— Rospo! Rospo! Rospo!
— Sapabela, calma! Pare com esse escarcéu.
— É que hoje é o "Dia do Índio"... Desça, Rospo! Saia dessa janela!
— Sapabela, quando eu era um sapinho as professoras pintavam o meu rosto, e eu ainda passava pelo portão ouvindo os elogios: Veja, que índio mais bonito!
— Que mais a escola fazia?
— Coloríamos umas atividades...
— Sabe, Rospo, nessas datas costumam trazer à lembrança o folclore... E assim falam da comida, da música, dos costumes, das danças, dos rituais, das palavras... Ou seja, nesse dia do Índio, parece que todos se lembram da contribuição cultural do Índio....
— Mas o índio não é só isso! Não é um folclore, não é uma tradição... O índio é um ser vivo, que vive em nosso próprio mundo, ao nosso lado, nos mesmos dias que nós...
— Os que restaram, não é, Rospo?
— Sim, este brejo era uma imensa nação indígena. Então chegou uma nova civilização, a européia, e essa nação quase que sucumbiu por inteiro ao massacre dos novos ocupantes da terra...
— O que importa é hoje, não é?
— Sim, hoje. Pois é no "hoje" que os índios vivem, e sobrevivem, e caminham nas calçadas das grandes metrópoles, e estão nas favelas, nos mocambos, nas roças, nos bares dos subúrbios, estão mascando as suas memórias, as suas dores... Mas também tem índios na Universidade, com doutorado, tem índio escritor...
— Eu vi uma menina índia, os seus olhos brilhavam...
— Os olhos de uma criança sempre estarão a brilhar... É assim que as gerações se renovam, e quando amanhece um novo dia, um novo olhar ressurge, e sobre os escombros as flores devolvem as cores, e a vida se refaz, pois essa é a sina cigana da vida: se refazer, renascer, recuperar a cada nova alvorada o carrossel do tempo...
— Eu queria ser índia...
— Sapabela, o que pensa hoje sobre a civilização e os índios?
— Não estou certa, mas penso que a cultura da humanidade com a sua história, e todas as ciências, e a arte, a maravilhosa arte produzida pelo espírito anfíbio, todas essas coisas têm de ser repartidas. E todos os benefícios da ciência, tudo tem que estar ao alcance de todos...
— Então os índios têm que ter acesso aos bens materiais, e à tecnologia que facilita a vida e aproxima as pessoas? Índio tem que usar celular?
— Naturalmente que sim...
—Mas, e a cultura dos índios?
— Ora, meu amigo. Ter acesso e se apropriar da cultura do mundo e das conquistas científicas, e também da arte, da bela arte dos tempos, não significa abrir mão de sua cultura, pois ela tem que ser preservada a todo custo... A globalização só tem sentido na repartição dos bens, que são de toda a humanidade dos sapos... Pertencem a todos. Mas as tradições, a cultura, isso faz parte da história e da memória de um povo. Se isso é destruído, o povo fica sem identidade, e um povo sem identidade é como um povo sem idioma... Ao contrário, o povo tem que transformar a sua história, a sua memória, os seus cultivos, em Literatura, que é a coisa mais sofisticada que o espírito inventou. Uma coisa tão curiosa, não é? O espírito leva para o papel o mundo e a vida, mas essas coisas não ficam aprisionadas, grudadas e imóveis no papel, elas voam, elas se expandem no ar quando um livro é aberto.
— A Língua de um povo é muito importante para ele?
— A Língua é a companheira de um povo. É o seu amor. Quando um povo protege a sua Língua, está cuidando da sua namorada maior.
— Você considera que essas datas são importantes? Elas são válidas?
— Sim, sempre que você cutuca a memória do cotidiano, você tem a chance, mínima que seja, de reduzir um pouco a pressa diária e até burilar com a alma da indiferença.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 534
Marciano Vasques
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