segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

TROVAS -— 8

Batendo em minha janela
com seus dedos de gigante,
quer a chuva, através dela,
buscar o sol, seu amante!

AMARYLLIS SCHLOENBACH


SELEÇÃO DE TROVAS (por MTC)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

MELANCOLIA DE DOMINGO À NOITE

—Tenho tanta coisa pra fazer, Sapabela... E o tempo escorre feito areia... Tenho lágrimas palpáveis, desenhando caminhos molhados na minha face, mas ninguém repara no picadeiro universal...
— Rospo, guarde as lágrimas, pense, por favor, em todas as coisas que ama, tudo que passou e passa por você... Como as vidas e as histórias entrelaçadas passando lá fora, do lado de lá da janelinha do trem... Quantas amizades você desperdiçou, quantos abraços você perdeu, de sapos amigos, sapos que gostavam verdadeiramente de você...
— Assim você me arrasa, Sapabela...
— Amigos queridos, gestos delicados, sorrisos que passaram e você nem reparou, brilho autêntico nos olhos, vontade de abraçar, timbres inesquecíveis, vozes dizendo coisas, palavras que se espalharam e se dissolveram ao redor, coisas que se perderam...
— Sapabela, chega! Não sou de ferro...
— Está bem, Rospo, eu paro. Mas, que história é essa das lágrimas que descrevem fiapos em sua face?
— Isso acontece, Sapa, por causa do tempo que escorre... Como posso compreender que esse tempo passe assim de forma tão implacável?
— Por que não o colhe no ar, como se fosse ele uma borboleta?
—Não posso, Sapabela, quando penso em colher ou parar o tempo, o instante já se foi... Estou só, neste vasto infinito, nesta imensidão de astros... E sei que irei embora, deixarei de ser, de estar, e as coisas seguirão, o universo continuará em seu devaneio pela eternidade do instante que passa...
— Rospo, sem lágrimas, sem tristeza... Lembra? Foi com você que aprendi que a tristeza mata, ela dissolve nossas forças, nossa potência é pulverizada...
— Mas, Sapabela, eu não me conformo com a melancolia deste domingo repleto de estrelas, e eu com tantas coisas para fazer, fico aqui, sem saber para onde ir, às vezes isso acontece... E não posso recuperar tudo aquilo que você falou, os abraços perdidos, os melhores sorrisos, os rostos mais puros, as vozes mais sinceras, os timbres mais doces...
— Realmente, não pode recuperar o que perdeu, e nem se tornar mais amargo por causa disso, a ponto de transformar sua alma em losna — nota do autor: losna é uma planta medicinal de sabor fortemente amargo — . O universo não irá mudar o seu rumo por sua causa... O tempo não irá se curvar para você... Tudo seguirá a sua sincronia aparentemente sem sentido, a vida será breve, por que ser breve é o seu destino, e a você, só resta uma alternativa. Viver, viver intensamente....
— Não sei o que eu faço, Sapabela.
— Faça!

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 -— 444
Marciano Vasques
Leia em CIANO

SOMETHING

QUEM FAZ O QUE PODE FAZ POUCO

Marciano Vasques
  

QUEM FAZ O QUE PODE FAZ POUCO


 
Alguns se surpreendem quando exponho o meu lema de vida, outros concordam imediatamente. “Quem faz o que pode faz pouco!” É assim que penso, esse é o barco que vou remando.
Quem faz o que pode faz pouco! É normal pessoas apresentarem justificativas para o “dever” não cumprido. Às vezes um amigo se aproxima e diz que não teve culpa da mancada, que fez o que pode. “Sinto muito, fiz o que eu pude!”. Quando isso acontecer, responda: “Fez pouco!”
Qual o mérito em se fazer apenas o que pode? Não deixa de ter a sua louvação, é evidente, mas fazer o que se pode, sempre é mais fácil. Todos podem fazer, qualquer um faz. O possível está sempre dentro da possibilidade.

A BELEZA NATURAL DAS SAPAS

— Sapabela, ouviu falar da Sapa - Melancia?
— Até você, Rospo?
— Calma! Só fiz uma pergunta...
— Não só ouvi, como vi, a televisão só mostra essas asneiras...
— Bem disse, é Sapa-melancia, é Sapa- pera... São as tais Sapas-frutas...
— Você acha bonito?
— Ridículo! Sapabela: ora..., veja só, são aberrações, ou melhor me expressando, são anormalidades, deformidades, uma abundância de anomalias...
— Finalmente uma luz no reino dos Sapos...
— Sapabela, para um sapo que conheceu e conhece a cadência elegante da sapa, o seu corpo tão belo, as suas curvas, o seu andar,  a sua beleza e elegância natural e inconfundível, o seu...
— Chega, Rospo!
— Estou querendo dizer, para quem conhece os atributos e a graça da Sapa, ver uma coisa assim deformada, feia, como essa tal Sapa-melancia, e outras Sapas -Frutas, e achar que isso pode ser bonito, sedutor ou atraente... O sapo só pode estar maluco, perdeu o bom senso, perdeu o bom gosto, e seus olhos não mais conseguem reconhecer  o que é bonito numa sapa...
— Cada vez o admiro mais, Rospo...
— Mas sabe por que prevalece esse reinado dessas sapas deselegantes com essas deformações imbecis?
— Não. Por quê?
— Por causa do aval de Televisão...
— É verdade. A televisão mostrou, o brejo aceitou... e acatou...
— Bem, eu prefiro a sapa autêntica, com seus passos em cadência, com sua elegância naturalmente sedutora...
— Ai!, vai começar tudo outra vez...

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 443
Marciano Vasques
Leia também em CIANO

BRANCA ALVES DE LIMA

TROVAS — 7

Saudade quase se explica
nesta trova que te dou;
saudade é tudo que fica
daquilo que não ficou.
 

LUIZ OTÁVIO

 
SELEÇÃO DE TROVAS (por MTC)

TROVAS — 6

Tudo o tempo modifica
ao longo de nossa vida,
menos a culpa que fica:
da promessa não cumprida.

LANNOY DORIN

SELEÇÃO DE TROVAS (por MTC)

TROVAS — 5

Embora montes galgasse,
buscando meus ideais,
aonde quer que eu chegasse
chegava tarde demais...
 

DJALDA WINTER SANTOS

SELEÇÃO DE TROVAS (por MTC)

TROVAS — 4

Felicidade é somente
uma visita apressada
que aparece de repente
e parte sem dizer nada.
 
APARÍCIO FERNANDES

SELEÇÃO DE TROVAS (por MTC)
MTC = Maria Thereza Cavalheiro

NOVA PALAVRA FIANDEIRA

Já está no ar a nova edição de
PALAVRA FIANDEIRA.
com 
NAOMY KURODA.



Leia AQUI

sábado, 19 de fevereiro de 2011

SOMETHING

MARIA THEREZA CAVALHEIRO

Maria Thereza Cavalheiro assina o novo marcador de 
CASA AZUL DA LITERATURA.
A partir de hoje, 19 de Fevereiro, as trovas selecionadas por ela serão publicadas, diariamente. Dessa forma, 
CASA AZUL DA LITERATURA participa do movimento de divulgação dessa modalidade de Poesia.


TROVAS — 3

Passou. Foi só fantasia,
um sonho que não fez mal,
e a minha agenda vazia
teve ao menos carnaval.

ALBA CHRISTINA CAMPOS NETO

TROVAS — 2

O Rio de fevereiro
até no céu se intromete!
— a lua vira pandeiro,
estrelas viram confete!

ENO TEODORO WANKE

TROVAS -— 1

Para esconder a ferida,
quando se tem um desgosto,
no carnaval desta vida,
prende-se a máscara ao rosto...

MARIA THEREZA CAVALHEIRO

TROVAS — UM NOVO MARCADOR

A partir de hoje, CASA AZUL DA LITERATURA estará divulgando diariamente, a trova.
Para isso, inaugura um novo marcador, intitulado TROVAS, assinado por Maria Thereza Cavalheiro.

A cada edição de CASA AZUL DA LITERATURA, sempre uma ou duas ou três trovas estarão em evidência. Assim o blog homenageia a participa do movimento nacional pela difusão dessa modalidade poética.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

HOJE É SEXTA-FEIRA

— Numa tarde assim ☼ lá ia o Rospo calçada afora quando encontra a velha amiga Sapabela e uma saudável conversa  começa.
— Hoje é Sexta-Feira, ninguém é de ninguém...
— Verdade, Rospo?
— Bem fosse, Sapabela. Estive me lembrando de algo que li numa noite de Sexta-feira...
— Sim?
— Dizia assim: A religião diz: "O corpo é pecado!"
— Continue.
— A publicidade diz: "O corpo é um negócio"
— Que mais?
— A Ciência diz: "O Corpo é uma máquina".
— E o corpo? O que ele diz?
— "Eu sou uma festa!"
— Que bonito, Rospo! Você está inspirado hoje...
— É que hoje é sexta-feira, dia da deusa do amor e dos prazeres, Frigg, a deusa nórdica do amor...
— Sei, vem do Alemão também, é uma adaptação de "dia de Vênus". Vênus era a deusa romana do amor, da beleza e dos prazeres, que, por outro lado, vem de Afrodite, a deusa grega do amor...
— Então sexta-feira ou Friday é o "dia do Amor?"...
— Sim, é o Dia dos Amantes...
— Entendi, Rospo, por isso a Sexta-Feira é tão agitada, é a noite das baladas, dos namoros... dos encontros...
— Sapabela, vamos tomar um sorvete?
— Um convite desses numa noite de Sexta-feira é sempre irresistível, não é, Rospo?

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 442

Marciano Vasques
Leia em CIANO

SIMPLIFICAR SEMPRE

— Tudo é tão simples...
— Rospo! Não diga isso!
— O que houve, Sapabela?
— Nada é tão simples, Rospo, tudo é tão complicado...
— Nada é tão complicado, Sapabela. Insisto em que tudo é tão simples. Complicar é o prazer do Sapo, é um hábito que  me parece ancestral...
— Ora, Rospo, não penso que tudo seja tão simples...
— Ora digo eu, Sapabela... Tudo é sim tão complexo, ou seja, tudo exige complexidade...
— Então, meu Rospo. Se tudo exige complexidade, como pode tudo ser simples?
— Não confunda complexidade com complicação... São coisas diferentes, complicação fica mais no plano vulgar, é algo mais, digamos, vicioso, se assim posso dizer...
— Estou quase entendendo, mas ainda está um pouco complicado... Tomei chá de estrelas e dormi muito tarde...
— Sapabela, a complexidade está em todo o universo, na própria sincronização da matemática que rege o universo, essa maravilha... em que somos...
— Certo, há complexidade nas órbitas celestes, no passeio dos astros, na pulverização das estrelas, nas luzes que se irradiam a si próprias...
— Sapabela, há complexidade num gafanhoto e na sua agilidade, no seu salto encantador...
— O salto de um gafanhoto é encantador?
— É comparável ao brilho de uma estrela...
— Está maluco? Estrelas e gafanhotos estão distantes e são bem diferentes...
— Isso é o que você supõe... Um gafanhoto tem a complexidade que rege o universo, e o seu salto faz parte da maravilha constante...
— E o que tem a simplicidade a ver com isso? Para mim, tudo continua complicado...
— Engano seu, minha querida...
— Finalmente o engano surgiu! Viva!
— Eu que sou maluco...
— Como disse?
— A simplicidade fez a morada no lugar mais importante do universo...
— Pronto! Agora complicou.
— Veja Sapabela, a origem de tudo está na beleza e no encantamento da complexidade do universo, que está no belo salto do gafanhoto, mas quando o seu olhar, que é a residência do universo, olha para o gafanhoto e vê a simplicidade, compreende que somos nós, os sapos, que adoramos e necessitamos complicar tudo, pois tudo é tão simples, e para que essa simplicidade pudesse tomar forma em seu olhar, foi necessária uma complexidade nas coisas que são...
— Entendi. Complexidade é diferente de complicação, e complexidade é natural para demonstrar a grandiosidade do universo, que está no salto do gafanhoto, mas tudo é tão simples...
— Espere um pouco que já volto.
Rospo apanha uma flor azul.
— É para você, Sapabela.
— Rospo, uma flor azul... Que gesto simples!... Mas que demonstra...
— Uma complexidade que são os neurônios poéticos...
— Existe isso?
— Deve existir.
— Você simplifica tudo...
— Todas as coisas complexas são absolutamente simples ao nosso olhar, quando ele não está envolto pela mania de complicação.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 441

Marciano Vasques

Leia em CIANO

NORIS ROBERTS, DE VENEZUELA

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

NA ARQUIBANCADA?

— Rospo, olhei para o circo do universo...
— O circo estelar?
— Um circo que viaja pelos astros, visita a via láctea e percorre outros cantos do infinito...
— E o que você viu nesse circo... ?
— Não vi, mas procurei... Procurei e não encontrei...
— O que você procurou, minha querida?
— Você!
— Eu não estava lá?
— Procurei em todos os cantos da arquibancada e não o encontrei...
— Você me procurou na arquibancada do circo maior?
— Sim, mas não o vi...
— Procurou errado, minha cara...
— É?
— Eu não estava mesmo na arquibancada...
— E onde você estava?
— O tempo todo lá, no picadeiro.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 440
Marciano Vasques
Leia em CIANO

PALAVRA FIANDEIRA 55

NO AR, 
 PALAVRA FIANDEIRA!

NESTA EDIÇÃO:

MÁRCIA KUPSTAS

O CORVO E A RAPOSA

O CORVO E A RAPOSA

Num galho alto de uma frondosa árvore estava um corvo com uma apetitosa jabuticaba no bico quando chegou uma raposa, que ao ver o agradável petisco, imediatamente começou a pensar num plano para se apoderar da iguaria.
— "Vou encontrar um jeito de tomar essa jabuticaba desse corvo idiota".
A ardilosa raposa teve uma ideia: começou a elogiar a ave.
— Corvo, fiquei sabendo que você é o maior cantor da floresta.
O corvo ouviu com atenção, mas nem levou a sério.
— Contaram-me que a sua voz é excelente. Que quando canta emociona todos os pássaros. Que na redondeza não tem outro para cantar assim...
O corvo já não cabia em si de tanto contentamento. E a raposa continuava:
— Disseram-me que a sua voz é encantadora. Por todos os lugares em que passei, ouvi comentários sobre tão formosa voz.
E os elogios prosseguiram. O corvo estava inchando de tanta vaidade. Jamais havia pensado que de fato cantasse tão bem.
Finalmente a raposa deu o golpe fatal.
— Gostaria tanto de apreciar esse talento natural. Se pudesse me cantar só um tiquinho, só um pequeno trecho de qualquer canção... Certamente eu seria a mais feliz raposa da floresta.
O corvo não resistiu. Diante de tantos elogios e de um pedido aparentemente tão sincero decidiu cantar. Abriu o bico e a jabuticaba caiu diretamente na boca da raposa, que se mandou feliz da vida.


Recontada por Marciano Vasques

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

ROSPO NÃO SABE TOCAR NA BOLA

— Rospo! Você viu?
— Vi, ela está lá.
— Ela quem?
— A estrela, aquela. Já olhou para o céu hoje?
— Não, Rospo, não falo das estrelas, ou melhor, falo...
— Sapabela, que confusão!...
— Viu a entrevista? Trezentos jornalistas do mundo inteiro, e milhões de sapos acompanhando pela TV.
— A TV criou uma outra aldeia...
— Do que está falando? Que aldeia?
— Nada, esqueça, por enquanto. Mas não vi essa entrevista. Para ter trezentos jornalistas, só deve ter sido algum escritor...
— Escritor? Ficou maluco?
— Escritor, ou poeta. Acertei?
— Do que fala, Rospo? Está delirando? Tomou chá de estrelas?
— Um outro que também fala às multidões é o Filósofo... Mas prefiro acreditar que foi um escritor... Ele é mais popular na aproximação com o espírito da multidão...
— Rospo, pare de zombar, pare de ser irônico... A entrevista foi com um atleta, um jogador de futebol, que anunciou a aposentadoria dele...
— Não sabia que poderia despertar tanta curiosidade...
— Não sei em que mundo você vive, Rospo... Ele se tornou um ídolo, não apenas pelo seu futebol, mas pela sua coerência, pela sua sinceridade, pela sua ética...
— Lembrei! Ele fez propaganda de cerveja. No comercial ele vence um touro no drible por causa da cerveja...
— Rospo, você é chato. Um jogador de futebol é um ídolo das crianças, dos jovens e dos adultos... Todos gostam de futebol... Futebol é como celular, ninguém vive sem.
— Está certo, Sapabela. Eu estou mesmo errado. Afinal, são trezentos jornalistas. E a Literatura e a Poesia não são coisas de multidão, são coisas do individual... Talvez eu tenha passado a vida inteira só procurando tocar na alma e por isso não entenda nada de tocar na bola.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 439
Marciano Vasques
Leia também em CIANO

O ADEUS COMEÇA MUITO ANTES

— Está o velho amigo Rospo sentado à beira-lago lendo um livro de Ernesto Sabato quando ela chega com seu vestidinho rosa, uma flor colhida no caminho, e...
— Rospo, posso interromper a sua leitura?
— Claro, Sapabela, diga...
— Fale sobre o Adeus. Por que os sapos sofrem tanto quando o Adeus chega repentinamente?...
— Talvez por isso mesmo, por essa ilusão...
— Que ilusão, Rospo?
— Acreditar nessa mentira aceita socialmente, de forma consensual, e sedimentada através dos tempos...
— Que mentira, meu amigo?
— A de que o "Adeus" chega assim, abruptamente, repentinamente...
— E não é assim?
— Não, minha querida...
— Como pude me enganar tanto?
— O "Adeus" começa muito antes...
— É?
— Sim, ele tem um histórico, ele não é apenas exatamente aquele momento no qual é pronunciado, ele começou bem antes. Certamente, nasceu no primeiro descaso, na primeira tristeza, no primeiro desleixo...
— Entendi, no primeiro maltrato....
— Sim, no primeiro abandono, no primeiro desamparo... Pois as miúdas agressões do cotidiano, o desprezo pelas coisas que são essenciais, como um gesto simples de dedicação, a falta de atenção, essas coisas só representam algo: abandono. É aí que nasce o "Adeus"...
— Então o "Adeus" pronunciado, quando o sapo ou a sapa decidem partir de forma definitiva, é apenas a ponta de  um iceberg, uma centelha num mar de chamas...
— O "Adeus" é muito exigente, ele não nasce assim do nada, ele exige uma construção, uma arquitetura. Maltratar, desprezar, ignorar, silenciar, menosprezar, esquecer, gritar, xingar, ofender...
— Rospo, é melhor valorizar mais o "Adeus", em vez de ficar apenas chorando e se lamentando, seria bom se cada um fizesse um inventário...
— Com certeza. Iriam todos descobrir que o "Adeus" começou lá atrás, bem no passado, e veio tomando forma na soma dos dias...

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 —  438
Marciano Vasques
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O DIA DA SAUDADE

— Saudade é combustível do coração. É energético...
— Do que está falando, Rospo?
— Vestidinho lindo, Sapabela. Hoje está com um amarelo...
— Também gosto desse vestidinho, Rospo... Ele me transmite a ideia de primavera, de campos floridos...
— Mas não tem flores...
— É o amarelo, Rospo. Remete-me a um campo de pétalas... Mas, sobre o que estava falando?
— Saudade é benéfica para o coração...
— Um poeta disse que saudade é falta de ocupação... Outro disse que recordar é viver...
— Para mim, a saudade é combustível para a vida. Você lembrar de alguém, de um amigo, de um lugar, de um momento... Você mantendo a saudade acesa recupera as coisas preciosas que jamais morrem, e ao mesmo tempo nutre o seu coração para novas esperanças, novos amores, novas aventuras...
— Rospo, adoro sentir saudades... Vamos inaugurar o "Dia da Saudade"?
— Vamos! Hoje.
— Hoje?
— Sim, num dia 16 de Fevereiro de um ano qualquer um sapo e uma sapa se encontraram, foram tomar sorvete e conversar só sobre saudades...
— Topei, Rospo!
— Que mais posso querer da vida? Esse vestidinho, um sorvete, a sua voz linda me falando de coisas que viveu e sentiu...
— Eu também tenho muito o que agradecer, Rospo.
— Então, viva o Sorvete!
— E a Saudade.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 437
Marciano Vasques
Leia em CIANO

Anna Identici ♪ Quando m'innamoro

Ron - Quando m'innamoro

"Quando m'innamoro", canta Anastasia Franco

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

ANNA

a whiter shade of pale

NEM PICK-UP NEM FOGUETE

— A vida é uma pick-up , Sapabela.
— Uma pick-up?
— Sim, para quem tem os pés no chão, mas para quem vive "nas nuvens", com a cabeça repleta de ilusões, ela pode ser um foguete...
— Foguete? Eu bem prefiro que a vida seja um sereno barco num mar calmo...
— Mar calmo é impossível, o bom são as tempestades, a fúria das águas, as procelas, as espumas aflitas das ondas lutando com os rochedos...
— Pensando bem, Rospo, a vida é mesmo um foguete...
— É.
— Sim, ela passa ligeiro.
— Principalmente, para os que não aprenderam a arte de viver...
— Não aprenderem a pilotar...
— De certa forma, podemos dizer isso. E, no caso, é um foguete supersônico...

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 436
Marciano Vasques
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A DIETA DO SAPO

— Rospo!
— Sapabela!
— Soube que tem uma novidade no ar...
— Lindo seu vestidinho azul...
— Obrigado! Tinha um laçarote, mas resolvi não usar... Era muito grande... Prefiro laços menores, mas fortes e consistentes... Qual é a novidade que paira no ar?
— Novidade?
— Soube que está fazendo dieta...
— É verdade. Dieta mental.
— Dieta mental? E o que vem a ser isso?
— É simples. Só penso coisas boas... E jogo fora os entulhos, os pensamentos negativos, as ideias pré-concebidas... Esvazio a minha mente, jogo fora, retiro todos os excessos e então, com a mente límpida, começo a organizar os pensamentos...
— Uma interessante dieta.
— Realmente, assim a mente não se ocupa com pensamentos desnecessários e improdutivos... E aproveita o tempo para os pensamentos que realmente valem a pena....
— E quando vai começar essa dieta?
— Já comecei...
— Vou segui-la. Por acaso, tem efeito colateral?
— Sim, claro que tem: a mente fica mais ágil, e mais criativa...

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 435
Marciano Vasques
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domingo, 13 de fevereiro de 2011

FANTASIE DELLA NATURA

Publicado em  francesca

ÁRVORE DA VIDA


SONHO NÃO ACEITA DESLEIXO

— Sonho não aceita desleixo...
— Do que está falando, Rospo?
— Estou dizendo que sonho não aceita descaso...
— Por que fala isso, meu amigo?
— Por que é o que mais vejo por aí...
— Descaso? Desleixo?
— E abandono.
— Abandono?
— Sim, os sapos abandonam animais, gatos, cães, abandonam covardemente, e também abandonam sonhos... Outro dia, na beira da estrada vi diversos sonhos abandonados...
— Como foi possível isso, Rospo?
— Vi pelas faces cabisbaixas dos sapos que encontrei no caminho, pelos olhares sem perspectivas, pelos sorrisos desbotados, pelos olhares cansados, pela apatia visual... Realmente, todos aqueles sapos com certeza no caminho abandonaram seus sonhos...
— Que pena...
— Sonho exige zelo, atenção, zeladoria, cuidados... Sonho é o principal numa vida...
— Infeliz de quem não tem mais sonhos...
— É...
— E você, Rospo? Cultiva seus sonhos?
— Sim, com esmero, com prioridade...
— Rospo, vamos tomar um sorvete?
— Sim, viver é tão importante quanto os sonhos. Aliás, viver é a arte de transformar os sonhos em realidade...
— De que sabor quer o seu sorvete? Passas ao rum?
— Quero um de sonhos ao rum...
— E para mim, mais um...


HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 434
Marciano Vasques
Leia também em CIANO

MARÍLIA CHARTUNE

A ARTISTA PLÁSTICA MARÍLIA CHARTUNE É AMIGA E LEITORA DE CASA AZUL DA LITERATURA


Marília Chartune é um dos expoentes da pintura no Sul do Brasil

NESTA DATA QUERIDA


JÉSSICA LIMA

Jéssica Lima é a autora e administradora do blog 
e colaboradora de PALAVRA FIANDEIRA

****

NOVA PALAVRA FIANDEIRA

ESTÁ NO AR A NOVA EDIÇÃO DE PALAVRA FIANDEIRA
ESCRITOR CONVIDADO:

EDSON GABRIEL GARCIA
Leia AQUI

TUDO ISSO É A NOSSA AMIZADE

— É um doce com miçangas...
— Miçangas?
— Sim, coloridas e brilhantes...
— É uma fresta de luzes num arvoredo...
— Na aspereza do cotidiano, é um ponto cintilante rasgando o céu...
— É um brilho intenso na suavidade de uma pétala orvalhada...
— É um sonho de se aventurar, um desejo de correr na chuva...
— É um beijo no mormaço, uma caminhada na calçada...
— É uma preguiça ao entardecer, de deitar numa imensa varandona e tomar suco de melancia gelado...
— São os primeiros raios matinais luzindo na jabuticaba...
— É uma colheita de flores lilases, amarelas, azuis...
— São crisântemos róseos, miosótis e a majestade da dália...
— É um sorriso de criança diante das cores e dos reflexos nas bolas de uma árvore de Natal...
Sapabela, não sei quem ganhará esse campeonato, mas a nossa amizade é tudo isso, e é muito mais, é um tesouro que o coração preserva e cultiva na delicadeza dos gestos amorosos...
— É mais que isso, Rospo, é mais do que um tesouro que a memória guarda em palavras e fragmentos de atenção e zeladoria...
 É mais, muito mais... É quase um namoro...
— !
— Rospo, o que aconteceu? Você enrubesceu?
— Ora, Sapabela, é apenas o Sol... E ademais, esse seu vestidinho vermelho talvez tenha expandido a cor para o meu rosto... Mas até que...
— Até o quê, Rospo?
— Se depender da torcida, um namoro até que iria bem...
— Rospo, você é um sapo ligeiro... Ora, pense bem... Um doce com miçangas, uma ponta de luz, um mormaço, um brilho orvalhado deslizando numa suave e lisa flor, um profundo brilho azul de bolinha de gude, uma gratidão em forma de noite estrelada, uma piscada da lua num passeio de luar assanhando de prata telhados e copas das árvores... Tudo isso pode ser a nossa amizade... E amizade, acredite, tesouro maior não há.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 433
Marciano Vasques
Leia em CIANO

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