sábado, 23 de abril de 2011

CRONO


CRONO



Filho de Géia no mundo astral, o titã Crono ficou contra o próprio pai, Urano, para auxiliar a mãe.
Ele odiava o pai desde o dia em que descobriu que a mãe era maltratada.

RODEANDO PARA CONVIDAR

— Sapabela, você sabia que a lenda do lobisomem tem origens remotas, vem lá do grego antigo? E que no folclore, a licantropia é a maldição sobre um homem que se transforma em lobo?
— Licantropia?
— É uma síndrome psiquiátrica. Na idade média européia a licantropia era atribuída à bruxarias... Hoje, acredita-se que é um distúrbio mental, uma psicose. Na verdade, a lenda teve origem na doença rara que cobre o rosto de pelos...
— Cobre o Rospo de pelo?
— Rospo não! Rosto!
— Não ouvi direito. Mas, continue...
— Tem uma autora americana, Annette Curtis Klause, que é considerada a mãe dos lobisomens. Seu romance "Sangue e Chocolate" vendeu milhares de livros. O livro do reverendo Sabine Baring-Gould trata da licantropia, desde os mitos nórdicos, gregos e romanos até as lendas de lobisomens no período medieval .
— Fale mais, Rospo, lobisomem é um assunto muito atraente numa manhã de outono...
— Parece que está zombando, Sapabela, mas saiba que mais ou menos no ano de 1200 existiu uma Fecunda Ratis...
— Fecunda Ratis?
— A história latina Fecunda ratis, de Egberto de Lièges, em que há a referência a uma menininha com uma manta vermelha ...
— Em que ano foi escrita essa obra?
— 1023.
— É uma lenda?
— Sim, na verdade é uma história escrita... Mas tem outros casos, já ouviu falar de "De puella a lupellis seruata"?
 — Claro que não, Rospo!
— Surgiu algum tempo depois de Fecunda Ratis. Trata-se de uma menininha que é acolhida por lobinhos, e é presenteada com um capuz vermelho, por um homem...
Já leu "Fita Verde no Cabelo"?
— É do velho Guimarães Rosa. Não, ainda não li. Mas li a História do Chico Buarque, sobre a menina que perde o medo do lobo...
— Pois é, veja que na literatura e na imaginação, a menina sempre esteve rodeada por lobos...
— Rospo, não me faça rir, ou melhor, faça.
— O que está querendo dizer, Sapabela?
— Diga logo o que você quer, Rospo...
— Eu?
— Sim, você quer me convidar para ir ao cinema...
— Como adivinhou?
— E já sei qual é o filme..
— Como pode saber?
— Ora, Rospo, é a "Garota da Capa Vermelha"...
— Acertou! Vamos?
— Já estou pronta. Que hora é a sessão?
— Vamos agora, a gente pipoqueia antes, toma um sorvete...
— Espere um pouco, Rospo, que vou até em casa...
— O que vai fazer, Sapabela?
— Pôr uma manta vermelha que eu comprei.
— Fala sério?


HISTÓRIA DO ROSPO 2011 — 544
Marciano Vasques

Leia CIANO

BRENDA LEITORA


Brenda Sanches é amiga e leitora de
CASA AZUL DA LITERATURA

sexta-feira, 22 de abril de 2011

ROSPO E SAPABELA NO CINEMA

GAROTA DA CAPA NA NOITE DE OUTONO

Sapabela, alô!
Alô, Rospo. Que alegria!
Liguei para dizer que já é noite.
Já é noite de Outono, eu sei. E você, como vai?
Vou bem, hoje comecei a ler um novo livro, e agora estou pensando em ir ao cinema.
A Garota da Capa Vermelha?
Não sei, não havia pensado. Mas a Julie Christie faz a avó da menina...
Rospo! Vamos?
Pronto. Já estou pronto. Onde nos encontraremos?
Na primeira calçada, na banca de revistas...
Bom local. Estarei lá, num instante.
Então vá olhando as revistas, pois preciso me aprontar.
Tomarei um sorvete.
Sozinho?
É brincadeira.
Vou pôr um vestidinho vermelho...Pra combinar.
Por favor, sem capa e sem chapeuzinho. Só o vestidinho. Bem discreto. Nunca se sabe, não é?
Está bem, Rospo, até logo mais.
Cheguei!
Sapabela! Você está linda! Está pensando em entrar no filme?
Rospo, não me faça rir, ou melhor, faça. Vamos?
Vamos, que a noite está mais outono do que antes... Olhe, sinta, aspire...
Rospo, esse momento, essa noite, tudo isso está passando, e eu às vezes tenho receio, um calafrio...
Eu sei, Sapabela. Esqueça da imensidão, esqueça até do universo... Vamos ao cinema, apenas. Vamos, que a Garota da Capa Vermelha não pode esperar...
Está bem, Rospo, a noite quer ser distraída, quer leveza, quer cinema. Vamos.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 543
Marciano Vasques
Leia CIANO

SOBRE O DESAMPARO

—Rooooooooooooospo! Rooooooooooooooospo! Rooooooooooooooospo!
— Sapabela! Calma! O que aconteceu?
— A tarde está passando, Rospo.
— Estou vendo, aqui da janela.
— Da janela?! Ora, Rospo! Você é meu amigo. E eu exijo qualidade nas minhas amizades. Você está a me dizer que está vendo a tarde de outono, azul clara que só ela, passando, da sua janela? Por acaso, está lendo um livro?
— Não, estou aqui na janela.
—Pois então venha. Tome a decisão de sair dessa janela.
— Pronto. Já tomei.
— Falou igual Sapabela. Pode vir que estou aqui fora. E é aqui fora que a tarde de outono está passando, está me piscando, me chamando, e eu atendi ao seu convite. Vamos que eu o convido para um sorvete. Eu quero que essa tarde seja nossa.
— Aqui estou, Sapabela. Vamos ao sorvete, e vamos conversar.
— Rospo, aquele assunto de abandono. Você por acaso abandonou as reflexões?
— Jamais faço isso, Sapa. E derivei para a noção de desamparo.
— Sei, tem muitas crianças que não foram abandonadas, quer dizer, não foram fisicamente. Estão em suas casas, em seus apartamentos... Mas estão no desamparo... Em frente à televisão, estão sem diálogos, sem olhares ternos, sem sorrisos acolhedores, estão vivendo com adultos apressados, muito trabalhadores, que estão poupando, fazendo poupança de tudo, até do afeto... Essas crianças, esses sapinhos, estão no desamparo...
— Sim, pois o desamparo existe em vários graus, ele é imenso. Pode ser encontrado nas meninas que são abusadas sexualmente, que são seduzidas nas fazendas e nos vilarejos do brejo... São seduzidas pelas almas sem música... São prostituídas... Da mesma forma que as jovens que acreditam encontrar amor e são apenas usadas, e os namorados tristes, tristes no sentido de pobres, de pobreza interna, os namorados que estão jogando na internet imagens da confiança que neles foi depositada, mas eles nada sabem disso, nem da confiança nem do amor, e jogam as covardes filmagens escondidas e aquelas que ouviram as palavras que mentiam, são transformadas em cadelas, em putinhas...
— Rospo, tem um erro no que você falou.
— Diga, Sapabela.
— O jovem sapo que faz isso, que filma escondido a namoradinha se entregando a ele por amor e por confiança e depois joga na internet, não merece esse nome, de namorado, ele está desvirtuando, desfigurando o sentido e a grandeza da palavra namorado. Ele nem sabe, mas aprendeu tudo errado. Aprendeu equivocado, que ser um Sapo é isso, é enganar a sua outra metade, é enganar aquela que quis ser sua parceira, é enganar aquela que nele confiou... Ele nem sabe, mas jamais será um Sapo... Só poderá ser quando enfim compreender a gravidade da estupidez que fez...
— É, Sapabela, o desamparo vai longe. O importante é que alguns tenham a coragem de pelo menos enxergar o que acontece, e se cada um pudesse pelo menos pensar um pouco, o desamparo iria ficar inseguro... Mas por enquanto ele reina absoluto, com toda a força.
— Vamos aos varais da periferia, à poeira e aos quintais, aos tanques e às vielas, aos becos e aos lares de zinco, nem imagina o que encontrará de desamparo.
— Sapabela, olhe a sorveteria!...
— E a tarde ainda está azul, repleta de outono e refletida em nossas palavras...

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 542
Marciano Vasques

Leia em CIANO

OS ABANDONOS DO MUNDO

— Sapabela, o boto-cor-de-rosa vive sob ameaça de abandono na Amazônia...
— Ameaça de abandono? Isso é triste! Os sapos são especialistas em abandonos...
— Do que está falando, Sapabela?
— Olhe ao seu redor...
— Não estou vendo nenhum boto...
— Mas deve estar vendo aquele sapinho na calçada...
— Sim, aquela criança parece abandonada...
— Ela está abandonada, Rospo!
— Incrível!
— Rospo, vai dizer que nunca viu uma criança abandonada?
— Claro que já vi, e tem um monte em seus lares diante da televisão...
— Ora, Rospo! Abandono é coisa normal. Faz parte do cotidiano. O Sapo adora abandonar. Abandona crianças, abandona cães e gatos, abandona ideais, abandona sonhos, abandona botos de todas as cores...
— Eu pensei que só existisse o cor-de-rosa...
— Sabe, Rospo. A primeira conjugação verbal que deveria ser ensinada às crianças poderia ser: Eu abandono, tu abandonas... Mas, ocorre que devemos ensinar aos pequenos que o abandono é a coisa mais feia que existe...
— Quem abandona deveria pagar por isso!
— Sim, Rospo, acontece que o abandono não tem dono.
— Que frase bonita, Sapabela!
— No futuro será anônima... De autor desconhecido...
— É assim que acontece...
Isso também faz parte de um tipo de abandono, não é?
— Sim, o abandono intelectual, mas essa é outra história.
— Vou esperar por ela.
— Pois é, o abandono não tem dono, o abandono é provido de muitas fontes, é uma profusão de origens. Quando tem um abandono, acredite, ele só existe porque muitos são os responsáveis. Quando você passa diante de uma criança abandonada e se omite, fica em silêncio, ou segue seu rumo na calçada da indiferença, você também é um dos responsáveis,  também participou desse abandono...
— Ora, Sapabela, mas eu não vivo na Amazônia...
— Para o boto isso não interessa. Ele precisa da sua voz. Você é um cidadão do mundo, então, todos os abandonos do mundo interessam a você... A menina abandonada, o cãozinho, a poesia que alguém não terminou...
— Sapabela, então vou viver só de abandonos?
—  Adoro as suas provocações, Rospo. Mas é isso mesmo. Somos os responsáveis por todos os abandonos do mundo...
— Sapabela, vou me aprumar.
— Isso mesmo, Rospo. Para ser cidadão do mundo, tem que ter alguns princípios na mente. Um deles: jamais abandone um abandono. Faça o que estiver ao seu alcance, mesmo que seja comentar com alguém...
— Isso é pouco, Sapabela.
— É nada, Rospo, esse alguém pode ter um blog.


HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 541
Marciano Vasques

Leia CIANO

quinta-feira, 21 de abril de 2011

DANÚBIO AZUL

DANÚBIO AZUL

Rospo e Sapabela vão ao Teatro Municipal para ouvir o "Danúbio Azul".
— Amigo, essa valsa de Strauss combina com a noite de Outono...
— Combina com todas as noites.
— Você está elegante, Rospo!
— Obrigado, Sapabela. Faz tempo que eu não vinha ao Teatro Municipal...
 — No tempo do CD eu ouvia sempre o "Danúbio Azul"...
—  Mas pode ouvir no YouTube.
— Certamente. Como esse teatro é bonito!
— Você também está elegante. Quer dizer, você está bonita, está mais bonita... E esse vestidinho combina com o Danúbio Azul...
— É a Danúbio Azul...
— Tem razão, é uma canção, uma sinfonia, uma valsa...
— Vamos entrar?
— Vamos, a escada está nos esperando...
 Sapabela, uma noite de Outono com Danúbio Azul não será uma noite como outra qualquer...
— Rospo, nenhuma noite será uma noite qualquer... Não existem noites quaisquer... Todas as noites são especiais, pois todas são únicas. As noites estão esperando por nós... Elas precisam de nós...
— As noites precisam de nós?
— Sim, mas só quem percebeu isso saberá e poderá ver outras estrelas... Pois a noite é feita por essas estrelas, as que não estão no firmamento...
— Sapabela, a valsa vai começar.
— Rospo, que momento!
— Sapabela... Feche os olhos. É música para ver.
— Para onde vamos não sei, mas que esse navio me leve...
— Esse navio é o tempo, minha querida...

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 540
Marciano Vasques
Leia CIANO

VIDA NÃO DESENHADA

No quiosque os dois amigos continuam conversando.
— Sapabela, conheci um sapo que adorava desenhar.
— Fale sobre ele.
— Tinha um talento nato, pertencia a nata dos que nascem com um dom, depois foi treinando, aperfeiçoando, isto é, desenhando...
— Sei, como era antigamente... igual ao violão, dedilhava-se, dedilhava-se, e também a datilografia, lembra da datilografia?
—É, as coisas mudaram, Hoje existe o Power Point... No computador desenha-se tudo...
— Mas tem sapo que ainda prefere as pétalas aquareladas...
— Bem, deixe-me continuar falando do sapo que eu conheci. Ele desenhava muito, mas a vida dele foi muito difícil... Parou de desenhar no dia em que viu que não tinha dinheiro para comprar tinta nanquim...
— Vida de artista quase sempre é difícil...Mas, que pena que ele tenha desistido...
— Que pena gloriosa ele era! Cada traço...
— E por onde ele anda agora?
— Não sei. Mas gostaria de encontrá-lo...
— É verdade. Sabe, Rospo, você me fez pensar. Esse sapo é uma vida que a vida não desenhou.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 539
Marciano Vasques
Leia CIANO

NO BELO PRESENTE

O que é afinal a coisa que migra quando nossos pensamentos se ocultam nas dores entre as paredes de um silencioso jantar?

MONTSERRAT


Montserrat, amiga de CASA AZUL.

O TEMPO QUE O TEMPO FEZ

— Feriado e os amigos se encontram e lá estão aqueles dois num quiosque a conversarem. Vamos nos aproximar para ouvir a conversa deles?
— Sapabela, às vezes tenho a impressão de que estão a nos ouvir, de que nem podemos conversar sossegados e a sós...
— Rospo, cuidado. Isso é uma espécie de neurose. Daqui a pouco irá pensar que estamos num blog... Mas tenho algo a dizer...
— Você sempre tem algo a dizer, é por isso que gosto tanto de você...
— Rospo, todos têm algo a dizer. Ocorre que às vezes, e quase sempre, uma sapinha, por exemplo, em seu crescimento natural é atrapalhada, é impedida de forma precoce de dar linha para com a sua capacidade espontânea de se expressar, e isso acontece quando um adulto surge para adulterar a sua trajetória, o seu crescimento sincero e autêntico mandando-a, por exemplo, calar a boca.
— Sapabela, não é preciso um discurso agora. Diga apenas o que queria falar.
— Rospo, você cortou o meu pensamento... As minhas divagações, os meus dizeres...
— Sabe que estou brincando, Sapabela, prossiga, pois é maravilhoso para mim compreender o mecanismo da trajetória das coisas que são... Faça o seu inventário dos dizeres, meu bem, pois tanto faz para nós estarmos numa sala universitária ou aqui neste quiosque de outono azul num feriado...
— Pois é, nós todos e todas temos sempre o que dizer, e todas que foram atordoadas ou atadas nas toadas da vida, essas precisam de muita ajuda, para que a palavra volte ao ar. Mas vamos ao que eu queria falar: temos sempre que ensinar e mostrar aos pequenos o tempo... O tempo que o tempo diz, o tempo que o tempo faz... Se ele ou ela, conhecerem o tempo das coisas, ou seja, a trajetória, então, certamente, serão sapos e sapas melhores no futuro e no presente, pois compreenderão que nada é por acaso apenas o momento, mas sempre o momento que passa, e esse momento vem de longe...
— Dê um exemplo.
— Isso é fácil. Requer apenas um pouco de esforço...
— Então, para a maioria talvez não seja tão fácil, afinal...
— Cuidado, Rospo! Lembre-se, estamos num quiosque, mas talvez estejam a nos ouvir...
— Prossiga.
— Pronto. Já prossegui. Quando você põe de presente nas mãos de um pequeno um celular... Deve mostrar a ele o tempo que o tempo fez...
— Ou seja, o telégrafo, o telefone, o pager... Todos as transformações da necessidade básica do sapo de encurtar distâncias e se comunicar...
— Exato. E assim deve ser com tudo, com todos os objetos: com o ferro a vapor e o ferro a carvão, com ... a luz de neón e o lampião de gás...
 Certo, Rospo? Assim ele irá valorizar e compreender o sacrifício e a luta das outras gerações e terá um respeito histórico pelos que aqui estiveram... E assim deveria ser também até com os próprios sapos... que deveriam conhecer cada qual a sua trajetória...
— É verdade, pois senão alguns poderão pensar que já nasceram gostando de Mozart... É preciso que um sapinho que esperneia para ganhar um brinquedo às vezes descartável e caro, saiba que outros sapinhos brincaram com latas de óleo, com legumes, com caminhões de madeira... e os que brincam estáticos diante de um game eletrônico deveriam saber da "amarelinha"... Até a tecnologia tem história. Nada é apenas o momento, mas sim o momento que passa e esse momento vem de longe...
— Portanto, viva o tempo! Que é ele, o tempo, que nos ensina...
— Sendo assim, um sapinho deveria saber que outros sapinhos aprenderam desde cedo a laçar o vento...
— O vento?
— Sim, abrindo os braços, correndo, empinando pipas...

E assim a conversa prosseguiu naquele quiosque num feriado de outono azul. E se os dois soubessem que nós ouvimos tudo...


HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 538
Marciano Vasques
Leia em CIANO

A CANÇÃO DE ZICA BERGAMI

PARA PEDRO HENRIQUE E LAURINDA

O TROVADOR

ZICA BERGAMI


 Morre Zica Bergami, autora de "Lampião de Gás".
A compositora e artista plástica que numa manhã de 1957 compôs a canção "Lampião de Gás" morreu aos 97 anos.

NO TAL CALDEIRÃO DO AMOR

— Rospo, conhece ou já ouviu falar de algum sapo que compreende o pensamento de uma sapa?
— Também já andei vasculhando para encontrar uma sapa que compreenda o pensamento de um sapo.
— Rospo, claro que não é bem assim. Sapos e sapas se entendem, sim. O que ocorre é que são diferentes. Vamos só ao caso de fazer amor...
— Iupi! Iupi! Iupi!
— Rospo! Fazer amor será o tema da nossa caminhada...
— Naturalmente, Sapabela.
— Vamos começar pelo sapo.
— Bom começo. Boa escolha. Considero que as sapas ainda se aperfeiçoarão ao ponto de serem como os sapos.
— Muito engraçadinho, Rospo. Mas, quero falar sério. Veja só: sabemos que os estímulos de um sapo são primeiramente visuais...
— Concordo, Sapabela, e o olhar do sapo é sempre direcionado. Falando nisso, lindo o seu vestidinho. Estampado, florido, flores azuis, e esse verde exuberante...
— O verde já não faz parte do vestidinho, Rospo!
— Bem, Sapabela. Vamos ao assunto.
— Interessante, Rospo, você desvia e depois se apruma, não é?
— Realmente, Sapabela... mais de 70% dos estímulos no sapo são visuais...
— Mais de 90%, não é, Rospo?
— É, pode ser. E a sapa é mais movida pelo toque...
— Somos mais sensações, e não temos um centro de prazer. Entende, não é? A natureza concentrou todo o prazer do sapo num único membro, mas nós não. Nós, ora, nós, as queridas sapas, apreciamos e nos sensibilizamos às vezes com um toque suave nos cabelos, na pele...
— Correto. Mas sobre o tal centro do prazer, não é bem assim. A questão é que os sapos, em sua maioria, foram educados para que cada um ignore a si mesmo, e cada qual desconheça o seu próprio corpo e se concentre no falo, entendeu? Provocou eu falo. Mas, prossiga.
— Bem, que seja até uma construção cultural, mas é assim que se é. E diante disso, por isso em nossas mentes é possível até se amar no escuro...
— Escute aqui, dona Psiquê. Um sapo se amando no escuro? Ora!
— Por isso é necessário que o sapo entenda a sapa e ela compreenda que o mecanismo de funcionamento da mente, ou do corpo, do sapo...
— Isso não impede que entre os dois sempre haja carinho...
— Sabe, Rospo, tem sapo entornando o caldeirão de tanto mel, que se lambuza todo...
— Qual a metáfora toda?
— Muitos sapos garotões estão imitando as filmagens montadas na Internet e submetendo as sapinhas aos fazeres degradantes no amor...
— Não tem uma ponta de moralismo nesse seu pensamento, Sapabela?
— Absolutamente não, Rospo. O que eu quis dizer é que aquilo que se tornou forçado para um só realiza o ego da suposta supremacia do outro, o que no fundo é uma bobagem, visto que entre um casal tudo pode acontecer de forma natural e espontâneo quando os dois se amam...
— Sapabela, suas reflexões são sempre pertinentes, para mim... E também concordo. Um tem que compreender melhor o outro, saber como o outro funciona... Esse é o princípio elementar: conhecer o outro.
— Mas para isso é preciso seguir o oráculo do tempo...
— Fale sobre isso, Sapabela. Quem é esse tal?
— "Conhece-te a ti mesmo!".
— Entendi. Primeiro saiba sobre você. Depois vá até ao outro... E é assim que as coisas darão certo. E será fascinante velejar num caldeirão de mel. Vamos?
— Vamos aonde?
— Procurar um sorvete. Afinal é sábado.
— Não é sábado, Rospo, é um feriado!
— Sorvete duplo então.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 —  537
Marciano Vasques
Leia CIANO

A FALTA QUE SE FAZ

— Ao luar, Sapabela se inspira em conversas interessantes...
— Caro amigo, cá estamos caminhando à beira do cais do porto. E tenho um pensamento querendo virar pergunta.
— Pois que seja, Sapabela.
— O que acontece quando um sapo e uma sapa que se amam resolvem se afastar, alegando que o amor é justo, e por essa condição do amor, se continuarem juntos outros corações serão feridos e sangrarão na dor de serem arrancados de si.
— Em telenovelas, em fotonovelas...
— Rospo, não enrole! Fotonovela é coisa do passado... Vá direto ao eixo.
— Às vezes para ir direto ao mar é necessário descer uma serra em curvas...
— Mas se o conheço bem, estará é subindo uma cordilheira...
— Sapabela. O amor nem sempre, ou seja, quase nunca é justo...Considerando que em sua mansidão ele exige para si toda fúria, que é a fúria de todos os tempos, de todos os temporais, todas as ventanias... Considerando isso tudo...
— E às vezes ventanias de poeira, que cegam os olhos...
— Diante disso, minha amiga, quando um sapo e uma sapa decidem se afastar, um representará para o outro a falta que se faz.
— Isso pode até soar poético, mas, diga, Rospo, tem sentido uma vida amputada assim?
— Sapabela, talvez esteja dimensionando esse sentimento... O amor tem várias fases em seu amadurecimento. Da forma tempestuosa como ocorre no coração de um adolescente...
— Rospo, para mim não tem essa graduação... Amor é amor e pronto. E nem precisaríamos do amor se fosse apenas para garantir a continuação da espécie. Mas não somos apenas seres de procriação...
— Concordo plenamente. O amor foi a mais importante invenção do espírito anfíbio... Porém ele é mesmo exigente em si, e quem ama sabe que às vezes é preciso atravessar o caos para se chegar ao cais...
— Quero mesmo saber se tem algum casal que renunciou ao amor por uma causa justa...
— Sim, Sapabela, com certeza muitos já transformaram o amor na falta que se faz.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 536
Marciano Vasques
Leia CIANO

quarta-feira, 20 de abril de 2011

PRÊMIO LITERÁRIO DE LITERATURA INFANTIL

A MEMÓRIA NOS SALVARÁ!

 A MEMÓRIA NOS SALVARÁ!


A memória nos salvará! Não é possível seguir durante muito tempo sem retornar à memória. Ela nos devolverá a lucidez, a paz, a harmonia e nos trará a felicidade. Precisa ser cultivada desde cedo em cada pessoa, nos jovens, nas crianças. Devem ser erguidos estudos sobre a memória, para que ela seja cada vez mais requisitada, cada vez mais faça parte da vida de cada um. Não estudos científicos, mas filosóficos.

ENCONTROS

ENCONTROS

— “Aproveite, menina, e brinque bastante, pois a vida é um conto ligeiro, mais do que ligeiro, é um conto veloz! Na verdade é um cavalinho, que ao amanhecer você encontra num colorido carrossel em um parque de diversões. E enquanto vai crescendo, ao entardecer se transforma num indomável corcel a correr nos vendavais. Um dia, ao anoitecer, ele torna-se alado e desaparece nas nuvens”.

BREVE HISTÓRIA DA LITERATURA DO CORDEL

Ilustração do artista Jô Oliveira, 
para o livro 
"Breve História da Literatura de Cordel", (Editora Claridade), 
de Marco Haurélio.


terça-feira, 19 de abril de 2011

A MAIS CURTA DE TODAS

— Rospo! Rospo! Rospo!
— Sapabela, calma! Já estou indo. Não precisa tanto alvoroço...
— É que a noite está tão linda, um bem do Outono, e você fica aí na tela azul da TV...
— Estava em meu blog...
— Tomava uma Zero?
— É, não sei como soube, mas estava bem gelada... Pronto! Cheguei.
— Rospo, queria falar algo.
— Diga, minha querida amiga.
— A vida é curta.
— A mais curta de todas é a minha.
— Não diga isso, Rospo...
— É o pensamento que cada um deveria ter. A vida, a nossa vida, a minha, a sua, é sempre a mais curta, ou seja, isso quer dizer que devemos sim viver intensamente, o que significa, viver a vida em toda a sua intensidade, isto é, em todos os seus momentos, em todas as suas alegrias, e também viver intensamente cada perda, cada amor, cada paixão, cada tristeza, mas, sempre lembrando que a tristeza deve ser substituída pela alegria...
—Rospo, nem sempre isso é possível.
— Não se esqueça de uma coisa, Sapabela, o ódio só é destruído quando ele se transforma em amor, e a tristeza só é substituída pela alegria, e a alegria é a mãe, a grande princesa da vida, aquela pela qual vale a pena lutar e almejar...
—Mas e a tristeza pela perda de um sapo ou uma sapa querida? Uma filha, você imagina dor maior para um sapo do que perder a sua filha? O coração dele arrebenta, é esmagado para sempre... Jamais ele conseguirá recolher os destroços daquilo que um dia foi um coração...
— Sapabela, essa perda jamais será substituída, e ele carregará para sempre em seu peito, fechado num canto onde ninguém poderá se alojar, essa lembrança... Mas ele tem o dever sincero de transmitir a alegria aos que o rodeiam... Quando alguém, algum sapo, de você se aproxima e quer caminhar ao seu lado, você tem a felicidade da obrigação de plantar uma flor de alegria no coração dele...
— Entendo, a alegria é a condição básica da vida...
— Observe ao seu redor: tudo é alegria. A plantinha que viceja é o puro sinal da alegria que se irmana aos astros e ao azul celestial e aos rios e...
— Entendo, os olhos viçosos de um cãozinho, uma plantinha, uma delicadeza de pétalas, o pólen sendo levado pela ventania, tudo é uma explosão de vida no ar, uma valsa: uma festa que quase sempre nem percebemos... Não podemos ser o portador da alegria do universo espalhando ao nosso redor a tristeza... Ao contrário, temos que combatê-la de todas as formas...
— E a dor da perda deverá ser armazenada, guardada...
— Isso, porque uma perda jamais morrerá, jamais desaparecerá de nossas almas, porém o mundo não pode compartilhar uma imensidão de dor assim...
— Rospo, vamos tomar um sorvete? Ainda é noite de Outono... Logo mais teremos que ir dormir...
— Vamos, Sapabela, tomar um sorvete com você é uma forma de estender essa vida que é tão curta...
— Sente medo quando olha para esses astros todos nessa infinita imensidão e sabe que um dia partirá?
— Não é fácil, Sapabela. A gota de orvalho que deslizou na lisa folha e alisou a manhã com o sereno da madrugada, o brilho da estrela que enfeita o céu, o horizonte azulado, um riacho, uma borboleta... Não é fácil pensar que um dia deixarei tudo isso...
— Sabe, Rospo, às vezes eu me ponho a pensar: será que partiremos mesmo? As ondas dos nossos pensamentos, o nosso olhar lançando luzes sobre uma flor, os nossos pés no solo, na poeira... os nossos corpos tremendo na friagem, as nossas mãos acariciando uma planta, as fagulhas, o nosso sorriso se espalhando... Será que partículas do que somos não estarão para sempre grudadas nas coisas que são e serão?

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011  —   535
Marciano Vasques
Leia CIANO

19 DE ABRIL

19 DE ABRIL

— Rospo! Rospo! Rospo!
— Sapabela, calma! Pare com esse escarcéu.
— É que hoje é o "Dia do Índio"... Desça, Rospo! Saia dessa janela!
— Sapabela, quando eu era um sapinho as professoras pintavam o meu rosto, e eu ainda passava pelo portão ouvindo os elogios: Veja, que índio mais bonito!
— Que mais a escola fazia?
— Coloríamos umas atividades...
— Sabe, Rospo, nessas datas costumam trazer à lembrança o folclore... E assim falam da comida, da música, dos costumes, das danças, dos rituais, das palavras... Ou seja, nesse dia do Índio, parece que todos se lembram da contribuição cultural do Índio....
— Mas o índio não é só isso! Não é um folclore, não é uma tradição... O índio é um ser vivo, que vive em nosso próprio mundo, ao nosso lado, nos mesmos dias que nós...
— Os que restaram, não é, Rospo?
— Sim, este brejo era uma imensa nação indígena. Então chegou uma nova civilização, a européia, e essa nação quase que sucumbiu por inteiro ao massacre dos novos ocupantes da terra...
— O que importa é hoje, não é?
— Sim, hoje. Pois é no "hoje" que os índios vivem, e sobrevivem, e caminham nas calçadas das grandes metrópoles, e estão nas favelas, nos mocambos, nas roças, nos bares dos subúrbios, estão mascando as suas memórias, as suas dores... Mas também tem índios na Universidade, com doutorado, tem índio escritor...
— Eu vi uma menina índia, os seus olhos brilhavam...
— Os olhos de uma criança sempre estarão a brilhar... É assim que as gerações se renovam, e quando amanhece um novo dia, um novo olhar ressurge, e sobre os escombros as flores devolvem as cores, e a vida se refaz, pois essa é a sina cigana da vida: se refazer, renascer, recuperar a cada nova alvorada o carrossel do tempo...
— Eu queria ser índia...
— Sapabela, o que pensa hoje sobre a civilização e os índios?
— Não estou certa, mas penso que a cultura da humanidade com a sua história, e todas as ciências, e a arte, a maravilhosa arte produzida pelo espírito anfíbio, todas essas coisas têm de ser repartidas. E todos os benefícios da ciência, tudo tem que estar ao alcance de todos...
— Então os índios têm que ter acesso aos bens materiais, e à tecnologia que facilita a vida e aproxima as pessoas? Índio tem que usar celular?
— Naturalmente que sim...
—Mas, e a cultura dos índios?
— Ora, meu amigo. Ter acesso e se apropriar da cultura do mundo e das conquistas científicas, e também da arte, da bela arte dos tempos, não significa abrir mão de sua cultura, pois ela tem que ser preservada a todo custo... A globalização só tem sentido na repartição dos bens, que são de toda a humanidade dos sapos... Pertencem a todos. Mas as tradições, a cultura, isso faz parte da história e da memória de um povo. Se isso é destruído, o povo fica sem identidade, e um povo sem identidade é como um povo sem idioma... Ao contrário, o povo tem que transformar a sua história, a sua memória, os seus cultivos, em Literatura, que é a coisa mais sofisticada que o espírito inventou. Uma coisa tão curiosa, não é? O espírito leva para o papel o mundo e a vida, mas essas coisas não ficam aprisionadas, grudadas e imóveis no papel, elas voam, elas se expandem no ar quando um livro é aberto.
— A Língua de um povo é muito importante para ele?
— A Língua é a companheira de um povo. É o seu amor. Quando um povo protege a sua Língua, está cuidando da sua namorada maior.
— Você considera que essas datas são importantes? Elas são válidas?
— Sim, sempre que você cutuca a memória do cotidiano, você tem a chance, mínima que seja, de reduzir um pouco a pressa diária e até burilar com a alma da indiferença.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 534
Marciano Vasques
Leia CIANO

19 DE ABRIL

segunda-feira, 18 de abril de 2011

TÃO SERELEPE QUE SÓ ELA

— Sapabela, nem sempre o "Por que?" é necessário...
— Por que?
— Às vezes o "Por que?" pode significar descaso para com o intelecto, uma espécie de preguiça, um certo desprezo pelo pensamento...
— Por que?
— Pare com isso e procure ouvir direito. Você está rindo por dentro, eu sei...Pare de rir e ouça.
— Por que?
— Ora, Sapabela, o " Por que?" é a coisa mais importante na vida e no desenvolvimento de uma criança, um sapinho que foi desprovido, que teve os seus "Por que?" amputados, não crescerá de forma saudável. Feliz é o sapinho que enche cada dia seu de "Por que?" ...
— Concordo, mas, disse que às vezes o "Por que?" é desnecessário... Por quê disse isso?
— Veja Sapabela. Se você diz para um dos seus que um determinado objeto não pode ser posto sobre a mesa...
— Que tipo de objeto?
— Sei lá, um rolo de papel higiênico... Enfim, foi apenas um exemplo...
— Por que você está embaraçado, Rospo?
— Resolveu abusar da amizade e tirou o dia para se divertir às minhas custas...
— É que estou engraçada hoje...
— Muito bem. Deixe-me fazer retornar a seriedade da conversa...
— A vida pode ser balões coloridos e algodão doce...
—  É, realmente. Aliás, deveria ser sempre assim...
— E nossos pensamentos deveriam ser claros e cristalinos como um fiapo de riacho de poesia...
— Concordo, Sapabela.
— E muitos escritores e intelectuais escreveram apenas para si mesmo e para os seus, fizeram literatura para eles mesmos, por isso foram esquecidos pelo grande público... Ou seja, ficaram felizes com os elogios de um grupo restrito, mas perderam o leitor invisível... Aquele que entra na livraria e compra os seus livros, mesmo sem os conhecer pessoalmente.
— Sapabela, você hoje está mais serelepe do que a Tatiana Belinky... Que água  andou bebendo?
— Eu já conto. Mas, primeiro termine de falar o que estava dizendo...
— Se você deixar...
— Siga em frente.
— Acontece que às vezes certas coisas são faladas e o sapo que ouve não quer parar um átimo de segundo para pensar, e participar assim da construção do outro em harmonia com a circunstância da convivência... Toda fala é no fundo uma raiz de um argumento... Ela precisa se expandir no pensamento do outro, que precisa refleti-la, pois assim, nesse reflexo, a alegria desagua...
— Rospo, você quer que a sua amiga Sapabela entenda, ou não?
— Falando claramente...
— Até que enfim!
— Se você dispara um "Por que?" de imediato, sem refletir ou sem ao menos demonstrar que realmente se interessou pelo que o outro falou, esse "Por que?" pode representar um atrito, uma arrogância, mesmo que não intencional, pois você poderia parar pelo menos uns segundos e pensar sobre o que o outro disse, em vez de quase simultaneamente já atropelar com um "Por que?"...
— Por que não disse tudo isso logo?
— Sapabela, fale da água que bebeu hoje...
— Foi a água oferecida pela boneca Emília num dos livros de Monteiro Lobato, afinal hoje é o Dia Nacional do Livro Infantil e nada melhor do que essa boneca para nos encher o coração de alegria e de festa.
— E deixar o coração assim bem divertido, bem colorido e bem criativo...
— E naturalmente repleto de "Por que?"...

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 - 533
Marciano Vasques
Leia CIANO

DIA NACIONAL DO LIVRO INFANTIL

HOJE É O DIA NACIONAL DO LIVRO INFANTIL!

Ilustração de Victor Filho, 
para o livro "A Reforma da Natureza",
de Monteiro Lobato

HOJE, NO BRASIL

HOJE, 18 DE ABRIL, NO BRASIL, 
É O 
DIA NACIONAL DO LIVRO INFANTIL.



NO PALCO E NA VIDA

Alguns artistas brilham no palco, e pensam que também podem brilhar na vida, mas precisam entender que para brilhar na vida, precisam abandonar a arrogância.

Marciano Vasques

domingo, 17 de abril de 2011

SAPABELA E A PALAVRA

— "Em boca fechada não entra mosquito!", certa vez alguém me falou isso quando eu era uma sapinha...
— Você falava muito?
— Eu precisava de um mosquiteiro em torno de mim para proteger a minha boca, pois era uma tagarela... Exercia plenamente o meu direito de ser criança e de burilar com estardalhaço o dom da descoberta da linguagem... Falar era comigo mesmo!
— Quem falou o negócio do mosquito?...
— Um adulto, naturalmente.
— Esse não era um mosqueteiro...
— Eu sim era a única desbravadora naquela área... Queria falar e veio ele com o papo do mosquito...
— Isso afetou você?
— Não.  O que me afetou foi alguém ter falado :"Feche a boca!". Isso foi a coisa mais áspera, mais rústica, mais agressiva que eu ouvi...
— E você? Fechou a boca?
— Nem pensar.
— E o sapo que mandou você calar a boca?
— Já morreu.
— E os mosquitos?
— Ora, Rospo, eu descobri com o passar do tempo, que se em boca fechada não entra mosquito, também na sai dela a liberdade de expressão, não sai dela o grito por justiça... Ora, Rospo... É com a boca que o sapo se alimenta...
— É com a boca que o sapo beija.
— Eu sei, né, Rospo!
— Prossiga.
— Se com a boca alimentamos o nosso corpo, é com ela que alimentamos o mundo quando falamos...
— Sapabela, se em boca fechada não entra mosquito, nela também não prolifera a lavra da palavra que ara o mundo...
— Vamos falar, Rospo? Cada vez mais?
— Falar é escrever no ar, e esse ar de outono pede muitas palavras, pede uma chuva...
— Chuva?
— Chuva de versos.
— Então, mande ver, Sapabela, e que venha o primeiro mosquito, que ele verá o que faço com ele...
— Sabe, Rospo, pensei uma coisa.
— Diga, minha amiga.
— Os que vivem engolindo sapo são os que ficam em silêncio, em sua maioria é assim... Por isso, libere a palavra, e ela dará um jeito no mundo. Reprimir a fala é deletério, mas ao falar você espalha no ar o que é indelével em você...
— O silêncio às vezes é benéfico...
— Mas não se trata do silêncio imposto, não se trata do "Cale a boca!"... Trata-se do silêncio opcional, escolhido... Essa é uma outra forma de falar, às vezes.





HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 532
Marciano Vasques
Leia em CIANO

SAPABELA FALANDO DE PERDAS

— Rospo, o que seria viver a dor com sabedoria?...
— Dor?
— A dor de perder um ser amado. Quando se vai um sapo ou uma sapa de nossa família, por exemplo.
— Sapabela! Pleno domingo de Outono e lá vem você com essa conversa.  Mude de assunto...
— Fale só um pouquinho...
— Viver a dor da perda com sabedoria, se é que isso existe, é justamente viver a dor intensamente, como se deve viver as alegrias...
— Usar luto, usar roupa preta durante um período...
— Não, Sapabela, a dor não é ritualística. Eu me refiro a viver intensamente em seu interior, mas até, se for possível, esboçar um sorriso...
— Sim, a dor não deve ser espalhada, repartida...
— A sua dor é única. A perda de um ser amado estará alojada num canto de você que ninguém poderá ultrapassar...Você só tem uma coisa a fazer: transformar a  dor em lembranças floridas dos mais puros momentos ao lado do ser que partiu...
— Momentos que se perdem no emaranhado do labirinto do cotidiano...
— É, pode ser. Mas, vamos mudar de assunto? Afinal, veja, olhe para tudo. Lá está no azul a passear entre nuvens brancas e singelas, lá está naquele jardim e também naquele breve capinzal orvalhado, lá está no sorriso daquele sapinho e na elegância daquele vestido...
— Vestido?! Que vestido?!
— O seu vestidinho, Sapabela, que vem se juntar ao azul e à claridade de um domingo tão transparente para nos lembrar que é Outono...
— Rospo, viva o domingo de Outono! E esquece o assunto que comecei...
— Sapabela... Veja aquelas folhas que caem, são sopradas pelo vento, mas se você se aproximar do caule verá que minúsculos brotos estão nascendo... E assim é a vida...
— Eu sei, mas a dor da perda de alguém é insuportável às vezes...
— É sempre insuportável, Sapabela. Mas a gente finge que a suporta, pois a vida prossegue... Uma técnica para sobreviver é se acercar de crianças, quanto mais sapinhos ao redor...
— Mais barulho.
— Isso! Algazarras, alaridos... Nada aquece e renova mais o coração...
— A vida sem perdas teria graça?
— Sabe, Sapabela, temos dois tipos de perdas... Uma delas é aquela que se tornou inevitável a partir do momento em que chegou, e a outra é a que pode ser evitada, como, por exemplo, essa manhã de domingo... Abra as janelas do seu coração e de sua casa... Já pensou? Os raios desse domingo outonal entrando nos cantos da sua casa? Porém tem sapo que perde isso tudo, então essa perda, que muitas vezes é imperceptível, essa é mesmo de doer.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 531
Marciano Vasques
Leia em CIANO

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