Peri feria, sem ira, sua amiga Iracema, quando não queria com ela cirandar. Ela ficava magoada e a má água em seu olhos escorria fazendo bonito lago de dar dó, logo ela, a menina do anel de vidro. Mas ele, que corria naquelas ruas empoeiradas, sumiu, dizem que entrou num bosque chamado solidão e de lá numa mais voltou. Iracema cresceu. Os bailes vieram. E nas ruas da periferia dizem que às vezes anda com o olhar submerso nalgum verso que guardou, coisa de brincadeira.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
PROCURANDO POR ELA
—Lá estava o Rospo beirando o lago, pescando pensamentos e contemplando a paisagem quando ele chegou.
—Aonde vai tão angustiado? —perguntou ao sapo apressado.
—Estou procurando por ELA.
—Ela?
—Sim, vou subir aquela montanha, cortar os vales, procurar em todos os caminhos; hei de encontrá-la!
—Mas quem é Ela, afinal?
—Ao pronunciar o nome dela,o sapo causou no Rospo um riso revelador.
—Por que o riso, meu amigo? O que eu disse de tão engraçado?
—Não adianta procurá-la na montanha, nos vales, em qualquer parte do mundo.
—Mas, onde então devo procurá-la?
—Ora, amigo, é a felicidade o que procura. O lugar mais adequado para encontrá-la é dentro de você. Se ela não estiver neste lugar,de nada adianta percorrer o planeta.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 677
Marciano Vasques
—Aonde vai tão angustiado? —perguntou ao sapo apressado.
—Estou procurando por ELA.
—Ela?
—Sim, vou subir aquela montanha, cortar os vales, procurar em todos os caminhos; hei de encontrá-la!
—Mas quem é Ela, afinal?
—Ao pronunciar o nome dela,o sapo causou no Rospo um riso revelador.
—Por que o riso, meu amigo? O que eu disse de tão engraçado?
—Não adianta procurá-la na montanha, nos vales, em qualquer parte do mundo.
—Mas, onde então devo procurá-la?
—Ora, amigo, é a felicidade o que procura. O lugar mais adequado para encontrá-la é dentro de você. Se ela não estiver neste lugar,de nada adianta percorrer o planeta.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 677
Marciano Vasques
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
APRENDIZADO
às vezes eu ficava na vidraça com o nariz escorrendo. Lá fora a friagem. E meus olhos grudados num gafanhoto e num filete de água que escorria no peitoril. Então o aroma do anis, que vinha do fogão, me mostrava o entendimento de como o amor se expressa. E para reforçar o doce aprendizado, sua voz dizia: a blusa de flanela está na primeira gaveta!
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FRAGMENTOS
Enquanto catava lêndeas
Ela bordava no meu coração de menino
As lendas.
Depois eu
era tão feliz
Ao ver a ventania rolar os baldes no quintal,
E ao ouvir a chuva na calha.
Não pense que isso se foi.
Nem pense que o aroma da canela numa manhã friorenta
Terá sido em vão.
Ela bordava no meu coração de menino
As lendas.
Depois eu
era tão feliz
Ao ver a ventania rolar os baldes no quintal,
E ao ouvir a chuva na calha.
Não pense que isso se foi.
Nem pense que o aroma da canela numa manhã friorenta
Terá sido em vão.
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FRAGMENTOS
SAPABELA LIGANDO
Rospo atende:
—Sapabela! Que alegria você ligar!
—Ligar faz a diferença, Rospo!
—Verdade, nega. Tudo que realmente importa é repleto de ligações.
—O que são os neurônios? Uma rede de ligações. O próprio universo em sua sincronia: feixe de astros que descrevem harmoniosas órbitas.
—Sapabela! Que alegria você ligar!
—Ligar faz a diferença, Rospo!
—Verdade, nega. Tudo que realmente importa é repleto de ligações.
—O que são os neurônios? Uma rede de ligações. O próprio universo em sua sincronia: feixe de astros que descrevem harmoniosas órbitas.
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
O AMOR QUE MOVE
Lá ia a Sapabela, linda como sempre, esmalte lilás bem suave, vestidinho com tonalidades roxas, a própria beleza flutuando em si. Então, encontra o querido amigo Rospo.
—Rospo! Rospo! Meu querido! Como vai?
—E estou bem, minha cara. Nunca estive tão feliz. Hoje queria falar de amor, que é o meu prato predileto.
—Prato?
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
FÁBULAS E HISTÓRIAS DA PERIFERIA
Na periferia de São Paulo, menina brincava no capinzal quando a sua bola caiu num poço.
Um estranho se ofereceu para ajudá-la a ter de volta a bola, desde que ela prometesse que ele jantaria em sua casa.
Na aflição, a pequena prometeu.
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JORNAL DA CASA AZUL
AKIRA
Marciano,
São ótimas as histórias do Rospo, divertidíssimas e fixam sempre conceitos e valores corretos. Os diálogos fluem naturalmente como correntezas de riachos cristalinos.
Cada história uma observação, uma lição. Nessa o sapo babaca descobre que ele mesmo a levou dele. Tão babaca que ainda não sabe que ele se levou dele. Quer saber? Bem feito para ele.
Um abraço do Akira.
São ótimas as histórias do Rospo, divertidíssimas e fixam sempre conceitos e valores corretos. Os diálogos fluem naturalmente como correntezas de riachos cristalinos.
Cada história uma observação, uma lição. Nessa o sapo babaca descobre que ele mesmo a levou dele. Tão babaca que ainda não sabe que ele se levou dele. Quer saber? Bem feito para ele.
Um abraço do Akira.
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OPINÕES
DEPOIMENTO
Sei porque não combino muito. Agora entendo: eu nunca estive preparado para tanta maldade. Sempre terei muita dificuldade em lidar com a arrogância. Você pode realmente escrever coisas lindas e até comoventes. Mas quando essencialmente o coração é arrogante, de nada adianta. Durante um bom tempo, romântico que sou, mantive em mim uma visão extremamente pura que não combina com os dias atuais. Defendia eu, e disse isso em muitas conversas entre os amigos, defendia pois que o poeta deve viver de acordo com o que escreve. Depois fui estendendo o meu pensamento e ele se tornou mais abrangente. Não apenas o poeta, mas também o artista da "Televisão", o ídolo das massas. Todos deveriam viver de acordo com o que
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CASA AZUL DE PALAVRAS
DEPOIMENTO
Sei porque não combino muito. Agora entendo: eu nunca estive preparado para tanta maldade. Sempre terei muita dificuldade em lidar com a arrogância. Você pode realmente escrever coisas lindas e até comoventes. Mas quando essencialmente o coração é arrogante, de nada adianta. Durante um bom tempo, romântico que sou, mantive em mim uma visão extremamente pura que não combina com os dias atuais. Defendia eu, e disse isso em muitas conversas entre os amigos, defendia pois que o poeta deve viver de acordo com o que escreve. Depois fui estendendo o meu pensamento e ele se tornou mais abrangente. Não apenas o poeta, mas também o artista da "Televisão", o ídolo das massas. Todos deveriam viver de acordo com o que
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CASA AZUL DE PALAVRAS
domingo, 18 de setembro de 2011
ROSPO NA PRAÇA LENDO O JORNAL
—Meu amor, quando nascer em meu coração, será 0800.
—Gostei, Sapabela. Fale sobre ele.
—Mas ele ainda não chegou, Rospo.
—E o que precisa para ele chegar?
—Não precisa de nada. Não se mede tempestades
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
RUMO AO FEMININO
—Não esquento não.
—Falando sozinha, Sapabela?
—Rospo! Que nada, meu amigo. Preciso jogar minha voz ao ar, pois glorifico a imensa alegria de ser fêmea.
—Que bonito! Mas, Sapa sofre.
—Eu sei, pelos séculos&séculos amém.
—Sapabela, penso que a sapa é preparada desde cedo para sofrer.
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
A MÁQUINA DO TEMPO
—Rospo! Que bom encontrá-lo por aqui. Hoje decidi organizar, ou seja, botar flores e alegrias em meu organismo.
—Fico feliz por vê-la assim a transbordar de alegria.
—Isso, meu amigo! Transbordar é a palavra mágica. Trans bordar. Nós estamos sempre trans bordando, ou seja, bordando a vida de cores em todos os entrelaçamentos, em todos os recantos.
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
TÔ SABENDO NADA DE MIM
—Hoje é sábado! Tô sabendo nada de mim...
—Vejo que está feliz, Sapabela. Mas não seria: “Ninguém é de Ninguém”?
—Isso foi ontem, sexta-feira. Sábado é assim: “Tô sabendo nada de mim”.
—Mas hoje é domingo, Sapabela!
—É? Nossa. Acordei “de sábado”.
—Esse é o vestidinho de sábado?
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
sábado, 17 de setembro de 2011
SEMEANDO CONVERSAS
Rospo rebusca rabiscos na alma para compreender o que o teria entristecido, e ao se dar conta de que entre tecidos o coração se renova, tenta se erguer, machucado, como se fosse uma sequela, atolado numa incicatrizável memória do que poderia ter sido... quando encontra a velha amiga Sapabela.
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
SOBRE OS CORONÉIS
Meu querido amigo, chega a ser comovente seu texto, sou mulher e já vi e ouvi muita coisa parecida e bem pior que essa. e veja só, de amigas com nível superior e bem
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PALAVRAS AZUIS
SAPABELAS
Oceanoazul Sonhos Nesta festa que deve ser a vida, benditas as sapabelas espalhadas pelo mundo, simples mas elegantes no trato, na humildade, na bondade rodeando as pessoas de amizade e carinho. Coloremos o planeta!
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PALAVRAS AZUIS
CORONÉIS E SUAS MULHERES
CORONÉIS E SUAS MULHERES
Recentemente, conversando com uma atendente de uma biblioteca do Shopping Penha, disse-me ela que seu namorado a proibiu de ter o Facebook.
Preciso repetir. Seu namorado a proibiu de ter o Facebook.
Palmas para o idiota.
Também hoje tomo conhecimento de que a minha amiga saiu do Face, por ter seu marido, um machista terrível, proibido. Ele a proibiu de ter um Facebook, de estar numa rede, e ela acatou. As mulheres acatam.
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CASA AZUL DE PALAVRAS
terça-feira, 13 de setembro de 2011
A ALEGRIA DE SER SAPABELA
—Sapabela! Que linda! O seu vestidinho!... Parece um canto à felicidade.
—E é, e tem as cores que eu gosto. Lilás, roxo, fiapos de rosa: são cores que eu amo, Rospo! Que me entram pelos sentidos. E meu vestidinho faz parte da minha festa.
—Que festa, Sapabela?
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
O SAPO DE ALUGUEL
O SAPO DE ALUGUEL
Lá vinha o Rospo com a placa pendurada no corpo: ALUGA-SE PARA POESIA.
A Sapabela estranhou: — Que placa de aluguel é essa, Rospo? E por que alugar para poesia? Uma coisa inútil que na prática para nada serve...
Com a provocação da amiga, Rospo reage.
—Não fale isso! A poesia tem muita utilidade. Aliás, por que tudo tem que ter utilidade?
—Ora, Rospo, precisa se apegar mais ao que tem serventia. Uma casa, por exemplo, é algo útil.
— A utilidade material da casa é tão importante quanto à poesia...
—Explique. E fale também sobre essa história de aluguel...
— A poesia precisa de uma morada.
—Sim?
—Então ela pode morar dentro de mim. Eu me ofereço para abrigá-la. Posso ser a sua morada, a casa da poesia.
—Entendi. A poesia pode morar em você, mas isso ainda não demonstra a sua utilidade.
—Simples. Com ela morando em mim eu melhoro. Essa é a sua utilidade: melhorar os que a carregam dentro de si.
— “Ele tem razão. É simples.”
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 668
MARCIANO VASQUES
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
sábado, 10 de setembro de 2011
AMOR NÃO PRECISA DE PLEONASMO
Rospo encontra um amigo.
—Como vai, Rospo? E aquela sua amiga?... Esqueci o nome dela.
—Eis um sapo problemático.
—O que disse?
—Nada importante. Veja só, meu amigo: o estádio que estão construíndo. Já pensou? Além da abertura da Copa de 14, depois virão os shows. Todos os cantores em final de carreira na Europa e nos EUA virão aqui, se apresentar. Nós merecíamos.
—Sei não.
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
ROSPO NA FILA
Sapabela, com aquele vestidinho inspirador, encontra o amigo numa fila no supermercado.
—Rospo! Novidade vê-lo aqui.
—Seu vestidinho está encantador.
—Obrigado. Mas, diga, é raro ver você por aqui.
—Estava angustiado, Sapabela...
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
FRESTAS
Indelicadezas se estenderam vida afora,
Madrugadas.
E a outros prantos se somaram.
E ficaram assim pregadas,
Em rostos marcados,
Pelas intempéries
Das palavras que não cicatrizam.
Mulheres que se agarraram aos sonhos,
Que se foram em barcos à deriva,
Em noites germinais de ventanias:
Indecifráveis melancolias.
As doces ilusões
De doces caseiros
Com ternura,
Para quem nem mais ideia tinha
Do que se trata afinal tal coisa assim.
A ilusão de homens fiéis,
E nada além de um companheiro
Pra ouvir e pra dizer.
Mulheres pedem pouco,
E tão pouco,
E quase nada algumas,
De tão miúdo que é
O desejo,
O fiapo do desejo,
De serem simplesmente amadas.
Amor:
E só isso bastaria.
E alguns meninos não pregaram os olhos,
E madrugaram numa imaginação
De sons e onomatopeias,
Alucinando as noites
Das almas
Que assoviavam
Entre as folhas, e longe pra dedéu.
Esses meninos viram
Rosto maquiados
Em circos de abandono.
E ouviram
O diapasão anunciando
O biju.
Mulheres, nos sonhos
Mais antigos que Cashmere Bouquet,
De talcos ilusórios,
De bijuterias, sonhos a granel,
E bastaria um de valsa
Mas na valsa que a tudo
leva,
Deixaram entre os dedos
Escapar nada mais
Que o melhor,
De si.
Que dor caberia numa madrugada apenas?
Precisaria sim,
De um poema,
Pelo menos.
MARCIANO VASQUES
MARCIANO VASQUES
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POEMAS
NAMORO SURREALISTA
Nem sempre acredite no que está vendo, pois às vezes o que pensa que é, é pura ilusão, puro disfarce, sendo assim, não acredite que o Rospo está na praça lendo o jornal. O que ele está é ouvindo a conversa do casal de namorados no banco ao lado. E vamos ouvir também, começando pela sinceridade do namorado.
—Meu amor, você é a única sapa que eu amo. Só você está no meu coração.
—Mas você saiu com aquela sapa.
—Mas com ela é só sexo!
—Jura?
—Juro, é só você quem eu amo. Com ela é só sexo. Eu jamais mentiria para você.
—Está bem, eu acredito.
—Alguma vez já demonstrei que não amo você?
—Mas eu não suportaria ver você nos braços de outra sapa.
—Meu benzinho, isso jamais acontecerá. Eu jamais permitirei isso. Pode ficar em paz, jamais irei pelos caminhos por onde você anda.
—Posso confiar em você?
—Pode, jamais me verá nos braços de outra sapa.
—Ei, seu moço!, você que está aí, lendo o seu jornal..., acha que eu devo confiar nele?
—Sapa, por favor, como bem disse, estou aqui lendo o meu jornal. Não me ponha no meio disso. Eu nada entendo de namoro surrrealista.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 665
Marciano Vasques
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
O PRESENTE DO ROSPO
Rospo encontra um colega aniversariante.
—Rapaz! Que alegria! Um colega fazer aniversário é tão importante quanto um amigo fazer também.
—Obrigado, Rospo. Você me emociona, eu acho.
—Procurar é mais importante do que achar.
—Pois é, meu caro Rospo. Estou ficando mais velho.
—Péssima escolha, meu caro, péssima escolha.
—Do que está falando, Rospo? Todos envelhecem, as árvores, os sapos. Tudo na natureza envelhece.
—Sim, mas os sapos são diferentes. Eles têm o poder da escolha.
—Está maluco, meu amigo? Aliás, sempre foi um pouco, não é?
—Quem é maluco só um pouco não é. Para ser maluco, tem que ser completo. Como o poeta, não existe o poeta incompleto. Ou é ou não é.
—Sabe, Rospo. O seu papo está bom, mas quero ir, para curtir o meu aniversário. A segunda está bonita, e quero ver se ganho algum presente.
—Hoje é quinta, e já ganhou um, agora. Veja, trouxe um livro para você, é de aniversário.
—Obrigado, Rospo, mas não se pode pôr o carro na frente dos bois.
—Também penso assim, mas, o que fiz de errado?
—Deu um livro de presente para mim antes que eu ganhasse ou comprasse uma estante. Afinal, onde irei colocar o livro? Se não pode ser um bonito enfeite na minha sala, de que adianta um presente assim? Além do mais, livro com o tempo pode trazer traças.
—No seu caso eu tenho certeza. Bem, meu colega, agora quem precisa ir sou eu. Quer devolver o presente?
—Não me levará a mal?
—Colega, claro que não! Você até me ajudou, pois o pior mico é dar o presente certo para o sapo errado.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 664
Marciano Vasques
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
AS BOLHAS DE SABÃO
Na copa de cada árvore, estourando nos fios, nos telhados, entrando nos quintais, nas varandas, lá no alto, na roda gigante do parque de diversão, nas janelas dos edifícios, explodindo nas antenas. Namorados interrompendo abraços, amantes abrindo as janelas. A cidade transformou-se numa multicolorida chuva de bolhas de sabão. O homem sério e carrancudo assovia uma canção, um gari recita um poema, num balcão de bar um bêbado chora de saudades. Todos deixam as suas casas, os seus afazeres; nos circos os espetáculos são interrompidos pela invasão de milhares de bolhas de sabão, e os palhaços saem para as avenidas com suas roupas coloridas, e os malabaristas são seguidos por dezenas de crianças; em cada cinema, diante da tela, a profusão de arco-íris. E as pessoas deixam os seus escritórios, e estão nas calçadas da Avenida Paulista. Nunca se viu tantos celulares fotografando... O guarda de trânsito suspende o olhar, encantado com a visão. "De onde está vindo isso?"— pergunta um pipoqueiro. E como já é feriado, em todos os rostos brotam sorrisos jamais vistos. Um homem acaricia pela primeira vez o seu cão. E as bolhas de sabão lavam os sentimentos atrofiados e os corações desocupados pela falta de namoro, e um pai diz pela primeira vez para a filha adolescente, que sempre sentiu falta do sorriso dela alegrando a casa. E um pedreiro enquanto prepara a massa, tamborila no cabo da enxada um rock in roll, e um marido elogia pela primeira vez o vestido da esposa, e um outro convida a mulher para tomar um sorvete e caminharem pela cidade. E um vizinho pela primeira vez presta atenção num samba. E lá, numa praça, sentadinha num banco, sossegada, na sua, a menina, a menininha, continua com seu canudinho, soprando as bolhas de sabão.
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CASA AZUL DE PALAVRAS
O SEGREDO DA SAPABELA
—Rospo!
—Olá, Sapabela! Faz tempo não ligava!
—Tenho um segredo pra contar.
—Um segredo?
—Sim. Como é segredo, só o amigo pode compartilhar.
—Interessante.
—Vou até falar baixo. É um segredo que preciso preservar.
—Deve ser um tanto formidável. Diga logo, prometo que saberei honrar a amizade.
—Eu sou feliz, Rospo!
—Jura, Sapabela?
—Jurar?
—É um modo de falar. Para nós, a palavra do amigo basta.
—É verdade. Mas, sim, sou feliz.
—E por qual motivo isso deve ser segredo?
—É melhor que minhas colegas de trabalho continuem pensando que eu sou infeliz.
—Você demonstra infelicidade?
—Não! Eu até me pego gargalhando. Elas se assustam. Pensam que sou maluca.
—Sapabela, vamos até a praça?
—Sorvete?
—Não. Vamos gargalhar. Soltar as nossas gargalhadas no ar. Enfeitiçar a cidade com elas.
—Rospo, posso contar outro segredo?
—Pode. Eu o guardarei numa lata de biscoitos amanteigados.
—Não pode guardá-lo num sonho de valsa?
—Já está lá. Pode contar.
—Você também é feliz!
—Pois é, agora então, compartilhamos dois segredos.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 663
Marciano Vasques
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terça-feira, 6 de setembro de 2011
A IMAGINAÇÃO DOS NAMORADOS
—Sapabela! Que alegria! Que felicidade! Faz tempo não a via com um vestidinho assim florido e repleto de cores. Que lindeza, minha joia!
—Fico feliz por causar esse alvoroço em seu coração.
—A sua chegada sempre será motivo de alegria em minha alma.
—Não apenas por causa do vestidinho, claro.
—Naturalmente que não, mas o vestidinho faz parte do universo que você é nesse mundo carente de poesia e festas.
—Gosta de festas, não é, Rospo?
—Os sapos deveriam festejar mais, tudo deveria ser motivo de festejos, afinal, sempre haverá um momento em que não se poderá mais festejar, só chorar, então, todos os momentos devem ser deveras festejados.
—Gostaria de viver num momento só de festas, algo assim como um “Reino Tiquatira”?
—Sapabela, na verdade, gosto de viver no mundo, e o mundo é justamente aqui, onde estamos, no único tempo que realmente existe, que é o agora, o tal “instante que passa”. Precisamos enlaçar esse instante: é a primeira atitude para se viver feliz. E o “Reino Tiquatira” é também um reino de lutas, de princesas desamparadas e sapos jovens perdidos nas ruas estreitas...
—Rospo, mudando de foco, quero falar de namorados, de namorantes, de coisas boas.
—Estou todo aqui, Sapabela.
—É possível que um sapo não consiga compreender com exatidão a dimensão do amor que uma sapa sente por ele?
—O mesmo se pode dizer da sapa, pois é um hábito dos corações, infelizmente, se deixarem agarrar pelas pequenas bobagens do dia a dia, e perderem de vista o oceano que é o amor que sentem, e então, nesse emaranhado ficam se acusando, e encenando briguinhas e esquecendo do amor que implora para resistir.
—Nossa! Acredita que uma sapa é “boazinha” quando vai sempre ao sapo?
—“Boazinha”? Não! A Sapa vai por amor, não por ser boazinha. A sapa, assim como o sapo, os dois, devem sempre correr um para os braços do outro, se conseguirem vencer as bobagens que a imaginação cria.
—Imaginação? Mas, a imaginação é uma coisa boa!
—Depende do que ela desencadeia, depende para onde ela é direcionada.
—Até a imaginação exige esmero?
—Claro! A imaginação é a riqueza das crianças, mas entre os namorados pode ser extremamente perigosa e destrutiva...
—Vai ter que explicar.
—Ora, Sapabela, é simples. Quando um começa a ver no outro coisas que de fato não existem, quando um dos parceiros tira conclusões apressadas, e cria um mundo na imaginação, um mundo no qual o outro “só faz coisas erradas de propósito”, ou por causa de algumas supostas atitudes, “não tem mais o amor no coração”. Namorados são, na maioria dos casos, cabeçudos. Aliás, bota cabeçudo nisso!
—O que é um sapo, Rospo?
—Um sapo é integridade, Sapabela. Ele é poesia, é erotismo, é desejo, é uma soma de imperfeições que desembocam na personalidade única de cada um; nenhum sapo será jamais igual ao outro, e um coração jamais será globalizado.
—Entendo. Então, cuidar da imaginação é importante?
—Sim, entre os namorados sim.
—Então, só para terminar: a imaginação deve ser rejeitada entre os namorantes?
—Jamais, Sapabela! Ele deve ser educada, esmerilhada, lapidada, aperfeiçoada e canalizada, ou seja, é sempre bom imaginar o outro numa varanda enluarada, num aconchego de águas espumosas num entardecer azul...
—Não precisa dizer mais nada.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 662
Marciano Vasques
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segunda-feira, 5 de setembro de 2011
ROSPO CONVERSANDO COM....
—Não gosto de ler! —disse o amigo para o Rospo.
—Ler é bom, meu caro. Amplia o vocabulário, fortalece e amplia o poder de reflexão...
—Mas não gosto de refletir, Rospo! Gosto de ser refletido...quando me olho no espelho ou num lago...
—Compreendo! Nem jornal?
—Nada! Leitura é muito chata! O tempo que se perde lendo...
—Leitura vem de leite, leite da alma... Uma abundância de leite, uma leitura.
—Não gosto! Não gosto mesmo, Rospo! Nem de cinema. Detesto ambientes fechados...
—Mas a tela do cinema abre outros mundos...
—Rospo, não quero saber de nada! Quero ficar na minha.
—Tem um blog? Tem facebook?
—Odeio Internet! Rede Social? Quero é uma rede para dormir...
—Bem, tchau! Vou indo...
Rospo segue em frente e o celular toca.
—Sapabela! Olá!
—Por onde andava, Rospo?
—Estava agora há pouco conversando.
—Com quem?
—Com um estacionamento.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 661
Marciano Vasques
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domingo, 4 de setembro de 2011
AMARGURA DEMAIS ENJOA
Bom escolher o grau de amargura para a sua vida e para o seu momento. Isso não se aplica nos casos de tragédias e perdas de pessoas queridas. A morte sempre traz consigo uma dor inevitável. A única certeza da vida é a que mais sofrimento traz.
Porém, nos outros casos a amargura pode ser dimensionada, pode ser planejada, quantificada, medida
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CASA AZUL DE PALAVRAS
ALMAS DO TEMPO
Almas
Afagavam o suor,
E às vezes até se lembravam
De que havia luar.
E até se enluaravam
Para disfarçar o carvão,
Que rabiscava nos corações,
Dores sem tradução,
Gemendo por lampiões.
Uma faísca sequer,
Num sorriso talvez.
E mulheres aprendiam,
Que nos dias claros
Adeuses espreitavam.
Palavras de aço
Estremeciam os amores.
Quem viu a poesia nas coisas que eram?
Numa ferrovia as histórias viajavam
Mais ligeiro que o viver,
Mais ainda
Que pensamento de menino,
Se deixarem.
Vidraças cobiçavam os olhos de um.
Entre tanques e varais
Rostos de cândida,
E olhares turvos
Perdiam-se,
Em dilacerados dizeres
Que nada mais queriam dizer.
Aos ouvidos cansados
Pelo abandono
Dos verbos essenciais.
MARCIANO VASQUES
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POESIA
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
ESTILHAÇOS
ESTILHAÇOS
Iras,
erros em vidas errantes,
murros
na mesa,
palavras
geladas cortando mais que facão.
O
diapasão, e vozes, o carvoeiro. O arame farpado, e as farpas de
poucas palavras.
Navalhas,
canalhas, mulheres ralhando, algumas falando aflições,
fiando
segredos,
perdas,
perdões. Pardais e tudo um dia se vai.
Até
a chuva na calha? Amora? Romã? O aroma, a canela? O alecrim? O anis?
A
caiação, a janela?
Lá
na bica, ninguém viu, só se fala de boca, um homem cansado chorou.
Terá
o pranto escorrido nas coisas do dia ou era orvalho?
Lá,
onde se dizia, jogavam baralho na frágil fumaça do dia, cada
história, menino!
Sempre
havia uma mulher de olhar nublado
que
perdia as almas que bailavam,
no
alvoroço das falas. Uma fulana, comadre.
Não
passam de mutilações os descasos.
Lá,
onde é longe, e era, meninas brincavam,
E
brinco e anel e ninguém presta atenção no tempo, como ele merece.
Seu
moço, eu pudesse, só diria
Do
verde brilhando na varejeira.
Réstias,
assoalhos, sarilhos, cada qual estava tão ocupado,
Que
nem se ouviu dizer
Que
até o apito da fábrica
Traz
em si o brusco desejo da poesia.
“Se
você jurar que não conta para ninguém!”
Um
homem caiu do andaime. Como chovia naquele sábado!
E
o menino? Para aonde ele foi?
Já está de carretel a correr ventania. Ligeireza de tempo.
Já está de carretel a correr ventania. Ligeireza de tempo.
E
cá entre nós, ladrilhos, pastilhas,
E
uma mulher buscava macela.
Tempo?
Ainda
bem que as crianças nem ligam.
MARCIANO
VASQUES
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O LIVRO E O VIDRO
Rospo foi à vidraçaria. E por acaso levava consigo um livro, de sua autoria,
Durante a encomenda do vidro, justamente quando fornecia as medidas, o dono da vidraçaria surgiu, interrompendo a conversa entre ele e a balconista.
—Rospo, como vai? Que prazer tê-lo como cliente!
—Obrigado, amigo! Quebraram um vidro da minha janela.
—Pois aqui temos o que precisa. Mas, o que traz debaixo do braço? Um livro? Não vá me dizer que é um dos seus.
—Justamente. Lancei recentemente.
—Que maravilha! Ter um escritor no bairro.
—Quanta gentileza!
—Quando vai me dar o meu, Rospo?
—Não entendi.
—Quando receberei de presente o meu livro, Rospo?
—Está dizendo que deverei dar um livro para você? Você quer um livro meu de graça?
—Isso mesmo! Somos amigos, não é?
—Naturalmente que sim.
—Ótimo, e o meu quero autografado.
Então, a balconista entrega o vidro para o Rospo, que se despede.
—Ei, Rospo, não vai pagar?
—Acabou de dizer que somos amigos!
—Pare com isso! Não posso dar o vidro para você.
—Mas quer um livro, gratuitamente.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 660
Marciano Vasques
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2011
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
RETRATOS AUSENTES
RETRATOS
AUSENTES
Cantadas,
Homens
magoados,
Outros
feridos,
Prantos
nas docas,
Nos
diques
Nos
becos, nos bares...
Sofrendo
por suas mulheres.
Gritando
paixões, num charco
De
tantos perdões.
Mastigando
suas dores.
Histórias
perdidas
Cerveja
e bilhar.
Balcões,
Oficinas
Mormaços,
Neblinas.
Fiapos
de sonhos
Em
meninas...
Um
rosto de porcelana
Não
diz nada além...
Homens,
mulheres,
Decepando
o dorso da serra,
Erguendo
a vida
Na
fuligem,
Na
friagem das suas crianças.
Uma,
de amarelinha,
Outra
come terra.
Quermesses,
a graxa, o copo de vinho,
Arruaça,
a fumaça enlaçando vidas
Nas
margens das várzeas.
As
lavadeiras que esperam seus homens
E
num desbotado anil
Torcem
cores e fazem varais.
E
sonham vagares e tingem os cabelos
Cerzindo
páginas e dores
E
almas
Amedrontadas
e rasgadas
Na
ausência
Do
afeto.
MARCIANO
VASQUES
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