sábado, 8 de outubro de 2011

A ROSA

Aquela rosa tem espinhos! Alertou o indeciso rapaz. E o seu coração respondeu: E isso importa? Por acaso não vai correr o risco de tentar tê-la em você? Ela talvez seja a sua rosa. Mas, e os espinhos? Então o coração compreendeu que o moço ainda não estava preparado para a vida, e muito menos, para o amor.

MARCIANO VASQUES

LIVRO DO CORAÇÃO

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

LIVRO DA SAPABELA

Vem aí o maravilhoso livro da Sapabela!
Sapabela terá um livro só dela.
  
Aguarde! Lançamento para se ler 
com alegria nos olhos.

ESQUECIMENTO

Esquecimento,
poderias me contar?
Diga se esqueceste
de esquecer de me amar.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

VARALES



Los viejos ays;
   las almas que resisten en los patios;
      los niños ni perciben
         que las ropas cambian
                                          en los varales.

Mujeres son niñas;
   niñas crecen
              entre vendavales.

Los hombres están mudos;
        sus rostros buscan
                en manchas 
                         el viento que bailaba
                                     en los varales.

Hay más poesía
            en las cosas que reposan;
                en las mujeres que se extienden
                                     y se recogen
                                               en los varales.


MARCIANO VASQUES


— CUBA





LÁ VAI ELA, A SAPABELA!

—Sapabela!
—Rospo, meu amigo! Estou tão feliz!
—Eu também, querida.
—Vamos então entrelaçar as nossas felicidades e tomar um sorvete?
—Desta vez foi você quem convidou, Sapabela!
—Você demorou, Rospo!
—Mas cheguei agora!
—Chegou quase por completo, pois demorou a convidar.
—Sapabela, um amigo meu está com as mensagens dele bloqueadas no Facebook. Ele queria dizer que discorda, mas a opção de discordar ainda é uma ideia muito avançada na Rede.
—O que aconteceu, Rospo?
—Ele tentou solicitar a amizade de uma sapa escritora com a qual tem 400 amigos em comum.
—Qual o problema?
—Surgiu o quadro que diz que uma mensagem para um estranho é considerada Spam. E ele, por distração...
—Mas uma escritora é um estranho? Ainda mais com 400 amigos em comum? Coisa estranha!
—Verdade! O conceito de "Estranho" no Facebook é algo estranho. Principalmente entre escritores.
—Não me faça rir, Rospo! Ou melhor, faça.
—Mudando de assunto, qual o motivo da sua felicidade, Sapabela?
—Uma colisão de alegrias, Rospo! Sou mais Penélope agora. Teço, mas teço não esperando alguém, teço o que em mim tece de vida e aventura, de sonhos e liberdade. Sou uma profusão de vidas e anseios. Quero tudo! Descobri num pasmo delicioso que estou em tudo, em cada flor, em cada estrela, no próprio ar. Eu sou o instante, Rospo! Não estou isenta, jamais, diante da acusação de ser feliz. Quero mais viver intensamente. Estou nas sapas que mergulham nas profundeza do Ser. Ser, Rospo, não é um discurso trivial, não é um argumento banal. Ser é florificar a essência das coisas que no turbilhão da vida se agitam. Se é para ser, que seja de forma intensa. O universo clama por cada um de nós.
—Eu conhecia "frutificar"...
—Florificar existe, Rospo! Ainda estou florificando. Os frutos virão depois. Por enquanto teço a taça na qual tomarei o vinho da liberdade. Liberdade de apenas ser. Em paz e simplicidade.
—Sinto que está enraizando, Sapabela.
—Estou folheando, estou brotando, estou arvorecendo-me, para depois colher os frutos, e o principal deles...
—Qual o principal dos frutos, minha amiga?
 —O espelho. É poder me ver nele. Olhar a cristalização do meu Ser, ali, absoluto, limpo, envidraçado, transparente e não fugaz. Saber que no rosto espelhado a fugacidade não tem vez, o que é transitório se afugenta, o vento afasta para longe. Rosto espelhado não é para mim rosto empalhado. Ao contrário, pode ser espalhado nas coisas em que me alcanço, que me entrelaço. Mas sou meu próprio laço. Quando me vejo, sei que meu rosto é além da aparência: nele, em cada detalhe, em cada traço está exposta a minha aventura de viver. E essa aventura não se escreve com batom, mas com a sinceridade. Meu giz é a minha audácia de ser.
—Sapabela, você é uma revolução de si. A oportunidade rara e única de se expandir. Quando começou isso? Essa expansão?
—Começou no querer. Ele chegou feito um terremoto, eu estava na mansidão das turvas águas que não se movem, quando ele chegou. Primeiro senti um vento acusador, que logo beirou ventania encantada...
—Encantada?
—Sim, o que me seduz e me mobiliza ao mesmo tempo me encanta.
—Conte como foi, Sapabela.
—Eu estava atracada...
—Atracada?
—Exato. Eu era um barco atracado num seguro cais, enferrujando-se, feito de incertezas e indecisões. Muitas sapas vivem assim. Algumas, nessa aparência de seguro cais que a vida para elas se tornou, procuram de forma insconsciente alguém para mandar nelas. Não se deram conta da beleza que é ter um companheiro que não mande nelas, algum sapo que não tenha em si essa opção de ser dono de alguém...
—Dono? Isso de fato existe?
—Rospo, veja só: as flores florescem. Esse é o seu fazer. A isso se destinam, e assim se realizam. Mas então, carregam em si, se quiserem, as trovoadas, os relampejares, o clarão de relâmpagos e as fúrias dos mares autênticos. É assim que eu quero, é assim que eu sou. Quero ser mais louca do que sou, do que sempre fui, na minha infância, mas não viram.
—É que tentaram desbotá-la desde cedo, camuflar, ocultar a riqueza esplosiva da sua autenticidade, minha querida.
—Sim,  a menina que eu era já levava em si a loucura de ser feliz, a loucura da liberdade, de ser Sapabela, mas tantas coisas me ensinaram e nos ensinam para que sejamos a vida inteira obedientes... Nem imagina, Rospo, como a voz da obediência está presente em nossa sociedade...
—Sapabela, não sou um sapo alienado.
—Eu sei, meu querido, e nem se arvora em ser dono de quem quer que seja... Porém, observando, compreendi que muitas no fundo não querem apenas gentilezas, e sim comandantes... Não sou um manequim de alma.
—Sapabela, não precisa se aprofundar tanto. Permaneça apenas em seu próprio espelho, que além de mostrá-la no mar das águas revoltas, no furioso oceano de lutas e sonhos, revela a sua aparência exterior.
—Claro, Rospo. No fundo, eu sempre quis um espelho duplo, que me mostre por fora e por dentro, mas, por que diz isso?
—Porque está hoje mais linda do que antes, mais exuberante, mais radiante. Parece que transparece em cada pétala sua....
—Obrigado, Rospo! Sou sim essa beleza de se ver, mas estou além do esmalte, dos brincos, e do pó facial. Estou além da minha pele e do  verde claríssimo do meu olhar. Estou no mergulho: é lá que me encontrará de verdade. Porém tenho algo mais a dizer, a última coisa, Rospo, afinal sorvete não foi feito para esperar tanto.
—Então diga, minha querida amiga.
—Meus vestidinhos existem e continuarão existindo: lindos e coloridos, pois eles serão sempre o meu símbolo, a minha expressão. Vestidinhos azuis, lilases, floridos... E quando me ver passar, saiba dizer primeiramente o essencial...
—Eu sei.
—Pois então diga, para eu ver agora.
—Gosto muito quando alguém quer ver em vez de apenas ouvir as palavras.
—Sim, Rospo, as palavras estão além da sonorização. Mas diga.
—Lá vai ela, lá vai Sapabela!
—Rospo, se pudéssemos dançaríamos em todas as praças, em todos os viadutos... Mas, vamos: o sorvete nos espera.




HISTÓRIAS DO ROSPO  2011    — 689
Marciano Vasques

É SEXTA!...CONVITE

terça-feira, 4 de outubro de 2011

ROSEMA BRANCA


Eu poderia falar da senhora 
Que fazia o jogo do bicho,
Dos cabelos brancos sem afagos,
Das prostitutas nas portinholas do porto.

Poderia falar das espumas, da escuna
Que lá ia preguiçosa de azul.
Poderia falar teu nome, simplesmente,
Dizer de uma vontade de correr
Na areia quente,  ver a maresia impregnada
Nos barcos enferrujados
Gaivotados no marulho
Dos meus aflitos pensamentos  de poesia.

Poderia falar de tanto, mas basta um dia
Que a neblina azulada da serra
Jamais dissipou
Em mim:
Rosema Branca brincando
Lá no alto.
Como éramos crianças,
Uma casa igual a dela:
Pendurada..., as varejeiras...,
Não dizia pobreza nem sofrer,
Nem abandono, nem tristezas,
Dizia apenas: infância,
Meninice, incessante capacidade
De ressurgir.



Marciano Vasques

INFINITO ALVORECER

Tem algo, moça,
Que não sabe:
Eu estava
Naquele meu dizer.

.
Palavras que
alvorecem 
Em meu tórax embevecido
Nasceram muito antes.

Eu estava lá, 
Sempre estive,
Desde 
Que era 
Mais menino.

O que não sabe, moça,
Não pode mais saber.


A voz que o vento traz
Devolve ao meu ser
Aquilo que
Sempre esteve
No súbito mistério
Da poesia recolhida
Pelo meu
Faminto e sincero
Olhar.


MARCIANO VASQUES

BREVE HISTÓRIA SANTISTA



No restaurante azul
De madeira
Numa pintura já gasta de chuva,
Ele chegou.

Da janela via-se a ferrovia.
E os sonhos que dançavam ao mormaço.

O santista, quem diria, finalmente iria ter
Alguém.
Depois do expediente
Contavam suas histórias na calçada.

Ela era do Rio, mas veio para Santos.
E ele sempre teve a vida torta.
Orgulho? O bigode,  e ter servido o exército,
E trabalhou nas docas,
E agora, era motorneiro,
E nadava e as moças suspiravam...

Mas queria um rumo, e então, por isso então,
Só ela, a carioca do restaurante.
Que trabalhava duro
Para conseguir alguma coisa.

O Rio Casqueiro, e Cubatão.
E o velho Saboó,
De tantas vidas.
Cada malandro tinha o seu amor.
E os olhos brilhavam
Feito navalha na ginga da praça.

Mas ele, acreditem!, só queria uma casa
E uma mulher.
E depois, que pena!, subir a serra, pois diziam
Que era melhor em São Paulo.



Marciano Vasques


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A CASA E O TEMPO

A casa de reboco.
Chovia raso em Pernambuco.
Era amanhecer...
Como chorou aquela gente!

Pranto assim tão nordestino,
Amigo meu,
Quem há de chorar?

Chorou!
Quando Angelina angelizou-se
Ao dar à luz
Um menino...

E como aquele povo caminhou!
Vultos de doerem os olhos,
E cortarem o coração,
Mais que facão.

Palmeira dos Índios,
O menino de cinco anos
Lá ficou,
Com um fazendeiro amigo dos parentes...

E o tempo cumpriu a sua armadilha...

Em São Paulo, nunca leu, mas aprendeu:
Conhaque aquece o esgoto da manhã,
Num frio de tremer a mais valente madrugada...

E hoje, bem hoje, passeiam os jovens nos shoppings.
Meninas dedilham joguinhos no celular.


MARCIANO VASQUES

GIRASSOL

Girassol de Nil

PERENE

PERENE

A caiação,
O caibro, a viga,
A calha, a romãzeira no quintal,
O estuque, a estaca, o alicerce,
O rosto em sulcos e securas
No espelho do pilar.
A navalha, o novilho
Numa estrada empoeirada,
Num enevoado entardecer.
A fumaça, o sarilho, as folhas ventando
Ventos de aventuras e aventais.
Nos tanques o anil, nas tinas, a espuma
E o anel de pedra que luzificava
Os olhos da mulher com
Alma enganada,
Mas de coração repartido
Em estilhaços,
Pela casa, as trilhas, os mormaços,
Da vila
Onde erguia
A voz esganiçada
Nas palavras esganadas
Que calavam
Cicatrizes incicatrizáveis.
Meninos cresciam
Nesse manancial de poesia.

MARCIANO VASQUES

FRAGMENTOS DE UMA MANHÃ DISTANTE

 
 
FRAGMENTOS DE UMA MANHÃ DISTANTE
  
Arvorecia logo cedo,
E lá ia eu,
Saltando girinos.
E gafanhotava-me
Na coreografia de um risco
No azul claro,
Que envidraçava
A transparência da manhã.
Não era possível compreender
A doce questão
De ser poeta.
Só queria a raridade de
Ser menino.

MARCIANO VASQUES
 
 

INSÔNIAS

INSÔNIAS

Numa noite de tosse persistente,
Ouvia com mistérios,
A chuva rasa na calha da telha.
E um chiado no peito, coisa quase nada,
E o vento nos silvos lá de fora,
E as criaturas que a mente apaziguava,
Mas longe, muito além, em outros matagais,
Em outros capinzais, em filamentos de riachos, e água cor de cobre,
e musgos e linquens, e uma folha que voava...
Longe, muito longe, meninos e meninas aplaudiam
O circo que eu montava no quintal, quando entardecia,
Muito antes de entardecer, confesso aqui.
Se dormir fosse melhor, eu nem teria visto
O espírito da insônia, que me devolveu em poesia,
As noites mal dormidas.

MARCIANO VASQUES

FRESTAS

FRESTAS

Estive nos ciganos que vagavam
Na poeira das ruas.
No vento que vergava os bambuzais.
Nos circos de lona rasgada,
Nas mulheres que enxugaram lágrimas com seus aventais.
Nos homens com suas piadas, suas perdas, seus choros,
e suas gargalhadas rasas,
Nos bares, nas docas, no bilhar.
Homens e mulheres, suas dores, suas crianças, seus temores,
Suas histórias, mal traçadas, entrelaçadas,
Nas rodoviárias, nos mocambos, nas ladeiras,
Nos vilarejos,
Na fumaça, nos desejos remoídos, nos ressentimentos,
Nas mágoas insolúveis, nas festas, e nas frestas
De cada amanhecer.

MARCIANO VASQUES

domingo, 2 de outubro de 2011

COWBOY

COWBOY

Ele raptou
Uma lua de algodão,
Levou no bolso,
Junto com o pião.
Laçou a noite,
Com seu laço de cowboy,
E roubou um beijo,
De uma estrela distraída.
Na bolinha de gude,
Pôs um brilho de olhar,
E lá se foi,
Num carrinho de rolimã.
Sem timidez,
Rompeu no orvalho da manhã.

MARCIANO VASQUES

É TÃO FÁCIL JOGAR FORA...

Sapabela, com suas roupas que não combinam, linda de se ver, num domingo, que adomingou logo cedo, chegou e já disse a conversa:
—Rospo!
—Querida amiga! Salve o domingo! Seu vestidinho está lindo, tão lindo que só uma ventania para me fazer de todo feliz.
—Rospo, pare com esse papinho. E você, o que tem de convite hoje?
—Na praça tem garapa gelada. Topa?
—Já estou lá, um convite assim não se joga fora.
—A coisa mais fácil é jogar algo fora. Principalmente o amor.
—É mesmo? Então, precisa muita decisão, força e coragem, pois o amor gruda em nossos corações...
—Sapabela, o amor geralmente não se joga fora assim abruptamente, de forma brusca. Não é uma decisão repentina. Ele é jogado fora diariamente, aos poucos...
—Eu jamais farei isso, Rospo! Do meu amor  com zelo cuidarei.
—Mas de um modo geral o amor se joga fora assim, lentamente, e é fácil se observar isso...
—Então, me diga, meu amigo.
—Cada implicância, uma leve agressão, uma piada boba, uma desatenção, uma malícia, um ciúme bobo, uma tolice, uma pedra atirada, mesmo que seja uma pedrinha, uma mentira, uma palavra brusca, um gesto arisco, uma recusa num convite, seja para o cinema, para um...
—Ir ao estádio assistir futebol? Isso também vale?
—Sapabela...
—Ficar entrando nas lojas do Shopping para fazer compras?
—Sapabela, pare com isso! Estou querendo dizer que o amor é jogado fora com os pequenos gestos de indelicadeza, a falta de atenção, as discussões, as palavras que ferem lentamente, e apenas superficialmente, mas que depois, com a rotina do tempo, vão ferindo profundamente. O que estou querendo dizer é que o amor exige atenção. Sempre. Ele é filho da atenção.
—Gool!
—O que é isso?
—Estou treinando. Se meu amor um dia me convidar para assistir a uma partida de futebol.
—Você está muito zombeteira hoje, minha querida. Além do mais, não existe sapa igual a você.
—Com isso concordo plenamente.
—E ainda está convencida.
—Mas eu gostei dessa conversa, Rospo. Vamos tomar nossa garapa.
—Mas a conversa não terminou, Sapabela. Você parece que nem prestou atenção!
—Estou treinando, Rospo!
—Treinando?
—Para quando tiver um amor, assim já sei tudo que não devo fazer. Mas tem algo...
—Diga, querida.
—O amor tem que ser compartilhado pelos dois...
—Naturalmente que seja assim.
—Mas se um dos dois faz desatenção e mágoas e tudo isso que joga fora o amor, o que faz o outro?
—Faz a sua parte, que é resistir, resistir, resistir...
—Resistir pra sempre?
—Claro que não, Sapabela! Só até cansar.


HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 688
Marciano Vasques

sábado, 1 de outubro de 2011

O PREÇO NÃO ESTÁ NA COMPRA



—Eu nem ligo!...
—Sapabela! Falando sozinha novamente?
—Impressão sua, meu Rospo. Jamais estamos sozinhos.
—Que linda você está, Sapabela!...
—Quero novidades, Rospo! Só fala do óbvio...
—Convencida.
—Estou brincando.
—Brincar. Isso mesmo! Que brincos bonitos!
—São baratos.
—Sapabela, você me surpreendeu. Sei que sapas falam essas coisas. Uma vê a outra com uma bolsa nova e pergunta em qual loja ela comprou... Mas, você dizer que os brincos seus são baratos, causou-me uma surpresa.
—Também cometo erros de brincadeira, não é?
—Deveria saber que o preço dos brincos está no meu olhar.O preço de algo é a condição de nossos corações. É nele, no coração, que reside o preço das coisas, e o coração manda o seu parceiro, que é o olhar, para ver a beleza que reluz, o rubi, as cores e as luzes, e tudo o mais, e assim, um anel de vidro tem um preço inestimável. Se eu tivesse guardado o anel de vidro daquela menina, daquela sapinha que um dia segurou em minhas mãos...
—Faz tempo isso, Rospo...
—Pois é, e ela rodopíava numa ciranda mais larga que a própria rua, mas se eu tivesse guardado aquele anel de vidro... Que preço ele teria hoje para mim?
—Entendo, e você tem razão, o preço está em nosso olhar, em nosso coração... Não falo mais essa bobagem de dizer que um brinco foi barato, pois não foi, aquele preço do dinheiro é apenas simbólico e transitório. O verdadeiro preço é depois, é nesses encontros que a vida faz. Quero mais é que meus brincos brinquem com as luzes da cidade. Eu não caibo na felicidade, Rospo.
—Agora sim, Sapabela.
—Tem medo de morrer, Rospo?
—Que brusca mudança de assunto, Sapabela.
—Mas a vida é brusca, Rospo.
—Vivo num equilíbrio... Penso coisas. O que me atemoriza e me deixa angustiado, mas é uma angústia que controlo, é que ao partir...
—Morrer, você quis dizer...
—Sim, o duro é justamente isso. Ao partir, você deixa o mundo, e o mundo segue, continua. Esse mundo maravilhoso, pois é de maravilhas que falamos. Esse mundo segue em frente, sem você. Essa que é a questão central.
—Tem medo de envelhecer, Rospo?
—Esse é o grande medo, mais do que temer a morte...
—Tudo envelhece, Rospo!
—Mas somos os únicos seres com o dom de não fazê-lo, Sapabela.
—Maluco, meu amigo?
—Não, Sapabela, é que realmente podemos não envelhecer. O que muda, já conversamos sobre isso, é o organismo biológico, mas a alma, a mente, não, essa não pode mudar. Ao contrário, a sua renovação deve ser constante, diária. Ao manter os olhos sempre atiçados para as descobertas do mundo, você demonstra que não envelheceu. Que importa quando chegarem os dias em que nem poderei entrar numa piscina, nem terei fôlego para correr?
—Estou entendendo, meu querido.
—Poderei ter o fôlego reduzido, mas jamais perder o encanto da dança, pois se não mais puder dançar, os olhos deverão dançar na alegria de ver a sublime arte da evolução do sapo...
—A dança é tudo isso, Rospo?
—Sim, o baile é uma das mais expressivas forças da forma de ser do sapo. Por isso, nós, os que aqui estamos, não aceitamos a vulgarização... Porém estou curioso. Qual o motivo da pergunta?
—Nada, apenas fiquei pensando nisso também. Se eu perder o espanto, ou seja, o encanto com os movimentos de um gafanhoto em seu viver saltitante, estarei então envelhecendo.
—E se eu perder o interesse pelo reflexo dos seus brincos, sei bem, Sapabela: A vida estará me deixando.
—Rospo, como tudo é tão imenso quando queremos que assim o seja.
—Mas é imenso, Sapabela! E por isso vivo a dizer, Brincos não têm preço. O preço não está na compra, minha amiga.
—O preço não está na compra. Que bonito, Rospo! Sabe o que eu faria, se pudesse?
—Diga.
—Dançaria com você, assim, numa calçada da cidade, e invadiríamos as praças, as ruas, os viadutos, só nós, dançando, rodopiando, numa infinita música.
— Até sonho com isso...
—Agora eu já sei, Rospo. Quando me perguntarem o preço, essas coisas que as sapas falam, responderei: Não sei, não sei o preço do brinco.
—É verdade, pois saberá quando chegar o momento...
—Rospo, vamos ficar ali, na mureta do viaduto?
—Vamos, e assim poderemos imaginar um casal dançando por toda a cidade.


HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 687
Marciano Vasques


O LÁPIS

Seria bem melhor se o mundo fosse um toquinho, mas não é. Eu até já pensei que deveria ser como o marinheiro Popeye quis, mas não é. E estava eu retornando, nem me lembro bem de onde, mas sei que retornava, para não perder o hábito.
E então eu o vi, abandonado, quase na valeta ao lado dos paralelepípedos. Eu poderia nem ter me importado com você, mas depois, como eu ficaria, não é?
Abaixei-me e o peguei, o pus num bolso e segui em frente. Não poderia mesmo deixá-lo lá, pois continuaria sendo alvo do abandono, tristemente esquecido, e você não merece tal coisa.
Um toquinho de lápis, e azul claro. Quem terá tido a infeliz ideia de jogá-lo fora? Terá sido um menino? Um jovem? Quem terá tido a coragem desse gesto?
Um lápis de cor é tudo de bom, mas um lápis em pleno toquinho, jogado num passeio público diz muito da nossa época, dos nossos dias, e do espírito sem compromisso com as coisas que deveriam ter o estatuto do amor ou de qualquer de suas extensões, como o zelo, o cuidado, a atenção, o apego.
Recolho todos os lápis que encontro nos caminhos. Faço isso de forma espontânea, mas você é especial, É um toquinho de lápis azul claro.
 Pensei em tantos desenhos que ainda daria para você colorir. Deve ser especialista em céu, em mar...
 Quantos sonhos, quantas felicidades terá preenchido com o seu azul?
É, não daria mesmo para deixá-lo assim no abandono.
Olhe, sei de um lugar onde tem sempre algumas folhas brancas. Vamos, venha comigo, meu lápis. Agora você é meu lápis, pequenino. Na minha casa sempre haverá um desenho precisando de azul claro.



MARCIANO VASQUES

CONVERSA DE PADARIA

—Rospo!
—Sapabela! Que linda! Tudo, o vestidinho, os brincos... Aonde vai?
—Padaria, Rospo. Amanheceu o sábado, e ir à padaria é uma bela forma de começá-lo. E obrigado pelos elogios. Amigos elogiando primaverizam mais o sábado. E você?
—Estou por aí, destoando.
—Do que destoa, amigo?
—Da arrogância...
—Anda muito preocupado com esse assunto nos últimos dias, o que está acontecendo?
—É que verifiquei que tem muita arrogância por aí...
—Rospo, padaria não tem garapa, mas vamos num café com leite?
—Tem tempo, Sapabela?
—Olhe, meu caro Rospo, "Perguntei ao tempo quanto tempo o tempo tem", e ele me respondeu que tem todo o tempo que o mundo tem no exato momento em que o tempo se eterniza, então, tenho, uai...
—Que bonitinha!
—Pare que me encabulo.
—Nessa timidez charmosa já estou embarcando. Vamos ao nosso pingado...
—Pingado?
—Uma sapa carioca, muito tempo atrás, pela primeira vez por aqui, pediu um pingado e o balconista riu, não sabia dos dizeres lá do Rio...
—Que lembrança, Rospo! Mas, vamos ao nosso papo, que a alegria já pulsa com toda a sua delicadeza...
—Está inspirada hoje, Sapabela. Pois bem, toda arrogância incomoda, mas a arrogância intelectual é a mais grave, pois ela desarticula a atenção. Mesmo que os dizeres sejam absolutos e necessários, se tiverem como partilha a arrogância, algo se perde, se desfaz...
—Mas o encanto da palavra deveria estar acima de tudo...
—E está, Sapabela, mas se o sapo for arrogante, a palavra fica meio ferida e isso pode nublar o prazer da audição. Arrogância jamais. Destoar sempre!
—Muito bem, Rospo, você destoa, eu também, mas o que faz quando está diante de um arrogante?
—Eu? Eu passo, sigo em frente, e lá vou, numa boa, vou por aí, que a cidade é uma festa de se ver, e lá vou, a toa. Naquele estilo, ao léu...
—Rospo, o café com leite é tudo, quando se tem um amigo.
—Obrigado, Sapabela, mas eu gostaria de poder mesmo filtrar, quer dizer, expôr nitidamente as arrogâncias do mundo intelectual...
—Não faça isso, amigo. Fique só na sua, assim, passando e assoviando e cantarolando as doces canções... Quando se der conta, vai ter um monte de artistas e sapos amigos caminhando com você nessas ruas de paralelepípedos, sapos felizes, uma caravana ambulante, como se fossem bêbados rasgando luzes...
—Sapabela, essas vontades oníricas me enchem o coração de paz... Penso sim que você está certa, quem sabe um dia, por essas ruas haverá uma festa imensa, um ciranda colorida, de sapos felizes, e lá, no meio de todos, ele, o Arzelindo, aquele palhacinho que eu tanto estimo...
—Rospo, obrigado.
—Do que me agradece, Sapabela?
—Tem sapos que colecionam coisas, que são também importantes, mas eu tenho um valioso tesouro. A sua amizade.
—Sapabela, compre seu pão, e lá perto daquele parque de diversões tem garapa. Se quiser, à tarde.
—Já estou nessa garupa, Rospo. Nos veremos lá. Antes, tenho um monte de coisas para fazer, mas irei sim.
—Você é tão decidida para aceitar esses convites...
—Bobão. Pensa que esses convites nascem apenas em você?


HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 686



MARCIANO VASQUES

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O QUE REALMENTE IMPORTA

—Suponhamos que o cinema um dia viesse acabar... Sei de um lugar onde ele resistiria para sempre, num aconchego de agasalho e proteção.
—Rospo, a sua romântica visão sobre o cinema não pode nublar que ele hoje é uma poderosa indústria...

—Sapabela, isso é outro departamento, é outro setor... O cinema ao qual nos referimos é o da magia, o do encontro, o do sonho... Essa questão da indústria está presente em tudo. Veja que não deixamos de comer um alimento gostoso, só porque foi produzido pela indústria. Assim é com tudo, com o cinema também. O prazer, a felicidade interior de cada um está no resultado final... Ou também a dor e a tristeza, se for uma indústria que produz armas. O cinema é pleno de magia, e felicidade. Ele é para os amigos, os namorantes e as famílias... Cinema é tudo de bom. Que seja uma indústria que movimente milhões de dólares, isso não tem importância nenhuma. Até costumo ler poesia em livros, e você sabe, livro também é industrialmente produzido... Na música sempre foi assim.
—Fale, Rospo. Adoro ouvir essas coisas.
—No tempo do Long Play, veja um exemplo, quando surgiu a dupla Tonico e Tinoco... Caminhões cortavam o Brasil, levando carregamentos de discos desses artistas...
—Já pensou se eles tivessem ganhado todo esse dinheiro de Direitos Autorais? Teriam ficado ricos...
—Pois é, Sapabela, não se preocupe com essa questão da indústria milionária. O cinema em sua magia é o resultado final... O importante é que você aceite o convite para um cinema... Isso é o principal, em princípio...
—Aceitar o convite é o resultado final de uma coisa gigantesca...
—Talvez o resultado final sejam os romances que surgem, o beijo roubado, e a tela, com seu mundo de ilusões e de beleza.
—Mas você falou de um lugar onde o cinema resistiria num aconchego de agasalho...
—É no meu coração, Bela.
—No seu coração tem uma tela?
—Assista!



HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 685
Marciano Vasques

LUA E LIA

Lua
Traga pra cá
A ciranda
De Lia
De Itamaracá.



Marciano Vasques

CONVIDANDO PARA O STREAMING

—Rospo!
—Sapabela! Que vestidinho lindo!
—É para contemplar o sábado, para festejá-lo...
—Mas hoje é sexta!
—É mesmo! Ou é vontade de sábado ou sou mais louca do que queria... Mas, o importante é que o vestidinho está feliz. E você, Rospo, o que anda fazendo?
—Estou pensando em convidar uma amiga para um streaming... E nem precisa de download!
—Rospo, não precisa se exibir só porque hoje é sexta, e lembre-se: sexta ninguém é de ninguém, portanto, ninguém vai prestar atenção nem no seu Inglês...
—Não me faça rir, Sapabela. Ou melhor, faça...
—Mas eu não vou para esse negócio, não, Rospo, esse tal de streaming... Você sabe, somos amigos, todavia, amizades à parte. Ou seja, amizade e streaming podem se embolar no caminho...
—Não seja boba, Sapabela...
—Às vezes eu gosto de ser boba, Rospinho, e ver a caravana passar....
—Streaming quer dizer que muito brevemente você poderá asssistir à filmes inteiros sem necessidade de "baixá-los".  É a novidade que vem por aí...
—Sabe, Rospo, quando surgiu o vídeo, surgiram também previsões de que o cinema iria acabar... Depois o DVD, mas o cinema está aí, ressurgiu, mais forte do que nunca... Ele é a fênix com telona...
—O cinema não acaba, Sapabela, por causa da magia...
—E do escurinho...
—Também...
—Quantos filmes não foram assistidos...
—Não entendi, Sapabela.
—Não se faça de rogado, Rospo... É que muitos casais de namorados nem sequer para tela olharam...
—Entendi. Na sexta você fica irresistível! E adorei a sua blusinha rosa...
—Obrigado, Rospo, mas, fale desse tal Strea... Como é mesmo o nome?
—Streaming, você vai poder assistir ao filme que escolher, diretamente na tela do computador, sempre que desejar...
—Então, talvez o certo seja pôr o computador diante do sofá, e a família se reunir para ver um filme...
—Eis uma ideia sapabélica.
—Quer dizer então, que a solidão da internet vai acabar, e o gosto de a família se reunir na sala voltará?
—Não é tudo isso, Sapabela, mas é sim uma mudança nos paradigmas do olhar, isso altera substancialmente o modo como nos relacionamos com o cinema, que é um especial momento  na vida de cada um...
—Rospo, tenho um imenso apreço pela tecnologia, sei das suas grandezas e das suas limitações... Mas, que tal, em vez desse Streaming, você me fazer outro convite?
—Adoro convidar você, Sapabela. Mande dizer...
—Que tal um cinema hoje à tarde? Ou melhor, amanhã?
—Aceito!
—Mas é você quem vai convidar, Rospo!
—Aceito convidar, foi isso que eu quis dizer.
—Pois eu aceito o convite, estarei amanhã, às 17h, na praça....
—Já escolheu a cor?
—Que cor, Rospo?
—Do vestidinho de amanhã.
—Vou pensar numa cor que combine com o brinco, e discretamente, com o esmalte...
—Sapabela, a magia do cinema começa bem antes, começa no encontro...
—Para mim, começa no convite.

HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 684
Marciano Vasques

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

APENAS...

Jamais o ódio, apenas a indignação. O ódio é de uma insuportável pobreza, e nos enfraquece o espírito de forma devastadora. A indignação nos eleva, nos revela a imensurável grandeza que pode um coração abrigar.

POIS É...





Não dá para fugir da alma do povo...

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Antônio Marcos e sua Filha Paloma Duarte



Incrível que o tempo tem passado, mas continuo amando o artista que foi o ANTONIO MARCOS.
Marciano Vasques

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

BADALANDO, BADALANDO...



Rospo encontra a Sapabela, que para variar, está muito entusiasmada com a noite lunar.

A WHITER SHADE OF PALE

SENSO COMUM?


Rospo e sua amiga se encontram.
—Sapabela, estive pensando em algo que a maioria tem.
—Isso é fácil! Senso comum.
—Acertou! Está inspirada hoje?
—Hoje é o dia lunar, certo?

domingo, 25 de setembro de 2011

SOB AS LUZES DA CIDADE

Lá ia ela, mais Sapabela do que sempre, com o sorriso de dominguinho já se indo, mas firme na sua resolução de ser sapa, a todo o custo. Linda com tal lacinho, com tal brinco, e com tal anel que só a imaginação pode pôr em seus dedos, mas lá ia ela, com seu vestidinho, a sua

PARLENDAS E LUAS

—Rospo, adoro parlendas!
—Eu também.
—Veja, hoje é domingo pede cachimbo, hoje é sábado pede quiabo.
—Diabo?
—Quiabo, Rospo! Quiabo com carne, batatas...
—Entendi. Prossiga.
—Hoje é segunda, pede...

DE BITUCA NO DIÁLOGO SURREALISTA

Rospo lendo o jornal na praça e, por distração, de bituca no diálogo surrealista de um casal.
—Se você fizer amor com outra sapa, não olho mais para você.
—Se não fizer amor comigo, para qual sapa deverei olhar?
—Você só fala nisso, em fazer amor.
—É fazendo amor que a gente faz o amor.

sábado, 24 de setembro de 2011

VESTIDO QUE VESTE FLOR

—Sapabela, vi na sua foto de perfil no Facebook, você com aquele vestido tão primaveril...
—Você viu, Rospo? Esteve lá?
—Por acaso, estive sim. E vi que as meninas estão comentando.
—São minhas amigas.
—Se um menino também pudesse comentar...

O MENINO E O GALAGO

Poema "O MENINO E O GALAGO", ilustrado por Carmen Gutierrez, para o meu livro "Duas Dezenas de Meninos Num Poema".

O INVENTOR DE VIDAS

Poema "O Inventor de Vidas", ilustrado por Carmen Gutierrez, para o meu livro "Duas Dezenas de Meninos num Poema".

DEVANEIO INCOMODANDO?

—Deve ser bom ter um nome pra sonhar!...
—Está triste, Sapabela?
—Não, Rospo! Ao contrário, estou feliz, bem contente, como pode ver. Foi apenas uma gota de devaneio. Nem pense em tristeza. Quero mais é me levar. Tristeza? Nem ligo!
—Não está me parecendo totalmente acreditável...

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A WHITER SHADE OF PALE

AGASALHO

O verdadeiro especialista em compartilhar não é o do Facebook, mas aquele que consegue ver no outro a necessidade de agasalho. O agasalho das palavras, do afeto, da compreensão, do diálogo, da amizade. Compartilhar esses agasalhos, eis a grande arte.

NAS ANDANÇAS DO COTIDIANO




Peri feria, sem ira, sua amiga Iracema, quando não queria com ela cirandar. Ela ficava magoada e a má água em seu olhos escorria fazendo bonito lago de dar dó, logo ela, a menina do anel de vidro. Mas ele, que corria naquelas ruas empoeiradas, sumiu, dizem que entrou num bosque chamado solidão e de lá numa mais voltou. Iracema cresceu. Os bailes vieram. E nas ruas da periferia dizem que às vezes anda com o olhar submerso nalgum verso que guardou, coisa de brincadeira.

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