem não está boa, não está nada literária. Precisa reescrever tudo, do começo ao fim. Falo essas coisas porque te amo”.

“Não vou desistir! Se me tornar um escritor famoso, quem sabe conseguirei levar adiante a minha idéia de contribuir com a paz, e talvez possa lutar pela paz mundial. Sei que pode parecer ilusão, pois um escritor não tem nenhuma importância no panorama mundial, ele nem tem voz, quem afinal vai ouvir um escritor? Escritor é para ser lido, não para ser ouvido. Sei da ilusão de muitos que vão às Bienais, e querem ser reconhecidos pelo público, como se fossem um Caetano Veloso, um jogador de futebol ou um astro de Globo”.

Não se deu conta, mas estava se tornando perturbado pela impossibilidade de se contribuir com a paz e a solidariedade. Começou a ficar angustiado.

No dia em que leu as três mortes nos jornais já estava pensando bobagens. E tendo dentro dele a estupidez da morte do amigo quedou-se em indagações perigosas. Vale a pena viver? Qual o sentido da vida? Se nem consigo escrever um conto? Se nem consigo pensar numa forma de contribuir com a paz e a solidariedade?
Pensou em escrever um conto para o publico juvenil, com personagens adolescentes, mas não veio a inspiração. A sua vida de adolescente não teve graça, nada fez de interessante. Passou boa parte ouvindo musica, a outra foi socado, como se fosse vaso vazio, com conhecimentos de física e de química que nunca usou...Tornou-se uma especialista em esquecer formulas e aprendizado...

Esquecer é uma defesa do organismo. Lembrou-se de ter ouvido isso e numa mais esqueceu dessa frase. Apenas das coisas que aprendeu no colegial.

Não deu cabo de sua vida porque conclui que só valeria a pena fazer isso se tivesse uma vida que valesse uma manchete, mas nunca voou nas telas do cinema, nunca escreveu um conto, nunca lutou em defesa dos direitos indígenas, nunca fez nada que viesse a tornar a sua morte uma vendedora de jornais.

Se a sua morte vendesse jornais, que bom seria! Mas nunca passou mesmo de um zero. Teve uma fase em que decidira tornar-se artista e pintou alguns quadros sobre os quais nada teria a declarar numa entrevista, por pura falta de objetivo. Pintou sem rumo, jogou as cores na tela e desenhou coisa sem nexo, aliás, confessou um dia para a namorada que privilegiava em sua pintura a estética do feio, e dizia com convicção que isso estava bem de acordo com a arte contemporânea. Ela concordou.

Não seguiu a carreira de artista plástico por falta de condições para comprar material e pagar uma faculdade.

O dinheiro da banca mal dá para viver. Vivia se queixando.

Certo dia na calçada a dedilhar um violão viu aproximar-se um menino.

O garoto era seu conhecido, morava nas redondezas. Estudava na escola pública da Vila Nova, um bairro de ocupação vizinho ao seu.

-Você estuda naquela escola de lata?
-Sim!-

-E o que faz por aqui?

-Cato papelão e plástico, ajudo a minha mãe.

De fato, pouco adiante estava o carrinho de madeira quase cheio de papelão e garrafas de plástico.

Então ele lembrou bem do menino. Morava na beira do rio, na avenida Caititu e não tinha material escolar, pois o que ganhara da prefeitura já acabara.

-Gosta de colorir desenhos?
-Sim.

-Tem lápis de cor?

-Não.

-Gostaria de ter lápis de cor que nunca se acabasse?

O garoto não entendeu.

-Ele entrou, trouxe uma dúzia e entregou ao pequeno.

-Você vai colorir sempre que quiser, só não deixe que lhe tirem os lápis. Quando eles terminarem, volte aqui.

O menino foi embora feliz com os lápis.

Ele entrou e ligou para a namorada.

-Estou feliz.Descobri uma forma de ser solidário. E estou em paz comigo mesmo.

No dia seguinte foi ao cartório e registrou uma nova declaração.

-“No caso de minha morte, que os meus lápis de cor sejam entregues a todas as crianças que passarem descalças em frente da minha casa e que não tenham dinheiro para comprar um lápis sequer. Se eu não tiver lápis é porque já os dei todos, para os meninos da minha época, que são as crianças da minha vida. Do meu presente.”

Pela primeira vez sentiu-se um super homem. Descobriu a sua forma de lutar pelas crianças, entendeu que a sua contribuição é pequena, mas é a que lhe coube. E seguiu em frente.

Numa manhã ao sair de casa ouviu no rádio a canção do Toquinho.

Dias depois pintou a banca e mudou o nome de Zero para Aquarela.

Escreveu um conto intitulado ‘O colecionador de lápis de cor” e enviou para uma editora.

A namorada ficou torcendo.

PALAVRA FIANDEIRA - 47

Está no ar a nova edição de:
PALAVRA FIANDEIRA

Nesta edição, diretamente de PORTUGAL:


EDGAR SEMEDO
Leia AQUI

DESLIGAR OS SAPINHOS

—  Sapabela, ontem você falou que não mata os bichinhos! Comente sobre isso.
— Rospo, adoro conversar sobre isso. Sim, não mato formigas, nem joaninhas, tampouco tatuzinho-bolinha...
—  De onde vem isso, Sapabela?
— Passei a infância brincando com eles. Foram os meus companheiros de infância, os meus brinquedos, pois não tínhamos brinquedos... Então, brincava com tatuzinho, com gafanhoto, com grilo, com louva-a-deus, com joaninha, com pirilampo...
—  Eu também, Sapabela.
—  Depois cresci, mas eles não têm culpa de eu ter me tornado adulta...
—  Compreendo...
—  Não suporto traição, e não podemos trair aos nossos companheiros, se eles um dia tanta felicidade nos trouxeram...
—  Hoje tem uma indústria de brinquedos...
—  Muitos são descartáveis. São brinquedos para o desejo, não para a realização. O Sapinho quer, e  quer cada vez mais, porém quando tem, quase nem liga, brinca um pouco e logo deixa de lado...
— Qual é a saída, Sapabela?
— Ora, Rospo, talvez a criança esteja precisando de um desligamento...
— Desligamento? E como faremos isso?
—  É fácil e simples, mas precisa coragem, pois estará indo contra o espírito da época...
— Sei...
—  Poderá ser como os grãos de areia que vêm com as ondas e batem no rochedo, que não se abala...
—  Fale sobre esse desligamento...
—  Desligar o computador, desligar o videogame, desligar a televisão, desligar o...
—  Compreendo, e deixar a criança solta...
—  Isso! A correr pelas ruas, pelos verdes, pelos ventos... O sapinho precisa descobrir os bichinhos... E tem mais...
— Tem?
— Sim, cada um de nós precisamos nos reinventar sempre. Essa é  a mágica, esse é o segredo, e quando você desligar o sapinho mesmo que por apenas uma hora, estará reinventado a vida, e com ela, você...

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 360

Marciano Vasques

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sábado, 4 de dezembro de 2010

LARA

NIKITA

FORRÓ

TESOUROS NÃO MORREM

Marciano Vasques

 
TESOUROS NÃO MORREM
 
 
Distâncias são tesouros que se acumulam em forma de poemas. O poema é uma das formas escolhidas para que a vida se manifeste. Somente distâncias autênticas tornam-se tesouros alcançáveis. Distâncias artificiais apenas criam ilusões.

Vidas fascinantes como a de Lee Falk, o espírito, são vidas que jamais desprezaram as distâncias. As reais.

O poema, assim como outras formas de arte, enveredam pelas trilhas ofertadas pelas distâncias autênticas.

Quando aquelas nas quais eu vivia e me reconfortava apenas acenavam-me, eu buscava refúgio no que pulsava fortemente em mim, sem me dar conta um só momento de que somente as distâncias artificiais não merecem ser cortejadas.

Quando estive no jornal Movimento, não passava de uma presença invisível que desenhava. Quando a jovem amiga Rosane Régis apareceu numa manhã na escadaria da Matriz de São Miguel, aportava em mim o frescor da idéia enigmática de que o jornal é uma das alegrias para quem necessita de manhãs.

Quando as manhãs não mais são necessitadas, o jornal perde o sentido. Ele existe em função das manhãs. Esse é o seu tesouro.

Quando, ainda como uma presença invisível, subi alguns andares de um grande jornal, já estava fincado no processo inconsciente de apego ao que realmente merece ser chamado de distância.

Quando estive em um auditório da PUC assistindo a uma palestra de Plínio Marcos, estava embarcando numa das mais promissórias noites da minha vida.

Quando vi Sérgio Sampaio cantando, e quando vi Chico Buarque interpretando Walter Franco, e quando olhei, pela primeira vez, numa banca de jornais um exemplar do jornal Versus, estava me recolhendo na grandeza dos que compreendem o valor que uma distância autêntica pode nos presenciar. E quando ouvi pela primeira vez o Tarancón, então foi uma explosão só comparável a uma ciranda de Lia de Itamaracá. Se comparações são possíveis nesse universo mágico da vida refeita nos tesouros que não morrem.

Quando colecionei o gibi do Henfil, já estava comprometido com a distância que vale a pena.

A história da riqueza intelectual do meu país não foi uma ilusão. E os passageiros de uma viagem solitária, tais como eu, sempre clamaram por estações de encanto.

Hoje, a memória danificada pode ser recuperada, se os espíritos se encontrarem além dos sites. Se a conversa retornar, se o bordado da perda for desfeito e a vida se manifestar em toda a sua força poética. A poesia é um caminho de vigor que decide a alma repleta de distâncias que não morrem.

Só o que é profundo sobrevive, e só o que é difícil pode ser fácil quando as distâncias autênticas se manifestam.

Amar profundamente uma distância autêntica, quer ela se manifeste num cartão postal exposto numa revistaria qualquer da cidade, promover manhãs de domingo e caminhadas nas calçadas da mesma cidade que sempre explodiu num coração como o meu, seria a tradução mais singela de uma vida bonita.

Nada que possa ser considerado decadente tem em si um germe sequer do que é de fato autêntico, pois tal coisa tem a característica de jamais morrer, e de renascer em outros corações.

A adolescência, os jovens, os sonhadores, os bêbados autênticos, os poetas que rabiscam seus versos, todos os tesouros precisam ser guardados.

Quem nunca conheceu a força de uma distância autêntica passou pela vida sem gozar do mais sincero prazer. Só nas distâncias autênticas o sonho encontra seiva para se tornar realidade.

Os caminhos são traçados na busca natural das distâncias mais preciosas, e quem tem os olhos apurados, voa elegantemente sobre os escombros.

A alegria do jornal, a releitura de um livro, de um gibi que jamais foi esquecido, um poema num caderno antigo, uma canção que não foi regravada apenas por interesses comerciais, e até um site no Youtube, tudo pode ser importante, como foram importantes as caminhadas solitárias pela cidade aberta, em plena alegria de estar, mesmo que numa presença invisível.

FEMINA ARTE NO LIRA DA VILA

UM POUCO DA SAPABELA.

— Minhas roupas não combinam, só canto do meu jeito, sem técnica vocal, rolo na grama feito uma sapinha, sou atrapalhada quase sempre, esqueço as coisas, mas jamais esqueço o essencial, adoro dirigir, amo a velocidade, mas não desprezo a lentidão. Veja como crescem as azaléias!
— Que belo depoimento, Sapabela!
—  Quer que eu continue?
— Claro! Hoje é sábado...
— Não tenho namorado nem namorante, mas continuo romântica para sempre... Sou tímida e espalhafatosa, e é dessa mistura que surge a verdadeira Sapabela...O toque é essencial em minha vida. Não acredito em Sapos que não se toquem...Sapos que conversam mantendo distância...Não mato bichinhos. Joaninha? Não se mata de jeito nenhum, não é? Barata? Sempre aviso para que ela saia de minha casa, pra ela ser esperta e se mandar... Sempre dou uma chance... Adoro sussurros, mas também adoro falar alto... Gargalhadas? É comigo mesmo! Se tiver samba, vou. Só pelo prazer de ouvir...
—  Sapabela, mas por qual motivo está me falando isso tudo?
— Hoje é sábado, Rospo! Dia de abrir as cortinas... Experimente.
— Farei isso. A minha alma já está sambando.
— Posso lançar a minha gargalhada no ar?
—  Demorou.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 -359
Marciano Vasques
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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

ROSPO E A CHEGADA DO SAPINHO

O sapinho, ao nascer, já surge num mundo pronto.
- O mundo nunca está pronto, Rospo.
- Certamente, mas, o que quero dizer é que o sapinho deve aprender desde cedo que o mundo foi edificado para recebê - lo. Nem sempre as coisas foram da forma como ele conhece. Veja a máquina de costura. Ela já existe quando o sapinho chega, mas nem sempre existiu...
- Uma das maiores invenções foi a máquina de costura.
- Responsável por uma revolução cultural
- E social.
- Se o sapinho conhecesse a gênese das coisas, aprenderia a valorizar mais a vida...
- Rospo, estou pensando: se a gente costurasse as nossas conversas , teceríamos uma bela roupagem da vida. Somos uma máquina de costura da História?
- Uma tecelagem, talvez.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 358


Marciano Vasques
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terça-feira, 30 de novembro de 2010

LILI MARLENE

Nina Hagen & Nana Mouskouri - Lili Marlene

O NATAL QUERENDO ENTRAR

Calçada ensolarada e lá ia o Rospo, sorvete em punho, quando surge a velha amiga.
— Bom sábado, Rospo!
— Bom sábado, Sapabela! Faz tempo não a vejo. Anda meia sumida.
— Você me viu ontem, Rospo.
— Mas ontem é passado. No presente não a vi. Faltava vê-la no presente, não é?
— Pois aqui estou. Alguma novidade?
— O Natal está querendo entrar...
— Entrar onde?
— Mas não consegue, pois estão todos usando cadeado e correntes...
— Entrar onde?
— Ou fingem que não ouvem as batidas...
— Entrar onde?
— Em cada coração.
— No meu nem uso trinco...

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 357

Marciano Vasques
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POR ELA

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

UM POEMA

Almejo alma de realejo
Busco, mas não brusco
Um amor assim...

Nada e nado
Numa lágrima que o vento afastou
Que nasceu
No rosto de uma criança
que apanhou.

Eu bem quis
Uma montanha de poemas
Para espalhar
Numa cidade de lua cheia
Vidas vazias
E bêbados  enluarados...

Puro beijo de poejo
De colibri
Beijando a flor que passa...

Almejei e elegi
Você para ser
Meu bem me quer...

MARCIANO VASQUES

HÁ UM TEMPO

 "  Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: E, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, a margem de nós mesmos."
                                                                              Fernando Pessoa         

O GIGANTE QUE SE REVELOU

- Sapabela, estou com saudade de uma conversa...
- Então comece, Rospo.
- Sempre lembro do  Adamastor.
- Deve ser um bom sujeito, pois tem "dama" no nome...
- Ora, Sapabela. O Adamastor é o gigante...
- Que gigante?
- Já leu " Os Lusíadas"?
- É gigante mesmo.
- Quem?
- O poema.
- Não, Sapabela! Gigante é o Adamastor, um morro que está impedindo a travessia dos navegantes.
- E então?
- Então o gigante, que é um morro, não permite a passagem.
- Prossiga.
- Eles não podem prosseguir...
- Não são os portugueses, Rospo. É você que tem que prosseguir. "Prosseguir é preciso".
- Sim, prosseguir é certo. Sendo assim, vamos: o gigante era um desconhecido. Vasco da Gama pediu que ele se revelasse...
- E então?
- "Mostre-nos quem você é!"
- E ele?
- Ele se revelou. E quando você se revela por inteiro, você se torna frágil diante dos adversários e das adversidades...
- Nossa!
- Aí os Lusíadas puderam passar pelo gigante... que, ao se mostrar foi vencido.
- Rospo, você já falou sobre isso numa outra conversa... Mas agora, fiquei muito curiosa...  Então, ao se mostrar por inteiro você se torna frágil diante dos adversários?
- Sim, Sapabela. Lembre-se sempre o gigante  Adamastor.
- Se nem um gigante escapa, já pensou eu, que tão pequena sou...?


HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 356

Marciano Vasques
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domingo, 28 de novembro de 2010

LUZES DA RIBALTA

Nós Que Aqui Estamos, Por Vós Esperamos - PARTE 3

Nós Que Aqui Estamos por Vós Esperamos

FANTASMAS DA VIDA INTEIRA

Marciano Vasques
  

FANTASMAS DA VIDA INTEIRA
 
Os fantasmas atemorizaram o meu castelo de ilusões. Difícil precisar quando eles chegaram. Também é incerta a data do início da edificação do castelo. Mas eles se instalaram e não quiseram mais arredar pé. Decidiram por conta própria que não mais cairiam na estrada.
Na verdade, decidiram com o meu auxilio. Graças a minha inestimável ajuda estabeleceram pousada definitiva em meu castelo. Transformaram um espaço exclusivamente meu em moradia.
Atrevidos tornaram-se com o passar dos anos parte constituinte do meu castelo a tal ponto que chegou o momento em que não era mais possível pensar em um sem pensar no outro.
Tantas vezes olhei para a minha impressionante fortaleza e os vi lá dentro! Circulando como se fossem os verdadeiros donos da construção.
Quando resolvi expulsá-los, vi que a tarefa iria ser medonha, e vi também que teria que fazer bem mais. Teria que derrubar o castelo.
Parece fácil derrubar um castelo erguido sobre a areia, um castelo que com o tempo vai se tornando, como seus estranhos habitantes, parte integrante de nossa alma.
Quando pela primeira vez olhei para ele, imponente, feito de aparências, audacioso, desafiador, e pensei que teria que destruí-lo, para que os fantasmas também desaparecessem, senti um estremecimento percorrer todo o meu corpo. Nervuras, tórax e membros.
Estava então diante do maior empreendimento da minha vida. Derrubar um castelo construído por mim e alimentado pelos mesmos hóspedes durante tanto tempo.
Pus-me a tentar decifrar o tempo da chegada dos fantasmas. Tinha eu quatorze anos? Tinha vinte? Sete? Que tarefa imensa a minha! Tentar a genealogia dos fantasmas. Tentar buscar a origem, o nascedouro de cada um, tentar abrir a cortina do palco tantas vezes estéril que foi a minha vida e visualizar no campo impressionante da memória a entrada triunfal ou sorrateira do primeiro.
A entrada de cada fantasma, o alojamento, a decisão de ficar e governar a minha vida, os meus passos: como terá de fato acontecido tal coisa?: Uma palavra rude? Uma frase dita por algum adulto? Um olhar severo? O que afinal motivou e abriu as portas e os imensos e labirínticos corredores do meu precioso castelo para tão cruéis moradores?
Tarefa extenuante, porém decisória, firme, sensata, absolutamente límpida, para que a decisão pudesse afinal ser tomada: o castelo precisava ruir, ser transformado em poeira, ser dissolvido como numa nuvem cósmica.
Quem me ajudaria nessa tarefa? Perguntei ao vento. A resposta veio cortante e definitiva e me apavorou: Ninguém. Eu não teria ajuda de nenhuma criatura. A tarefa de demolir, pulverizar o castelo era exclusivamente minha. Não poderia contar com nenhum auxilio. Mas, por onde começar? Pelos frágeis alicerces aparentemente inabaláveis?
Cada detalhe do castelo era feito com as ilusões, mescladas com o medo, que é o escorrimento ácido e pegajoso que sempre saiu das entranhas de cada fantasma.
Constatei espantado que me tornei com o passar dos anos um equilibrista, convivendo entre ilusões e o medo às vezes pavoroso vindo dos fantasmas. Pus-me quase sem notar a caminhar no tênue fio tentando não cair. Tornei-me o mestre do equilíbrio e aprendi a sair com maestria ileso das maiores armadilhas.
A fortaleza construída na areia custou-me caro, pois me impediu de lutar adequadamente e a manejar com destreza a espada na luta pela vida.
Até a compreensão de que a luta pela vida devia começar no terreno da realidade e só sofreria o seu primeiro impulso diante do entendimento da urgência de uma limpeza nos porões do castelo, tive que aperfeiçoar o meu equilíbrio insensato ao mesmo tempo em que gastava em gestos extravagantes as minhas energias fornecendo nutrientes para os fantasmas.
Extravagantes no sentido da própria inutilidade, da sensação de oco, de vazio, de desperdício que sempre me acompanhava após cada gesto, pelo fato de não revelar acréscimos em minha vida.
Tantas vezes experimentei a sensação de estar diante de gestos improdutivos, que nada acrescentavam, que apenas forneciam alimentos aos incômodos e traiçoeiros habitantes do meu castelo, enquanto roubavam de mim as chances de uma vida genuína.
Enquanto me ocupava de alimentá-los buscava refúgio dentro do castelo.
Circular nos corredores da minha fortificação alimentando os fantasmas foi minha ocupação durante os anos em que me enfraqueci.
Passei a dar ouvidos aos estranhos moradores, a tal ponto de aceitá-los como um poder agindo sobre mim e guiando as minhas indecisões.
A cada manifestação dos fantasmas mais eu me encolhia e mais me acomodava no castelo.
Fui percebendo que quanto mais alimentava os fantasmas mais o castelo se expandia, ficava enorme, o teto mais alto, as torres longas e aparentemente infinitas.
O castelo sobre a areia foi ficando cada vez mais indestrutível.
As ilusões foram transformadas em alimento e caí definitivamente num círculo vicioso, até que mirei lá embaixo e me vi rodeando sem nunca chegar a qualquer lugar que seja. Recebendo o alimento generoso das ilusões que se tornavam com o passar dos dias as guardiãs do castelo, impedindo a minha saída.
Reconheci cada fantasma em medos inúteis que me impediram de sair do castelo. A idéia de que sair seria perigoso, de que lá fora estaria a vida tornou-se para mim algo atemorizante. O conforto das ilusões tornou-se sedutor a tal ponto que passei a me orientar por ele.
Os fantasmas criaram inimigos onde eu só teria aliados. Transformaram em desconfiança as relações mais produtivas que a vida me ofereceu e espalhou estilhaços de incertezas e dúvidas que foram transformados numa barreira intransponível. Um entulho pesado e difícil de ser removido.
Os fantasmas criaram uma espécie de paranóia que passou a culpar os outros pelos meus fracassos, que na maioria das vezes nada mais foram do que representações da minha falta de iniciativa.
O processo que culminou na decisão de enfrentar e destruir os fantasmas e ao mesmo tempo derrubar o castelo foi lento e persistente.
No momento em que parti para a luta compreendi que estava preparado para enfrentar o verdadeiro responsável pelas ramificações do medo, da insegurança, da falta de confiança, da timidez, da falta de iniciativa. Era o castelo.
É nele e dele que partem as forças que atuavam dentro de mim. O castelo das ilusões.
Compreendi encantado que não são coisas distantes as ilusões e os medos, as incertezas, a falta de luta. São como irmãos. Estão, vigorosamente juntos. Um penetrando dentro do outro. As ilusões e as incertezas, as fraquezas, os medos e todos os sentimentos que impedem o ser humano de atingir a sua consciência de liberdade.
Um dia contarei com detalhes como foi a minha luta com os atemorizantes fantasmas e como foi a minha gloriosa luta pela demolição do castelo. Como percebi de imediato que alicerces construídos na areia criam lodos e limos na alma. De tal forma ficam fincados, que parecem feitos com o mais duro concreto malhado por ferro.
Sou aquele que venceu os fantasmas e derrubou o seu castelo de ilusões.
Ilusões que por ventura foram importantes na minha fase de crescimento, mas que depois se tornaram um entrave, um obstáculo, um mal.
Ilusões que passaram a sugar as minhas energias e geraram os fantasmas dos quais nunca me livrei por falta de consciência e disposição de luta.
Hoje sei o quanto é gratificante e maravilhoso olhar para os destroços e saber que destruí aquele castelo de ilusões e exterminei os fantasmas.
Como é gratificante ver que nenhuma ilusão será mais real do que a vida, com toda a sua força e todo o seu encanto. Vida construída diariamente. Vida que atirei sobre os fantasmas, soterrando-os com o golpe derradeiro.
O impacto da enorme rocha vida enterrou para sempre os antigos moradores do castelo que foi pulverizado.
O que antes era areia movediça e se apresentava como um castelo deslumbrante, acabou. Os fantasmas que pareciam indestrutíveis, foram extintos.
A batalha foi gigantesca, mas tudo não passou de apenas decisão.

O NATAL NÃO DESISTE

   O NATAL NÃO DESISTE

 
"Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai-Noel..."

O Natal não desiste. Insiste a cada ano através dos tempos em descer o seu manto sobre a Terra. A maior festa da cristandade envolve os corações aflitos e endurecidos pelos cotidianos, enfeitando de amor e de esperanças os seres humanos.

Incentivado pelas artes, pelo cinema, pelo capitalismo por intermédio da avalanche publicitária que invade os lares pela telinha, não perde o seu brilho e a sua essência e se torna presente nas guirlandas que enlaçam corações.

O poeta já quis que o manto natalino trouxesse de volta a poesia ao coração do homem, e muitos desejam em meras palavras ou em frases profundas que o espírito do Natal permaneça durante o ano em todas as almas. Ilusão. Mas não custa sonhar.

Para muitos o Natal ultrapassa o espírito religioso e torna-se uma festa universal, aproximando-se da passagem dos anos.

Com elementos extraídos primordialmente dos festejos chamados de Saturnálias o Natal agigantou-se pela inefável necessidade humana de viver em clima de amor. E sempre insuflou no espírito do Ser uma gratidão amorosa para com a vida, que se depois é dissolvida pela rotina extenuante retornará no próximo dezembro.

Intempéries, agruras, luta, suor e sofrimentos não conseguem apagar a beleza indelével da data, que não é alusiva.

O outro lado do Natal? Sim, o comércio investe profundo, e todos embarcam na vontade sincera de dar presentes e depois se emaranham com dividas alongadas. O cartão de crédito é um grande auxílio no investimento do coração. No fundo a grande maioria gosta mesmo é de presentear, embora ganhar presentes também seja algo reconfortante; no gesto de presentear está a certeza de que por alguém somos queridos.

E as crianças? Para elas o evento é mágico. Mas o nosso é feito de imagens oníricas, de sonhos de neves. Não vivemos num país de nozes e neves. Ora, todos os simbolismos atravessam o tempo e se tornam partes da magia. A magia não tem nacionalidade. Por isso quando o presidente reeleito da Venezuela proibiu qualquer referência ao Papai-Noel por considerá-lo americano, cometeu um erro monstruoso. Natal não combina com política.

E que o bom velhinho Nicolau continue a reinar, não como um símbolo capitalista, mas de encantamento.

Que todos possam ter um Feliz Natal, da forma como ele possa ser concebido em cada coração. 







MARCIANO VASQUES

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