— Rospo! Estou tão feliz!
— Posso participar dessa felicidade, Sapabela?
— Você é parte integrante dela, meu amigo, por sua autenticidade, sua transparência...
— Mas fale-me do motivo dessa sua súbita felicidade...
— Eu não minto, Rospo, para nada. Não minto para o sapo, para conquistar um sapo, não faço jogos...
— Já disse isso outro dia...
— Não faço tipos... Não sou difícil nem sou fácil... Sou eu mesma, e não imagina a alegria que sinto em ser eu mesma. Não tem coisa melhor...
— Nem doce de abóbora? Nem bolo de cenoura?
— Rospo! Suba para o coração... Mania de sapo de descer para o estômago...
— Ele também conhece as coisas gostosas...
— Rospo, não finjo, não engano, não demonstro o que não sou. E você sabe, minhas roupas não combinam... Mas eu adoro me vestir de Sapabela...
— Os vestidinhos são os meus prediletos... É uma beleza tudo isso.
— Nada se compara, Rospo, a sair por aí, e procurar a vida, ela está no ar, e a felicidade explode...
— O mundo também explode em guerras e dores...
— E cada vez que eu souber de uma injustiça usarei a minha voz para gritar e denunciar...
— Usará a sua doce voz feminina para denunciar?
— Ora, Rospo, a voz feminina é a voz que acusa o mundo de poesia, é a voz que diz luz, é a voz que denuncia os poetas bêbados de luzes e com a alma profanada por boleros de amor... É essa voz que quer o amante sincero, que quer as crianças felizes, que quer o abraço mais puro...
— Pare, Sapabela! Você está fazendo um inventário da voz feminina, mas quero que me diga apenas sobre a sua felicidade...
—É que não posso perder nenhuma oportunidade, Rospo...
— Então, continue, se quiser... Por favor.
— Você é um cavalheiro... O que sei é que a sapa tem mesmo que ser vaidosa, é um requisito do seu Ser. Ela tem que ser linda acima de tudo, e buscar a beleza, pois afinal quando ela busca a sua própria beleza está contribuindo com o embelezamento do mundo... Mas ela tem sim que ser a primeira a gritar e denunciar as injustiças do mundo...
— Posso aplaudir?
— O melhor aplauso é caminhar ao meu lado, estar junto, e isso você já faz...
— Adoro estar perto da elegância, não é? E também da sinceridade.
— Então, viva a minha felicidade! Rospo, vamos dançar?
— Onde é a escola de dança de salão?
— Quem falou em salão, Rospo? Estou me referindo a dançar na praça...
— Nunca dancei numa praça, Sapabela!
— E quando fará isso?
— Sapabela, aqui não é um filme de Fellini...
— Filme? Aqui é mais que um filme! Vamos! Eu conduzo você.
— Disso eu tenho certeza.
— Eu ensino você a dançar.
— Eurídice!
— O que disse?
— Eu disse: Eureka! É uma expressão que revela uma descoberta, uma novidade, um insight...
— E qual é a sua descoberta?
— Que praça, Sapabela, dança, felicidade, voz... Tudo isso são raios de aperfeiçoamento no meu coração. E sinto que falta muito ainda para eu melhorar...
— Não se preocupe, Rospo. Uma Sapabela jamais desiste.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 515
Marciano Vasques
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