domingo, 14 de março de 2010

PSIQUÊ



PSIQUÊ
“De que me adianta a beleza? De que adianta ser considerada a mais bela das princesas? De que adianta o rosto que miro no espelho, se durmo sozinha...”
“De que adianta, se o verde dos meus olhos passará, como passam os pastos verdejantes que ilustram a bela manhã ainda orvalhada de sereno...”
“De que adianta esta pele alva, essa expressão viva a latejar em minha face, como reflexo da alma preenchida pelo desejo de felicidade?”
“De que adianta esse corpo belo e sinuoso, esse joelho contemplado pela perfeição, esses braços claros e clamorosos de abraços, esses seios ricos de vida, visão exuberante, signo da vontade dos deuses, de que adiantam esses cabelos negros, nos quais reflete-se a luz azulada do anoitecer, de que adianta tudo isso, se durmo sozinha...”
“De que adianta a beleza, se ela significa solidão, se o que eu mais quero é justamente o que mais necessito, o calor do companheirismo, a delicadeza do amante, o desejo sincero do homem, as plangentes confissões do amor...”
E pensando essas coisas, Psiquê se deita sobre o seu travesseiro de macela, e se envolve com as rosas que a circundam, adormece, e como sempre, abraçada à solidão sonha com lábios quentes e vermelhos a lhe tocar timidamente a face rosada, sonha com as mãos masculinas passeando em seu corpo suave, sonha com suspiro de namorado, com os gemidos de amor, com as palavras de afeto.
E o vento da madrugada toca suavemente o seu rosto adormecido, enquanto os archotes são substituídos pela Lua, a mais fiel testemunha das confissões perdidas...
Psiquê, de todas as princesas, a mais bela, incomparável beleza, que desafia o encanto das deusas.
No entanto, continuava solitária, contemplada pelos homens, dormia solitária, pois nenhum homem dela se aproximava, nenhum se declarava, nenhum com ela queria se casar ou pelo menos, manifestava essa vontade. A sua beleza era uma barreira, um muro alto, de distância infinita, que impedia que ela fosse cortejada, que ela tivesse um companheiro.
A sua beleza era transformada pelos olhos masculinos em beleza de uma deusa, mas Psiquê não é uma deusa! É humana, sente como humana, É uma mulher.
Uma princesa, certamente, rodeada de confortos, de uma fonte azulada onde molha o seu rosto a cada manhã, de ramos de rosas entrelaçados nas paredes de seu quarto enluarado. Um palácio onde ela vive confortavelmente, tratada como a princesa que realmente é, admirada pelos jovens do reino e pelos príncipes viajantes que em seu lar param para descansar.
Mas, acima de ser uma princesa, é uma mulher.
Na ausência de confissões de amor, Psiquê vê se dissolvendo a cada manhã pelas escadas solitárias do palácio, os sonhos de felicidade, e nos ciprestes observa a sua solidão tomando forma, e no lago azul da ternura aonde vai freqüentemente renovar a sua vida e contemplar o reflexo do sol, vê refletir-se também o desespero de ser bela.
“Os homens têm receio de pedi-la em casamento, por pensar que você é uma deusa!” – diz, apreensivamente, o pai, solidário da tristeza da filha querida. - “Eles até estão edificando um templo para a sua adoração!”
“Que tolos são os homens!”- suspira a bela jovem.
Pai sempre se preocupa. O destino da sua filha o atemoriza.Vê a tragédia que se avizinha, sofre pela sua solidão.
Um templo erguido para a sua beleza. Isso pode trazer muito sofrimento, pois despertará a fúria da deusa Afrodite, a deusa do amor e da beleza, cujos templos de adoração estão sempre repletos de jovens, a maioria com o desejo de casamento no coração. Afrodite não perdoará. Nenhum deus aceitaria isso, um simples mortal ser adorado, um templo ser erguido para um mortal, isso é uma afronta, um desafio, uma estupidez.
O pai precisa salvar a filha...
Olha a cada manhã a jovem caminhando sozinha entre os pilares do palácio e toma uma decisão: decide consultar um oráculo.
No Olimpo, Afrodite furiosa, está dominada pelo ciúme.A deusa do amor e da beleza, sofre com o ódio que se instala em seu coração e com a feiúra do despeito. Para ela é insuportável a idéia de que um ser humano esteja sendo adorado, de que homens estejam erguendo templos de adoração para uma jovem humana.
“Bem que havia reparado que os meus templos estão pouco a pouco se esvaziando...”
Convicta da ousadia de Psiquê, e sem averiguar a inocência da jovem, que afinal não tem culpa da própria beleza, Afrodite resolve acabar com a farsa, pois compreende que um templo de adoração para um simples mortal não passa disso. Toma uma decisão e chama o seu filho, Eros, o deus do amor.
A linda deusa, vestida de branco, cabelos esvoaçantes, lábios vermelhos, olhos azuis como a safira, como o céu que entardece, como a serenidade do lago, pede a Eros que fleche Psiquê.
“Quero que você fleche uma mortal indolente, atrevida, que me desafia com um templo de adoração, quero que você a fleche e que o néctar de sua flecha se transforme num veneno e faça com que ela se apaixone pela criatura mais horrenda que existir”.
“A serpente do vale nefasto?” – indaga, perplexo com o descontrole emocional da mãe, cuja fúria ele bem conhecia, por tantas vezes que a vira transformada num vendaval arrasador.
“Sim! Se não houver outra mais horrível!”
E assim o jovem deus, com suas flechas prateadas, e as asas lilases, parte em busca da triste missão.
Não está satisfeito, ao contrário, está bastante aborrecido, pois se acostumara a injetar o amor no coração dos humanos com o néctar das suas flechas prateadas e agora, carrega consigo uma flecha negra. Mas não fora educado para contrariar a mãe.
A mancha lilás que sobrevoava a cidade era Eros, que cautelosamente se aproximou do palácio de Psiquê.
Primeiro a rodeou, observando-a, escondido atrás dos pilares. Durante todo um entardecer admirou a jovem, que com seu belo vestido dourado e o manto vermelho, passeava sobre as pedras do palácio, ao redor dos jardins.
Como que flechado pelo néctar enfeitiçado das suas próprias flechas, Eros se apaixona pela bela visão da sua vítima, e embaraçado diante da ordem da mãe, começa a questionar a sua própria atitude. Finalmente, serenamente decide que modificará a sua missão e desobedecerá a própria mãe, enganando assim a deusa do amor e da beleza.
Ao ver o pai da moça se aproximar, procura se ocultar atrás da pilastra, tomando o cuidado para que não vejam as suas asas lilases, e assim, cuidadosamente, ouve a conversa entre eles.
- “Filha, estou severamente preocupado com o seu destino. O que terão os deuses reservado para você? Tomei uma decisão. Vou consultar um oráculo”.
Eros, ao ouvir a conversa, teve uma idéia que o aproximava demasiado dos humanos. Como era amigo do oráculo, decidiu procurá-lo antes do pai de Psiquê.
Ao propor que o adivinho mentisse, teve uma surpresa inesperada:
- Eu não posso fazer isso. Um oráculo não pode mentir, por outro lado, não posso contrariar o filho de Afrodite. Não é justo, o que você me pede é muito difícil.
- Mas é por amor...
- Sim, eu sei. No amor vale tudo. Mas, se algum mortal souber disso, se algum humano desconfiar que o oráculo mentiu..., o que você está fazendo é muito arriscado. Nunca ninguém pediu uma coisa dessas...
Porém, o persistente Eros acabou sendo convincente e em nome da amizade o adivinho consentiu em participar de uma farsa. Estava decidido: mentiria para o pai da jovem. Além do mais, a causa era justa. O amor certamente move os mais intransponíveis dos obstáculos e a sua reputação continuaria íntegra, ninguém ficaria sabendo que, uma vez na vida, o oráculo mentiu.
E assim foi feito.
Ao ser consultado pelo pai de Psiquê, o oráculo profetizou algo atemorizante que tiraria dali em diante a paz do coração do homem.
Psiquê deveria ser levada ao tenebroso penhasco da Solidão. Lá deveria ser abandonada, pois a mais terrível das criaturas iria desposá-la.
O pai entristeceu. Sua alma sentiu-se atirada num precipício. Sua filha não merecia esse destino! Pela primeira vez, o bondoso rei questionou a justiça dos deuses: como é possível que uma criatura bela e doce pudesse ser atormentada por um destino tão atroz?
Mas, acostumado a obedecer aos desígnios divinos, comunicou o fato à sua amada filha. O pranto e a dor invadiram o coração de Psiquê.
Suas irmãs também choraram com a sorte da princesa. Todos, inconformados com a vontade dos deuses, entraram em luto e começaram a preparar a despedida de Psiquê.
No dia anunciado pelo Oráculo, a jovem foi deixada no penhasco pelos parentes.
Com lágrimas nos olhos, o pai e as irmãs abandonaram Psiquê ao destino dos deuses. Deitada sobre as rochas do penhasco, ficou a jovem com suas vestes brancas aguardando o tenebroso anoitecer.
Veio o vendaval, veio o frio, e permaneceu Psiquê no penhasco aguardando a chegada da maligna serpente.
Vestida de noiva, Psiquê começou a chorar e a lamentar a sua sorte, tanto gemeu, tanto chorou que, vencida pelo cansaço, acabou adormecendo.
Zéfiro se aproximou e a envolveu em seus braços. Psiquê foi levada para um lugar encantador, semelhante a um paraíso. Quando despertou permaneceu imóvel: estava em um palácio magnífico. Não compreendeu como chegara até ali. A delicadeza de Zéfiro, o deus do vento, o transformou no transporte digno de uma princesa.
O pasmo do seu olhar não se desfez. Estava num lugar maravilhoso, encantador.
Zéfiro voltava para as nuvens e no caminho comunica ao deus do amor que a sua missão estava cumprida.
Psiquê levantou-se e começou a caminhar por aquele belo lugar. Além das flores, das fontes, das frondosas árvores, descobre que está num palácio de cristal. Um lugar irreal? Seria uma alucinação, talvez o efeito da picada da terrível serpente? Teria sido possuída pelo monstro?
Não. Não pode ser. O que os seus olhos viam era verdadeiro. Estava mesmo num paraíso, e diante de si tinha um palácio de cristal, contornado por altos e belos eucaliptos. Mas, porque estava ali? Esse lugar em nada se parecia com a predição do oráculo. Que espécie de monstro habitaria tal lugar? Quem a possuiria num maravilhoso palácio de cristal? A serpente? Começou a rir. Só podia estar vivendo uma loucura.
Mal sabia que, enquanto caminhava, era observada por Eros.
Uma suave voz, vinda dos ventos, invadiu o ambiente e conquistou os ouvidos de Psiquê.
- Venha minha querida. Você tomará um banho de água cristalina, com aroma de ervas. Assim quer o nosso amo.
- Quem é você? Quem é o seu amo? Seria uma serpente horrível?
Sem obter respostas, Psiquê achou melhor obedecer. Ao se despir para o banho logo percebeu que estava sendo tratada como uma deusa. A sua incompreensão aumentou. Mas, são tantos os enigmas da vida...
Eros escondido numa nuvem, encantado observava a sua jovem.
Como nunca a usaria, parte ao meio a flecha negra e a atira longe. Aguarda ansiosamente o anoitecer, para descer ao palácio, onde terá o amor...
A princesa de extraordinária beleza, a única mortal que despertou a ira de Afrodite. Aquela, cuja beleza mortal esvaziara os templos de adoração da deusa da beleza divina, a mulher por quem Eros feriu-se de amor, caminha por um palácio de cristal.
Quando desce o anoitecer, uma voz pede que ela vá se deitar e lhe indica os seus aposentos. Quando chega ao quarto, Psiquê se deita e fecha os olhos, procurando adormecer.
Não tem idéia do que acontecerá com ela, mas tem a impressão de que o que a espera não é uma serpente alada, e o amor que viverá será tão belo quanto o palácio de cristal, para onde foi levada.
O quarto na escuridão. Está quase adormecida quando sente a suavidade tocar em seus cabelos.
- Não se amedronte. Amo-a tanto que jamais a machucaria.- disse a voz mais terna, que ela jamais ouvira.
A portadora da beleza humana cobiçada por um deus, ouve em silêncio e compreende que a voz suave que lhe acaricia os ouvidos, não pode ser de uma serpente maligna.
Mal sabe que ao seu lado está Eros, aquele que tornou o oráculo de Apolo o seu aliado nesta conquista amorosa. Aquele que enganara a própria mãe.
A mulher sente medo, mas o medo é afastado pelas ardentes carícias de Eros.
Entrega-se ao amante velado e assim foi a cada noite.O amor se fez sem que a amada desvendasse o rosto do seu amante. “Ninguém viveu tal felicidade”! - pensa Psiquê, com saudades da sua família.
E todas as noites Eros a visita em sua cama, e ela, cada vez que o ama, toca suavemente suas mãos de princesa nos contornos do rosto do amado e, embora a escuridão não permita que ela o veja, sente que não se trata de uma serpente medonha.
Certa noite, ao tocar no rosto do formoso deus, comenta:
- Eu confio no seu amor, mas eu não sei quem você é. Não poderia ver o seu rosto pelo menos uma vez? Não compreendo porque tanto mistério. Quem é você?
- São tantas perguntas. Peço apenas, por enquanto, que você continue me amando, um dia saberá quem eu sou, mas por enquanto, não é conveniente que me conheça .Mas,você é minha esposa. Continue confiando em mim...
E a princesa adormece confiante, sem saber que, ao ser amada por um deus, com esse amor torna-se definitivamente inatingível por um mortal.
E na escuridão, mesmo com o luar invadindo as frestas do seu quarto, ela jamais vira o rosto do amado. E cada vez que se amavam, se descobria mais apaixonada.
Porém, como sempre, mal o dia clareava e o sol despontava no horizonte das colinas, Eros desaparecia. E os dias começaram a se tornar solitários. Psiquê era feliz, mas durante o dia a solidão trouxe a saudade das irmãs e, embora numa noite o deus do amor tenha lhe prevenido da possibilidade de uma tragédia caso ela reencontrasse os mortais, Psiquê lhe pede um favor:
- Querido, eu confiei tanto em você e agora lhe faço um pedido. O meu coração chora a saudade da minha família. Permita que eu a veja. Por favor, é só isso que lhe peço...
- Você sabe o perigo que isso representa. Uma tristeza profunda poderá se abater sobre nós, é melhor você desistir dessa intenção...
- Mas, se me ama, como pode impedir que eu seja completamente feliz? Se me ama, como pode me negar um favor?
- Sim, eu a amo, mas quero o seu bem, e sei o mal que se aproxima. No entanto, se a sua vontade é irremovível, não sou eu que devo negar-lhe. Embora sabendo do perigo, certamente você terá o meu consentimento, afinal não saberia como dizer não para o amor...
E assim ela foi levada por Zéfiro, o impressionante deus do vento, ao encontro de sua família. Lá chegando, a alegria foi imensa. Psiquê conta ao pai e às irmãs a sua aventura amorosa.Desponta nas irmãs um dos mais comuns dos sentimentos humanos, a inveja.
- Esse príncipe, esse esposo, esse amante, afinal quem é ele? Você nunca viu o seu rosto, como se entrega assim?
- Sei que ele não é um monstro...
- Mas você precisa saber exatamente como ele é...
- Um dia eu saberei...
- Você confia muito no amor. Mas, e se ele a engana? Quem é afinal? Essa história não é convincente... Eu jamais faria amor com um estranho...
- Nem eu...
- Ele não é um estranho. Eu o sinto tão próximo, ele está dentro do meu coração, dentro de mim...
- Mas você precisa ver o seu rosto, pelo menos uma vez. Não se pode amar sem ver a beleza...
E assim os diálogos com as irmãs foram pouco a pouco implantando a dúvida no coração da princesa.
-“Estarão certas? É justo e seguro amar um estranho? Sei que não é o monstro que me aguardava, mas talvez eu deva mesmo ver o seu rosto. No entanto, será que tudo não passa de inveja? Que tormento! Como é difícil tomar decisões...”
Realmente, a jovem apaixonada não dera nenhuma importância aos avisos do amado misterioso e também não consegue decidir entre a suposta inveja das irmãs e a curiosidade de desvendar o rosto do seu amor...
A indecisão costuma implantar a fragilidade, e enfraquecida, Psiquê ouve as palavras das irmãs, que aos seus ouvidos soam carregadas de uma imaginária preocupação. Resolve seguir os conselhos, parte do principio de que a família só iria querer o seu bem.
- Não se assuste Psiquê, mas certamente com a luz do dia ele se transforma na serpente que o oráculo falou .Você deve tomar uma atitude. Só os demônios ousam se ocultar...
- Digam, o que eu devo fazer?
- É simples. Faça amor com ele como em todas as noites, mas assim que ele adormecer, você acende uma vela e a aproxima do seu rosto. Assim que você ver o seu rosto saberá se ele é a criatura monstruosa ou um belo príncipe...
- Sim, farei isso, cuidadosas irmãs, mas eu sempre pensei que a verdadeira beleza estivesse ocultada, que ela morasse dentro do coração...
- Engano seu,Psiquê, a beleza está no rosto, na aparência. Se esse seu amado se esconde na escuridão é porque boa coisa não é. Tome, leve essa vela...
- Obrigada.
Ao retornar, a princesa recebe uma nova advertência do amante, que se mostra aborrecido com a visita à família. Para ele um gesto premonitório, um sinal de que coisas trágicas poderão acontecer. Pede-lhe que tal coisa não se repita. Essa sua preocupação excessiva desperta em Psiquê a curiosidade e a desconfiança.
Na madrugada, após ter se certificado do sono de Eros, aproxima a vela de seu rosto.
Ao ver o belo rosto do jovem deus, estremece.O espanto com a beleza se mescla e se confunde com a felicidade imensa que sente.
“ Eu sabia! O tempo todo eu soube que ele não era um monstro”.
Mas a sua felicidade é bruscamente interrompida com o despertar de Eros.
- O que significa isso, Psiquê?
- Perdoa, meu amado...
- Você não confiou em mim. Vou-me embora. O amor exige confiança.
- Mas eu sempre o amei...
- Você não me amou o suficiente...
- Não seja ingrato, eu me entreguei ao seu amor, sem conhecê-lo.
- Mas não sossegou enquanto não visse o meu rosto. Certamente a beleza está para você em primeiro plano. Certamente a aparência regozija-lhe a alma. Adeus, Psiquê.
Enquanto o amado partia, finalmente o reconhecia como o deus do amor, pelas esculturas que havia visto nas cidades por onde passou.
O filho de Afrodite parte para as nuvens. Nenhum poema poderia traduzir as lágrimas de Psiquê com a medonha solidão que repentinamente se instala em seu coração.
A jovem que um dia atraiu mais gente do que Afrodite, agora chora em seu leito de solidão.
Seu amado, surgido do caos, não mais voltará?
Nada se compara a visão de Afrodite quando ela aparece para um mortal e Psiquê tem esse privilégio. Após meses de andanças, invoca aos prantos o nome da deusa, sem imaginar o quanto esta tentou prejudicá-la.
- Ajude-me, formosa deusa.
- Por sua causa, meu filho me traiu. Como posso ajudá-la?
- Eu imploro! - clama a jovem banhada em lágrimas. O tom plangente das suas palavras sensibiliza a deusa, que afinal sempre sentira ciúme da beleza de Psiquê, porém não o ódio.
- Está bem, vou ajudá-la, mas você terá que cumprir algumas missões.
Quando você necessita de ajuda aceita quaisquer condições. E Psiquê, desesperada, concordou com a deusa.
- Atrás daquele arbusto há um saco repleto de sementes que você deverá separar, uma por uma, até o anoitecer.
- “Mas é impossível!”- pensou.
- Tenho certeza de que você conseguirá, pois nada é impossível para quem desafiou a ira de Afrodite. - disse ironicamente a deusa, como se pudesse ler os seus pensamentos.
Psiquê executa a árdua tarefa com a ajuda das formigas. Ao apresentar-se para a deusa, causa-lhe espanto.
- Como você conseguiu? Era humanamente impossível! Bem, não importa. Você é corajosa.
Dizendo isso, Afrodite apresentou-lhe a segunda tarefa: tosquiar as lãs de ouro de um carneiro.
- Psiquê contou com a ajuda de Zéfiro, que lhe mostrou a solução. Bastava arrecadar os novelos de lãs que ficavam presos nos espinhos dos roseirais, quando os carneiros passavam por entre eles. E assim foi feito.
Mais uma vez, a jovem surpreendeu a deusa, que lhe ofertou um novo desafio, enquanto ordenou –lhe que dormisse diariamente no chão e se alimentasse apenas de pão e água, para que o agreste interferisse na sua beleza e a fraqueza diminuísse a sua determinação.
- Você deverá descer ao inferno e pedir a Perséfone um frasco com a fragrância da sua beleza. Traga-o sem abrir! O que estará aprisionado no frasco é a água da juventude. Eu preciso de um pouco da beleza de Perséfone para me revigorar.
Mas, a exemplo de Eros com o oráculo, Afrodite combinara com Perséfone, a do triste destino, para que ela colocasse, no lugar das essências da sua beleza, outra coisa.
Partiu. Acompanhada por Zéfiro chegou ao inferno. Lá do alto viu o barqueiro, e desceu aos portões. Atormentada pelos demônios, conseguiu chegar até Perséfone, cuja beleza impressionante a perturbou.
Aproximou-se da esposa de Hades, que vestida de vermelho, com os longos cabelos dourados, cor de fogo, e olhos fundos, extremamente solícita, perguntou-lhe o que queria.
Psiquê implorou pelo frasco. A estranha figura, comovida com o sofrimento da jovem, preveniu-a :
- Não abra jamais este frasco. Entregue-o fechado para Afrodite. O seu conteúdo lhe pertence. Seja prudente, menina.
Talvez prudência não combine com vaidade nem com curiosidade, e no caminho as palavras bondosas e o alerta de Perséfone, se dissolveram na memória dos ouvidos de Psiquê.
Abriu o frasco.
Em vez de encontrar a água da juventude, do frasco espalhou-se no ar um mortífero gás, que a envolveu num infinito sono.
Vaidade, unida aos poderosos tentáculos do ciúme, levaram-na para as subterrâneas trevas do sono.
Inconsciente, com o sono da morte, Psiquê despertou a atenção de Eros, que do Olimpo acompanhava todos os passos da amada.
O grande amor desfere nas rochas da mágoa golpes profundos e a rocha dissolvida abriu as portas do coração de Eros, para que entrasse a sensata brisa do companheirismo.
Foi até Psiquê e, ao encontrá-la desfalecida, tocou em seu corpo com uma de suas flechas. A jovem despertou e ao ver o rosto do amado, não conteve o choro da felicidade.
Levou-a ao Olimpo.
Com o consentimento de Zeus, se casaram.
Psiquê tomou o néctar dos deuses, tornando-se imortal.
Quando Zeus lhe oferece a Ambrósia, comenta:
- Seja bem vinda!
Unindo-se a Eros, vive o seu merecido amor por toda a eternidade.
Certa noite, Eros sobe no mais alto dos penhascos e, diante das estrelas, ergue o fruto do seu amor: Volúpia.

 
PSIQUÊ, recontado por Marciano Vasques

 

NOVA EDIÇÃO DE PALAVRA FIANDEIRA



JÁ ESTÁ NO AR A NOVA 
PALAVRA FIANDEIRA
NESTA EDIÇÃO: 
REGINA SORMANI 
Leia AQUI

quinta-feira, 11 de março de 2010

AS DUAS ALMAS DO PROFESSOR

- Na virada do poente o assunto desponta.
- O professor tem que ter duas almas.
- Verdade, Rospo?
- Sim, a alma da formiga e a alma da cigarra.
-  Formiga e cigarra?
- De um lado, o trabalho persistente, teimoso, corajoso, diário...
- Trabalho de formiguinha...
- Isso mesmo. Carregando os verdes, em sintonia com o formigueiro...
- E a cigarra?
- É a alma do artista, da poesia, do canto, das artes...
- Compreendo. Trabalhar sempre, perder a poesia jamais.
- Exatamente. Ele é um incansável trabalhador, mas não pode descuidar do que é poético no mundo. Trabalhar com a educação requer arte.
- Rospo, você gostaria de ser um professor?
- Bem, Sapabela, sou, como se diz, um eterno aprendiz.

MARCIANO VASQUES
Histórias do Rospo 2010 - 45

NOVA PALAVRA FIANDEIRA

NOVA EDIÇÃO DE PALAVRA FIANDEIRA

Diretamente de Portugal!
CARMEN EZEQUIEL
ENTREVISTA 
ISABEL REIS

LEIA AQUI

CONVITE


quarta-feira, 10 de março de 2010

ORFEU


  ORFEU
 
Para o velho Eagro, o temido e admirado rei da Trácia, amante da guerra, homem das armas, a música é barulho e a educação do filho caçula, um fracasso.
Esse é o seu desgosto: não conseguira educar Orfeu para a guerra.
A sua belicosa pedagogia não conseguira sensibilizar para a guerra o jovem com alma de artista.
Eagro sofre. É um rei, tem poder, mas perdera o próprio filho.
Quando o chama, tem entre os dedos a última e desesperada tentativa de cativar o neto de Ares, deus da guerra, para o mundo do guerreiro. O filho o acompanha à sala. Na parede: elmos, armaduras e armas.
"Quero que receba de seu velho pai este presente. Nele está depositado o meu coração" diz ao jovem. Quando Orfeu abre a caixa vê diante de si um arco e um par de flechas, banhados a ouro.
Ao retesar a corda, Orfeu produz um som encantador e repentinamente as coisas da sala parecem adquirir vida.
Cadeiras balançam, armas caem da parede. Tudo parece se movimentar. O som flutua no palácio, sensibilizando os empregados.
Eagro fica furioso. Seus olhos sangram, na voz palavras terríveis lançadas ao ar como chamas: - Vá embora! Desapareça! Não o quero mais aqui! Eu não o queria assim, um ... um cantador... um artista...um...um..." - mal consegue pronunciar as palavras: - "Você decepcionou seu pai". Eu o queria um guerreiro, um bravo, um amante das guerras, por isso vá embora!"
Expulsa o próprio filho da sua casa, do seu reino.
Ninguém pode penetrar na dor de Eagro, nem compreender a alma da música que invadiu o coração de Orfeu.
Orfeu olha para Eagro, pensa em Calíope, sua mãe. Em seu pensamento dançam as lembranças das aventuras vividas na velha Trácia. Olha para o monte Olimpo, pois habitava perto dele. Mas é o fim. A sua música não seduziu o velho pai.
Orfeu corre sem parar. Penetra cada vez mais na floresta. Verdes bailam em sua passagem, a ventania se esquiva, a floresta emudece, pássaros silenciam. A cacatua, a cotovia...
Ao chegar na clareira da floresta, caiu ao chão e adormeceu. O cansaço o venceu. Quando desperta constrói para si um instrumento musical, uma cítara. Coloca nove cordas no instrumento.
Seu enverdecido pensamento pensa que a música será a sua única companheira e então, ao tocar, inventa o antídoto do mal. Tem a imensa convicção de que a música espanta os males.
Ninguém o seguirá, será o cantador solitário das florestas. Aonde ele for, a sua música estará com ele. "Sou Orfeu"! quer gritar, mas seu pensamento é transformado em terna melodia.
Verdes o reverenciam, caules e flores abrem passagem para a sua música. Mas, ele se enganara, não segue solitário.
Por onde passa, encontra amigos, todos o seguem para ouvi-lo, querem apreciar a sua música, que se mostra curativa da alma. A cada acorde seduz a natureza.
Pássaros aperfeiçoam seus cantos com Orfeu, pardais, gralhas, rouxinóis, cotovias, melros. Ele entrelaça o seu canto com o dos pássaros.
Animais esquecem a rivalidade natural e, com a natureza subvertida, passam a conviver em harmonia. Raposas, texugos, veados, leões, corças, javalis.
Até os insetos o seguiam atraídos pela mágica sonora. Tomados pelo encantamento, borboletas, libélulas e gafanhotos o seguem.
As flores adquirem novas cores, os girassóis se iluminam, verdes e azuis se renovam. A sua música opera milagres indescritíveis.
Certa vez, quando a floresta entardecia, Orfeu teve o pressentimento de que estava sendo observado.
Sentiu olhos pelas frestas, e ficou apreensivo.Estaria sendo seguido? Teria invadido território sagrado? Teria ofendido aos deuses? Para espantar os males, decidiu cantar e seu canto revelou entre as folhagens a bela criatura que o espreitava.
Surgiu diante dele, dançando, uma ninfa de cabelos longos e possuidores da cor da floresta. Ele, atônito, ficou paralisado diante da ninfa. Ela começou a falar. A voz penetrou no coração de Orfeu.
"Eu sei quem você é" - disse a ninfa, que se mostrou conhecedora das proezas de Orfeu, que, transformadas em lendas, percorriam as florestas e varavam os povos.
"Já ouvi muitas histórias sobre você. Você derrotou o leão montanhês, o seu canto abriu o rio, as águas se ergueram, o rio se dividiu. As ondas foram detidas, e você abriu uma passagem entre as águas. Formaram-se duas paredes de água e você caminhou pelo corredor entre essas paredes. Você fez rochas dançarem, enfrentou e acalmou o dragão de três cabeças que guardava o Velocino de Ouro. Também salvou os argonautas da sedução do canto das sereias. Você, que é um sedutor..."
Realmente a ninfa sabia muita coisa sobre Orfeu. Conhecia as aventuras, sabia das lendárias histórias que se contavam sobre o cantador da floresta e enquanto falava essas coisas, deixava escapar que estava apaixonada pelo jovem.
"Qual o seu nome?" perguntou Orfeu, atordoado pela beleza da ninfa de cabelos florestais.
"Eurídice" respondeu.
"Sim, Eurídice. Agora eu sei quem é você. Você é a bela dançarina da floresta, e eu a quero a meu lado. Com você comigo sou mais forte, você com a sua dança aperfeiçoa o meu canto"
E ali, naquele enternecido momento, entre verdes, animais, pássaros e flores, se tornaram amantes.
Quis o destino que esse encontro trouxesse felicidade para a floresta, pois assim foi. Por onde passaram, a felicidade se espalhou. As frestas de sol invadiram as solidões da floresta, adeuses se afastaram, lamentos e dores, tragédias e tristezas, tudo desapareceu. Os prantos se dissolveram, as mágoas foram esquecidas, só alegria, amizade, ternura, felicidade...
Os povos da floresta, animados e agradecidos pelo bem que a música de Orfeu e a dança de Eurídice trouxeram, resolveram preparar uma bonita festa de casamento.
Todos participaram dessa preparação, animais e pessoas.
Os animais enfeitando as árvores, os homens construindo um altar e as mulheres tecendo um pano maravilhoso para o vestido de noiva de Eurídice.
Trabalharam dias seguidos na preparação desse significativo evento, a cada manhã, a cada entardecer e a cada noite, iluminados pelos candelabros naturais de milhares de vaga-lumes, e pela luz prateada da lua, que vagando no céu espreitava comovida a felicidade do casal.
O casal continuava espalhando a felicidade com a bela união.
Os habitantes da floresta ansiosamente aguardavam o grande dia, quando entre caules, galhos e rochas, percorreu a aterrorizante notícia de que terrível criatura se aproximava destruindo tudo, arrancando árvores, rochas despedaçando.
A assombrosa criatura, uma fera medonha, enorme, incapaz de ser detida por um exército de guerreiros, já dizimara aldeias, aniquilara famílias inteiras, e rasgara ao meio os mais fortes animais selvagens. Nada poderia detê-la. A única esperança, o canto de Orfeu.
Talvez, com a música, ele pudesse salvar da fatalidade, da desgraça e da tragédia os povos da floresta.
Os habitantes florestais imploraram para que ele fosse até a região montanhosa, onde estava a criatura medonha que se aproximava, para enfrentá-la.
Os anciões, reunidos em conselho, convenceram Orfeu a partir na véspera do seu casamento para enfrentar a criatura. "Só você, com seu canto, conseguirá deter a criatura". disse um pastor.
E assim ele se foi, deixando a visão esplendorosa da preparação do seu casamento. No caminho colheu uma flor lilás e entregou-a a Eurídice. "Fique em paz, eu retornarei. Guarde esta flor, ela simbolizará o meu canto até a minha volta".
Partiu em direção ao perigo, não podia se negar a salvar a vida de tão preciosos amigos e sabia, mais do que ninguém, que a sua música nascera para beneficiar a humanidade.
Tinha plena consciência que, se o seu canto não conseguisse acalmar a estranha criatura, tudo estaria perdido e, tantos os habitantes das florestas, quanto os animais e as árvores, estariam arrasados, tudo estaria destruído.
"Eu voltarei"! - disse para a sua dançarina, que, cortada pelas lágrimas do temor, abraçou forte o seu guerreiro do canto, e murmurando pediu proteção aos deuses, enquanto apertava o corpo ao de Orfeu, que emudecido num soluço, partiu para a arriscada missão.
Eurídice ficou sozinha com a sua flor lilás na morada da floresta, mas dias depois, despertada pela curiosidade natural das fêmeas, se dirigiu à clareira da floresta para ver como andava a preparação do seu casamento.
Acompanhada pelos pássaros e os olhos dos animais amigos entre as verdes frestas, a doce ninfa seguiu seu rumo, quando alguém a agarrou.
Pensando se tratar do amado que voltara, pronuncia o seu nome, mas logo descobre o engano fatal.
Está diante do guerreiro agricultor, filho de Apolo, que sempre fora apaixonado por ela, mas como  não conseguira conquistar o seu coração com o afeto e as armas naturais do amante, resolveu usar a força e covardemente a ataca.
Como nunca conseguira transmitir encanto para Eurídice, queria violar sua própria paixão.
- Solte-me Aristeu! Você não pode fazer isso! Ninguém manda no coração de uma mulher! Você sabe quem eu amo...
Uma força maligna subiu ao coração de Aristeu, o seu sangue transformou-se em chamas, dos seus olhos o ódio e o desprezo invadiram o ar.
Ele, o filho de um deus, um forte, ser derrotado por um músico, ter perdido o amor de Eurídice por um artista, é uma humilhação sem fim...
Furiosamente, dominado pelo ódio da perda, atirou Eurídice ao chão. Ela aproveitou e tentou se levantar e fugir, mas, mal dera alguns passos, foi picada por uma serpente.
O veneno e a dor imediatamente atingiram seu sangue. Contorcendo - se, caiu ao chão. Aristeu, tão covarde como chegara, foge, abandonando-a.
Quando o povo da floresta a encontrou, sua azulada alma já se dissolvia por entre as folhagens e se recompunha no ar, voando como que levada pelos ventos em direção ao mundo dos mortos.
Dois lenhadores a ergueram com cuidado e um deles, com a voz trêmula e encharcada pela dor, disse:
- "Não há nada a fazer! O veneno penetrou em seu coração. A sua alma já não está entre nós. Vamos levá-la para o altar".
E assim, quando o sol se recolhia entre as frestas das folhas, o povo da floresta entristecido, levava o corpo de Eurídice, enquanto a sua alma já se aproximava dos enormes portões do mundo dos mortos.
Entre os gravetos do caminho, uma flor lilás murchava...
Quando Orfeu retornou vitorioso após ter acalmado a horrenda criatura com o seu canto, numa feroz batalha entre a arte e a fera, e assim ter salvado os amigos da floresta, foi invadido por uma súbita felicidade ao avistar ao longe a multidão ao redor do altar.
Pensou se tratar da animação dos últimos preparativos do seu casamento. Sorriu.
Ao chegar perto do altar, ao ver a tristeza infinita nos animais e também nos olhos do povo da floresta, pressentiu que algo estava errado e cautelosamente se aproximou da multidão.
Ao deparar com o corpo de Eurídice estendido no altar e ver o seu rosto pálido como a cera, gelado, sem vida, caiu em prantos e abraçou desesperado o seu corpo.
Seu pranto varou a floresta, atravessou árvores, e transformado em melodia voou sobre lagos e rios. Levado por uma forte e repentina ventania subiu aos ares.
O mais dolorido dos choros, transformado na mais triste melodia, chegou ao monte Olimpo, a morada dos deuses.
Zeus, comovido pelo plangente tom da melodia, ordenou a Hermes, o mensageiro dos deuses, que descesse à terra e levasse Orfeu ao mundo dos mortos. Hermes chegou à floresta de Orfeu, e transmitiu ao músico a mensagem do deus dos deuses.
Zeus, convencido da força da melodia de Orfeu, acreditou que talvez ele pudesse enternecer o coração de Hades, o senhor dos infernos.
Ninguém jamais conseguira tocar o coração de Hades, mas Zeus, diante da dor de Orfeu, resolveu se arriscar. Se o músico conseguisse comover ou pelo menos sensibilizar o senhor dos infernos, ele permitiria que levasse a sua amada de volta para o mundo dos vivos.
Hermes acompanhou Orfeu até o barco de Caronte, o terrível barqueiro que transportava as almas para o mundo subterrâneo. Orfeu carregou consigo a lira, o presente de casamento que lhe daria o povo da floresta.
Ao chegarem, enormes portões foram abertos.
Demônios e almas medonhas guardavam a entrada daquele lugar assustador, mas Orfeu só tinha uma coisa no pensamento: reencontrar Eurídice e levar a sua alma de volta para o mundo dos vivos.
Entrou.
O poeta dos verdes inicia a sua descida aos infernos.
Então surge diante dele, a esplendorosa visão de Hades, ao lado da esposa e companheira Perséfone, a do triste destino.
Orfeu fica momentaneamente paralisado diante de tão rara e impressionante visão, pois nenhuma alma viva jamais vira Hades, porém logo em seguida começa a entoar a mais doce e profunda melodia que jamais então se ouvira.
E algo estranho aconteceu.
O coração de Hades foi atingido. O senhor do mundo dos mortos se comoveu. De seus olhos uma lágrima surge, imediatamente evaporada pelo calor daquele horrível lugar. Perséfone, a do triste destino, ouve em silêncio o esposo perguntar a Orfeu o que ele queria: - "Fale meu jovem, o que você quer de mim"?
- "Eu vim buscar a minha amada. Quero levar de volta a alma de Eurídice para o mundo dos vivos"! disse Orfeu com determinação.
"Eu consinto"! - disse Hades, enquanto fazia um gesto para um demônio, para que buscasse a alma de Eurídice.
- "Mas tem uma condição. Você não poderá em nenhum momento olhar para trás. Isso é um acordo. Se você olhar para trás, perderá para sempre a sua amada".
Orfeu concordou e começou a caminhar em direção ao mundo dos vivos. Do lado de fora dos portões, o barco esperava por ele.
Atormentada por demônios e almas prisioneiras, atrás vinha a sua Eurídice, gritando.
Também demônios o atormentavam, tentavam arrancar a sua lira e o chicoteavam. Mas Orfeu seguia corajosamente, sem hesitar, e quanto mais subia em direção aos grandes portões, mais se aproximava da certeza de que breve teria de volta em seus braços a doce dançarina.
Mas a sua vontade começou a fraquejar.
A dúvida começou a invadir o seu coração, a incerteza começou a abalar os seus passos. Estaria realmente sendo seguido por Eurídice? Aqueles gritos não seriam apenas alucinações? A dúvida instalada em seu coração o colocou diante do precipício do perigo de se romper um acordo, e despedaçado pela dúvida, olhou para trás.
No mesmo instante a alma de Eurídice se dissolveu. Em pó ao mundo dos mortos retornou.
Desesperado quis voltar, tentar segurar a sua amada que desaparecia para sempre no mundo subterrâneo.
Aos gritos, foi levado pelos demônios de volta para o mundo dos vivos e então se entregou ao abandono. Nunca mais quis saber do canto, entrou na mais triste solidão e se esqueceu, deitado, na mesma rocha da floresta onde um dia se sentou para construir a sua cítara, e lá ficou.
Orfeu, abandonado, não quis ouvir ninguém. O pastor do povo da floresta tentou reanimá-lo, mas não conseguiu. Disse o pastor: "Todos nós participamos da sua dor, mas só depende de você que a tristeza se transforme em canto", mas Orfeu nada respondeu, continuou no seu silêncio gelado de pedra, deitado na rocha, transformada em leito de morte.
O jovem amante cantor das florestas, decretou a eternidade do seu amor e a ele devotou seus últimos dias.
Folhas choraram orvalhadas diante da sua fragilidade.
Orfeu para sempre esperaria pela sua amada, na certeza de que a teria novamente nos braços e, a cada dia, foi perdendo o interesse por tudo.
O jovem que com o seu canto suavizava a dor, que desceu ao mundo das trevas, passou a viver para a eternidade do seu amor.
Um grupo de mulheres da Trácia, as bacantes, seguidoras da alegria, seguidoras do vinho, não suportavam a fidelidade de Orfeu para com a sua amada.
Como era muito difícil para elas suportarem a fidelidade do homem Orfeu, armadas com paus e pedras mutilaram o cantor das florestas.
Retalharam, trucidaram, despedaçaram atrozmente o jovem fiel.
Jogaram os pedaços ao rio, e junto, a lira, que Orfeu nunca mais tocara.
Seus restos, sua cabeça e a lira chegaram à ilha de Lesbos.
Os poéticos habitantes da ilha prestaram-lhe as homenagens fúnebres.
Edificaram um túmulo.
O músico, que não conhecia fronteiras entre a vida e a morte, descansou na ilha onde a poesia habitava.
Quando anoiteceu, o povo da floresta ao olhar para o céu, encontrou pela primeira vez a Constelação de Lira.

RECONTADO POR MARCIANO VASQUES
Originalmente em RioTotal

terça-feira, 9 de março de 2010

O TREINAMENTO DO ROSPO

- Ao observar que o amigo Rospo está falando sozinho, Sapabela se aproxima.
- Olhe o avião! Olhe aquelas nuvens!
- O que está acontecendo, Rospo?
- Não me interrompa, Sapabela, por favor.
- Desculpe...
- Olhe um cachorro! Olhe um carro vermelho!
- Rospo, não estou entendo. Não quero interrompê-lo, mas é inevitável.
- Estou treinando...
- Treinando?
- Para quando tiver um filho...
- Continuo sem entender.
- Para quando eu sair com uma criança...
- Explique, estou curiosa...
- Sempre está.
- Ainda bem.
- Vou explicar: quando você sai com uma criança, não pode viajar em silêncio ao lado dela. Sapinhos não podem sufocar a sua natural curiosidade. Tudo vira assunto. Da janelinha do ônibus, você pode mostrar a ela tudo o que passa.
- Tem razão: vou treinar também: Olhe! Uma árvore! Olhe! Um sapo inteligente!


MARCIANO VASQUES
Histórias do Rospo 2010 - 44

segunda-feira, 8 de março de 2010

AS CABEÇAS PENSANTES

- "Duas cabeças pensam melhor do que uma"
- Depende.
- Espere um pouco, Rospo! Eu sempre acreditei nisso, e agora vem você com esse depende...
- Depende das cabeças...
- Está bem, senhor demolidor de provérbios...
- Uma cabeça pode pensar melhor do que cem...
- Do que mil?
- Milhões!
- Nossa!
- Por exemplo, uma cabeça que se recusa a fazer parte do rebanho, geralmente pensa melhor do que o rebanho inteiro.
- Rospo, você me convenceu. Nossas cabeças pensam bem, não é?
- Sapabela, eis um caso que se aplica ao provérbio.

MARCIANO VASQUES
Histórias do Rospo 2010 - 43

domingo, 7 de março de 2010

O BLOGUEIRO 13

O BLOGUEIRO 13

Argumento: MARCIANO VASQUES
Arte: DANILO MARQUES

NOVA EDIÇÃO DE PALAVRA FIANDEIRA


Com a participação de oito mulheres,
está no ar a nova edição de 
PALAVRA FIANDEIRA


 

 

O PROFESSOR E A GEOGRAFIA

- Não consigo ensinar Geografia aos meus alunos...
- Quais alunos?
- Da escola do povoado pobre.
- Eles não se interessam?
- Não!
- Conhecem alguma geografia?
- Nada, nenhuma...
- Engano seu, meu caro professor.
- Não entendo o que está dizendo, Rospo...
- Eles conhecem as vielas, os caminhos estreitos que levam aos amontoados de papelão, zinco e madeiras, que se transformam em "lares".
- Que realidade, triste, Rospo.
- Comece com essa geografia...Tente conhecer a história de cada um. Não queira ensinar apenas distâncias...
Ao se aproximar, você aproxima mundos...
- Rospo, você estudou Pedagogia?
- Sempre fazem esse tipo de pergunta quando digo algo diferente. Querem um diploma. É o canudo que manda...
- Tem razão, Rospo, desculpe-me.
- Tudo bem, meu amigo. Um professor tem que se renovar diariamente.

MARCIANO VASQUES
Histórias do Rospo 2010 - 42

FELIZ DIA

É preciso ser equilibrista,
bailarina, 
dar um baile na vida...

FELIZ DIA INTERNACIONAL DA MULHER!
Rosas, bombons e reflexão.

TEM QUE APARECER!

- Tem que aparecer, Rospo!
- Mas sou um escritor, Sapabela! Tenho apenas que escrever.
- Não, Rospo! Tem que ir aos encontros, estar presente, participar de badalações, tem que ser visto! É assim que funciona aqui no brejo.
- Então, não basta apenas escrever?
- Não! é preciso ser visto.
- Eu? Um simples sapo?
- Se você não aparece, seus textos não aparecem...
- Então, além de escrever, tenho que ser uma mídia ambulante?
- É mais ou menos isso. Atualmente, quem não é visto não existe. Pense nisso, amigo meu: "Sou visto, logo, existo!"



MARCIANO VASQUES
Histórias do Rospo 2010 -  41

IX FEMINA ARTE

O Femina Arte convida a todos para a sua nona edição no Santo Remédio, Pça Elis Regina , 68 Vila Gomes, São Paulo. Quarta , dia 10 de março às 21hs! Quem já veio já sabe, e Femina é acolhedor e descontraído, rola sempre uma jam e a presença de poetas , artistas e arteiros nos trazem sua sensibilidade e percepção. O sarau tem a proposta de dar espaço às mulheres e sua produção artística, às suas questões e ao seu olhar sobre o mundo. Venha celebrar conosco a beleza do feminino em sua luta por igualdade de espaços desse mundo tão masculino e tão desigual. Mulheres e homens e de alma humanista, esse sarau é para nós!

IX FEMINA ARTE

sexta-feira, 5 de março de 2010

PROMETEU




PROMETEU
 
O mais esperto dos titãs, após lutar ao lado de Zeus contra Cronos, o devorador, voltou-se para a humanidade, tendo inclusive impedido, com astúcia e habilidade, que o deus pai destruísse os humanos.
Após derrotar o próprio pai, Zeus ficou arrasado e decidiu destruir a raça humana para recomeçar tudo novamente, mas Prometeu (PRÉ–MEDITAÇÃO), agindo cautelosamente, conseguiu convencer o deus de que tal ato destrutivo só aumentaria o seu desgosto.
Graças a essa intervenção, a humanidade sobreviveu.
Circulava antiga lenda afirmando que o seu coração humanizado se originara no dia em que ele criou o homem a partir de argila e água.
Talvez por ter sido o mais perfeito artesão de todos os tempos, Prometeu teria feito o homem à semelhança dos deuses juntando argila e água de um riacho.
Segundo a lenda, apenas o fez materialmente, sem o animar.
Coube esta função à deusa Atena, que, encantada com a perfeição da obra, soprou na criação de barro de Prometeu, o espírito.
Num entardecer esplêndido, da boca da deusa o alento transformando-se em espírito passou para o homem de argila. O sopro apareceu como um feixe nebuloso e azulado. A cena fluídica encantaria o maior dos céticos.
- “Por que escolheste a argila?” – teria perguntado a deusa ao titã.
- “Porque na terra está a semente dos céus! Posso transferir de cada animal, de cada criatura viva da terra, uma característica para a minha obra, mas não lhe posso dar a vida!
A deusa, ao ouvir isso, insuflou no homem o espírito. Assim teria nascido a humanidade.
De alma belicosa e guerreira por ter nascido da cabeça de Zeus, e não do útero materno, porém sempre procurando agir com serenidade e prudência, por ser dotada de sabedoria, a protetora dos guerreiros e das cidades, sem jamais ter demonstrado amor irracional pela guerra, justamente por ter a consciência de que personificava a sabedoria divina, considerou a sua missão cumprida.
A deusa de olhos claros como o verde dos mares, deixou Prometeu contemplando a própria obra.
Portando o seu escudo no qual estava gravada a figura da medusa, dirigiu-se ao Pártenon, passando antes pela árvore chamada oliveira, na qual recolheu a sua coruja, que a esperava.
Assim deu-se esse encontro entre a deusa e Prometeu, segundo contam as lendas muito antigas.
Prometeu ensinou aos homens muitas artes e ofícios, entre os quais o estudo das estrelas. Graças a ele os homens puderam navegar com segurança.
Ao ensinar aos homens as órbitas estelares, percebeu que faltava algo e deu aos seres humanos, o mais precioso dos dons, o pensamento.
A criatura que adquirira vida com o sopro divino de Atena, agora governaria sobre todas as formas de vida terrestres.
Zeus olhava com desconfiança o exagerado amor de Prometeu pela humanidade, mas a coisa se agravou quando o atrevido titã enganou os deuses em favor dos humanos. Inaceitável!
Abateu um boi e o repartiu em duas partes enroladas em couro. Na maior, gordura e ossos, na menor, a carne. Ofertou aos olímpicos a porção menor. Zeus não gostou disso...
- “Glorioso Zeus, escolha a parte que quiser.”
Ao escolher a parte maior, Zeus percebeu que fora enganado.
Sua vingança foi imediata.
A ira de Zeus se transformou em ausência de calor.
Tirou da humanidade o fogo.
- “Que vivam no frio, e que comam a carne crua...
E aprisionou o fogo na carruagem do sol, que percorria em círculos o monte Olimpo.
A humanidade sofria com a ausência do fogo.
O capricho de Zeus representava o pior castigo para os seres humanos e uma vingança terrível contra Prometeu, que pensativo, sentado num frio rochedo, olhava para um talo de erva-doce.
Não suportava ver a agonia dos seres humanos.
Decidiu.
Foi ao Olimpo e roubou o fogo da magnífica carruagem do sol, que percorrendo em círculos o lar dos deuses, iluminava e aquecia o monte divino.
Trouxe-o de volta protegido num talo de erva-doce. Ensinou a humanidade a cozinhar. Ela, agradecida ergueu milhares de fogueiras, cujo brilho chegou ao monte Olimpo.
Zeus, tomado por incontrolável fúria, decidiu castigar Prometeu por tamanha premeditação, por tamanho atrevimento.
Nenhuma vingança seria tão terrível como a que sondava o coração do deus enraivecido.
Um ferreiro coxo daria inicio à vingança de Zeus.
O deus vingativo ordenou-lhe que fizesse uma criatura de argila, a qual chamou mulher, fisicamente semelhante às deusas, que trouxesse, além do amor, sofrimento aos humanos.
Hefesto atendeu.
A obra do ferreiro fora levada ao altar dos deuses e lá permaneceu deitada.
Zeus explica à fraternidade divina o motivo do encontro.
Os deuses em círculo lhe deram um nome que Zeus apreciou: Pandora, a cheia de dons.
Os deuses, um por um, deram à Pandora, como presentes, os atributos.
Com as vibrações dos deuses, a criatura de barro desapareceu lentamente e em seu lugar foi surgindo um belo corpo feminino. Zeus acompanha a metamorfose com vitorioso sorriso.
Apolo lhe deu o dom da música.
Hélio lhe insuflou a divindade.
Ártemis, a graça e a leveza.
Atena, a inteligência e a habilidade de tecelã.
Afrodite, a beleza e o desejo.
E assim por diante...
O último foi Hermes, que, cúmplice de Zeus, lhe transmitiu a astúcia, o cinismo, a mentira e as artimanhas. Disse o deus:
- Você, com o desejo recebido de Afrodite,viverá para seduzir e atormentar os sentidos, e com os atributos que eu lhe dou, também para enganar. Peregrinarás pelo mundo seduzindo e trazendo malefícios. Espalharás o amor, mas também a mentira, e usarás das artimanhas, dominarás a arte das manhas.
E assim Hermes instalou no coração de Pandora o dom do fingimento.
- Erga-se! – conclamou Zeus. - Você simbolizará as fêmeas.
A partir de agora a humanidade estará dividida entre masculino e feminino.
A humanidade deverá adormecer, e quando acordar, não mais será andrógina. E a parte feminina será portadora de todos os seus dons!
E assim, cheia de dons, a mulher de argila adquiriu vida.
Pandora sorriu sem compreender direito o que acontecia, mas todos os deuses viram malícia em seu sorriso.
Hermes sorriu satisfeito. A vingança estava se consolidando.
Zeus, orgulhoso, deu por encerrado o evento.
A primeira mulher criada foi entregue de presente para um dos irmãos de Prometeu, Epimeteu, em quem a reflexão sempre tardava.
Epimeteu, fascinado pela beleza feminina, esquece dos avisos do irmão, para que recusasse qualquer presente de Zeus.
Pandora tornou-se esposa de Epimeteu.
Aos distribuir os dons para a humanidade, Prometeu, para poupá-la de sofrimento, aprisionou os males numa pequena caixa oval chamada boceta, que foi dada como presente nupcial para Pandora, com a recomendação de que jamais deveria ser aberta.
A curiosidade é mãe da evolução, mas às vezes se torna irmã da imprudência.
Pandora não suportou a curiosidade em saber o que havia naquela caixinha, e, um dia, inadvertidamente, abriu-a.
Da caixa saíram todos os males e infortúnios que afligem e atormentam a humanidade, como as doenças, as dores, a inveja, o ciúme, a vingança...
Pandora, apavorada, recolocou a tampa na caixa tentando evitar que a tragédia se alastrasse totalmente, mas era tarde.
A velocidade do mal sempre surpreende os puros.
Mas, uma coisa ainda ficou presa no fundo da caixa: Esperança, que aflita e chorando a chamou.
Pandora ouviu o chamado desesperado e abriu a tampa. Soltou assim Esperança no mundo para que ela pudesse confortar a humanidade.
- “Não importa a extensão do mal, Esperança sempre estará com o afligido”, pensou Pandora, refletindo curiosa sobre o fato de Esperança estar guardada na caixa.
Muitos, através dos tempos, consideram a esperança também um mal. Para outros, para a maioria, é um bem, o que parece tornar incompreensível que estivesse junto com todos os males numa caixa, mas outros viram nessa atitude de Prometeu, um gesto de sabedoria.
Enquanto isso, prosseguia a vingança incansável de Zeus, que acorrenta brutalmente Prometeu num rochedo montanhoso.
Prometeu sofre com o sol escaldante, com o frio e com as intempéries da natureza. Seu grito sufocado não atinge a sensibilidade de Zeus.
O titã permanece acorrentado. Não há atenuantes para Zeus. O titã foi longe demais, o roubo do fogo, a zombaria do boi. É o fim.
Não haverá perdão no coração endurecido de Zeus, personificado no rochedo.
Diariamente uma águia ia bicar o seu fígado, que à noite crescia. O fígado regenerado era novamente devorado pelo animal.
O martírio nunca terminava. A pavorosa águia bicando seu fígado e a cada amanhecer o recomeço da tortura.
- “Implacável Zeus!” - gritava o pobre titã quando via ao longe, entre as nuvens do horizonte, a silhueta da enorme águia se aproximando.
Seu suplício teve fim.
O persistente Prometeu, mesmo no sofrimento, reencontrou as forças e, zombando, disse a Zeus que conhecia o segredo que o lançaria no esquecimento.
Às vezes a memória é a nossa salvação, e Prometeu tentando encontrar uma forma de se libertar, lembrou de uma antiga profecia que muito poderia agora lhe ser útil.
Enquanto a águia perfurava o seu fígado, ele se esforçava desesperadamente para lembrar da profecia em todos os detalhes, até que uma palavra, um nome, veio consolidar a sua lembrança: Tétis.
Zeus compreendeu que o titã não estava tentando ganhar tempo e sabia que a sua sarcástica afirmação tinha sentido. Prometeu conhecia um segredo valioso e Zeus não suportava a idéia de cair no esquecimento.
Ordenou a seu filho Hércules que libertasse Prometeu. E assim foi feito.
Quando no Cáucaso Prometeu viu Hércules se aproximando, compreendeu que a liberdade se aproximava.
Compreendeu também que o poder era algo muito especial para Zeus.
Hércules matou a gigantesca águia.
Prometeu estava finalmente livre.
Agradecido, revelou a Zeus o segredo de Tétis.
Ele conhecia mesmo a profecia que dizia que a Nereida Tétis geraria um filho mais poderoso que o pai.
Com a recusa de Zeus, Tétis se casa com um rei mortal.
O filho do casal foi chamado Aquiles.





PROMETEU, recontado por Marciano Vasques

CONVITE

segunda-feira, 1 de março de 2010

O BLOGUEIRO 12

O BLOGUEIRO 12

Argumento: Marciano Vasques
Arte: Danilo Marques

TAMANHO NÃO É DOCUMENTO

- "Tamanho não é documento!"
- É o que dizem, Sapabela.
-Você discorda?
- Obviamente.
- Gostaria de saber o motivo da discórdia, Rospo...
- Está vendo essa formiga?
- Estou. Ainda consigo vê-la sem lupa.
- Consegue esmagá-la?
- Claro! Faço isso com o meu dedo.
- Muito bem.
- E então, Rospo?
- Está vendo aquele elefante?
- Está num outdoor. Também não é preciso lupa...
- Se ele estivesse aqui, conseguiria esmagá-lo?
- Naturalmente que não.
- Pois é, não se esmaga um elefante como se faz com uma formiga. Como você vê, tamanho é documento.

MARCIANO VASQUES
Histórias do Rospo 2010 - 41

NOVA PALAVRA FIANDEIRA


NOVA EDIÇÃO 
DE 
PALAVRA FIANDEIRA!

ROCÍO L´AMAR ENTREVISTA
MANUEL MUÑOZ ASTUDILLA
CHILE
PALAVRA FIANDEIRA Nº 18
PARA LER, CLIQUE AQUI

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