segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
SAPABELA DECIDE SER POETA
Uma sapa passeia na calçada quando encontra um velho conhecido.
— Conhecido não. Amigo.
— Sapabela!
— Rospo! Tenho tantas coisas para conversar... Decidi ser poetisa... Poeta, entende?
— Seja bem-vinda! Já escreveu um poema?
— Nem um poemeto sequer...
— Então, escreva!
— Estou esperando por ela.
— Ela quem?
— A inspiração...
— Sapabela, primeiro precisa reconhecer a riqueza da vida que a rodeia. Os sapos, a vida do povoado, os dramas, as tristezas, os sonhos, e girando em torno disso tudo, a natureza, com sua brisa, seus relâmpagos, sua poeira, seus vendavais...
— Para que observar tudo isso?
— Você precisa ver que a fonte da poesia está presente no instante que você vive...
— Não precisa de inspiração?
— A inspiração é o que passa...
— Então posso ser poeta?
— Se você lapidar o olhar...
— "Lapidar". Você gosta dessa palavra...
— Pois é... Então, com o olhar florescido, apto para recolher a poesia na vida que passa...
— Estou apta a ser poeta.
— Não! Depois de tudo, por último, vem a técnica...
— Sabe, Rospo, dá um trabalhão ser poeta...
— Por isso a poesia é tão profunda...
— A poesia é um confessionário da alma?
— É a confissão arrancada do mundo...
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 402
Marciano Vasques
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
domingo, 23 de janeiro de 2011
PEQUENOS GESTOS NO COTIDIANO
— Rospo, tem que elogiar a sapa todos os dias...
— Todos os dias?
— Sim, mandar bilhetes, recados, hoje é mais fácil, tem internet, tem celular... A época é apropriada para o romantismo...
— Está brincando!
— Estou não. E a sapa também, tem que elogiar o seu namorante... Todos os detalhes são importantes, o cabelo, o perfume... Tudo. É sempre bom lembrar durante o dia que tem alguém que nos ama...
— Eu sei, agora, isso só vale se for espontâneo... Nada por decretos...
— Exatamente. Namorados e namorantes precisam de palavras, de incentivo, de ternura, de doçura, pois a vida lá fora está dura. O estresse é a marca da época, alma estressada é alma em sintonia. Então, o carinho e a dedicação, a atenção e a gentileza, são capazes de transformar a aspereza do cotidiano em um lago sereno...
— Uma fortaleza, eu diria, para enfrentar as dificuldades, as procelas...
— Exato, meu amigo. A saída está no amor declarado, nos pequenos gestos, na gentileza, na cortesia dos namorados...
— Falando nisso, Sapabela...
— Diga, Rospo...
— Nada não, tem recebido essas pequenas manifestações de carinho durante o dia?
— Ele ainda não apareceu...
— Ele quem?
— O namorado...
— Vamos tomar um sorvete?
— Vamos. Você é tão joia... Um bom amigo...
— E você é tão gentil, tão doce...
— Rospo, acho que essa conversa nos contagiou...
— Sapabela...
— O que foi?
— Qual sorvete prefere?
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 401
Marciano Vasques
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SAPABELA E A NOVIDADE
— Rospo! Que saudades!
—Sapabela, andou sumida...
— Desde ontem à tarde...
— Tem alguma novidade?
— Tenho! Uma maravilhosa!
— Diga! Por que demora tanto?
— Você é muito afobado, Rospo...
— O tempo é precioso demais, minha amiga...
— Quer mesmo saber qual é a novidade estupenda?
— Quero, novidade é comigo mesmo...
— Estamos no Hoje...
— Lógico, Sapabela, Hoje não é Ontem... Qual é a grande novidade?
— Exatamente essa. Tem muitos sapos que deixam de viver o Hoje para se guardarem para o amanhã, que não existe e quando existir, será apenas um novo Hoje...
— Eu sei...
— Ontem já se foi. Não mais existe. Acabou!
— Verdade. Só existe mesmo o Hoje...
— Portanto...
— Portanto, o quê?
— Vai deixar escapar?
— Tem razão, Sapabela, o grande lance da vida é justamente esse: viver intensamente o único dia que existe...
— Vamos começar?
— Vamos! Que tal um sorvete?
— Isso mesmo! O sorvete de Hoje não é o de ontem... E já pensou numa canção hoje?
— Tenho que pensar?
— Todos os dias.
— Que tal A Whiter Shade Of Pale?
— Eu vou de Quando m'innamoro...
— Como a vida é maravilhosa...
— Por que é Hoje.
— Porque é sempre a novidade...
— A eterna novidade no único dia possível...
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 400
Marciano Vasques
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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
ACUSADOS DE POESIA
— Rospo, eu te acuso.
— Do que afinal me acusa, Sapabela?
— Eu te acuso de Poesia, de ser poeta...
— Serei condenado, Sapabela?
— Sim, a vagar na ventania que agita a sonolência de concreto da cidade... Estarás no centro de todas as dores, irás escorrer e transbordar em todos os prantos, e sua alma plangente dançará o seu bailado de promessas e ternuras em todos os epicentros, serás a flor que cativará as almas desatentas...
— Tudo isso, Sapabela?
— E muito mais, Rospo.
— Tem mais?
— Sim, serás a força inesgotável, o insondável mistério no centro do picadeiro universal. Irás incomodar e ao mesmo tempo causar uma explosiva alegria, cuja força de luzes hemorrágicas não poderá jamais ser contida...
— Sapabela, por que decidiu me acusar de ser poeta?
— Pelo fato de ser sua amiga, e para isso servem os amigos...
— Fale mais...
— Assim estás me explorando, Rospo...
— Uma coisinha a mais... Uma frase...
— Rospo, o poeta é um efeito mágico que descortina o amanhecer, que dissipa o nublar dos olhos que se acostumaram com o desbotamento próprio do cotidiano... Eu te acuso de implantar riachos de águas cristalinas onde reinava a poluição... E te condeno a prosseguir enfeitando a minha alma com suas bandeirinhas multicoloridas, seus versos transparentes...
— Sapabela, eu a acuso...
— Eu? De que posso ser acusada?
— De ser uma inflorescência ambulante...
— Que lindo, Rospo! Bem, vamos então comemorar as nossas condenações... Quer um sorvete?
— Quero! Sabor Quintana...
— Eu quero Drummond...
— Eu quero sabor Cecília...
— Eu quero sabor Mario de Andrade...
— Rospo, pelo que eu sei, tem sorvete de sobra...
— Sapabela, você me faz rir...
— Erga o seu riso, Rospo, e o espalhe no ar... A poesia agradece...
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 399
Marciano Vasques
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
AS ÁGUAS NOS ROCHEDOS DO TEMPO
— As espumas contra o rochedo: que visão impressionante, Rospo! Meu coração transborda de poesia, e ela estraçalha minha alma andarilha...
— Sapabela! O que está acontecendo?
— A vida está chamando, Rospo, e eu estou aqui para atender ao chamado...
— A vida?
— Sim, com toda a sua poesia, a sua força mágica, me atirando ao vento, me lançando ao entardecer, entre risos, festas, dores, prantos, vento forte correndo nos capinzais, nos bambuzais. A vida não tem jeito. Ela nos assombra, nos provoca... Não podemos ficar impunes, passivos diante dessa grandeza, dessa imensidão...
— Consegue ver isso tudo no cotidiano?
— A aspereza do cotidiano é apenas aparente... Somos estilhaços da força motriz universal que nos atiça a cada novo sorriso de uma criança, a cada animalzinho a nos mirar com seus olhinhos... Somos intensos e nem nos damos conta...
— Fico feliz que esteja descobrindo essas coisas...
— Isso mesmo, Rospo! Nascemos para descobrir, para desvelar, para retirar os cobertores, os mantos... Precisamos correr na direção oposta ao vendaval, precisamos ser como as águas agitadas contra a imobilidade de todos os rochedos. Rospo...
— Sim, Sapabela...
— A vida pede passagem...
— Eu sei.
— Então, por favor, estenda seus braços, sorria, grite quando o trem passar. Você, ao atender ao chamado da vida, está contribuindo com a força universal que nos espreita... nas coisas... em todas as formas de vida, nos astros, nas ostras, nos riscos de mariscos nas areias das praias... Sejamos apenas os que zelam pela sua passagem...
— Sapabela...
—Sim?
— Posso abraçá-la?
— Rospo, você já me abraça com a sua atenção, com a sua conversa, com seu verso, e com sua amizade...
— Sapabela, não sei bem o que aconteceu, mas você está emocionante...
— E estamos apenas no começo do ano. Rospo?
— Sim, minha amiga.
— Hoje é quarta-feira?
— Sim.
— Então é um dia especial...
— Por qual motivo, Sapabela?
— Por estarmos aqui, exatamente onde estamos, conversando... Nos ofertando para a passagem da vida...
— E ela aposta uma corrida desenfreada com o tempo. Seria tão bom se todos percebessem...
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 398
Marciano Vasques
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
SAPABELA E AS PAIXÕES
— Sapabela! Descobri!
— Descobriu o quê, meu jovem amigo?
— A chave da vida...
— Eu quero! Eu quero!
— Pois é, descobri...
— Então diga, Rospo...
— É Ela, Sapabela, é Ela...
— Ela quem, Rospinho? Diga, meu amigo! Quem é essa Ela?
— A paixão! Sapabela, a Paixão!
— Ter um amor, um namorante? Uma namorante? Um namorado, um namorigo?
— Namorigo?
— Mistura de namorado com amigo...
— Não, Sapabela. Não me refiro exatamente tão somente a essa paixão...
— Existem outras paixões?
— A vida é paixão, Sapabela! Paixão! Um arremedo de paixões! Vendavais, canaviais, bambuzais, varais! Ventanias! Paixões pelas garatujas do sapinho, pelo giz de cera, pela folha branca clamando um verso, por um poema latejante na lisa folha que ao sol desliza, pelos riachos, e pelos filetes de água, pelas coisas que passam, pelos rostos e suas fibras, pela febre do poeta em busca da rima impossível... Paixões, Sapabela! Só assim a vida vale a pena! Só assim a vida tem sentido. Viva intensamente, mas, preste atenção...
— Sim, Rospo, estou ouvindo...
— Viva intensamente apaixonada...
— Abro os meus braços, Rospo! Meu pensamento é formado por mil girassóis, mil carrosséis... Que venham todas as paixões...Todos os vendavais... Quero ver o mar agitado, o céu trovejando, quero abraçar tudo que vier relampejando... Sou paixões, Rospo! Quero ser e viver assim...
— E assim será, minha querida amiga!
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 397
Marciano Vasques
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
A DÁDIVA DA LOUCURA
— Só fala de coisas antigas, Rospo!
— Tem certeza, Sapabela?
— Parece que vive fora da realidade...
— Não entendi essa provocação, minha querida...
— Fica falando de amor o tempo todo...
— Sapa, enquanto existirem sapos e sapas...
— Sei, Rospo, sei disso, mas, pense bem. Encare a vida de frente. Veja como estamos vivendo hoje...
— Diga, Sapabela, sei que algo está suspenso no ar, incomodando...
— Acha de verdade que os sapos estejam preocupados com esse papo de amor? Veja esse tal Reality Show... A própria TV, ninguém mais se lembra que no brejo tem luar... Aliás, o amor foi todo para a novela... E ainda bem que tem ela, pois, veja quanta tragédia, as chuvas, tudo... E se não tivesse uma válvula de escape, como iríamos sobreviver? E aí vem você falando de amor, de bolero... Observe certas letras musicais de hoje, precisa acordar, meu amigo...
— Sapabela, eu...
— E ainda vem falar de Poetas... Ora, poetas são loucos...
— É isso, Sapabela! É isso que a sociedade do brejo precisa!
— Isso o quê, meu Rospinho?
— Loucos, Sapabela! A sociedade precisa dos que têm o coração louco de amor, os bêbados de luzes, os poetas com o peito na vertigem das loucuras... Só os plenamente loucos são capazes de romper a guilhotina desse marasmo, que põe em perigo as cabeças audaciosas e bota o controle remoto nas mãos de um rebanho sem paixões...
— O que você sugere, Rospo?
— Que o namoro triunfe, que o amor acelere os corações, que os loucos declamem seus versos, é disso que o brejo necessita! Aliás, o planeta...
— Sabe, Rospo, suas coisas antigas afinal são bem interessantes...
— Meu coração tem um interesse profundo pelas coisas que não passam, Sapabela... Entenda de uma vez, nenhum amor será efêmero...
— Rospo, isso merece um sorvete.
— Isso merece luar, Sapa, merece um Fellini, um parque de diversões, uma caminhada nas areias da praia, um bom livro, uma festa, um sorriso, um abraço...
— Rospo, como a loucura é boa!
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 396
Marciano Vasques
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
sábado, 15 de janeiro de 2011
O OFÍCIO DE ESCREVER
— Rospo, meu querido!
— Sapabela! Que alegria!
— Hoje é sábado!
— Muita chuva, muita coisa para fazer...
— Rospo, ontem você falou sobre o ofício de cantar...
— Sim, conversamos a respeito.
— Mas, e o ofício de escrever?...
— Sapabela, eu estava justamente pensando nisso...
— Mas recebi um comentário de uma amiga...
— Então, vamos lá: o ofício de escrever é o maior tesouro na infância de um sapo, um tesouro que o levará para paixões irremediáveis e inadiáveis, para amores tempestuosos e inesquecíveis aventuras ...
— Mas isso é o ofício de ler...
— Sapabela, quando um sapinho ou uma sapinha recebe de presente das gerações de todos os tempos o extraordinário ofício de escrever, sua mente se modifica, seu cérebro sofre transformações, e, de forma natural, também o seu coração, a sua alma...
— Compreendo...
— E tem a chance de edificar mundos, reinos, e dar vida e forma às mais espetaculares aventuras do espírito anfíbio. Poderá, com a escrita, expor a sua alma, que é o seu sentir, e também compreender o mundo, pois ao expor os seus sentimentos, estará realizando o florescimento, o desabrochar da sua própria leitura do mundo. Escrever é um passo gigantesco na vida de um sapinho. Com a escrita, com o exercício desse fazer, ele deixa de ser solitário e se torna alguém em comunhão com o mundo. Ele não está mais fora do mundo...
— Escrever é tudo isso?
— É deveras o maior tesouro que alguém, qualquer sapo, pode receber em sua vida...
— Rospo, veja uma árvore!
— Estou vendo. E daí?
— Por acaso estou com um giz, posso comunicar algo nela?
— Ainda bem que não é um canivete. Claro que pode! Vá até o seu caule... Escrever é para isso, é para comunicar pensamentos, sentires, sonhares, quereres...
— Veja, Rospo!
— Ora, você desenhou um coração. Não há nada escrito nele.
— O coração desenhado é uma forma de escrita, mas se estiver se referindo apenas às palavras, o que devo escrever nele?
— Tenho certeza de que até o caule da árvore já sabe...
— O que está insinuando?
— Nada! Estou brincando. Que tal escrever: "Árvore: Eu te amo!"
— Boa ideia! Então, lá vou.
— Sapa, você escreveu: "Árvore. Amo também você!"
— É, o ofício de escrever é um tesouro.
Os dois riem muito. E Rospo prossegue:
— Sapabela, sabia que todos somos escritores?
— Sim, a partir de quando começamos a escrever...
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 395
Marciano Vasques
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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
O OFÍCIO DE CANTAR
— Todos os sapos são importantes em suas profissões...
— Claro, Sapabela: o jardineiro, o motorista, o médico, o professor, o pedreiro...
— Exatamente.
— Mas tem um sapo que merece o meu aplauso...de imediato...
— Quem, Rospo? Quem?
— É aquele que exerce o ofício do coração, da alma...
— O padre?
— Não, Sapabela!
— Quem, Rospo?
— O cantor.
— É verdade, o sapo que exerce o ofício de cantar merece mais do que aplauso... Merece o nosso respeito e o nosso carinho, e o nosso agradecimento...
— Justamente.
— Aquele que canta e fala de amores, que confessa sentimentos, que lança a sua voz ao ar contando histórias em acordes às vezes plangentes...
— Sim, o cantor, o ofício de cantar. Pena, não é, Sapabela...
— Pena o quê?
— Que tem sapo que se dedica a fazer guerras, a destruir...
— Bendito seja o cantor, bendita seja a sua voz, e o seu coração...
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 394
Marciano Vasques
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A BREVE INFINITA TRISTEZA
— É curioso esse blog que você gosta, Rospo.
— É mesmo, Sapabela?
— Sim, quando não tem palavras tem músicas... Às vezes, três ou mais, de uma só vez...
— Aprecio muito isso... Talvez por isso eu sempre volto...
— As músicas são românticas, assim, meio "bregas", quero dizer, são bem populares... Não são canções com letras intelectuais, ao contrário, as letras são bem simples, e falam de amores...
— Enquanto existirem sapos e sapas no mundo...
— Entendo. Mas, considero curiosa essa atitude desse blog...Poderia pôr músicas...mais "elitizadas", se me entende.
No fundo, parece uma homenagem à rádio...
— Que mais você reparou?
— Que alguns cantores aparecem mais, porém, o que mais me intriga é a pretensão do blog de fazer sonhar...
— E você, Sapabela?
— O que tem eu?
— Gosta das músicas?
— Você sabe, Rospo, que herdamos essa alma, esse jeito lusitano de sentir e de amar... Somos coração, cantamos com o coração, por isso o fado, o bolero, e até o samba é choroso... Somos sinceros em nossas dores...
— Fico feliz que seja assim...
— Mas você anda triste, não é, Rospo?
— É uma breve infinita tristeza...
— Vai passar, Rospo, vai passar...
— Que tal passar com um samba?
— Então vamos lá!
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 393
Marciano Vasques
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
SAPABELA, TRISTEZA E ALEGRIA
— A alegria e a tristeza não podem conviver no mesmo espaço...
— No mesmo espaço?
— No mesmo corpo.
— Corpo?
— Alma, Sapabela.
— Ora, Rospo, que óbvio! Qualquer um entende isso.
— As coisas mais óbvias e mais simples também precisaram de imensos sistemas filosóficos.
— Spinoza!
— Não entendi, Sapabela!
— É uma nova expressão. Equivale a "Eureka!"
— Muito bem. Nem tudo é exatamente tão óbvio como parece.
— Mas, nesse caso, é. Meu amigo: tristeza e alegria são antagônicas. Uma anula a outra. E não podem mesmo, jamais, ocuparem o mesmo espaço...
— Então uma precisa expulsar a outra...
— Já sei. Essa é fácil!
— Sim?
— Só a alegria tem a força para expulsar a tristeza.
— Ocorre que a tristeza enfraquece o ser...
— Mas a alegria fortalece, aumenta a potência...
— E como o ser busca naturalmente se fortalecer, a alegria sempre terá grandes chances...
— E se a tristeza for muito forte?
— A alegria há de ser redobrada...
— É possível ter alegria no sofrimento?
— Nesse caso, o esforço para afastar e aniquilar a tristeza será bem maior...
— Vale a pena tentar, Rospo?
— Pergunta proibida. Sempre vale a pena.
— Concordo.
— Concorda?
— Com corda e com barbante.
— Sapabela! Está sempre brincando. Tristeza e sofrimento são parceiros. Um depende do outro... Expulsando a tristeza você estará ofertando uma chance para a alegria, e assim o sofrimento ficará isolado, enfraquecido.
— Então vamos lá! Estou pronta para essa batalha. Que venha a tristeza, que já tenho de reserva uma alegria .
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 392
Marciano Vasques
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SAPABELA E A VELHA ALEGRIA
— Tudo renasce, Sapabela.
— Já falou isso um montão de vezes, Rospo...
— Não tantas quanto todos os renascimentos.
— ?
— O que houve? A voz fugiu, Sapabela?
— Pronto! Já renasceu.
— Então, fale.
— Pelo jeito, renascer é a lei da vida...
— Exatamente. Até a velha alegria renasce...
— Velha alegria?
— É. A mãe da vida.
— Fale sobre essa velha alegria.
— Sempre que ela renasce, Sapabela, compreendemos o verdadeiro sentido da vida.
— Rospo...
— O que é?
— Estou sentindo falta da velha alegria.
— É o primeiro sinal.
— Que sinal?
— De que Ela irá renascer novamente.
— Que seja então bem-vinda.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 391
Marciano Vasques
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FALANDO DE FLORES
Rospo e Sapabela na calçada começando o ano.
— Rospo, posso me enganar?
— Que história é essa, Sapabela?
— É que de engano em engano vou acertando...
— Diga qual é a sua aflição...
— Uma flor de Outono é também uma rosa juvenil?
— Um botão em flor, você quer dizer?
— Isso, um broto...
— A flor de Outono pode ser mesmo uma flor juvenil... Mas, qual o motivo da pergunta?
— É que fiquei curiosa com aquela conversa sobre "Flor de Outono"...
— A flor de Outono pode ser simbólica na vida de alguém. Um sapo pode ter a sua flor de Outono no pensamento...
— Sabe, Rospo, eu não tenho a minha flor de Outono...
— Nem deveria...
— Por que? O mundo inteiro tem sua flor de Outono, menos eu!
— Sapabela, que exagero! Eu quis apenas dizer que se ainda não tem a sua flor de Outono, é porque naturalmente você é uma flor de Primavera...
— Sei não, não estou bem convencida...
— Sapabela. Fique em paz. Um dia virá que a sua flor de Outono há de chegar...
— Rospo, pensando bem, vou cultivá-la desde agora...
— Tome.
— Para mim?
— Estou emprestando...
— Um livro de Poesia?
— Sim, para você começar a cultivar a flor que um dia virá...
— Rospo, você poderá ser um dia a minha flor de Outono?
— Sapabela, estou sem jeito.
— Já sei! Vamos tomar um sorvete?
— Vamos! Temos muita conversa pela frente...
— Rospo, tenho a impressão de que 2011 será joia!
— Um segredo, minha amiga...
— Diga.
— Somos nós, cada um de nós, que constrói o 2011...
— Então vamos começar! Qual sabor quer?
— Peça um sabor "Flor de Outono".
— Rospo, você é muito divertido.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 390
Marciano Vasques
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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
AS COISAS NÃO SÃO MESMO ASSIM...
— Os partidos políticos aqui no brejo estão brigando por cargos. Todos querem ministérios e posições importantes. Cada qual quer ter seus sapos em posições chaves, de decisão, e, principalmente, de controle de verbas...
— As coisas são assim mesmo, Rospo...
— Não! Não diga isso, Sapabela!
— Rospo, pare de fazer escarcéu! Precisa aprender a se comportar. Estamos em 2011. Percebeu?
— Desculpe, Sapabela. Mas, você não pode dizer uma coisa assim...
— O que eu disse de errado, Rospo?
— Ora, que "As coisas são assim mesmo..."
— Não posso?
— Jamais podemos dizer isso, Sapabela. As coisas não são assim. Quer dizer, elas jamais deveriam ser assim. Quando nós, os sapos, assumimos esse conformismo, essa aceitação, essa naturalidade, essa passividade...
— Tudo isso, Rospo?
— Exatamente. Se nós continuarmos a pensar e a se expressar dessa forma, as coisas não mudarão. Isso que está acontecendo, esse canibalismo dos partidos, todos eles, é insensato, isso é grave, jamais deveria acontecer. Deveriam deixar que o Sapo presidente escolhesse por si só, baseado em seus critérios...
— Tudo bem, Rospo, mas você se esqueceu de algo...
— É?
— Não podemos mais falar "Sapo presidente"...
— Verdade, Sapabela, mas também não podemos mais repetir esses "chavões" tipo: "As coisas são assim mesmo"...
— Rospo, fico impressionado com a sua argumentação... Você é ótimo. Quando começou a desenvolver esse seu pensamento tão articulado?
— Bem, eu sou assim mesmo...
Os dois caem na gargalhada.
— Rospo, foi a primeira gargalhada do ano. Então, só falta uma coisa.
— Já sei, o meu eu quero de morango.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 -389
Marciano Vasques
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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
O NARRADOR MISTERIOSO
Rospo às vezes come só pão, às vezes toma sopão.
E lá vai ele na doce rua da amargura,
Numa doceria, olha o amargo rosto da doceira.
No caminho vê um chileno de chinelo, um sapo com cachimbo, outro com caxumba, e segue calibrando o seu coração...
— Calma aí! Calibrando não, colibrando.
— Colibrando?
— Sim, preenchendo o meu coração com colibris, com poemas, com o doce riacho da poesia, para que eu possa lavar o meu rosto quando ele estiver acuado de saudades...
— Saudades, Rospo?
— Não apenas, mas também todas as dores e as perdas, e todo o riso e todas as festas...
— Você é festeiro?
— Sim, pois nem sempre podemos ser festa. Então, quando não for época de perdas e dores, temos que ser naturalmente festa... Mas, por favor, continue com a história, não vou ficar conversando com o narrador o tempo todo...
— Está certo: vamos lá: O elegante Sapo Rospo, sincero e transparente, com a alma latejando de poesia, segue seu caminho de quereres e sonhares, acreditando que poderá sacudir os corações imobilizados pela rotina do cotidiano. Mas, ele, com a sua braveza e a sua verdade...
— Querem saber de uma coisa? Estou desconfiado desse narrador. Está muito "Cheguei". O que estará acontecendo?... Esperem um pouco, que tive uma ideia. Narrador?
— Pois não, Rospo.
— Vamos tomar um sorvete?
— Agora! É pra já! Demorou a convidar.
— Eu estava desconfiado que era você Sapabela. Não adiantou disfarçar a voz.
— De vez em quando é bom assumir a narrativa, meu amigo...
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 388
Marciano Vasques
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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
O SAPO E O SILÊNCIO
— Rospo, acha que o silêncio às vezes é necessário entre amores?
— Sim, é absolutamente necessário. Só ele pode resgatar os valores essenciais desses amores...
— Mas o silêncio não pode causar equívocos? Afrontas? Um dos parceiros pode julgar e entender que o silêncio é um despropósito, uma arrogância...
— Quando um sapo diz para uma sapa que ela é o motivo da sua alegria, que ele só sente alegria quando está com ela, e depois eles se desentendem na comunicação, e só causam desencontros quando um tenta falar com o outro...
— Acontece muito, e nenhuma das partes quer ceder, sempre um considera que o outro está 100% errado...
— Então, só o silêncio resolve...
— Exatamente. Quem sabe a sapa há de se lembrar que ela é a alegria na vida do sapo, e ele há de sentir uma saudade tão imensa da presença dela, de como o coração dele se aquecia de luminosidade quando ela chegava...
— Então, se concorda, viva o silêncio!
— Sim, quando as palavras só conseguem machucar, mesmo que não queiram, ele vem acudir, é o maior reforço, o maior apoio. Ao tomar o lugar das palavras, vem dizer e diz. O silêncio então, certamente, tem a mesma força das palavras?
— Uma força maior, minha querida, acredite.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 5 - 387
Marciano Vasques
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A FLOR DE OUTONO DO SAPO
Sapabela e Rospo passeiam quando encontram no caminho uma bela flor de outono...
— Veja, Sapabela! Uma flor de outono!
— Não me lembro de tê-lo visto tão empolgado, tão entusiasmado com uma simples flor de outono.
— Não diga isso, Sapabela! Uma flor de outono jamais será uma simples flor... Ao contrário, ela é por demais preciosa, pelo menos para mim...
— Toda flor é deveras preciosa, mas, preciso saber o motivo de tanta preciosidade para você...
— É que a flor de outono representa o mais puro amor, o amor mais genuíno, mais bonito e mais sincero...
— E onde está esse amor, Rospo?
—No coração que-não-vive-só.
— No fundo, nenhum coração vive só...
— Mas tem um que só pulsa porque ama...
— E você conheceu esse amor?
— Sim, ele veio em forma de flor de outono...
— E onde está ele agora?
— Na vida, Sapabela, na vida...
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 4 - 386
Marciano Vasques
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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
O SAPO E O ENVELHECIMENTO MENTAL
— A coisa mais fácil do mundo é envelhecer...
— Todos envelhecem, Rospo...
— Engano seu, Sapabela.
— Viva!
— Que entusiasmo é esse, Sapa?
— Foi o primeiro engano do ano...
— Impressionante!
— Fale, Rospo! Diga porque eu me enganei...
— Você pode envelhecer, se quiser... Saiba que o envelhecimento biológico é natural, mas você pode garantir que a sua mente não envelheça...
— Estou entendendo, é o corpo que envelhece...
— A mente também, se você deixar...
— Como devemos agir?
— É simples. Com relação ao corpo, você pode retardar os efeitos do envelhecimento com remédios, alimentos e atividades físicas...
— E a mente?
— Cinema, Sapabela, e leitura. Bons livros, e o jornal diariamente... E muita conversa e interesse pelas novidades, por acompanhar o mundo. A boa música, o gosto pelas palavras de amor, os encontros, o bom vinho...E grandes pensamentos. Você pode não mudar nem interferir no mundo, mas a sua mente agradecerá...
— Com leituras, vida social, interesses culturais podemos retardar os efeitos do envelhecimento mental...
— Mais do que isso, Sapabela. Você poderá impedir o envelhecimento mental.
— As ideias velhas favorecem o envelhecimento mental?
— Não exatamente as ideias velhas, mas as ideias conservadoras, reacionárias, conformistas... O conformismo é um dos maiores incentivos ao envelhecimento mental... Só se vive uma vez e de forma tão ligeira, que se você perder o avião do tempo, envelhecerá, certamente...
— Então, ideias renovadoras rejuvenescem a mente?
— Pensamentos conformistas e acomodados são sinais de envelhecimento mental, Sapabela... Só quem segue o eterno pensamento juvenil do mundo não envelhecerá, mesmo que tenha 80 anos...
— Isso é bem promissor. Irei vasculhar os meus porões mentais...
— Faça isso, tem um bom motivo.
— Qual?
— Estamos em 2011.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 3 - 385
Marciano Vasques
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domingo, 2 de janeiro de 2011
ROSPO E O ANO NOVO
— Rospo! Já estamos em 2011!
— Já?
— Já. Hoje é domingo, é Ice creamday, em Inglês...
— É Sunday, Sapabela.
— É mesmo, preciso aprender melhor o Inglês... Mas, e você?, fez a sua lista?
— Fiz: Um de abacaxi, um de groselha, um de flocos, um de leite condensado, um de morango...
— Rospo! Eu falei lista de prioridades, de resoluções, de decisões...
— Não havia pensado nisso, mas posso fazer agora uma lista de palavras...
— Manda ver.
— Música, cinema, sorvete, compreensão, amizade, sinceridade, simplicidade, amor, ternura, ideal, esperança...
— Rospo, que belo 2011...
— Mas um ano não é feito de palavras, Sapabela. Nós, os sapos, é que temos que fazer o ano...
— E temos para isso 365 dias...
— Não! Não, Sapabela! Temos apenas o dia de hoje. E amanhã, teremos o dia de amanhã, e a cada dia um novo dia apenas.
— Entendi, o ano é construído a cada manhã...
— Vamos começar, Sapabela?
— Vamos, eu quero o meu de morango.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 2 - 384
MARCIANO VASQUES
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UMA ESCRITORA DE LITERATURA LITERATURA INFANTIL
Sapabela conversa com Joelminha, sua sobrinha pré.
— Quando eu crescer quero ser escritora de Literatura Juvenil. Quero escrever para os jovens, os adolescentes..
— Que papo é esse de "quando eu crescer"? Você já está crescendo, todos os dias. Não tem essa de ficar adiando para o futuro. Crescer é agora! Comece a escrever, invente suas histórias, crie os seus personagens... Não existe o "Quando", existe o "Agora"...
— O público jovem quer velocidade, ação, coisa de videogame. História precisa ter crimes, velocidade estonteante, entendeu? E eu gosto de textos reflexivos...
— Viu no que deu ficar conversando o tempo todo com o Rospo? Mas quero dizer uma coisa, Joelminha: a culpa não é exatamente do jovem. O próprio cinema só apresenta filmes com muita ação, muita adrenalina, muitos efeitos especiais e muita velocidade. Para o bem ou para o mal, é assim que acontece com a Literatura Juvenil... Mas, pode acreditar, ainda existe espaço no coração do jovem para a poesia.
— Tia Sapabela, então, está decretado: a partir de agora sou escritora de Literatura Juvenil.
— Viu como você cresceu rápido? E continua a mesma Joelminha.
— É tão bom crescer sem perder o gosto pela simplicidade...
Marciano Vasques
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