quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

TENHO CIÚME DE TUDO

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

SORVETE, PIPOCA, CONVERSA...

Sapabela liga para o amigo:
— Alô! Rospo! Vamos tomar um sorvete?
— Está chovendo, Sapabela...
— Nem reparei. Então é melhor pipoca quente...
— O importante é o recheio...
— Recheio?
— A conversa...
— Para mim a conversa é um petisco...
— Ela é também o recheio e a sobremesa...
— Então está combinado, Rospo. Sorvete e pipoca... e  conversa...
— E o filme.
— É mesmo! Esqueci desse detalhe.
— Espere um pouco, para que eu possa pegar o meu guarda-chuva azul...
Logo o Sapo retorna.
— Rospo, sem chuva, a vida seria sem graça...
— Chuva, sol, sorvete...pipoca, sobremesa...conversa, filme...nada disso teria importância sem uma amizade verdadeira...
— Amizade só é amizade verdadeira, Rospo... Se tiver falsidade, deixa de ser...


HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 370
Marciano Vasques
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O SAPO E AS CIRCUNSTÂNCIAS

— Sapabela, eu sempre quis fazer muitas coisas, na verdade, foi mais necessidade do que apenas querer.
— Compreendo, meu amigo...
— Mas, quase sempre, elas atrapalham, dificultam...
— Elas, quem?
— As circunstâncias...
— Mas, às vezes, elas ajudam...
— Sim, a questão é que nos sonhos e nos planos elas costumam ser desprezadas... É preciso sempre prestar atenção nelas, "ouvi-las"...
— E quando as circunstâncias são favoráveis e você não realiza os sonhos? ...
— Sapabela, para transformar sonho em realidade, além do querer, precisamos de uma grande aliada...
— Quem, Rospo?
— A disciplina.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 369

Marciano Vasques
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O BLOGUEIRO - 36


LEILA, FRANSCISCO MARINS E MARIA LUIZA

Na Academia de Letras: Leila (Melhoramentos), Francisco Marins e Escritora Maria Luiza

Foto: Escritor Manuel Filho

COM FRANCISCO MARINS

Marciano Vasques com Francisco Marins na Academia Paulista de Letras.
Foto: Escritor Manuel Filho

PALAVRA FIANDEIRA - 48

Está no ar a nova edição de PALAVRA FIANDEIRA

NESTA EDIÇÃO:

Do Chile:

ROQUE CHIEYSSAL

Leia AQUI


O CORAÇÃO DA SAPABELA

— Como o coração é vaidoso, Rospo!
— Vaidade é decoração do coração...
— Não é só isso, meu amigo. A vaidade tem uma influência enorme no andamento do coração...
— Fale então...
— Veja só: o coração quase sempre se nega a ouvir a voz da razão, que fica ali martelando, batendo na porta, querendo entrar, e às vezes, espiando pela janela, mas ele, o coração, se mantém irredutível. Só quer ouvir a sua própria voz...
— Você tem razão, Sapabela...
— Pensei que tivesse apenas "coração"...
— O coração tem a sua voz e com ele não adianta discutir, mas ele precisava ser mais elástico, ouvir de vez em quando a voz da razão... Ele precisa compreender que a razão não é uma adversária...
— Tem sapa que é só coração...
— Sim, mas o coração não pode nublar a estrada...
— Sei disso. A razão é preciosa...
— A coisa mais fácil é alguém perder a razão...
— Perder o coração é difícil...
— Sapabela, é bom saber que tem momentos em que só o coração manda, mas tem momentos em que é melhor agir com a razão...
— Mas o coração é um pouco egoísta, às vezes...
— E imperialista também...
— A questão é que o coração tem as suas razões, e não abre mão delas...
 Rospo, como anda o seu coração?
— Caminhando, tranquilamente, em paz...
— O meu não, o meu anda desgovernado, como sempre foi... Louco pelas paixões da vida...
— Cuide bem dele, Sapabela, um coração assim merece todo apoio e incentivo...
—O seu coração, pelo que conheço dele, só se preocupa com as coisas imensas... Aquelas que não são passageiras...
—É bem verdade, Sapabela...
—Lá no recanto do requinte do seu coração... pulsa uma vida que jamais será requentada, meu amigo...
—Sapabela, você sempre acerta...Sua alma parece que tem uma boa pontaria...
—Nada, meu amigo. Apenas aprendi a observar...
—Mas não fica quieta!... Como consegue observar?
—Às vezes a quietude se aconchega ao movimento....


HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 368
Marciano Vasques
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sábado, 11 de dezembro de 2010

AMANHÃ

NA ALTURA DOS OLHOS DO SAPINHO

Ao ver uns sapinhos brincando ao redor, Rospo comenta com sua amiga:
— Sapabela, fiquei pensando: como poderei conversar com as crianças quando estiver velhinho?
— Crianças gostam de velhinhos...
— Mas talvez eu não consiga conversar com elas nem contar histórias...
— Por que, Rospo?
— Talvez sinta dores no corpo ao me abaixar...
— Abaixar?
— Sim, para conversar com uma criança tenho que me abaixar, me curvar, ficar na altura dos olhos dela... A linha dos olhos de um sapinho é a medida da altura da minha face quando converso com ele...
— Compreendo. Talvez você tenha dificuldades. Sinta dores lombares, dores na coluna...
— Mas, por enquanto, é melhor nem me preocupar com isso...
— Verdade, Rospo. Por enquanto, aproveite e abaixe bastante... E escreva muitos livros. Num livro você sempre estará erguido, porém na altura dos olhos do sapinho.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 367
Marciano Vasques
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ROSPO E A DESPEDIDA

- Sapabela, sabe qual é a coisa mais longa do mundo?
— Não me faça rir, Rospo.
— Pare com isso, Sapabela...
— Está bem, eu não sei.
— É a despedida.
— Despedida?
— A despedida fica em nossos corações, e não há tempo na vida que traga o esquecimento. O sapo pode pôr num canto da memória, e lá ficará a despedida como se estivesse adormecida... Mas ele jamais conseguirá se livrar dela...
— É longa mesmo... , não é?
— Sim, Sapabela, a despedida de um ser amado se estende numa vida para sempre...
—  Para sempre, Rospo?
— Sinceramente, minha amiga, não acredito que um sapo consiga mesmo se livrar de uma despedida. Por mais forte que seja, a partida permanecerá em seu coração, que mesmo que disfarce com festejo o fluir da vida, estará quebrantado... como se tivesse em si um espinho a machucá-lo.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 366
Marciano Vasques
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UM QUARTETO NA ACADEMIA


Os escritores Regina Sormani, Marciano Vasques, Edson Gabriel Garcia e Alina Perlman, na Academia Paulista de Letras, em ato em homenagem ao escritor Francisco Marins, em 09 de Dezembro de 2010

FRANCISCO MARINS

Escritor Francisco Marins, na Academia Paulista de Letras, em São Paulo, em ato em sua homenagem, promovido pela AEILIJ Paulista, em 09 de Dezembro de 2010.

NA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

Marciano Vasques com a escritora Regina Sormani e o escritor Edson Gabriel Garcia, na Academia Paulista de Letras, na homenagem ao escritor Francisco Marins, em 9 de Dezembro de 2010.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Ray Conniff-TEMA DE LARA (de Maurice Jarre).

SAPABELA E A VAIDADE

— Sapabela, que lindo o seu esmalte! ... Só não compreendo o excesso de roupa...
— Excesso? É apenas um vestido, Rospo! E até um pouco curto...
—  Tem razão, é apenas um vestido... Eu que ando com excesso de imaginação...
— Do que está falando, Rospo?
— Estou brincando com você, minha amiga...
— Que bela estratégia...Transforma em brincadeira uma vontade oculta...
— Agora eu que não entendi! Vontade oculta?...
— Rospo, já ouviu aquele ditado: "Onde há brincadeira, tem verdade"...
— Sim, é uma adaptação livre do ditado da fumaça e do fogo...
— Mudando de assunto: obrigado pelo elogio do esmalte. Sou um pouco vaidosa, Rospo...
— Só um pouco não vale, Sapabela...
— Mas a vaidade é boa em si?
— Quando a vaidade se vai, vai a idade...
—  Gosta da vaidade?
— Não pode ser excessiva a ponto de ultrapassar outras prioridades...
— Quais, por exemplo?
— A vida virtuosa...
— É possível vida virtuosa com vaidade?
—  Naturalmente. E a vaidade torna a vida melhor, mais refinada, mais requintada... Uma vida sem vaidade, em vez de requintada, é uma vida requentada...
— De que forma a vaidade torna a vida melhor?
— Ora, todos saem ganhando...
— Explique isso.
— Uma sapa naturalmente vaidosa torna-se mais bonita...
— Sim?
— E eu, que sou amigo dela, saio lucrando...
— É?
— Sim, eu, no meu caso, posso ter o privilégio de ficar olhando uma amiga Sapabela mais linda...
— Rospo, bem que já está na hora do Sapo também ser um pouco vaidoso, não é?
— Hã?

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 365
Marciano Vasques
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O AMOR É NEUTRO?

— Rospo, o amor é neutro?
— A qual amor se refere?
— Ao romântico...
— O amor verdadeiro certamente não é neutro...
— Dizem que o amor é cego.
— Nessa "cegueira" reside a tal neutralidade...
— Por que o amor verdeiro não é neutro? Ou cego?
— Porque ele não nubla os olhos do coração...
—  Da razão?
— Não! Do coração mesmo. A razão do amor é sempre a do coração...
— Fale dessa tal "neutralidade" do amor verdeiro...
— Verdeiro, não! Verdeiro vem de verde, de enverdecido...
— Eu quis dizer "verdadeiro", mas digitaram errado...
— Gosto de Metalinguagem, mas vamos direto ao ponto...
— Meu ponto sempre são três...
— Sei, as reticências... Mas, vamos ao amor...
— Agora?
— Sapabela! Pare de brincar... Ele não é neutro porque os olhos conseguem ver o ser amado em sua real dimensão...
— Entendo, e o ser amado se apresenta como ele realmente é... Mas sonhar é bom, Rospo!
— Mas os sonhos não podem distorcer a visibilidade... Já soube que uma sapa continuava apaixonada pelo namorado... que havia "maltratado" uma sapinha...
— Ela continuou apaixonada por um sapo que maltratou uma criança?
— Sim, e continuou se dedicando a ele enquanto a sapinha teve a infância destruída... E ele também atirou uma pedra no olho de uma cachorra e a cegou... E ela continuou apaixonada...
— Esse amor, que é neutro, é um amor imperfeito, uma anomalia do amor... Um desvio da ideia do que seria uma amor autêntico... O amor verdadeiro não admite essa neutralidade, essa cegueira...

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 364

Marciano Vasques

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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

LAGO DOS CISNES

CAPA DO LIVRO NEGRINHA

COMPAY SEGUNDO

ESCRITOR FRANCISCO MARINS

Escritor Francisco Marins recebendo o abraço de 
CASA AZUL DA LITERATURA

CADÊ VOCÊ?

TAQUARA- PÓCA



TAQUARA - PÓCA



Além do "Sítio", temos também uma fazenda. Taquara - Póca. Seu criador, o escritor Francisco Marins, nascido no primeiro quarto do século XX, já traduzido para uma quinzena de idiomas.
Seu livro, "Clarão na Serra" já é um clássico. O autor passou a infância na roça, no campo, nas plantações de café e foi nessa infância que ele buscou a inspiração para a sua literatura, rica de termos e expressões regionais, que nos mostram uma parte da riqueza folclórica vocabular da oralidade de nosso povo.
Um divulgador da vida rural, criou em Botucatu, sua terra natal, o clubinho Taquara-Póca. A criançada e a juventude, precisam ter contato com esse fecundo escritor. Um dos valores contemporâneos do Brasil.
Tem dezenas de livros para a juventude. Eis alguns de seus títulos de obras infanto juvenis
Nas Terras do Rei Café (série Taquara-Póca); Os Segredos de Taquara-Póca (série Taquara-Póca); O Coleira Preta (série Taquara-Póca); Gafanhotos em Taquara-Póca (série Taquara-Póca); Viagem ao Mundo Desconhecido; A Aldeia Sagrada (série Vagalume); O Mistério dos Morros Dourados (série Vagalume); A Montanha das Duas Cabeças (série Vagalume)
Foi na série Vagalume, da Editora Ática, que eu o conheci, quando era professor Orientador de Sala de Leitura, numa escola da Cidade Tiradentes.
Ambientando no então vilarejo de Botucatu, Clarão na Serra mostra a saga dos tropeiros, que penetravam nas matas, e se depararam com as trilhas já abertas pelos indígenas. Os viajantes cantadores, desbravadores da segunda metade do século XIX, são os protagonistas desse belo romance, requinte do regionalismo do Brasil. Ler Francisco Marins é viajar, desbravar, ao lado dos pioneiros da povoação do Brasil pelos seus interiores.
Aventuras na fazenda de Taquara - Póca é o recanto da nossa literatura, a nos mostrar um Brasil rico e com seus personagens lendários.
Curupira e as crianças, um nuvem de gafanhoto ameaçando o sítio. Francisco Marins escreveu muito, uma literatura fecunda e rica. Seus livros fazem parte do acervo da memória do Brasil, com seus animais, suas árvores, seus verdes e suas trilhas.
O premiado autor está em verbetes internacionais, e numa badalada coleção europeia chamada Delphin, que reúne os clássicos de literatura juvenil de todo o mundo.
Grande incentivador da juventude para que ela conheça os sertões, Francisco Marins merece ter seu nome triunfado nos arcos da literatura do Brasil.

MARCIANO VASQUES

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

II FEIRA LITERÁRIA DE BOQUEIRÃO

De 24 a 27 de março de 2011, venha viver Boqueirão, 
a "Cidade das Rimas e Letras"

O ESPÍRITO DE NATAL

— Sapabela, se houvesse uma rebelião dos leitões ... no Natal...
— Rebelião dos leitões?
— Sim, contra o "Espírito de Natal" .
—  Então, seria uma rebelião liberada por um "Espírito de porco"...
—  Sapabela, você é muito espirituosa. Muito engraçadinha...
— Isso vem de longe...
— Como assim?
— Meus antepassados, gerações e gerações, todos devem ter sido bem engraçados...
— Uma Sapabela realmente  deve ser o resultado da gerações de Sapabelas, mas, eu estava falando do "Espírito de Natal"...
— Sei, comer, comer... 
 Tem coragem de perguntar a um peru ou a um leitão se eles amam o Natal?
— Na natureza é assim, Sapabela. Uns comem os outros...
Só assim pode haver alegria completa. 
—  No caso do Natal, só é feliz o que come, ou você gostaria de trocar de lugar com o leitão ou o peru e ser o comido?
— Sapabela, tem certeza de que não incorporou o "Espírito de porco"?

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 363
Marciano Vasques

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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

MIOSÓTIS

Nomes Populares: Miosótis, Não-me-Esqueças, Não-te-Esqueças-de-Mim.
 



Foto publicada no blog 
FLORES DO MEU JARDIM

O BLOGUEIRO - 35

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SAPABELA E A CIÊNCIA

—  Sapabela, devemos tanto à Ciência... Deveríamos agradecê-la diariamente.
— Por que a Religião temeu tanto a Ciência no passado?
— Oh, meu Santo Galileu! Faz cada pergunta incômoda, Sapabela!
— São elas que sacodem a mente...Uma vida sem perguntas incômodas não promoverá mudanças em si.
— Entendo, mas ao elogio da Ciência já está implícita a resposta...
— Compreendo, basta só o reconhecimento dos benefícios da Ciência para favorecer a compreensão da atitude teológica no passado...
— É quase isso. Na verdade, a teologia não era exatamente contra o progresso em si...
— Mas todo progresso significa evolução...
— Nem todo progresso significa evolução. Bombas nucleares, bombas atômicas, armas letais...
— Mesmo assim, entendi que certas perguntas não são absolutamente necessárias... Pois a respostas podem já estar camufladas, inseridas, no que se diz...
—  Então, viva! Viva a Ciência...
—  Rospo, será que tem algum sapo hoje que é contra a Ciência?
— Não creio que haja alguém escrevendo com bico de pena de ganso ou que se recuse a usar o interruptor da luz.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 -362
Marciano Vasques
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AS NECESSIDADES CONTEMPORÂNEAS

— Sapabela, às vezes a leitura de um filósofo é espinhosa.
— Espinosa? Eu gosto!
— Eu não disse isso! Eu quis dizer que às vezes a leitura é difícil pelo fato de que complicam tanto para dizer algo simples...
— Talvez seja essa uma forma da filosofia se proteger...
— Certamente.
 Mas hoje os homens-sapos que influenciam a vida são outros...
— Não são filósofos?
— Não! São homens-sapos como Steve Jobs...
— Quem é esse?
— É o criador do I-Paid...
— Compreendo, Rospo, compreendo..., mas, então, a filosofia não é mais necessária?
— A filosofia e a poesia sempre serão necessárias...
— Mas a tecnologia criou outras necessidades...
— E o sapo não consegue mais viver sem elas...
— Rospo, eu sou aquela que se realiza pela quantidade de necessidades que tem... Quanto mais necessidades, mas tenho a chance de me realizar...
— É mais ou menos isso, Sapabela...

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 361
Marciano Vasques
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domingo, 5 de dezembro de 2010

PAPAI NOEL PARA MISSIVALDAS

Inflorescências da manhã. "Vou bem, graças a Deus!". E Missivalda fecha a porta do barraco e se dirige ao ponto de ônibus. Dali, do Parque Guarani até a Vila Carmosina, tomará dois ônibus. Cada dia trabalha num lugar diferente: Conjunto José Bonifácio, Pinheiros, Patriarca. Sempre na casa de funcionárias da creche do Parque Guarani, da creche da Via Ramos, ou na casa de alguém que resolveu confiar na indicação. Passa, lava, faz qualquer coisa, além de ajuntar latinhas para vender, pois o importante é ganhar algum dinheiro, ainda mais nessa época do ano. Missivalda, a filha, fica sozinha no barraco. Às vezes, ela leva. Depende da patroa.
Violentada aos treze anos pelo homem de cinquenta e cinco, de nome Moacir e apelido Cigano, a mãe deu conselhos: "Viva com ele, minha filha. Será um homem bom para você. etc". Missivalda viveu dez anos como esposa. Sua filha nasceu três anos depois. Desde que Moacir morreu, ela dá um duro danado para viver. Ficou bem pior sem ele.
Vai Missivalda e vem Missivalda. Sua filha cresce bem. Herdou traços alagoanos do homem. Muito atrasada na escola. Missivalda, a mãe, se dá bem com todos os vizinhos da favela do Parque Guaraní. Gosta muito de seu Vitorino. Homem bom, ela acha. Só não sabe qual é o seu trabalho. Mas não tem nada com isso.
Emociona-se ao ver a filha folheando um gibi, ou fazendo bolo de barro, ou ainda, jogando pedras nas águas do córrego, se divertindo com as ondulações e contemplando os insetos ao lume das águas.
Numa tarde vai à Penha. Como é Dezembro, ajuntou um dinheirinho. Quer comprar aquela caixa de giz de cera. Sua filha com gizes de cera. Seria o maior Natal, o mais colorido, rabiscado em todos os lugares, em todas as tábuas. Também compra uma bonequinha na Rua das Noivas.
Depois, vai ai Shopping e vê, na Praça Central, o Papai Noel sentado e aquela fila de crianças. Um beijo e um abraço no bom velhinho.
Ao se aproximar, reconhece debaixo da touca vermelha e da barba postiça, os olhos do vizinho Vitorino. Estremece. "Sim, é ele!". Volta para o Parque Guarani com o pensamento febril. "Sim, por que não?".
Pertinho do Natal procura o seu Vitorino. Primeiro, jura guardar o seu segredo. Depois, roga para ele ser o Papai Noel da sua Missivalda na noite do 24. Vitorino aceita. Missivalda vê confirmada a certeza de que ele é essencialmente um homem bom, apesar de ser tido na favela como um homem rude, distante. Deixa com ele o pacote da boneca e a caixa de giz de cera. Ela tem o direito de realizar essa fantasia. Ainda mais que a filha está doentinha.
Vai dormir com a janela aberta, e deixa, do lado de fora, uma pequena escada de quatro degraus e a luz acesa. A menina ardendo em febre.
À meia noite, conforme o combinado, o vulto entra pela janela. Missivalda, a mãe, finge dormir. Missivalda, a filha, sonha sonhos de dipirona. Vê chumaços de luzes e bolas de algodão voando numa ventania. O Papai Noel deixa o pacote nas mãos de menina, que com os olhos agradece com um sorriso largo. O velhinho passa a mão em seu rosto, em sua testa, e a beija suavemente nos  cabelos. A menina sorri como se estivesse acordada.
Ao amanhecer, Missivalda busca pãezinhos na padaria em frente à escola Antonio Duarte. Tem ovos e leite. Fará rabanadas. A pequena adora.
Ao retornar, a vizinha, entre os varais da manhã, comenta a triste notícia - Logo na noite de 24 de Dezembro! Vitorino está no Hospital de Ermelino Matarazzo, foi uma parada cardíaca, ou um derrame. Ninguém sabe direito. Está em estado de coma desde ontem, às seis horas da tarde. Foi encontrado caído na Avenida Imperador, ali, na esquina da Laranja da China, caído, quase sete da noite. Vai ser difícil sobreviver. Passou a noite no Hospital. Seu estado é grave. Teve fratura do crânio por causa da queda. Bateu a cabeça num paralelepípedo.
- "Mas como?" - pensa Missivalda.
Vai imediatamente ao hospital e tem a confirmação: ele deu entrada às seis e quarenta e cinco e foi transferido para o Santa Marcelina às vinte e uma horas.
- "Como é possível?"
Ao chegar em casa, encontra a filha feliz, brincando, sem nenhuma febre, com uma vivacidade nunca antes vista. A menina mostra o desenho feito numa folha com o giz de cera. Um rosto de Papai Noel.
Treme ao ver o desenho da menina. - "Que rosto perfeito!" - pensa, abismada, Missivalda.
E do abismo da sua perplexidade, olha para o azul e as nuvens brancas que lembram barbas. No horizonte, naquela parte alta, que é a Cidade A E Carvalho, o céu, com pinceladas vermelhas do sol, lembra paisagem de giz de cera.

MARCIANO VASQUES

Marciano Vasques
  


O COLECIONADOR 
DE LÁPIS DE COR

 
 
“Se sabe que el que vuelve no se fue”
Pablo Neruda

 
Olhou para a coleção de lápis de cor e fechou a porta. “Quanto já terá? ” Perguntou-se. Mais de mil, com certeza, pois começara faz anos. Coisa de maluco! É o que no pensamento dizem todos. Deixou registrado no cartório a sua vontade de que os lápis fossem doados para uma instituição que cuida de crianças carentes. Após a sua morte. Claro. Antes continuará com ela, até o infinito.

Era uma promessa.

Na infância a mãe não conseguia comprar um lápis de cor para ele. Então jurou que quando crescesse teria tantos quanto quisesse. Iniciaria a coleção para que nunca viesse a esquecer o seu passado. Faz gosto ver todos que vão à sua casa e se impressionam com a quantidade de lápis.

Há poema no nome Apoena, pensou ao saber da morte do indianista. Olhou os jornais. Nas capas três mortes. “Como deve ser bom ser alguém importante e sair na capa do jornal, ter a sua morte em manchetes”. Um foi o Super Homem. Outro um escritor mineiro. O terceiro viveu com os índios. Mortes que merecem manchetes, mas ele não: se morrer, será apenas um desconhecido, que nada fez de importante na vida, além de colecionar lápis de cor.

Sempre gostou das mortes ilustres. No dia em que morreu Jorge Amado chorou. Em sua vida só leu um livro do escritor baiano: Seara Vermelha. Mas o que já fantasiara com a cena da injeção que o tal médico Epaminondas dava na tal de Marta...

Tem um amigo que nasceu no dia da morte de John Lennon. Sua mãe chorou muito quando soube. Evitaram ao máximo a notícia. Se pudessem deixariam passar todo o tempo do resguardo, mas sempre tem alguém que conta, e ela ficou sabendo em menos de um mês. Então jurou que o filho seria um grande lutador pela paz e defenderia a solidariedade entre os povos.

A mulher pôs na cabeça que o filho seria importante por ter nascido no dia da morte do ex - Beatle. Como para ela, em sua juventude, o cantor simbolizava a luta pela paz, então o seu filho...

Infelizmente a morte do jovem não virou manchete. Fora apenas um assalto. Reagiu de bobo. Mas o colecionador de lápis de cor ficou triste e depressivo. Afinal eram amigos. A aquarela dentro do peito a resistir como vela votiva perdeu as cores. Seu amigo sempre contava a história do nascimento no dia do ídolo da sua mãe, e jurava que ainda faria algo pela paz.

Os dois se conheceram na adolescência. E a amizade vingou.

Estudaram juntos, cultivaram o prazer pela boa música, não se apegaram aos modismos. O gosto musical foi se acentuando com o passar do tempo e tornou-se um gosto ilustre (gostavam de dizer isso) depois que assistiram ao filme “Buena Vista Social Clube”. Viviam a repetir que gostariam de ser na velhice parecidos com o Compay Segundo.

Lamentável que um jovem que nasceu no dia do assassinato do John Lennon venha a ser assassinado por causa de um trocado.

O colecionador chorou muito no enterro do amigo. E fez uma promessa para si. Enquanto o corpo baixava, ele jurava sob o guarda - chuva azul que o protegia da garoa interminável, que iria dedicar a sua vida à paz e a solidariedade entre as pessoas. Só não sabia como fazer isso, mas encontraria o jeito certo.

Passou a vasculhar pela internet o nome de tudo que é ONG.

De alguma forma iria tornar-se um benfeitor da paz. De alguma maneira iria contribuir com a solidariedade humana...

Da sua janela ouviu as piadas no quintal sobre a morte do Super Homem. “Ele pensou que ia voar, por isso não se segurou e caiu do cavalo!”. É sempre assim: piadas, conversas tolas, assuntos medíocres.

Nunca pronunciou uma palavra sequer contra Michael Jackson. Nunca fez piada com a dor e o sofrimento alheios. Nunca entrou na da mídia mundial quando ela cisma com alguém. Sempre foi solidário para com as vítimas do poder.

Falta algo em sua vida. Emprego nunca deu muito certo. Fez um teste para trabalhar num banco, mas na entrevista foi reprovado pelo psicólogo. Não atende ao perfil exigido pelos bancos. Trabalhou durante um ano no correio, como carteiro, mas pediu a conta. Então montou uma banca de jornal. Adotou ao pseudônimo de Zero e pôs o nome da banca de “Banca do Zero”.

Em homenagem a quem? Perguntaram alguns clientes. Sei lá, talvez a um romance do Inácio de Loyola Brandão. Você leu? Apenas umas duas ou três paginas. Mas gostei do titulo.

Isso é comum nele. Ter em casa livros que nunca abriu, como o “Romançario”, de Stella Leonardos. Nunca tocou nesse livro. Nem sabe mais como o adquiriu.

Para cada um dava uma resposta diferente sobre a história do nome da banca. Para um soldado disse que é para homenagear o seu personagem preferido dos quadrinhos, o Recruta Zero.

Arranjou uma namorada e já pensa em casar, afinal quem passa dos vinte anos solteiro corre o risco de ficar sozinho.

A namorada além de ser “instruída”, é leitora numero um de Literatura Infantil, vive puxando conversa com ele sobre o assunto, como se ele realmente tivesse vontade de ouvir.

“E viveram felizes para sempre”. Muita gente contesta esse final nos contos de fadas. Mas é por que não entendem. Esse final nada tem a ver com a tradição ocidental cristã. Realmente nessas historias os casais vivem felizes para sempre, pois o “pra sempre” está ligado a uma idéia diferente da nossa, que somos regidos pela instituição cristã do casamento, lá o “pra sempre” significa viver eternamente o momento. A noção de eternidade nessas histórias é diferente. O momento é eterno, A eternidade está no momento que se vive.

“Como no poema do Vinícius?”

“Mais ou menos”. Responde a namorada. “É algo mais ou menos assim, que seja eterno enquanto dure”.

Ela formou-se em letras e em seguida começou uma pós de literatura infanto-juvenil.

Ele começou a sofrer influência da namorada e do seu próprio trabalho na “Zero” pois sempre sobrava um bom tempo para a leitura e acabava lendo de tudo.

Decidiu ser escritor.

Não de literatura infantil, mas de histórias para adultos, contos. E pôs-se a escrever o primeiro. Se conseguisse iria escrever outros e mais outros, e um dia escreveria o seu primeiro romance.

Colocou no papel as idéias sobre paz e solidariedade. Mas a namorada foi severa nas críticas, e ele pela primeira vez passou a sentir-se um zero de verdade.

“Falta harmonia nos textos, e as idéias se repetem. E pior de tudo, não tem uma idéia central, um eixo para conduzir. O que você quer dizer afinal? Qual a sua idéia de paz e de solidariedade? Precisa ser mais convincente. E a linguagem não está boa, não está nada literária. Precisa reescrever tudo, do começo ao fim. Falo essas coisas porque te amo”.

“Não vou desistir! Se me tornar um escritor famoso, quem sabe conseguirei levar adiante a minha idéia de contribuir com a paz, e talvez possa lutar pela paz mundial. Sei que pode parecer ilusão, pois um escritor não tem nenhuma importância no panorama mundial, ele nem tem voz, quem afinal vai ouvir um escritor? Escritor é para ser lido, não para ser ouvido. Sei da ilusão de muitos que vão às Bienais, e querem ser reconhecidos pelo público, como se fossem um Caetano Veloso, um jogador de futebol ou um astro de Globo”.

Não se deu conta, mas estava se tornando perturbado pela impossibilidade de se contribuir com a paz e a solidariedade. Começou a ficar angustiado.

No dia em que leu as três mortes nos jornais já estava pensando bobagens. E tendo dentro dele a estupidez da morte do amigo quedou-se em indagações perigosas. Vale a pena viver? Qual o sentido da vida? Se nem consigo escrever um conto? Se nem consigo pensar numa forma de contribuir com a paz e a solidariedade?
Pensou em escrever um conto para o publico juvenil, com personagens adolescentes, mas não veio a inspiração. A sua vida de adolescente não teve graça, nada fez de interessante. Passou boa parte ouvindo musica, a outra foi socado, como se fosse vaso vazio, com conhecimentos de física e de química que nunca usou...Tornou-se uma especialista em esquecer formulas e aprendizado...

Esquecer é uma defesa do organismo. Lembrou-se de ter ouvido isso e numa mais esqueceu dessa frase. Apenas das coisas que aprendeu no colegial.

Não deu cabo de sua vida porque conclui que só valeria a pena fazer isso se tivesse uma vida que valesse uma manchete, mas nunca voou nas telas do cinema, nunca escreveu um conto, nunca lutou em defesa dos direitos indígenas, nunca fez nada que viesse a tornar a sua morte uma vendedora de jornais.

Se a sua morte vendesse jornais, que bom seria! Mas nunca passou mesmo de um zero. Teve uma fase em que decidira tornar-se artista e pintou alguns quadros sobre os quais nada teria a declarar numa entrevista, por pura falta de objetivo. Pintou sem rumo, jogou as cores na tela e desenhou coisa sem nexo, aliás, confessou um dia para a namorada que privilegiava em sua pintura a estética do feio, e dizia com convicção que isso estava bem de acordo com a arte contemporânea. Ela concordou.

Não seguiu a carreira de artista plástico por falta de condições para comprar material e pagar uma faculdade.

O dinheiro da banca mal dá para viver. Vivia se queixando.

Certo dia na calçada a dedilhar um violão viu aproximar-se um menino.

O garoto era seu conhecido, morava nas redondezas. Estudava na escola pública da Vila Nova, um bairro de ocupação vizinho ao seu.

-Você estuda naquela escola de lata?
-Sim!-

-E o que faz por aqui?

-Cato papelão e plástico, ajudo a minha mãe.

De fato, pouco adiante estava o carrinho de madeira quase cheio de papelão e garrafas de plástico.

Então ele lembrou bem do menino. Morava na beira do rio, na avenida Caititu e não tinha material escolar, pois o que ganhara da prefeitura já acabara.

-Gosta de colorir desenhos?
-Sim.

-Tem lápis de cor?

-Não.

-Gostaria de ter lápis de cor que nunca se acabasse?

O garoto não entendeu.

-Ele entrou, trouxe uma dúzia e entregou ao pequeno.

-Você vai colorir sempre que quiser, só não deixe que lhe tirem os lápis. Quando eles terminarem, volte aqui.

O menino foi embora feliz com os lápis.

Ele entrou e ligou para a namorada.

-Estou feliz.Descobri uma forma de ser solidário. E estou em paz comigo mesmo.

No dia seguinte foi ao cartório e registrou uma nova declaração.

-“No caso de minha morte, que os meus lápis de cor sejam entregues a todas as crianças que passarem descalças em frente da minha casa e que não tenham dinheiro para comprar um lápis sequer. Se eu não tiver lápis é porque já os dei todos, para os meninos da minha época, que são as crianças da minha vida. Do meu presente.”

Pela primeira vez sentiu-se um super homem. Descobriu a sua forma de lutar pelas crianças, entendeu que a sua contribuição é pequena, mas é a que lhe coube. E seguiu em frente.

Numa manhã ao sair de casa ouviu no rádio a canção do Toquinho.

Dias depois pintou a banca e mudou o nome de Zero para Aquarela.

Escreveu um conto intitulado ‘O colecionador de lápis de cor” e enviou para uma editora.

A namorada ficou torcendo.

PALAVRA FIANDEIRA - 47

Está no ar a nova edição de:
PALAVRA FIANDEIRA

Nesta edição, diretamente de PORTUGAL:


EDGAR SEMEDO
Leia AQUI

DESLIGAR OS SAPINHOS

—  Sapabela, ontem você falou que não mata os bichinhos! Comente sobre isso.
— Rospo, adoro conversar sobre isso. Sim, não mato formigas, nem joaninhas, tampouco tatuzinho-bolinha...
—  De onde vem isso, Sapabela?
— Passei a infância brincando com eles. Foram os meus companheiros de infância, os meus brinquedos, pois não tínhamos brinquedos... Então, brincava com tatuzinho, com gafanhoto, com grilo, com louva-a-deus, com joaninha, com pirilampo...
—  Eu também, Sapabela.
—  Depois cresci, mas eles não têm culpa de eu ter me tornado adulta...
—  Compreendo...
—  Não suporto traição, e não podemos trair aos nossos companheiros, se eles um dia tanta felicidade nos trouxeram...
—  Hoje tem uma indústria de brinquedos...
—  Muitos são descartáveis. São brinquedos para o desejo, não para a realização. O Sapinho quer, e  quer cada vez mais, porém quando tem, quase nem liga, brinca um pouco e logo deixa de lado...
— Qual é a saída, Sapabela?
— Ora, Rospo, talvez a criança esteja precisando de um desligamento...
— Desligamento? E como faremos isso?
—  É fácil e simples, mas precisa coragem, pois estará indo contra o espírito da época...
— Sei...
—  Poderá ser como os grãos de areia que vêm com as ondas e batem no rochedo, que não se abala...
—  Fale sobre esse desligamento...
—  Desligar o computador, desligar o videogame, desligar a televisão, desligar o...
—  Compreendo, e deixar a criança solta...
—  Isso! A correr pelas ruas, pelos verdes, pelos ventos... O sapinho precisa descobrir os bichinhos... E tem mais...
— Tem?
— Sim, cada um de nós precisamos nos reinventar sempre. Essa é  a mágica, esse é o segredo, e quando você desligar o sapinho mesmo que por apenas uma hora, estará reinventado a vida, e com ela, você...

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 360

Marciano Vasques

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sábado, 4 de dezembro de 2010

LARA

NIKITA

FORRÓ

TESOUROS NÃO MORREM

Marciano Vasques

 
TESOUROS NÃO MORREM
 
 
Distâncias são tesouros que se acumulam em forma de poemas. O poema é uma das formas escolhidas para que a vida se manifeste. Somente distâncias autênticas tornam-se tesouros alcançáveis. Distâncias artificiais apenas criam ilusões.

Vidas fascinantes como a de Lee Falk, o espírito, são vidas que jamais desprezaram as distâncias. As reais.

O poema, assim como outras formas de arte, enveredam pelas trilhas ofertadas pelas distâncias autênticas.

Quando aquelas nas quais eu vivia e me reconfortava apenas acenavam-me, eu buscava refúgio no que pulsava fortemente em mim, sem me dar conta um só momento de que somente as distâncias artificiais não merecem ser cortejadas.

Quando estive no jornal Movimento, não passava de uma presença invisível que desenhava. Quando a jovem amiga Rosane Régis apareceu numa manhã na escadaria da Matriz de São Miguel, aportava em mim o frescor da idéia enigmática de que o jornal é uma das alegrias para quem necessita de manhãs.

Quando as manhãs não mais são necessitadas, o jornal perde o sentido. Ele existe em função das manhãs. Esse é o seu tesouro.

Quando, ainda como uma presença invisível, subi alguns andares de um grande jornal, já estava fincado no processo inconsciente de apego ao que realmente merece ser chamado de distância.

Quando estive em um auditório da PUC assistindo a uma palestra de Plínio Marcos, estava embarcando numa das mais promissórias noites da minha vida.

Quando vi Sérgio Sampaio cantando, e quando vi Chico Buarque interpretando Walter Franco, e quando olhei, pela primeira vez, numa banca de jornais um exemplar do jornal Versus, estava me recolhendo na grandeza dos que compreendem o valor que uma distância autêntica pode nos presenciar. E quando ouvi pela primeira vez o Tarancón, então foi uma explosão só comparável a uma ciranda de Lia de Itamaracá. Se comparações são possíveis nesse universo mágico da vida refeita nos tesouros que não morrem.

Quando colecionei o gibi do Henfil, já estava comprometido com a distância que vale a pena.

A história da riqueza intelectual do meu país não foi uma ilusão. E os passageiros de uma viagem solitária, tais como eu, sempre clamaram por estações de encanto.

Hoje, a memória danificada pode ser recuperada, se os espíritos se encontrarem além dos sites. Se a conversa retornar, se o bordado da perda for desfeito e a vida se manifestar em toda a sua força poética. A poesia é um caminho de vigor que decide a alma repleta de distâncias que não morrem.

Só o que é profundo sobrevive, e só o que é difícil pode ser fácil quando as distâncias autênticas se manifestam.

Amar profundamente uma distância autêntica, quer ela se manifeste num cartão postal exposto numa revistaria qualquer da cidade, promover manhãs de domingo e caminhadas nas calçadas da mesma cidade que sempre explodiu num coração como o meu, seria a tradução mais singela de uma vida bonita.

Nada que possa ser considerado decadente tem em si um germe sequer do que é de fato autêntico, pois tal coisa tem a característica de jamais morrer, e de renascer em outros corações.

A adolescência, os jovens, os sonhadores, os bêbados autênticos, os poetas que rabiscam seus versos, todos os tesouros precisam ser guardados.

Quem nunca conheceu a força de uma distância autêntica passou pela vida sem gozar do mais sincero prazer. Só nas distâncias autênticas o sonho encontra seiva para se tornar realidade.

Os caminhos são traçados na busca natural das distâncias mais preciosas, e quem tem os olhos apurados, voa elegantemente sobre os escombros.

A alegria do jornal, a releitura de um livro, de um gibi que jamais foi esquecido, um poema num caderno antigo, uma canção que não foi regravada apenas por interesses comerciais, e até um site no Youtube, tudo pode ser importante, como foram importantes as caminhadas solitárias pela cidade aberta, em plena alegria de estar, mesmo que numa presença invisível.

FEMINA ARTE NO LIRA DA VILA

UM POUCO DA SAPABELA.

— Minhas roupas não combinam, só canto do meu jeito, sem técnica vocal, rolo na grama feito uma sapinha, sou atrapalhada quase sempre, esqueço as coisas, mas jamais esqueço o essencial, adoro dirigir, amo a velocidade, mas não desprezo a lentidão. Veja como crescem as azaléias!
— Que belo depoimento, Sapabela!
—  Quer que eu continue?
— Claro! Hoje é sábado...
— Não tenho namorado nem namorante, mas continuo romântica para sempre... Sou tímida e espalhafatosa, e é dessa mistura que surge a verdadeira Sapabela...O toque é essencial em minha vida. Não acredito em Sapos que não se toquem...Sapos que conversam mantendo distância...Não mato bichinhos. Joaninha? Não se mata de jeito nenhum, não é? Barata? Sempre aviso para que ela saia de minha casa, pra ela ser esperta e se mandar... Sempre dou uma chance... Adoro sussurros, mas também adoro falar alto... Gargalhadas? É comigo mesmo! Se tiver samba, vou. Só pelo prazer de ouvir...
—  Sapabela, mas por qual motivo está me falando isso tudo?
— Hoje é sábado, Rospo! Dia de abrir as cortinas... Experimente.
— Farei isso. A minha alma já está sambando.
— Posso lançar a minha gargalhada no ar?
—  Demorou.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 -359
Marciano Vasques
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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

ROSPO E A CHEGADA DO SAPINHO

O sapinho, ao nascer, já surge num mundo pronto.
- O mundo nunca está pronto, Rospo.
- Certamente, mas, o que quero dizer é que o sapinho deve aprender desde cedo que o mundo foi edificado para recebê - lo. Nem sempre as coisas foram da forma como ele conhece. Veja a máquina de costura. Ela já existe quando o sapinho chega, mas nem sempre existiu...
- Uma das maiores invenções foi a máquina de costura.
- Responsável por uma revolução cultural
- E social.
- Se o sapinho conhecesse a gênese das coisas, aprenderia a valorizar mais a vida...
- Rospo, estou pensando: se a gente costurasse as nossas conversas , teceríamos uma bela roupagem da vida. Somos uma máquina de costura da História?
- Uma tecelagem, talvez.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 358


Marciano Vasques
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