terça-feira, 23 de março de 2010

A FLOR DO SÁBADO CHUVOSO

A FLOR DO SÁBADO CHUVOSO
 
 

 A flor do sabugueiro. Essa flor eu vi. O branco enfeitando em arte a árvore. O coração chora às vezes, e quando isso acontece alcança a poesia que dança ao redor, que esteve desde que me tornei assim.

A flor, sábado de chuva, pleno fevereiro, tempo que escorre, o pensamento fora da atenção repousa. Talvez a vida pudesse ter por outros rumos vagado. Quiçá coisas diferentes quisesse ter oferecido - me, mas eu que desde cedo a perder as chances que ela na beira da estrada põe, aprendi.

A olhar o velho caminhando compreendi, e também a insensatez de se decorar as cores do arco-íris no ausente. Das pedagogias sem alma a inutilidade na decoração do vazio se expressa.
Quisera estar num curso universitário aquilo que só se aprende diante das crianças da EMEF “Jardim Vila Nova”. Só sei escrever o que vivo!
No meu país tão lindo a alma é maltratada. Se a chuva pudesse lavar os olhos de fuligem, o homem então veria como se fosse um poeta o riso das crianças a nos oferecer a salvação.
Que os políticos se quedem a desmantelar o que possa ainda a existir de dignidade, e que Ney Matogrosso continue a cantar.

Tudo o que necessito está no coração que chora às vezes, e se a poesia se tornar inalcançável, será por minha máxima culpa, que me pus em medo, pelo acúmulo dos dejetos mentais que se infiltram em nosso pensamento, outrora límpido, vigoroso, repleto de bondades, mas depois, pelos emaranhados da vida se enfraquecendo.
Olhar o velho caminhando, o seu rosto em fibras, e as crianças que correm nas ruas, na distância dos gabinetes técnicos e da luta política pelos poderes: tanta vida vã, tantas ilusões substituindo a única felicidade possível: a do recolhimento para a busca do simples.

A flor do sabugueiro que por acaso vi quando retornava do Jardim Vila Nova, a flor da vida vivida, que longe da inútil fúria dos que desconhecem a primazia das crianças sem almoço, desabrocha: edifícios erguidos na argamassa da retórica, políticos que envergonham a nação que em mim pulsa.
É preciso o olhar poetizado para que o encontro se manifeste na explosão da alegria frutífera, não apenas de desfrute, mas que seja o outro lado do sofrimento e da dor, aquela que poderá significar aprendizagem. Essa é a verdadeira alegria, sinônimo de felicidade. A alegria da produtividade, a frutífera. Olhar poetizado é o resgate do menino, da criança, é o olhar da morada da poesia, onde, entre outras coisas, dos animais não seja roubada covardemente a possibilidade da vida em plenitude.

Deixe os políticos lá fora!

O pensamento originalmente repleto de bondade, de felicidade de lápis de cor, deve ser com persistência buscado, cicatrizado, o peso da sua transformação na vida sem autenticidade, que na busca do bem longe do essencialmente simples se agigantou: tal peso deverá ser esfarelado e se dissipar como fiapos de fumaças num final de tarde de fogueira morrendo.

E ele há de surgir glorioso, e o olhar poetizado será a bússola a descrever o arco-íris autêntico, e a flor do sabugueiro será tão importante quanto as crianças do Jardim Vila Nova, acima dos poderes da política.





MARCIANO VASQUES


CASA AZUL DE PALAVRAS - TEXTO 6

ÉDIPO



ÉDIPO

Numa bela manhã ensolarada, Laio tomou por esposa a filha de Meneceu, a bela rainha Epicasta, apelidada de Jocasta.

Laio, ao receber a notícia da gravidez da esposa, foi ao Oráculo de Delfos para saber sobre o destino do filho.

O Oráculo deu a notícia que um pai jamais queria ouvir:

- Ela terá um filho que o matará e se casará com a própria mãe.

O choro de Jocasta invadiu o ar e entristeceu o dia.

Insuportável acreditar que o fruto de seu ventre teria um destino tão trágico, melhor não acreditar nos deuses, pois tal previsão é injustificada.


Tentou abortar.

- Vamos aguardar, não é justo você matar o próprio filho. Talvez a previsão não se cumpra ou talvez nasça uma menina. Sim, uma menina evitaria a tragédia, não faça nada, querida, vamos esperar...


Vendo o quanto o pensamento de Laio era prudente e sensato, Jocasta decidiu seguir a sua vontade e desistiu do aborto. Não mataria mais o filho antes do nascimento.

No parto, o pai pega o filho e não deixa Jocasta ver, entrega-o para um escravo, após colocar a criança num cesto.

- Era um menino! – disse, ao ver que Jocasta procurava ansiosamente ver o filho.

As lágrimas da mãe encheram de dor o coração de Laio, mas não havia outra alternativa. Precisava se livrar daquela criança, para evitar a tragédia anunciada pelo Oráculo.


O escravo levou a criança para o monte Citéron. A cada passo, a sua indecisão aumentava. O seu coração apertava. Não se conformava com a missão que recebera do amo. Como poderia matar uma pobre e indefesa criança? Como poderia tirar a vida de alguém que nenhum mal fez ao mundo? 

Não poderia cumprir tal tarefa.

Não teve coragem de matar o bebê.


O bondoso escravo, com os olhos marejados, perguntava ao pequeno:

- Como posso fazer para salvá-lo? Diga, meu querido! Por favor... Não faça isso com esse pobre homem...

Como não teve a coragem de matar a criança, decidiu aleijá-la.

- Sim, querido, vou aleijá-lo para salvá-lo...

Perfurou os calcanhares da criança.

Abandonou-a no cesto, na beira do rochedo.

Prometeu, atrás de uma rocha via tudo.

- “Como são tolos os homens!” – pensou o titã.


- “A vontade modifica a profecia. A vontade divina pode ser modificada pela ação do homem, mas ele não sabe, e se entrega, se abandona diante de uma simples profecia, mal sabe que com essa atitude, traça o rumo da profecia. Se quiser, pode invalidá-la”.

Um pastor aparece.

Prometeu observa.

O pastor recolhe a criança. Entrega-a para a esposa, que a amamenta.

O bebê é amamentado pela esposa de Forbas, o pastor.


- Ele se chamará Édipo.

A criança trouxe dias de felicidade para o casal, mas, impossibilitado de criá-la, decidem entregá-la para alguém. Vão à Corinto.

O pastor entrega o pequeno Édipo para Pólibo, rei de Corinto.


Acreditando que a criança fora enviada pelos deuses, Pólibo a recebe e providencia os cuidados. O pequeno é tratado pelos médicos da corte, e cresce amado pelos pais e pelo povo de Corinto.
Pólibo e Mérope não descuidam um só dia da educação e do desenvolvimento afetivo de Édipo.

Na adolescência, Édipo foi ao Oráculo de Delfos.

O que ouve acaba prematuramente com a sua paz. O que fazer diante de uma previsão como a que o Oráculo lhe revela?

Melhor não acreditar, mas Édipo acreditou.

- “Você está condenado a matar o próprio pai e se casar com a mãe!”.

Apavorado, Édipo quis contornar o destino anunciado pelo oráculo.

Não voltou mais ao Corinto.

Decidiu tomar outro caminho. Montou em seu cavalo e seguiu rumo oposto ao da sua cidade.

No caminho encontrou uma carruagem.

Seu bastão caiu. Ele parou o cavalo e desceu. 

Como sempre, enfrentou dificuldades para montar no animal.

O cocheiro o maltratou e quis afastá-lo.


- Seu manco desgraçado! Saia do caminho!

Furioso, Édipo o matou.

O rei Laio saltou da carruagem e o atacou.

Com um bastão matou o rei e um escravo, que desceu em sua defesa.


O último dos passageiros, um escravo, conseguiu fugiu e, covardemente, abandonou os outros.

Ao chegar em Tebas, o escravo, para ocultar a sua covardia, adulterou o acidente e forjou uma narrativa. Inventou os bandoleiros, dizendo que a carruagem fora atacada por um grupo em vez de apenas uma pessoa.

O protagonista das mortes da carruagem decide tomar o caminho para Tebas. Encontra um ancião.

- Não vá para Tebas!

- Por que não devo ir para Tebas?

- Por causa da esfinge.

- Esfinge?

- Um monstro que guarda a entrada de Tebas. Metade mulher, metade leão, com alto poder destrutivo. Propõe enigmas indecifráveis. É terrível! Ninguém decifra os seus enigmas. Todos os jovens que tentam entrar em Tebas são mortos.

Ao chegar nos portões da cidade, Édipo encontra a terrível criatura que lhe propõe um enigma.

Édipo consegue decifrá-lo.

A esfinge derrotada se atira de um rochedo. Édipo destruiu o monstro.

Entra em Tebas aclamado pelo povo.

Levado à presença de Creonte, o irmão de Jocasta, que assumira o trono após a morte de Laio, o recém-chegado se apresenta:

- Sou Édipo, de Corinto.

- Você será condecorado. Além disso, a mão de Jocasta estava prometida para aquele que conseguisse matar a Esfinge.

Édipo e Jocasta se casam.

Festa simples por causa da recente morte de Laio.

Nos aposentos,
Édipo é seduzido pela beleza da mulher que ignora ser a própria mãe.

- “Como é bela! Como é atraente!”

- “Procure a mulher dentro de si!” – ouve uma estranha voz.

- O que foi, querido?

- Devo estar perturbado com a sua beleza...

- “Você é muito jovem. Deve ter sido enviado pelos deuses!”

Os amantes vivem a sua primeira noite.

Felicidade.

A felicidade às vezes é um enigma indecifrável.

Tiveram filhos: Polinice, Ismênia, Etéocles e Antígona.

Todos os filhos são iguais em amor, mas Édipo sempre foi muito apegado à Antígona. 

Prosperidade em Tebas.

A cidade se desenvolveu e o povo viveu em felicidade.

Um dia algo terrível desabou sobre todos.


Uma peste arrasou a cidade.
O povo foi dizimado. A fome se alastrou como um monstro voraz, a aridez a tudo assolou.

Destruição.

O Oráculo: - “A peste é uma vingança divina. Um alerta”

- “O que isso significa?”- perguntou, Édipo, incrédulo.

- “Não foi vingada a morte de Laio”- resposta do Oráculo.

Édipo foi ao adivinho Tirésias.

- “Édipo, rei de Tebas, matou o rei Laio, seu pai, e se casou com a própria mãe.”


O adivinho nunca falhou.

Édipo discute com Tirésias. Creonte interfere. Jocasta conciliadora, afasta Édipo de Tirésias e Creonte e termina com a discussão.

À noite, Édipo conta a Jocasta sobre a previsão do Oráculo e sobre as palavras de Tirésias.

- Laio matou o próprio filho no monte Citéron e recentemente foi assassinado por um grupo de bandoleiros saqueadores.- retruca Jocasta.

Édipo, intrigado com a previsão do Oráculo e com a revelação do famoso adivinho, manda chamar o escravo que contou a história dos bandoleiros que atacaram a carruagem e mataram o rei.


O escravo é buscado no campo.

Um mensageiro de Corinto chega anunciando a morte de Pólibo.

- “Sua mãe Mérope quer a sua volta, o seu retorno.

- Não posso retornar. Aqui é o meu lugar, ao lado de Jocasta, ao lado dos tebanos, meus fieis amigos.

- Você não é filho de Pólibo. Foi recolhido por ele das mãos de um pastor".

Édipo estremece.

O escravo chega.

- Jamais disse a alguém que foi o meu amado rei que matou Laio. Fui um covarde abandonando os companheiros mortos e para esconder essa minha covardia, inventei a história dos bandoleiros.

Transtornado, Édipo principia a chorar.

- Fui eu que fiz essas marcas nos seus pés! – disse o escravo.

- Chega! Já não me bastam as outras dores? O que mais tem para me revelar? Saia daqui. Deixe-me em dores.

- Perdão. Não pude matá-lo! Como pode ver, sempre me faltou a coragem. Naquele dia não suportei o seu choro e não tive coragem de matar um pobre bebê e o deixei abandonado num cesto, porém fiz as marcas em seus pés para que nunca fosse identificado. Perdão.

Com o rosto encharcado de lágrimas, foi ao encontro de Jocasta, passando pela amada filha Antígona, que o olhou com olhar invadido por uma profunda tristeza.

Encontrou Jocasta sobre o leito. Ao se aproximar viu que estava morta, enforcada.

Antígona, que o seguiu, banhou o rosto de pavor ao ver a cena mais cruel da sua vida: um homem manco, desesperado, chorando inconsolável diante do corpo sem vida da mãe. Desesperado, arrancou um broche de Jocasta e rasgou os próprios olhos.


Aquele que nunca conseguiu ver as coisas que se apresentavam em sua vida, agora estava cego.

- Sou um incestuoso assassino!

- Não! Você é meu pai. É isso que você é, o meu pai querido.

Pai e filha se abraçam num charco de lágrimas que almas feridas costumam presentear aos olhos.

- Irei com você,- diz Antígona, decidida-, irei com você, meu querido pai! Estarei sempre ao seu lado. Onde você estiver, estará Antígona.

A fortaleza da voz da filha perfura o bloqueio da dor de seu coração e Édipo se reanima.

Passam pela multidão, que num comovido silêncio, abrem passagem para um manco cego abraçado com uma moça que a cidade aprendera a respeitar.

Antígona e Édipo deixam Tebas.

****

ÉDIPO: Recontado por Marciano Vasques

 

segunda-feira, 22 de março de 2010

O BLOGUEIRO - 15

ARGUMENTO: MARCIANO VASQUES
ARTE: DANILO MARQUES

HEMATOMAS DA ALMA

 HEMATOMAS DA ALMA      

É possível que você não suporte mais uma traição, mas a tenha que engolir em nome do cotidiano, da sobrevivência, de algum relacionamento; talvez algo em que se agarrar, esperança virando fumaça, se dissolvendo no ar, se esfarelando entre os dedos, astros morrendo numa insondável  noite. É possível que sofra calado, e perca a pureza anterior, que olhe os amigos com desconfiança, e encontre, ao descer os degraus, rastejando - se em agonia, a sua fé no espírito humano. 

É possível que siga em frente porque afinal é a única alternativa, e talvez aprenda a trair, a compreender o jogo, e se veja de repente no meio de uma arena, numa disputa, num campeonato cujo troféu é a sua derrota.

         Talvez tente preservar as últimas gotas do seu ser, proteger a sua essência das armadilhas da rotina traiçoeira, erguer uma ponte de concreto sobre o brejo da inveja, ser autêntico acima de todos os custos, manter-se fiel ao seu inegociável desejo, ao seu invendável querer, mas em seu coração as sequelas são incicatrizáveis, e acima de tudo, o que lhe remói por dentro são os hematomas da alma, machucados, palavras que o enganaram, falsos sorrisos, coisas pelas quais nunca esteve preparado.
         Pode ser que nem haja uma só testemunha do seu gemido, e a sonoridade do seu grito se desfaça no véu do esquecimento.
         E no salão das vaidades, você passe como um vulto que não ousa se abandonar, que não ousa suportar a pequenez dos relacionamentos infrutíferos.
         Tudo é possível, até mesmo resistir, e o enfrentamento na imensa batalha clame por uma força sobre - humana, pois sempre é mais fácil ceder, sempre.
         Mas você é grande, e oferece o rosto ao vento, enfrenta o dia, ouve as piadas, observa o que se perde, o que se calou.
         As decisões revelam a todo instante a força do seu caráter, do seu coração. Desde as mais simples, embora difíceis na sua simplicidade, como decidir entre comer um alimento rico em fibras ou um doce qualquer. 
Não é fácil, nunca foi, mas sempre valerá a pena varrer os porões da mente, limpá-los, enxaguar com o pranto da sinceridade, olhar para frente, e ver que o caminho é inesgotável,  e ficará algo de você, pelo menos nas  folhas verdes que tocou, mesmo que apenas com o olhar, compartilhando o tempo, passando heroicamente como tudo passará, tudo e todos. 
Algo que permanecerá enquanto existir uma só memória, não morrerá completamente, porque afinal morrer é acabar.
         Ficará, da mesma forma como não é possível um curativo, algo que possa solucionar os hematomas da alma.





MARCIANO VASQUES
CASA AZUL DE PALAVRAS - TEXTO 5

O CAVALO NÃO DANÇA TANGO


  

O CAVALO NÃO DANÇA TANGO


 
 

Peguei o pedacinho de gente da nossa família e lá fomos. Eu, ela e a vovó.
O circo começava às nove horas da noite. Antes do espetáculo olhamos os camelos e os cavalos malhados, cada um em seu quadrado cercado, com o chão forrado de ração, que não era ração, era feno, que não era feno, era serragem. Um dos cavalos comia seus próprios excrementos. Foi difícil falar sobre isso com ela, tão pequena ainda.

Entramos.
Eu, ela e a vovó em frente ao picadeiro, bem ao centro. O circo não estava lotado, mesmo com a promoção: De terça à sexta, cinco reais. Adultos e crianças.
Acompanhei o seu olhar desde o início. Certamente não estava entendendo nada. Com três anos de idade é difícil se compreender argolas de fogo,  mulheres  voando sob a lona iluminada por focos de luzes, e índios cortando papel com o chicote.
Não entendia, mas o encantamento era visível. O que se passava em sua cabecinha nunca saberemos com exatidão, mas que aquilo ficaria alojado para sempre em algum lugar na sua memória, sabíamos.

 No meio das atrações, eis que no picadeiro um punhado de animais surge: avestruzes, lhamas, emas, jumentos...Os bichos dão voltas no palco e saem. No centro de tudo, um homem com um longo e fino chicote estendido, no ar circulando.
Depois a atração dos tigres asiáticos, dos filhotes de tigres da África, dos camelos.
Não deu pra entender bem a atração dos camelos, pareceu apenas uma exibição dos animais, uma exposição, uma nova forma de zoológico.
Depois os dois palhaços com diálogos e brincadeiras que interessam para crianças maiores. A que estava comigo e a vovó não entendia, por exemplo, uma brincadeira com as camisas de times de futebol, ela nada sabia disso ainda. Mas palhaços encantam os pequenos.
Os trapezistas, os malabaristas, tudo é um grande espetáculo para os seus olhos.


Chega finalmente a atração principal para ela. Os cavalos. Primeiro os malhados, que não fazem nada, ficam apenas dando voltas no picadeiro, pura exibição, mas são os cavalos, e é isso que importa. Ela é louca por cavalos, principalmente depois que assistiu ao "Spirit: o corcel indomável".
 
Após umas  dez voltas eles saem do palco.

 Finalmente o grande momento! O cavalo preto surge no picadeiro, montado por um jovem que segura uma vara.   
  Dá várias voltas. Depois se abaixa, pedindo aplausos, igual havia feito o macaco que andou de bicicleta. Ajoelha-se, ergue as duas patas e para alegria da platéia dança um tango. A arquibancada delira.
A música no ar e o animal dançando.
O cavaleiro falando baixo algumas palavras, e dando uns toques com a bota no corpo do animal.
A coreografia do cavalo é absoluta. Ele acompanha o ritmo com uma agilidade que encanta as crianças.
O cavaleiro bate levemente com a vareta numa parte do corpo do bicho e ele se movimenta, bate noutra parte e ele executa outro tipo de movimento. Sempre ao ritmo da música.
Ao final todos aplaudem. Nós também, para ela aprender. 
O cavalo se ajoelha novamente agradecendo os aplausos. Depois ergue as patas dianteiras, dá algumas voltas e finalmente sai do picadeiro. As luzes se apagam novamente para a troca de atração.

Num dos momentos da apresentação, a vovó me lança um olhar emudecido, quase orvalhado, de uma tristeza infinita. Não há uma palavra sequer para esse olhar, nem precisa. Enquanto no picadeiro o cavalo dançava aos toques da vareta do cavaleiro, a vovó me mostrava que uma criança é para sempre, mas se modifica com o tempo. A que há na vovó mudou.
O espetáculo terminou. Fomos rapidamente para o ponto do ônibus. Olho para trás, para o circo.
Os passos apressados para não perder o ônibus.
Ela, de cavalinho.



MARCIANO VASQUES
CASA AZUL DE PALAVRAS - TEXTO 4

domingo, 21 de março de 2010

CONVITE X FEMINA ARTE

ANIVERSÁRIO



O BLOG "CAFÉ DE OUTUBRO" COMPLETA
UM ANO 
NO PRÓXIMO DIA 23 DE MARÇO

Parabéns ao Danilo Vasques, o seu fundador.
CASA AZUL DA LITERATURA acompanha as imagens e as crônicas do cotidiano, expostos com refinamento e apuro em CAFÉ DE OUTUBRO.


Imagem do blog "Café de Outubro"


Leia AQUI 



A ONDA CÔNCAVA DO MAR PROFUNDO

A ONDA CÔNCAVA DO MAR PROFUNDO






 

 
Chove e a chuva traz de volta as coisas que não podem morrer. Pensa-se que se dissipa, mas é como a fumaça do trem da minha infância. A locomotiva não está mais sobre os trilhos, mas a fumaça sobre um céu de oliva buscando lilases nunca se foi.

Trago de volta as coisas. Tornou-se um hábito, uma espécie de refúgio, uma proteção da alma. Trago àquela que não ofereceu sua poesia em bandejas de prata, mas em pratinhos de porcelana do XIX. Trago a porcelana, e trago a estampa, e a estampa me leva ao imenso artista que foi o japonês.

A associação do japonês à imagem do científico e da tecnologia está ligada à sobrevivência, é um fenômeno de transformação de culturas que ocorre sob o imperativo da sobrevivência, tem a ver com pós-guerra, com destruição e com reconstrução. São grandiosos na ciência, mas que artistas foram na estampa!

Para onde vão as culturas?
E uma delas, que me é tão superior, e à chuva trago-me de volta. Para onde terá ido? Que distância imensa teria eu que percorrer para penetrar no âmago de tantas confluências coloridas, tantos losangos magníficos, borboletas, flores, formas e cores que nunca teriam fim?

As estampas japonesas desenhando os séculos em cenas de sentires superiores, narrando histórias e momentos. Eis o povo da estampa! Que beirou rios com suas flores amarelas, que sobrevoou azuis com seus pássaros brancos. Para onde terá ido essa cultura que tanto me impressiona?


Por que me vem assim tão desatenta numa chuvosa tarde de setembro?
Para onde irá esse setembro, se me falta a pintura da estampa? Três jovens passeando sob cerejeiras floridas numa tarde de primavera. Foi preciso essa chuva para que eu pudesse compreender o quanto a região onde vivo é importante pelo fato de ter as cerejeiras dos japoneses.

Uma cortesã japonesa vestida com tecidos belos, um carvalho sendo admirado, duas jovens ao luar de outono, uma outra prendendo um poema de amor a uma cerejeira e os magníficos motivos no tecido. Maravilhosos artistas japoneses!

Jovens amantes sentados na esteira de uma varanda contemplando o luar, a impressionante harmonia de uma jovem de sombrinha exalando em cores plenas de delicadeza, rosas à beira-rio, calmo entardecer à beira-rio, como temos que aprender com as estampas japonesas!

Arte milenar, obras-primas de uma cultura inimitável, derivadas de uma arte popular, a pintura japonesa, mãe da impressão.

“Pinturas do mundo que passa”. Nunca esqueci da palavra Ukiyo (mundo que passa), um mundo repleto de significados, mas sobretudo todos convergindo para o conceito budista de tristeza diante do efêmero da natureza, do transitório das coisas que são. "Momento que passa, qual é o seu nome?", tamborila-me os versos de Cecília, pois tudo se amalgama.

Estampas japonesas. Onde as vi pela última vez? Chovia, por acaso? Mas o acaso não passa de colmos da planta trepadeira que vai entrelaçando tudo e atingindo o cume do muro para então se tornar portadora da visão esplendorosa das culturas que retornam com as chuvas.

Ukiyo-e (pinturas do mundo que passa), melancolia budista de um tempo longínquo; conceitos sofrem transformações, o que ousa denominar-se moderno se instala vigorosamente, pois ninguém respeita a força motriz do tempo. E o “mundo que passa” passou a designar um modo particular de vida, uma busca desenfreada dos prazeres, naturalmente transitórios.
Nada sei da gigantesca e indecifrável beleza da cultura oriental que aparentemente se foi, apenas recordo algumas estampas japonesas, tão lindas, que devo ter visto em algum livro empoeirado, em alguma biblioteca.

MARCIANO VASQUES
CASA AZUL DE PALAVRAS - TEXTO 3


FRAGMENTOS

Brincávamos o dia inteiro entre os verdes eucaliptais. Corríamos nas trilhas ultrapassando nódoas úmidas das manhãs e pisávamos no frescor das folhas que atapetavam os caminhos que inventávamos. Às vezes a mãe participava, quando, por exemplo, transformava o seu avental num enorme embrulho repleto de ameixas amarelas. Às vezes éramos girinos a saltitar fiapos enferrujados de água que escorriam na avermelhada terra da vila. 


Marciano Vasques

PALAVRA FIANDEIRA COM MARÍLIA CHARTUNE


NOVA EDIÇÃO 
DE 
PALAVRA FIANDEIRA


NESTA EDIÇÃO:


MARÍLIA CHARTUNE


LEIA AQUI

ROSA BRANCA EM MUNDO AZUL




Autoria: Zélia Nicolodi. 
Veja em MUNDO AZUL

sexta-feira, 19 de março de 2010

ANAGRAMA ESPECIAL



ARTE TEAR 









ANAGRAMA  ESPECIAL

quinta-feira, 18 de março de 2010

O MENINO E A BALSA

O MENINO E A BALSA
  



 
 
  Coração de menino pulsava acelerado diante das placas “Ferry Boat”, que via à  margem da avenida “Puglisi”, em Guarujá.
O pai desceu a Moji-Bertioga rumo ao litoral, movido por um único motivo: estar na balsa. Atravessar de uma cidade à outra daquele jeito, levando consigo o filho. Queria mostrar ao garoto um dos  mais bonitos lugares do Brasil. Uma inesquecível visão que  criança precisa ter antes de crescer. Iria adquirir para o filho as emoções da travessia de Guarujá para Santos de balsa.

  Que pintor poria na tela, com exatidão, por mais fiel que fosse,  um  entardecer na balsa?

  Amontoado de embarcações:  imensas gaivotas de madeira e ferro construídas pelas mãos humanas. Navios passeando lentamente diante da balsa, transbordando os olhos do menino, trans-bordando em sua alma o mais bonito bordado, o  para sempre, do qual se pronuncia: poesia.
Impossível ficar ao volante esperando a travessia terminar. O pai sai do carro e caminha com o filho até a beira para que apreciem com mais carinho a beleza de um entardecer na balsa, lugar que nenhum outro se atreveria tão bonito  a ser para aqueles olhos.

Ele tira fotos. O pequeno, encantado, olha os navios, os barcos, o mar e as cidades, uma de cada lado. O coração quase salta no pensamento ao pensar para si:

- “É Santos!”

Retornam ao carro. A balsa termina a travessia.

- Pai!

- O que é?

- Faz tempo quero fazer uma pergunta.

- Faça então.

- Quem é Rosema Branca?


O homem, desconcertado, responde:

- É uma história que os  santistas mais antigos contam sobre uma enorme flor azulada muito bonita...

- Ela existe de verdade, pai?

- Claro que não. É apenas uma lenda, eu acho.

- E a menina?

- Que menina?

- A que virou flor.

- Onde ouviu essa história?

- Certa noite perdi o sono e escutei o senhor falar essas coisas para a mãe. Não deu para entender direito...


- É feio ouvir conversa dos outros...

- É que eu perdi o sono e quem perde uma coisa ganha outra.

- Como assim?

- Eu ganhei uma conversa da madrugada...

O pai sorri.


- Sabe, filho, quase ninguém mais fala sobre essa história. Acho até que caiu no esquecimento...

- Mas fale agora pai.

- Não posso!

- Por que?

- Caiu no esquecimento dentro de mim.

Os dois riem muito.

Passaram por todos os canais de Santos e riram sem parar, a mais saborosa risada naquela tarde na baixada paulista.

Por um momento afugentado na maresia, o pai contemplou no rosto do filho  as imagens que fizeram morada em seus olhos de balsa.

MARCIANO VASQUES
CASA AZUL DE PALAVRAS - Texto 2

quarta-feira, 17 de março de 2010

A ALMA PEREGRINA NA MITOLOGIA E NA LITERATURA

A ALMA PEREGRINA NA MITOLOGIA E NA LITERATURA

 
Gostaria de falar um pouco sobre a presença do feminino na Literatura Infantil, na Mitologia e na Poesia.

A mulher, sempre tão cantada em versos, é protagonista em histórias inesquecíveis. Na mitologia a sua importância é fundamental.

Quando os deuses ficam zangados com Prometeu e decidem punir a humanidade, castigá-la para assim atingirem ao titã que tanto incomodara as divindades com seu amor exagerado pelos humanos a ponto de enganar os deuses, eis que eles decidem o pior castigo que a humanidade poderia receber. Criam a mulher.

Forjada do barro, Pandora, a cheia de dons, recebe das divindades os poderes femininos, entre os quais a astúcia, o dom de seduzir, a malícia e a capacidade de mentir. Segundo Hermes, o mensageiro dos deuses e o último a lhe transmitir os poderes, a fêmea viveria para enganar. Espalharia o amor, mas também a discórdia, a dor e o sofrimento. E essa maldição estaria presente em todas as fêmeas.

Em Orfeu a mulher aparece na figura de uma ninfa de nome Eurídice, que enfeitiça o coração do cantor desde que ele a encontra na floresta.

Eurídice dança para Orfeu e assim o reanima, pois estava arrasado pelo motivo de ter sido expulso de sua própria morada pelo pai, o rei Eagro, que preferia um filho guerreiro e não um com a alma de artista.

Cresce o amor de Orfeu e Eurídice. E então surge um brusco acontecimento que acaba com a felicidade do casal. Ao ser perseguida por Aristeu, que queria possuí-la à força, incapaz que era de conquistar uma mulher, acontece um acidente e ela morre. Sua alma é levada para o mundo subterrâneo para ser propriedade de Hades, o senhor absoluto do inferno, cuja menção do próprio nome atemorizava os gregos, sendo tão terrível que o seu nome passou a ser também o do seu reino.

Então acontece algo extraordinário: pela primeira vez o homem desce ao inferno para buscar a sua amada. Orfeu tenta desesperadamente resgatar a alma de Eurídice, e quando a perde definitivamente, destrói a sua própria vida, abandonando-se na floresta até ser destruído por um grupo de mulheres que queriam o seu amor, e não suportavam a sua fidelidade à eterna amada.

Na Literatura Infantil a sua presença é marcante e ela está a nos ensinar, sendo ora uma menina que vai pela floresta a levar a cestinha de biscoito para a sua vovó e despreza os conselhos da mãe para que não converse com estranhos no caminho. A sua imprudência tornar-se-á caro: o lobo é terrível, o grande lobo. Sempre a espreitar, sempre ameaçando a paz e a tranqüilidade da pequena. Depois a menina é uma adolescente que também vai visitar a vovó, mas, ao encontrar um lenhador na floresta, a menina - com a fita verde no cabelo - vê nela projetada a sombra do lobo e não é mais a mesma. Agora caminha na floresta com um lobo no pensamento, mas antes de adolescer, a menina, com o uso da palavra, venceu o medo do lobo. Tanto repetiu a palavra lobo que esta se transformou em bolo. O seu chapeuzinho não é mais vermelho, agora é amarelo.

Em outra narrativa ela é trancafiada numa torre alta na qual passa a viver isolada do mundo sem contato com o grande lobo. Enclausurada, vive uma boa parte da sua vida no alto da torre e o único amor que conhece é o da bruxa, até que acontece o inevitável: o aparecimento do homem.

As personagens são notáveis e sua função é ora ensinar os humanos, ora educar os homens, sendo que assim cumpre a sua missão primordial, o de educadora. Como Branca a ensinar os anões, e a bruxa, a nos mostrar que a força de alguns sentimentos como o da inveja são medonhos. Há que se ter um cuidado permanente, há que se viver uma vigilância extremada. A inveja é poderosa e só poderá ser combatida com sabedoria, prudência, e produção. Ela é fruto da alma incapaz de produzir, fruto da falta de ocupação, de produtividade. Por isso se inveja, sobretudo a beleza, o amor, tal como Afrodite a invejar Psique, tal como as irmãs a invejarem a pobre gata-borralheira, desprezada e escravizada, que, tal como o patinho feio de Andersen, que sofre uma transformação profunda ao descobrir-se um cisne, transforma-se numa linda e poderosa princesa: a Cinderela. Por puro encantamento do príncipe, eterna utopia edificada na imaginação patriarcal criadora.

Então ora ela é uma fada, ora uma princesa, ora uma bruxa, uma feiticeira, mas sempre estará presente com a sua força a ilustrar e a preencher a nossa infância de magia, de encantamento e de sabedoria.

E é mãe. Na mitologia aparece como Demeter que enlouquece de dor ao perder a filha querida que é raptada por Hades e levada para ser sua esposa no seu reino subterrâneo. Enquanto em outra história a mulher é Penélope a esperar incansavelmente pelo seu eterno amado Ulisses, sempre a tecer um infindável tapete que à noite desmancha e durante o dia tece, enganando assim aos seus pretendente, para quem promete se entregar assim que o tapete esteja terminado, se em dado momento é Penélope a nos mostrar a natureza da mulher tecelã, que nasceu para tecer e vai tecendo e tecendo o mundo e os destinos, as histórias e as vidas, em outro é a esposa de Hades, a bela Perséfone, a mais triste das mulheres. A do mais trágico destino.

Quando a mãe enlouquece de dor quem sofre é a humanidade. Demeter é a personificação da natureza, sendo que ao ter o coração pela perda da filha esmagado, traz para o mundo o inverno, a devastação, a fome e a miséria humana. Só com o retorno de sua querida filha volta a sorrir e a natureza floresce. O amor da mãe pela filha salva a humanidade.

Então surge a Cecília Meireles com a sua poesia e escreve o poema mais sentido, mais dolorido, que é o “Lamento da Mãe Órfã”, pois para ela, quando a mãe perde o filho, é ela que fica órfã.

E da Poesia vamos à Literatura: inicialmente estaremos diante da primeira aparição da mulher, valorizada não apenas pelos seus atributos, mas sim pela sua inteligência, pela sabedoria, pelo uso da palavra. Pela primeira vez ela aparece assim na Literatura e salva as mulheres e a humanidade. Eis um dos grandes legados do belo povo árabe que tantas contribuições maravilhosas trouxeram para a humanidade. Sherazade, a contadora de histórias. Ao contar histórias nas mil e uma noites, ela salva a sua própria vida e inaugura o grande patrimônio da contadora de histórias.

Uma delas salvou o menino José Lins de Rego, que era doente e foi curado pelo hábito de ouvir as histórias da velha Totônia, a negra que percorria os engenhos para contar histórias para as crianças.

Depois vamos encontrar uma mulher que levou para as paginas várias mulheres, inesquecíveis, fortes e marcantes. Clarice Lispector, que um dia , numa feira nordestina num bairro carioca, ao sentir o coração apertado pela turquesa da saudade imensa de Recife onde vivera a sua maravilhosa infância, e de onde jamais deveria ter saído, cria mentalmente os diálogos de sua “Macabéia”, personagem marcante da escritora, que homenageia uma governanta comovente que chorava com ela a morte de uma de suas galinhas.

As suas personagens femininas revelam-nos o estado de alienação do individuo diante da vida não vivida. A vida sufocante do dia a dia, a anulação gradual da mulher diante do cotidiano do lar, onde é muitas vezes oprimida, às vezes sutilmente, às vezes escancaradamente, e em casos extremos chega a ser espancada e muitas vezes sendo a principal vítima de conceitos machistas e perigosos, como, por exemplo, “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

Clarice consciente de que a condição social deixa a pessoa arrancada de sua própria vida. As personagens de Clarice estão empenhadas e comprometidas com a busca para romper com os grilhões do falso viver, da vida sem autenticidade vivida no espaço em que se chama lar. Ela, a vitima do “Psiu!”. A que caminha pela rua e ouve diversos “Psiu!”. Na calçada, quando vai ao cinema, ao parque, ao supermercado. E em casa ouve o “Psiu!” da opressão familiar, sobretudo do homem. É o “Psiu!”, ordenando a ela que não se expresse, que se cale, que se mantenha em silêncio.

E então a sua valoração vem através dos presentes que costuma receber nas datas comemorativas. O seu valor da mulher está no presente. A panela de pressão que ganha de presente é a valoração da cozinheira, e assim por diante.

Ela que tanto enriquece a nossa infância, seja a infância da criança nos maravilhosos contos de fada, seja a infância da humanidade com a Mitologia, seja na literatura, sempre a nos ensinar, seja como uma guerreira a participar da edificação de uma história real, a nossa Maria Bonita é oprimida no lar, que muitas vezes reproduz a tirania de uma sociedade, que a quer bela, cada vez mais. Eis a vontade patriarcal do capitalismo. Transformá-la na eterna Pandora, a que vive para seduzir. Estranha mulher esta que tanto incomoda.

E assim nos despedimos. Eu a lembrar do verso de uma poetisa chamada Cristina Rosseti:

“Ninguém nunca amou a minha alma peregrina”


MARCIANO VASQUES
CASA AZUL DE PALAVRAS - Texto 1

terça-feira, 16 de março de 2010

O SAPO E A EDUCAÇÃO DA POESIA

- O professor tem que ter a alma da poesia.
- Está maluco, Rospo? A Educação está triste. Muita falta de respeito de todos os lados. Um sufoco dar aula! E o nosso professor, aqui no brejo, cada vez mais desvalorizado.
- Por isso mesmo.
- Ora, Rospo. "Alma de poesia". Parece discurso de algum escritor, desses que vivem realizando palestras...Ponha o sujeito dentro da escola, na sala de aula, diante da realidade. Poesia, poesia. O professor tem mesmo é que lutar pelos seus direitos...
- Isso mesmo!
- Se concorda comigo, como vem falar em alma de poesia?
- Uma coisa não invalida a outra. Não se anulam.
- Explique.
- O professor deve sim lutar pelos seus direitos, pois é um trabalhador, um profissional e precisa ser valorizado, ter os seus direitos garantidos, ser respeitado, mas ele é o ser da cortesia, não deve perder essa condição...
- Que condição, Rospo?
- A delicadeza, a poesia, a atenção, o zelo, a gentileza, a doçura.
- Doçura? O sujeito é massacrado diariamente.
- Ora, Sapa, adoro as suas provocações, mas bem sabe, tanto quanto eu, que tudo isso que falei, incluindo a doçura, não significa, em hipótese alguma, amolecer em suas reivindicações, em sua luta....
- Está certo, mestre, está certo. Ser firme, corajoso e persistente. Porém jamais abandonar a sua condição de "Ser da poesia".
- Claro, não dá para pensar em educar uma criança sem uma educação poética. Isso é trunfo do professor, é o seu privilégio, isso que o diferencia, entende?

MARCIANO VASQUES


Histórias do Rospo 2010 - 46

domingo, 14 de março de 2010

O BLOGUEIRO 14



O BLOGUEIRO 14
Argumento: Marciano Vasques 
Arte: Danilo Marques

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