Nas espumas santistas
Na alma dos artistas
Ela toma vulto
E seu problema é ser demais.
Esfomeada que não tem
Regalo que atenue a sua alma...
A poesia, minha amiga,
Medra sem medo e madruga...
Então, melhor é tê-la
Com suas queixas,
Madeixas,
Sua cristaleira interior.
Marciano Vasques
sexta-feira, 26 de abril de 2013
PALHAÇO
Quem é você?
—Descubra se quiser.
Sou o palhaço
Ladrão de mulher.
A luz das estrelas
Atravessa a lona.
Lá estava no sorriso
De uma dona
Na calçada da Pamplona.
Catando versos
Desacatando universos
No meu caminho
Empoeirado
De vento alegre
Ventando forte.
Fogueiras salpicadas
Ns conversas dos bares.
Gente do nordeste.
Gente do norte.
Menina na sorte
De sonhos avulsos
Sonhando altares.
Moço tórax aberto
Cantarolando Roberto
Na fartura bêbada
Das ilusões.
Lancinante amparo
Das solidões.
Vago
Na fluência transparente
De uma tarde
No ocaso
Nas flores de Outono.
Buscando a mera
Quimera
Nas luzes de Itaquera.
Aconchego de abandono.
Nem acha graça
Nem se toca
A moça
Da tapioca
Quando na praça
Sigo cigano
Na fértil força
Do picadeiro
Da minha vida.
Num lampejo
De lembrar ferida.
Sinceras dores.
Incicatrizáveis amores.
Marciano Vasques
—Descubra se quiser.
Sou o palhaço
Ladrão de mulher.
A luz das estrelas
Atravessa a lona.
Lá estava no sorriso
De uma dona
Na calçada da Pamplona.
Catando versos
Desacatando universos
No meu caminho
Empoeirado
De vento alegre
Ventando forte.
Fogueiras salpicadas
Ns conversas dos bares.
Gente do nordeste.
Gente do norte.
Menina na sorte
De sonhos avulsos
Sonhando altares.
Moço tórax aberto
Cantarolando Roberto
Na fartura bêbada
Das ilusões.
Lancinante amparo
Das solidões.
Vago
Na fluência transparente
De uma tarde
No ocaso
Nas flores de Outono.
Buscando a mera
Quimera
Nas luzes de Itaquera.
Aconchego de abandono.
Nem acha graça
Nem se toca
A moça
Da tapioca
Quando na praça
Sigo cigano
Na fértil força
Do picadeiro
Da minha vida.
Num lampejo
De lembrar ferida.
Sinceras dores.
Incicatrizáveis amores.
Marciano Vasques
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quinta-feira, 25 de abril de 2013
CONVERSA NA QUINTA
—Viva!
—Que entusiasmo é esse, Sapabela?
—Hoje é quinta!
—Verdade, e está frio, isso pede aconchego, pede...
—Pede tudo de bom, Rospo! E repare nas minhas roupas, elas não combinam, como sempre. E sou mesma atrapalhada. Sempre fui. Uau! Adoro ser-me.Assim, meio estabanada, um muitíssimo espalhafatosa, mas só de espalhar os fatos realmente essenciais... Sou assim, atrapalhada, mas não tem jeito.
—"Mas não faz mal, eu gosto é mesmo assim".
—Rospo, olha! Isso é verso do Erasmo e daquele cara!
—Eu sei, minha querida, é para tornar a quinta mais aconchegante. Você sabe, quem fica apenas sentado à beira do caminho pode até perder o bonde da história.
—Perder o bonde da história é desentender o "Trem das Onze"... Direi ao mundo que estou feliz hoje. Digo isso a você aqui, e quero dizer numa conversa de blog, e também aos meus "caros amigos".
—Sapabela, isso é nome de um disco do Chico nos belos dias clandestinos; hoje, veja só, nossa conversa está muito musical. Às vezes isso acontece. Saudades de ouvir Walter Franco...
Sapabela, vamos comemorar a quinta com um licor de anis.
—Aceito!
—Nossa, que rapidez!
—Sapa, né! E tem mais.
—Com você sempre tem.
—Para mim não são necessárias frases mirabolantes, palavras elaboradas, discurso requintado...
—Entendi isso não.
—Aceito as frases mais simples. E você sabe, o que é simples mas nasceu no coração bate de longe declarações formuladas.
—A que está se referindo?
—Para me conquistar basta ser simples.
—Gosto de você.
—Isso!
—Sapabela, ganhei a minha quinta.
—Então vamos ao licor que o dia quem faz é quem vive.
—Que audácia linda é viver!
ROSPO 2013 — 867
Marciano Vasques
—Que entusiasmo é esse, Sapabela?
—Hoje é quinta!
—Verdade, e está frio, isso pede aconchego, pede...
—Pede tudo de bom, Rospo! E repare nas minhas roupas, elas não combinam, como sempre. E sou mesma atrapalhada. Sempre fui. Uau! Adoro ser-me.Assim, meio estabanada, um muitíssimo espalhafatosa, mas só de espalhar os fatos realmente essenciais... Sou assim, atrapalhada, mas não tem jeito.
—"Mas não faz mal, eu gosto é mesmo assim".
—Rospo, olha! Isso é verso do Erasmo e daquele cara!
—Eu sei, minha querida, é para tornar a quinta mais aconchegante. Você sabe, quem fica apenas sentado à beira do caminho pode até perder o bonde da história.
—Perder o bonde da história é desentender o "Trem das Onze"... Direi ao mundo que estou feliz hoje. Digo isso a você aqui, e quero dizer numa conversa de blog, e também aos meus "caros amigos".
—Sapabela, isso é nome de um disco do Chico nos belos dias clandestinos; hoje, veja só, nossa conversa está muito musical. Às vezes isso acontece. Saudades de ouvir Walter Franco...
Sapabela, vamos comemorar a quinta com um licor de anis.
—Aceito!
—Nossa, que rapidez!
—Sapa, né! E tem mais.
—Com você sempre tem.
—Para mim não são necessárias frases mirabolantes, palavras elaboradas, discurso requintado...
—Entendi isso não.
—Aceito as frases mais simples. E você sabe, o que é simples mas nasceu no coração bate de longe declarações formuladas.
—A que está se referindo?
—Para me conquistar basta ser simples.
—Gosto de você.
—Isso!
—Sapabela, ganhei a minha quinta.
—Então vamos ao licor que o dia quem faz é quem vive.
—Que audácia linda é viver!
ROSPO 2013 — 867
Marciano Vasques
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segunda-feira, 22 de abril de 2013
CONTO DE PARÁGRAFO
NOITES
Na noite em que o presidente da República jantava com a cúpula do governo do Panamá e com a diretoria da empreiteira naquele país, eu relia o poema "Cantiga para Não Morrer", de Ferreira Gullar, o mesmo que escreveu o "Poema Sujo", que li num livro que ganhei de aniversário, comprado no Círculo do livro, nos tempos do Tarancón, lá pelas tantas dos anos 70, quando ouvi pela primeira vez Parabien de La Paloma. Mas, na noite do jantar do presidente com o governo panamenho e com o diretor da empreiteira que financiou a sua viagem, por aqui acontecia uma coisa assim, de meninas caminhando nas empoeiradas ruas da vila da invasão, no vinco da periferia de nervuras e lágrimas latejantes cravejando sorrisos desbotados: meninas operárias, domésticas e balconistas, cadenciadas ao som do Funk numa tarde ensolarada de azul perdido, caminhando em névoas em plena alvorada.
CONTO DE PARÁGRAFO
Marciano Vasques
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domingo, 14 de abril de 2013
quarta-feira, 10 de abril de 2013
terça-feira, 9 de abril de 2013
SEMIÓTICA DO OLHAR
Encontro especial numa noite de terça-feira:
—Rospo!
—Sapabela! Que alegria!
—Rospo, quando pensa na Política partidária nacional aqui do brejo, tem algum título de filme que ela faz você lembrar?
—Pergunta inesperada, Sapabela. Mas, tem sim. Tem...
—Diga, meu amigo... Já quero o ingresso... para entrar nessa conversa...
—A conversa é sua, minha querida.
—Qual é o título do filme?
—"O Silêncio dos Inocentes"!
—Supimpa! Quer falar?
—Só um punhadinho, um tiquinho.
—Manda bala!
—Não pode dizer uma coisa dessas aqui no brejo, Sapabela. Alguém pode ouvir e levar a sério.
—Faça-me rir, amigo. Noutro dia me pus a rir só de pensar naquela história de que a profissão do diabo é padeiro. Nem sabia que o cara trabalhava em padaria...
—É que quando eu era um menino, bem sapinho ainda, ouvia meu pai dizer que "comia o pão que o diabo amassou"...
—Muito bem, mas fale o nome do filme que a política nacional do brejo faz você se lembrar.
—Eu já disse; "O Silêncio das Inocentes"...
—É mesmo! Fale então o tal bocadinho. Um exemplo, só um exemplo...
—A Sapa pediu, o universo parou para atender...
—Antes fosse...
—Querida, não se esqueça: O que parece geral não desfaz o que é bonito de se viver...
—Manda ver.
—Ocorre que diante do silêncio de partidos e políticos e militantes do brejo diante de uma revelação de corrupção e de desvio e uso do dinheiro público e da máquina administrativa em benefício próprio, só se pode pensar que, além dos compromissos partidários que sacrificam a ética e o intelecto, realmente tem algo além...
—Rospo, gostei desse punhadinho, mas, diga algo sobre aquilo que falou no último licor...
—Sim?
—Semiótica do olhar, ou do amor...
—Sim, vamos lá: conversando, que é versar junto a vida, ou não apenas co-versando, mas versando com alguém, ou seja, com versando, reparei que o amigo nem olhava para o meu rosto enquanto me falava, isto é, parecia que não conseguia mais olhar de frente para alguém...
—Certa vez estive com o Sérgio Bianchi e ele falou sobre o fato de que o hábito da televisão desviou o olhar. E, penso eu, agora o tablet...
—Justamente: e eu disse : "Não sou tela! Exijo uma semiótica do amor! Precisa consertar o olhar para que se manifestar possa o concerto da alma."
—E o que ele disse?
—Nem sei, eu já nem estava mais na ribalta. Eu estava mesmo era na ribanceira da vida, na rua, com todo o seu glamour...
—Glamour?
—Sim, a poeira, a pureza dos sapos que cavam com suor e força o pão e a seiva da vida...
—Fez bem, Rospo, fez bem. Inútil querer implantar a consciência de supetão... o importante, penso eu, é que você fale com alguém olhando firme no rosto, nos olhos... Assim devemos agir, Rospo... Lembre-se, no vendaval empoeirado, temos que estar bem no eixo, no eixo da tempestade... E fazer a nossa parte...
—A conversa está boa, Sapabela, mas vamos até a Padaria Rubi?
—Licor de anis? Já indo, Rospo, já indo...
—Yupiiii!
ROSPO 2013 —866
Marciano Vasques
—Rospo!
—Sapabela! Que alegria!
—Rospo, quando pensa na Política partidária nacional aqui do brejo, tem algum título de filme que ela faz você lembrar?
—Pergunta inesperada, Sapabela. Mas, tem sim. Tem...
—Diga, meu amigo... Já quero o ingresso... para entrar nessa conversa...
—A conversa é sua, minha querida.
—Qual é o título do filme?
—"O Silêncio dos Inocentes"!
—Supimpa! Quer falar?
—Só um punhadinho, um tiquinho.
—Manda bala!
—Não pode dizer uma coisa dessas aqui no brejo, Sapabela. Alguém pode ouvir e levar a sério.
—Faça-me rir, amigo. Noutro dia me pus a rir só de pensar naquela história de que a profissão do diabo é padeiro. Nem sabia que o cara trabalhava em padaria...
—É que quando eu era um menino, bem sapinho ainda, ouvia meu pai dizer que "comia o pão que o diabo amassou"...
—Muito bem, mas fale o nome do filme que a política nacional do brejo faz você se lembrar.
—Eu já disse; "O Silêncio das Inocentes"...
—É mesmo! Fale então o tal bocadinho. Um exemplo, só um exemplo...
—A Sapa pediu, o universo parou para atender...
—Antes fosse...
—Querida, não se esqueça: O que parece geral não desfaz o que é bonito de se viver...
—Manda ver.
—Ocorre que diante do silêncio de partidos e políticos e militantes do brejo diante de uma revelação de corrupção e de desvio e uso do dinheiro público e da máquina administrativa em benefício próprio, só se pode pensar que, além dos compromissos partidários que sacrificam a ética e o intelecto, realmente tem algo além...
—Rospo, gostei desse punhadinho, mas, diga algo sobre aquilo que falou no último licor...
—Sim?
—Semiótica do olhar, ou do amor...
—Sim, vamos lá: conversando, que é versar junto a vida, ou não apenas co-versando, mas versando com alguém, ou seja, com versando, reparei que o amigo nem olhava para o meu rosto enquanto me falava, isto é, parecia que não conseguia mais olhar de frente para alguém...
—Certa vez estive com o Sérgio Bianchi e ele falou sobre o fato de que o hábito da televisão desviou o olhar. E, penso eu, agora o tablet...
—Justamente: e eu disse : "Não sou tela! Exijo uma semiótica do amor! Precisa consertar o olhar para que se manifestar possa o concerto da alma."
—E o que ele disse?
—Nem sei, eu já nem estava mais na ribalta. Eu estava mesmo era na ribanceira da vida, na rua, com todo o seu glamour...
—Glamour?
—Sim, a poeira, a pureza dos sapos que cavam com suor e força o pão e a seiva da vida...
—Fez bem, Rospo, fez bem. Inútil querer implantar a consciência de supetão... o importante, penso eu, é que você fale com alguém olhando firme no rosto, nos olhos... Assim devemos agir, Rospo... Lembre-se, no vendaval empoeirado, temos que estar bem no eixo, no eixo da tempestade... E fazer a nossa parte...
—A conversa está boa, Sapabela, mas vamos até a Padaria Rubi?
—Licor de anis? Já indo, Rospo, já indo...
—Yupiiii!
ROSPO 2013 —866
Marciano Vasques
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domingo, 7 de abril de 2013
O IMPIEDOSO CARGUEIRO
—Rospo!
—Sapabela!
—Que alegria! E tem uma conversa tinindo em mim. Posso começar? Prometo que não tomarei o seu tempo, amigo.
—Você jamais toma o meu tempo, querida. Ao contrário, me dá a oportunidade de compartilhá-lo com você...Mas, a conversa, por favor! Já estou esticando a corda, isto é, o barbante... que isso é próprio de conversa...
—Então, vamos lá: O que lembra, para você, Rospo, um Cargueiro?
—Carga, navio de carga. Carga pesada...
—O cargueiro da vida é implacável, impiedoso, imperdoável!...
—Prossiga, por favor!
—Não adianta "choro nem vela"...
—Vela?
—Sim, velejar, nem terá a chance...
—Do que está falando, querida? Nem tomou licor de anis hoje!
—Olha!...
—Brincadeira, prossiga.
—Rospo, o cargueiro da alma é formado por vários fatores, se me entende. Um dos pesos do "carregamento" é a arrogância intelectual.
—Fale disso! Fale disso!
—Sim, a arrogância intelectual por si só já quase enche o cargueiro...
—Poderia, minha sapíssima, dar um exemplo?
—Darei dois.
—"Ela é demais!"
—O que pensou?
—Esqueça, por enquanto. E dê os exemplos, por favor...
—Um poeta escreveu-me uma carta e nela ele disse algo chocante.
—Sim?
—Que você nem deveria lutar pela sua carreira literária se não tiver a chancela acadêmica...
—Como é?
—Só com a chancela acadêmica um poeta tem a chance de se perpetuar, ou de passar para a história da Literatura. Para esse meu amigo, só com citações em trabalhos acadêmicos você terá a chance de chancelar a sua arte, a sua escrita. Fora da Universidade não tem validade, sem o reconhecimento da Universidade nada feito, disse ele...
—É?
—Hoje ele está na Rede Social...
—Dê o segundo exemplo.
—Outro amigo me escreveu que devemos todos lutar pela cultura erudita, na qual ele transita com a sua produção...
—E daí?
—Referiu-se aos quadrinhos como uma manifestação de uma forma de lixo que é a tal cultura de massa, algo assim...
—Nossa! Que erro grave! Pois nos quadrinhos encontrei a mais pura arte nos traços de nanquim, em obras como a de Harold Foster, a de Alex Raymond, e outros tantos, e aqui no brejo, Júlio Shimamoto, e também tantos outros... Nada enriqueceu tanto a minha estética quando sapinho como esses artistas e suas produções...
—Além da arrogância, também o preconceito...
—Geralmente esses dois andam de mãos dadas.
—Que nada! Eles se beijam na boca!
—São assim tão íntimos?
—Eis um caso em que dois formam um. Arrogância e Preconceito.
ROSPO 2013 — 865
Marciano Vasques
—Sapabela!
—Que alegria! E tem uma conversa tinindo em mim. Posso começar? Prometo que não tomarei o seu tempo, amigo.
—Você jamais toma o meu tempo, querida. Ao contrário, me dá a oportunidade de compartilhá-lo com você...Mas, a conversa, por favor! Já estou esticando a corda, isto é, o barbante... que isso é próprio de conversa...
—Então, vamos lá: O que lembra, para você, Rospo, um Cargueiro?
—Carga, navio de carga. Carga pesada...
—O cargueiro da vida é implacável, impiedoso, imperdoável!...
—Prossiga, por favor!
—Não adianta "choro nem vela"...
—Vela?
—Sim, velejar, nem terá a chance...
—Do que está falando, querida? Nem tomou licor de anis hoje!
—Olha!...
—Brincadeira, prossiga.
—Rospo, o cargueiro da alma é formado por vários fatores, se me entende. Um dos pesos do "carregamento" é a arrogância intelectual.
—Fale disso! Fale disso!
—Sim, a arrogância intelectual por si só já quase enche o cargueiro...
—Poderia, minha sapíssima, dar um exemplo?
—Darei dois.
—"Ela é demais!"
—O que pensou?
—Esqueça, por enquanto. E dê os exemplos, por favor...
—Um poeta escreveu-me uma carta e nela ele disse algo chocante.
—Sim?
—Que você nem deveria lutar pela sua carreira literária se não tiver a chancela acadêmica...
—Como é?
—Só com a chancela acadêmica um poeta tem a chance de se perpetuar, ou de passar para a história da Literatura. Para esse meu amigo, só com citações em trabalhos acadêmicos você terá a chance de chancelar a sua arte, a sua escrita. Fora da Universidade não tem validade, sem o reconhecimento da Universidade nada feito, disse ele...
—É?
—Hoje ele está na Rede Social...
—Dê o segundo exemplo.
—Outro amigo me escreveu que devemos todos lutar pela cultura erudita, na qual ele transita com a sua produção...
—E daí?
—Referiu-se aos quadrinhos como uma manifestação de uma forma de lixo que é a tal cultura de massa, algo assim...
—Nossa! Que erro grave! Pois nos quadrinhos encontrei a mais pura arte nos traços de nanquim, em obras como a de Harold Foster, a de Alex Raymond, e outros tantos, e aqui no brejo, Júlio Shimamoto, e também tantos outros... Nada enriqueceu tanto a minha estética quando sapinho como esses artistas e suas produções...
—Além da arrogância, também o preconceito...
—Geralmente esses dois andam de mãos dadas.
—Que nada! Eles se beijam na boca!
—São assim tão íntimos?
—Eis um caso em que dois formam um. Arrogância e Preconceito.
ROSPO 2013 — 865
Marciano Vasques
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quinta-feira, 28 de março de 2013
quarta-feira, 27 de março de 2013
COMO QUALQUER FRAGMENTO...
Nos fundos olhos da menina
Um raso riso ou riacho,
Uma lágrima miúda
Que fugiu num vento leve.
Busque o meu coração,
Refaça o regaço da saudade
E não me abandone....
Que azul!
Que azulcrinou
As crinas mais douradas
Num entardecer que eu vi.
Eu era tão menino!
Hoje pudesse só beijar
Um centelha sequer
Do tempo que em sua perdição
Diz não...
Nem sei,
Mas quem dera ter enlouquecido
Um décimo
do que mereço...
Nas ruas
Dos bêbados de poesia,
Sei lá,
Nervuras que acalento...
Num esquecido
Verso
De ferido acalanto
Marciano Vasques
Um raso riso ou riacho,
Uma lágrima miúda
Que fugiu num vento leve.
Busque o meu coração,
Refaça o regaço da saudade
E não me abandone....
Que azul!
Que azulcrinou
As crinas mais douradas
Num entardecer que eu vi.
Eu era tão menino!
Hoje pudesse só beijar
Um centelha sequer
Do tempo que em sua perdição
Diz não...
Nem sei,
Mas quem dera ter enlouquecido
Um décimo
do que mereço...
Nas ruas
Dos bêbados de poesia,
Sei lá,
Nervuras que acalento...
Num esquecido
Verso
De ferido acalanto
Marciano Vasques
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POESIA AZUL
domingo, 24 de março de 2013
CONVERSANDO NA ALVORADA
—Aeeeeeeeeeeeeeeeeeeeê!
—Sapabela, o que pode ser mais esplêndido e resplandecente para um sapo do que encontrar a sua amiga na alvorada dominical? Erga os pulmões, alise o tórax, e deixe entrar o domingo com toda a sua força de mil parlendas, de alegrias sem patrocínio.
—Rospo, está cheio de sapo perdendo isso. Aliás, seria bom se pudêssemos resgatar as coisas essenciais da vida. O perigo, que me assombra, pela sua visibilidade tão descarada é...
—Estou curioso, Sapabela, estou curioso. Prossiga!
—Sapo curioso já ganhou metade da estrada. Eu estava a dizer que, Rospo, lembrei-me de algo. Vá lá em casa!
—Já estou entrando...
—Estou falando sério, vá lá hoje que tenho licor de Jabuticaba...
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
—Rospo? Tudo isso é pelo licor?
—É pelo "entrar " também.
—Rospo, por favor, poderia se comportar um pouquinho para que eu possa prosseguir?
—Que hora será?
—Que hora será, o quê?
—O licor de Jabuticabal...
—Jabuticaba, meu querido. À tarde, hoje estou tão alegre, uma alegria intraduzível, mas que no seu bojo tem cantoria de cordelistas, as múltiplas cores dos ciganos, a alegria de "Beatles", tem tudo de bom que nos ronda a vida, e por mil vieses não nos regem. Posso prosseguir?
—Que demora, Sapabela!
—O que me assombra é a facilidade com que os sapos e as sapas se deixam tragar pelas incessantes intempéries do marasmo cotidiano. Lembre-se, meu querido. A lei do menor esforço vem com selo de permanência, de intocabilidade nas vidas.
—Sapabela, sabe que me esforço, mas quando uma fêmea chamada você resolve expôr o pensamento em suja inerência da velocidade espanto-me...Como algo tão brilhante e poderoso pôde ser sufocado, soterrado em dois mil anos?
—Mas agora, nego, ninguém me segura!
—Viva!
—Pois é, meu amigo. a tal lei do imobilismo ela tem uma característica ilusória, que é a garantia do conforto, mas se o sujeito acredita que conforto é para sentar ao sofá, ligar a TV e permanecer ali, deixe o pobre ser mesmo tragado pelo cotidiano. ..
—Eu gosto de sofá para...
—Rospo, não me interrompa, por favor, e respeite a plateia dos pequenos...
—Eu só ia falar do ócio contemplativo...
—Bem sei, mas, concluindo: O sapo tem que erguer o seu mundo sonhado. É ele que vale. Você tem que garantir a sua suspensão do cotidiano. É ela que o favorecerá...
—Adoro esse verbo: favorecer. é um favo de mel puro que acontecerá, que facilitará o escoamento da vida que precisa acontecer... Favorecer é o acontecer de um favo. É o florescer da dialógica.
—Muito bem, meu grande.Mas é isso, nada se de deixar tragar nem soterrar, nem jamais entrar num túnel que lá no mais fundo subterrâneo se ramificará em mil vias de se imobilizar a alma. Erga-se: o cotidiano, se por acaso o sufoca, se o espreme, faça o seguinte: desfaça essa vocação para bagaço e vá a luta. Leve consigo a sua espada de mil luzes.
—Que espada é essa, Sapabela?
—Os seus sonhos, são eles que brilham e rebrilham, eles simbolizam a sua espada. Basta chegar e dizer: "Eu tenho sonhos!"
—Nossa! Pareceu Nietzsche, pela beleza do estilo de escrever no ar...
—Escrever no ar?
—É, falar.
—É só impressão, Rospo, o estilo é genuíno de Sapabela. Mas é claro que jamais nos livramos por completo de nossas leituras.
—Querida, que forma linda de alvorecer! Adorei encontrá-la agora cedo. Está esplêndida.
—Você vai ver à tarde com o licor de Jabuticaba.
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
ROSPO 2013 — 684
Marciano Vasques
—Sapabela, o que pode ser mais esplêndido e resplandecente para um sapo do que encontrar a sua amiga na alvorada dominical? Erga os pulmões, alise o tórax, e deixe entrar o domingo com toda a sua força de mil parlendas, de alegrias sem patrocínio.
—Rospo, está cheio de sapo perdendo isso. Aliás, seria bom se pudêssemos resgatar as coisas essenciais da vida. O perigo, que me assombra, pela sua visibilidade tão descarada é...
—Estou curioso, Sapabela, estou curioso. Prossiga!
—Sapo curioso já ganhou metade da estrada. Eu estava a dizer que, Rospo, lembrei-me de algo. Vá lá em casa!
—Já estou entrando...
—Estou falando sério, vá lá hoje que tenho licor de Jabuticaba...
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
—Rospo? Tudo isso é pelo licor?
—É pelo "entrar " também.
—Rospo, por favor, poderia se comportar um pouquinho para que eu possa prosseguir?
—Que hora será?
—Que hora será, o quê?
—O licor de Jabuticabal...
—Jabuticaba, meu querido. À tarde, hoje estou tão alegre, uma alegria intraduzível, mas que no seu bojo tem cantoria de cordelistas, as múltiplas cores dos ciganos, a alegria de "Beatles", tem tudo de bom que nos ronda a vida, e por mil vieses não nos regem. Posso prosseguir?
—Que demora, Sapabela!
—O que me assombra é a facilidade com que os sapos e as sapas se deixam tragar pelas incessantes intempéries do marasmo cotidiano. Lembre-se, meu querido. A lei do menor esforço vem com selo de permanência, de intocabilidade nas vidas.
—Sapabela, sabe que me esforço, mas quando uma fêmea chamada você resolve expôr o pensamento em suja inerência da velocidade espanto-me...Como algo tão brilhante e poderoso pôde ser sufocado, soterrado em dois mil anos?
—Mas agora, nego, ninguém me segura!
—Viva!
—Pois é, meu amigo. a tal lei do imobilismo ela tem uma característica ilusória, que é a garantia do conforto, mas se o sujeito acredita que conforto é para sentar ao sofá, ligar a TV e permanecer ali, deixe o pobre ser mesmo tragado pelo cotidiano. ..
—Eu gosto de sofá para...
—Rospo, não me interrompa, por favor, e respeite a plateia dos pequenos...
—Eu só ia falar do ócio contemplativo...
—Bem sei, mas, concluindo: O sapo tem que erguer o seu mundo sonhado. É ele que vale. Você tem que garantir a sua suspensão do cotidiano. É ela que o favorecerá...
—Adoro esse verbo: favorecer. é um favo de mel puro que acontecerá, que facilitará o escoamento da vida que precisa acontecer... Favorecer é o acontecer de um favo. É o florescer da dialógica.
—Muito bem, meu grande.Mas é isso, nada se de deixar tragar nem soterrar, nem jamais entrar num túnel que lá no mais fundo subterrâneo se ramificará em mil vias de se imobilizar a alma. Erga-se: o cotidiano, se por acaso o sufoca, se o espreme, faça o seguinte: desfaça essa vocação para bagaço e vá a luta. Leve consigo a sua espada de mil luzes.
—Que espada é essa, Sapabela?
—Os seus sonhos, são eles que brilham e rebrilham, eles simbolizam a sua espada. Basta chegar e dizer: "Eu tenho sonhos!"
—Nossa! Pareceu Nietzsche, pela beleza do estilo de escrever no ar...
—Escrever no ar?
—É, falar.
—É só impressão, Rospo, o estilo é genuíno de Sapabela. Mas é claro que jamais nos livramos por completo de nossas leituras.
—Querida, que forma linda de alvorecer! Adorei encontrá-la agora cedo. Está esplêndida.
—Você vai ver à tarde com o licor de Jabuticaba.
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
ROSPO 2013 — 684
Marciano Vasques
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sábado, 23 de março de 2013
ENCONTRO NA NOITE DE SÁBADO
—Aeeeeeeeeeeeeeeeeeeeê!
—Que alegria é essa, Sapabela?
—Que alegria é essa, Sapabela?
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domingo, 17 de março de 2013
A PERDA MAIOR DO SAPO
—Rospo!
—Sapabela!
—O meu coração estremecia sempre que eu pensava que você andava sumido... Eu ficava sem mim, e vagava ao lume da solidão... Nem via o reflexo da alegria que sempre nos moveu. Mas agora está aqui, e é domingo! E ainda é cedo! A Padaria Rubi nos espera... Já vejo a luz translúcida do verde claro do licor de anis...
—Sapabela!
—O meu coração estremecia sempre que eu pensava que você andava sumido... Eu ficava sem mim, e vagava ao lume da solidão... Nem via o reflexo da alegria que sempre nos moveu. Mas agora está aqui, e é domingo! E ainda é cedo! A Padaria Rubi nos espera... Já vejo a luz translúcida do verde claro do licor de anis...
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sexta-feira, 8 de março de 2013
O DIA INTERNACIONAL DA SAPA
—Rospo! Hoje é o "Dia Internacional da Sapa"... Vai ter licor de anis?
—Yupiiii!
—Não é para se assanhar tanto!
—Yupiiii!
—Não é para se assanhar tanto!
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quinta-feira, 7 de março de 2013
PIQUES E PIQUES
—Rospo, por onde anda? Que tal falar desses piques de afastamento?
—Afastamento é coisa impensável, Sapabela. Esses tais piques são apenas fragmentos necessários das andanças...
—Tem viajado?
—Andança interior também vale, minha belinha.
—Que bonito! Mas eu adoro mesmo aquele "Nega"... É demais, fico toda envaidecida quando essa manifestação amorosa oriunda de nossa oralidade infinitamente rica...Mas fale, algo está acontecendo?
—Às vezes, Sapabela, é preciso acionar o eixo, no mergulho essencial...
—Compreendo, e soube que anda meio chateado? É verdade?
—Não, não, em absoluto. Você sabe que somos fontes de onde jorra a alegria... E sua amizade é o pique do arrebatamento das coisas essenciais e ludicamente floridas da vida... Com você ao meu lado, em nossas conversas trançadas, a alegria está sempre presente. A conversa é uma das mais expressivas formas de felicidade do sapo, parodiando o Borges, que disse algo semelhante se referindo ao livro...Para ele o livro sempre existirá em sua forma de objeto de culto, de amor... Curioso, não é? Ele imaginava a biblioteca infinita, e, você sabe, a Internet...
—Está desviando o assunto, Rospo! Fale mais dessa suposta não chateação.
—Ora, Sapabela, bem sabe que neste mundo o que mais encontramos são as oferendas de sentimentos entristecidos, banhados no polimento do ciúme e da inveja...
—Você é um "positivista", acredita no "Poder do Pensamento Positivo"?
—Sapabela, nem positivista nem Positivista. Acredito, entretanto, que "É sim preciso ordem para o progresso interior, isto é, harmonia para que a alma possa destravar seus empecilhos"...
—Essas oferendas vêm dos inimigos?
—Nem pensar, Sapabela! Acreditar que um inimigo possa nos decepcionar é atribuir muita força a ele. Isso é privilégio de amigo. Só o amigo faz isso. Ou seja, só ele tem o dom, o poder, de nos oferecer um tapete, o tal ardilosamente tecido tapete, que pode ser habilmente puxado pela traição.
—Mas então não é amigo, Rospo!
—Nem é inimigo. É uma fôrma de fazer capeta que alguns abrigam na fornalha de suas almas. Porém, verdadeiramente, o amigo está onde qualquer infecção da amizade possa penetrar...
—Infecção da amizade? Roubou de Espinosa esse termo?
—Você está afiada hoje, nega.
—Uau Uau Uau! Viva! Eu era feliz e não sabia...
—Sapabela, considero muito profundo essa sua última frase. Complexidade pura.
—Prossiga, Rospo.
—Infecção da amizade é causada por descuidos, desapegos, nem precisa desaforamentos. Basta uma faísca assim desse tamanhinho de descaso...
—Que faísca, Rospo? Isso é um fiapinho, uma doidice só, um descuido... Faísca lampeja, por menor que seja, atiça...
—Pois é, querida...
—Você nunca me convidou para almoçar...
—Que tal...
—Aceito!
—Em meia hora nos encontraremos...
—Ótimo, é o que eu precisava para me arrumar. Um minuto.
—Prefere dois minutos? Ou seja, Uma hora?
—Não seja maldoso, Rospo. Além do mais, você bem sabe que...
—Vale a pena esperar.
—Então daqui a pouco. Eu adoro isso. Minhas roupas não combinam. Você sabe. Mas eu adoro me vestir de Sapabela. E aqui mando um beijo para a Violeta, e outro para a Lady Garça...
—A Lady eu conheço, mas quem é a Violeta?...
—A protagonista de um seriado juvenil argentino, da Disney...
—Certo, certo, certo. Vá querida, que já estou faminto.
—Vá pensando só no almoço, bonitinho.
—Mas estou faminto de palavras, de conversas, de letras...
—Pois é, Rospo, pois é. Bem, lá vou eu.
—Yupiiii!
ROSPO 2013 — 860
Marciano Vasques
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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
NAMORAR O LIVRO...
Manhã azul de céu varrido, e lá ia o Rospo rospeando quando encontrou a velha amiga:
—Sapabela!
—Rospo!
—Feliz de ver você.
—Feliz de ver você.
—Meu lindo, é "Feliz por ver você".
—Feliz de ver você é diferente. É algo assim como "Feliz de Poesia", como se um sapo estivesse pleno de algo, que desencadearia uma súbita felicidade. Poderia ser uma referência, um refletor da memória. Uma característica de algo vivido ou intensificadamente desejado, então, poderia ser "Feliz de Santos"...
—Sábio o provérbio popular que diz que "Santo de Casa não faz milagres".
—Eu me referi à cidade de Santos. Mas também poderíamos dizer: "Feliz de rabanadas", "Feliz de macela"...
—Macela?
—Sim, talvez sintomatizado por uma caminhada inesquecível na infância entre anis, alecrim, beirinha de riachinho, gafanhotos saltitantes, orvalho refletindo o arco nas teias que ligam pedras, seixos lisos e úmidos...
—E buscando macela para fazer travesseiro...
—Quem sabe.
—Então hoje você está feliz de mim.
—São meus referenciais, que atuam de forma balsâmica em minha inquieta alma ... Entre eles, você. Sim, estou feliz de ver você, estou feliz de você.
—Rospo, sempre precisamos conhecer alguém de forma mais profunda...
—Gostei disso.
—Sei, sei. Para conhecer alguém de verdade é preciso namorar esse alguém. Não é?
—Sim. É Mia Couto quem disse?
—Não, deve ter sido a ventania, um alvoroço de necessidades conversadeiras, não sei. Mas em algum momento alguém deve ter dito isso.
—Concordo plenamente. Para conhecer alguém é preciso namorar esse alguém...
—Da mesma forma, para conhecer um livro é preciso afagar o livro, encostá-lo ao peito, ao tórax, senti-lo, ler. Só é possível conhecer um livro verdadeiramente após lê-lo, tocá-lo. Um livro ultrapassa a si mesmo... Um livro não é camaleônico, ele se supera porque a história do leitor muda, adquire novos momentos e novos sentires, por isso o livro parece sempre se superar, pois a história do leitor mudou... Dessa forma, insisto, para se conhecer um livro é preciso namorá-lo...E namoro, bem sabe, é ritualístico. Transita da distração, do acaso, para o querer inexplicável...
—Pelo que diz, Sapabela, para sentir é preciso namorar... Sentir no conceito de conhecimento. Não dá para sentir algo desconhecido. No desconhecido só o medo tem vez... A travessia começa no namoro.
—Sim, a grande travessia do Ser... Assim é com tudo que nos é essencial. Namorar a Língua, você sabe...
—Sei, isso um moçambicano falou...
—Pois é, namorar a língua é se apaixonar pelas suas parlendas, pelas suas cantigas, pelas suas ironias, suas figuras, suas metonímias, suas... Enfim, pelos tesouros que só ela nos traz, com sua oralidade e suas escrituras, Língua, você sabe, não aceita opressão, de nada, menos de Gramática, que é sim, sua organização da alma. Mas não alcança jamais a beleza nascida na oralidade dos vilarejos de poeira, nuvens, fumaças azuladas, orvalhos e mormaços... É a necessidade que só é possível na doçura. Gramática que prende só perde, pois as andanças da Língua são invencíveis.
—E o livro?
—Já disse, o livro só pode ser conhecido se existir o namoro. Só o namoro leva ao conhecimento, e só o conhecimento leva ao amor. O verdadeiro amor surge triunfante no conhecimento. O desconhecimento, já mencionei, leva ao temor. Uma vez um menino perguntou a um padre porque deveria temer em vez de apenas amar.
—Sapabela, conversar com você enriquece o meu dia, é como coar o café com palavras...
—Mas fale, querido, dessa coisa de "Estou feliz de você, de ver você"...
—É que levo você comigo. Eu a encontro na manhã, num encantro...
—Encontro, Rospo!
—Encantro, pois é mescla de encanto com encontro...
—Prossiga.
—Encantro você na manhã e a levo comigo. Entendeu? Levar você é o eixo da magia, é a semente.
—Você me leva?
—Levo, pois vai no meu pensamento dia afora, e até quando o anoitecer descer o seu manto lá estará você e essa conversa ressonante em meu coração, em meu pensamento, em minha "necessidade"...
—Levo, pois vai no meu pensamento dia afora, e até quando o anoitecer descer o seu manto lá estará você e essa conversa ressonante em meu coração, em meu pensamento, em minha "necessidade"...
—Fico feliz de saber. Mas nem sei se você me leva, Rospo. Tenho a impressão de que eu o acompanho , eu vou com você, em você, pois afinal permanece em mim também.
—Com a impressão de sapa imprimo todos os ângulos da atenção e do cuidado.
—Rospo, que bom! Que alegria poder conversar com você.
—Viu como só escolho referenciais imensos?
ROSPO 2013 — 859
Marciano Vasques
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sábado, 23 de fevereiro de 2013
A VOZ EMBARCADA
—Sapabela, estou com a voz embarcada...
—Rospo! É voz embargada!
—No meu caso, agora, é embarcada mesmo. Sabe aquela catacrese?
—Pois fale então...
—Embargada é voz emocionada, encharcada de água na sonoridade. A voz embargada tem o timbre do pranto...
—Mas a sua está embarcada...
—Isso! Minha voz já embarcou, está embarcando, está pronta para a conversa. Está rogando pela sua natureza navegante. Acostumou-se com as asas mergulhadoras. Uma voz embarcada é a voz laçada pela conversa. É a voz içada....
—Que lindo, Rospo!
—Sabadoficou?
—Está sonhando? Já é noite de sábado! Daqui a pouco estaremos no domingo da parlenda.
—Noite de sábado! Amo a imensidão sobre nós.
—Pascal!
—Nem tanto, Sapabela. Mas, preciso dizer algo. Tudo que se quer dizer é mais do que apenas vontade, é precisão...
—Precisão é se dizer, se calar permanecerá apenas como necessidade. E você sabe, o que é preciso é retidão, veja os argonautas.
—Minha querida amiga. Você sempre se supera...
—Nem tanto, mas diga o que tanto necessita e transforme seu dizer numa precisão.
—Sobre embarcar na conversa me fez pensar na solicitude da palavra. Como a palavra é arada! Seu sulco é a própria alegria da vida...
—Rospo, diga algo sobre a palavra...
—A palavra é a voz dos tempos a nos dizer que somos mais fortes por cultivá-la...Ela nos remete ao mundo do pensamento, e nos arremessa para a sincronização universal...Seu sumo é a glorificação das angústias que se expandem na edificação da alegria que se expressa.
—Você por acaso bebe nalguma fonte estelar?
—Não, nada. Apenas sigo a orientação inefável.
—Rospo!
—Quer dizer. As noites em que o pensamento viajava na imensidão foram os alicerces de um Ser cujo coração se apega ao que de imenso não se dissipa...
—Rospo, está muito profunda essa conversa. Sinto que se a voz está embarcada, a alma está embargada...
—É, vamos para a alegria. Afinal, uma noite de sábado é sempre única.
—Penso que todas as noites são assim...
—Sapabela, que tal?
—Diga...
—Vamos....
—Aceito!
—Mas nem falei! Eu ia convidá-la para um licor de anis...
—Veja, lá está a padaria Rubi. Olhe como as luzes despencam nas fagulhas de fulgores...
—Minha querida... hoje sua beleza interior está resplandecente...
—E quando se choca com a beleza exterior um alarido de cores e luzes abrilhantam a fonte dos olhares...
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
ROSPO 2013 — 858
Marciano Vasques
—Rospo! É voz embargada!
—No meu caso, agora, é embarcada mesmo. Sabe aquela catacrese?
—Pois fale então...
—Embargada é voz emocionada, encharcada de água na sonoridade. A voz embargada tem o timbre do pranto...
—Mas a sua está embarcada...
—Isso! Minha voz já embarcou, está embarcando, está pronta para a conversa. Está rogando pela sua natureza navegante. Acostumou-se com as asas mergulhadoras. Uma voz embarcada é a voz laçada pela conversa. É a voz içada....
—Que lindo, Rospo!
—Sabadoficou?
—Está sonhando? Já é noite de sábado! Daqui a pouco estaremos no domingo da parlenda.
—Noite de sábado! Amo a imensidão sobre nós.
—Pascal!
—Nem tanto, Sapabela. Mas, preciso dizer algo. Tudo que se quer dizer é mais do que apenas vontade, é precisão...
—Precisão é se dizer, se calar permanecerá apenas como necessidade. E você sabe, o que é preciso é retidão, veja os argonautas.
—Minha querida amiga. Você sempre se supera...
—Nem tanto, mas diga o que tanto necessita e transforme seu dizer numa precisão.
—Sobre embarcar na conversa me fez pensar na solicitude da palavra. Como a palavra é arada! Seu sulco é a própria alegria da vida...
—Rospo, diga algo sobre a palavra...
—A palavra é a voz dos tempos a nos dizer que somos mais fortes por cultivá-la...Ela nos remete ao mundo do pensamento, e nos arremessa para a sincronização universal...Seu sumo é a glorificação das angústias que se expandem na edificação da alegria que se expressa.
—Você por acaso bebe nalguma fonte estelar?
—Não, nada. Apenas sigo a orientação inefável.
—Rospo!
—Quer dizer. As noites em que o pensamento viajava na imensidão foram os alicerces de um Ser cujo coração se apega ao que de imenso não se dissipa...
—Rospo, está muito profunda essa conversa. Sinto que se a voz está embarcada, a alma está embargada...
—É, vamos para a alegria. Afinal, uma noite de sábado é sempre única.
—Penso que todas as noites são assim...
—Sapabela, que tal?
—Diga...
—Vamos....
—Aceito!
—Mas nem falei! Eu ia convidá-la para um licor de anis...
—Veja, lá está a padaria Rubi. Olhe como as luzes despencam nas fagulhas de fulgores...
—Minha querida... hoje sua beleza interior está resplandecente...
—E quando se choca com a beleza exterior um alarido de cores e luzes abrilhantam a fonte dos olhares...
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
ROSPO 2013 — 858
Marciano Vasques
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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
O MAIOR DOUTOR DA VIDA
—Rospo!
—Sapabela!
—Sexta! Viva! Já sabodificando. Mas, preciso falar algo.
—Diga, nega.
—Que gostosura isso! Mas, estou preocupada com a Colibrã.
—O que está acontecendo com ela?
—Anda triste, cabisbaixa, melancólica.
—Diga a ela que deixe para o grande doutor, que passará. As coisas têm uma irresistível tendência para as resoluções.
—É mesmo, Rospo?
—O requisito primordial é acreditar. Mas é crença firme. Rochedo, fortaleza, sobre algo palpável.
—Diga então, quem é esse "grande Doutor"?
—O maior de todos. Seu currículo atravessa gerações, séculos e séculos e séculos.
—Muito bem, a quem se refere?
—Esse doutor cura as mazelas da alma, abre cicatrizes nas fendas mais doloridas, e atenua o impagável sofrimento...
—Sei, certamente está se referindo ao tempo. Nem sabia que ele era um doutor, e assim tão amplamente poderoso.
—O doutor autêntico é humilde, humildade não é negar nem esconder o seu próprio valor. Humildade é despojar-se de toda arrogância, todo estrelismo...
—Compreendo. Então, o doutor é mesmo um grande especialista em dissipar as tristezas, curar as dores da alma... Apagar todos os sofrimentos...
—Não é bem assim, Sapabela. Mas... ele é mesmo bom. Porém, certas dores jamais se vão... Como o sofrimento pela perda de um ser amado. Isso jamais desaparece...O Grande doutor simplesmente acomoda a dor num recanto de tal forma que ela não impeça o renascimento e a sobrevivência do Ser... Mas essa dor jamais se desapegará do coração, apenas ficará "protegida" pelo manto do Doutor Tempo, que a tudo resolve, no seu devido tempo. O Ser é cíclico, palimpsesto, lembra? Nunca mais pronuncie quimeras como "Nunca Mais"...
—Jamais se esquece um amor verdadeiro, não é, Rospo?
—O Doutor Tempo, embora o maior doutor de todos os tempos, ainda não tem esse poder... A dor de uma perda do coração é insubstituível, é indelével. Mesmo nos traços contemporâneos, quando vivemos dias de "amores" descartáveis, acredite, quem perdeu o seu amor, aquele que diz: "Eu sou!", certamente jamais dessa dor irá se desprender.
—Avisarei a Colibrã, para que toque a sua vida e entregue tudo nos braços, isto é, nas asas desse tal Doutor...
—Sim, tudo se ajeitará como a própria vida, que sempre se ajeita.
—A minha vida não tem jeito, Rospo!
—Por isso adoro você.
ROSPO 2013 — 857
Marciano Vasques
—Sapabela!
—Sexta! Viva! Já sabodificando. Mas, preciso falar algo.
—Diga, nega.
—Que gostosura isso! Mas, estou preocupada com a Colibrã.
—O que está acontecendo com ela?
—Anda triste, cabisbaixa, melancólica.
—Diga a ela que deixe para o grande doutor, que passará. As coisas têm uma irresistível tendência para as resoluções.
—É mesmo, Rospo?
—O requisito primordial é acreditar. Mas é crença firme. Rochedo, fortaleza, sobre algo palpável.
—Diga então, quem é esse "grande Doutor"?
—O maior de todos. Seu currículo atravessa gerações, séculos e séculos e séculos.
—Muito bem, a quem se refere?
—Esse doutor cura as mazelas da alma, abre cicatrizes nas fendas mais doloridas, e atenua o impagável sofrimento...
—Sei, certamente está se referindo ao tempo. Nem sabia que ele era um doutor, e assim tão amplamente poderoso.
—O doutor autêntico é humilde, humildade não é negar nem esconder o seu próprio valor. Humildade é despojar-se de toda arrogância, todo estrelismo...
—Compreendo. Então, o doutor é mesmo um grande especialista em dissipar as tristezas, curar as dores da alma... Apagar todos os sofrimentos...
—Não é bem assim, Sapabela. Mas... ele é mesmo bom. Porém, certas dores jamais se vão... Como o sofrimento pela perda de um ser amado. Isso jamais desaparece...O Grande doutor simplesmente acomoda a dor num recanto de tal forma que ela não impeça o renascimento e a sobrevivência do Ser... Mas essa dor jamais se desapegará do coração, apenas ficará "protegida" pelo manto do Doutor Tempo, que a tudo resolve, no seu devido tempo. O Ser é cíclico, palimpsesto, lembra? Nunca mais pronuncie quimeras como "Nunca Mais"...
—Jamais se esquece um amor verdadeiro, não é, Rospo?
—O Doutor Tempo, embora o maior doutor de todos os tempos, ainda não tem esse poder... A dor de uma perda do coração é insubstituível, é indelével. Mesmo nos traços contemporâneos, quando vivemos dias de "amores" descartáveis, acredite, quem perdeu o seu amor, aquele que diz: "Eu sou!", certamente jamais dessa dor irá se desprender.
—Avisarei a Colibrã, para que toque a sua vida e entregue tudo nos braços, isto é, nas asas desse tal Doutor...
—Sim, tudo se ajeitará como a própria vida, que sempre se ajeita.
—A minha vida não tem jeito, Rospo!
—Por isso adoro você.
ROSPO 2013 — 857
Marciano Vasques
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domingo, 17 de fevereiro de 2013
QUE CONTRATO SOCIAL?
—Rospo! Lá vai o domingo...
—Lindo que foi que será...
—Ainda dá tempo pra uma conversinha?
—Sapabela, o Contrato Social não existe...
—Grande descoberta, Rospo!
—Não precisa tirar um sarro, amiga.
—Não existe mesmo. Neste nosso país nunca existiu...
—Que tal um exemplo?
—Manda ver.
—Meu amigo comprou um apartamento.
—Viva!
—A construtora não entregou o imóvel para o financiamento bancário no tempo prometido, e atrasou seis meses.
—Normal.
—O motivo: Não saiu o Habite-se, um documento da Prefeitura.
—Sendo assim, a culpa não é da construtora, é da Prefeitura. Foi isso certamente que a construtora alegou.
—Exatamente. E além disso, foi tendo o reajuste monetário contratual a cada mês, encarecendo mais o imóvel, o que caracteriza vantagem para a construtora se o imóvel atrasar...
—Por culpa da Prefeitura, lógico. É um festival de vantagens para um só lado.
—Pois então...
—Estou curiosa.
—O meu amigo perguntou para eles, da Construtora: "Se eu, que sou Professor, atrasar o pagamento de uma parcela pelo fato de a Prefeitura não depositar o meu pagamento..."
—Sei, sei, Rospo. Nem preciso saber da resposta, pois afinal, bem sabemos, o Contrato Social não existe neste país. O contrato é apenas para assegurar os direitos do mais forte.
—Sapabela, ainda é domingo. Vamos?
—Vamos!
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
—Mas eu quero um licor de anis com pedrinhas de gelo para quebrar o gelo.
—Que gelo?
—Faça-me rir, Rospo, sabe que adoro brincar.
—Seja brincante, sempre, Sapabela. A vida só vale a pena assim.
ROSPO 2013 —856
Marciano Vasques
—Lindo que foi que será...
—Ainda dá tempo pra uma conversinha?
—Sapabela, o Contrato Social não existe...
—Grande descoberta, Rospo!
—Não precisa tirar um sarro, amiga.
—Não existe mesmo. Neste nosso país nunca existiu...
—Que tal um exemplo?
—Manda ver.
—Meu amigo comprou um apartamento.
—Viva!
—A construtora não entregou o imóvel para o financiamento bancário no tempo prometido, e atrasou seis meses.
—Normal.
—O motivo: Não saiu o Habite-se, um documento da Prefeitura.
—Sendo assim, a culpa não é da construtora, é da Prefeitura. Foi isso certamente que a construtora alegou.
—Exatamente. E além disso, foi tendo o reajuste monetário contratual a cada mês, encarecendo mais o imóvel, o que caracteriza vantagem para a construtora se o imóvel atrasar...
—Por culpa da Prefeitura, lógico. É um festival de vantagens para um só lado.
—Pois então...
—Estou curiosa.
—O meu amigo perguntou para eles, da Construtora: "Se eu, que sou Professor, atrasar o pagamento de uma parcela pelo fato de a Prefeitura não depositar o meu pagamento..."
—Sei, sei, Rospo. Nem preciso saber da resposta, pois afinal, bem sabemos, o Contrato Social não existe neste país. O contrato é apenas para assegurar os direitos do mais forte.
—Sapabela, ainda é domingo. Vamos?
—Vamos!
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
—Mas eu quero um licor de anis com pedrinhas de gelo para quebrar o gelo.
—Que gelo?
—Faça-me rir, Rospo, sabe que adoro brincar.
—Seja brincante, sempre, Sapabela. A vida só vale a pena assim.
ROSPO 2013 —856
Marciano Vasques
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sábado, 16 de fevereiro de 2013
DE CONVERSA EM CONVERSA
—Um livro é sempre mais...
—Rospo, gostei desse começo.
—Foi a fecundação, agora a conversa é gestada pelo interesse e o resto é só crescer, de forma educada.
—Forma educada? Gosto disso, pois sei que no seu entendimento não é recusar as belezas e as alegrias do mundo.
—Nem pensar, querida. Quero mesmo é viver intensamente cada alegria. A alegria que a amizade traz, o caminhar, o gosto de tecer...
—Prossiga, meu nego.
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
—Rospo!
—Está bem, prossigo, é que fiquei subitamente feliz com a forma amorosa com a qual me tratou.
—Certo, mas fala do livro.
—O livro é sempre mais. Sempre! Ele é muito mais. Antes de seu destino que é o olhar sedento da aventura de crescer, pois para isso é ele, e não para ser empoeirado...
—Muito bem. Um livro entrelaça vários momentos...
—Ele é sempre muito, muito mais. Sempre, ele é como um sapo, uma sapa: você vê aquele rosto e aquele sapo não é apenas aquele momento... ele é uma trajetória, uma história...
—Isso me lembrou Ecléa Bosi.
—Que bom! Por isso adoro conversar com você. Conversas são tesouros preciosos, acumulados na memória afetiva de alguém. Conversa, eu diria, é altamente revolucionária. Se você realmente embarcar numa conversa....
—Adoro essa catacrese...
—Pois então, como é benéfico conversar! Como é produtivo e como é saudável para o intelecto!...
—A conversa educa uma vida, não é?
—Tece rumos, reorganiza...
—Para uma conversa precisa audácia...
—Ampliação de repertório...
—Desvencilhar-se da preguiça... O repertório existe, pois uma vida é feita de entrelaçamentos que representam a seiva de um vocabulário amoroso e amplo...
—Vai fundo, Rospo!
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
—Por que fui falar isso?
—Sapabela, a conversa conduz, representa a própria voz daquele que conduz, essa voz é voz cega, que vai tateando os assuntos que vão surgindo e abrindo o dourado brilho do Sol feito rabanada nos olhos apaixonadinhos da meninazinha diante do aroma soberano de sua infância, ou o bolo feito com amor, destreza e delicadeza pela sapa ou pelo sapo responsável pela condução sensível da infância... Tem um ditado que diz: "Na boa conversa que converso até a rudeza vira verso"
—Um pouquinho mais, Rospo!, que sou criança também.
—Aletria, alfenim... lá vou, lá vou, trançar minha conversa na cabocla gentileza de um anoitecer de sábado.
—Não sei onde vive, Rospo! Ouça lá fora: não é tilintar das estrelas, não é o grilo, não é o som da canção que o vento despeja em nossa alma, é o quê? É o som raivoso, persistente e insensato de um motoqueiro, um som cada vez mais arrogante, que em círculos vai atazanando... Ah, Rospo, a rua nem é mais da ciranda faz tempo!...
—Sapabela, certas coisas só voltam se brotarem ou se instalarem em você, e só em você elas podem vicejar. O poder da transformação é infinito. Mas esse infinito, já diziam os mestres nas vozes dos tempos... Esse infinito está em você, pois em você erguem-se todos os reinos.
—Rospo, essa conversa atiçou um licor de anis...
—Licor de anis? Oh, que sapo feliz eu sou.
—Sei lá, é meio maluco...
—Lua minha, minha lua, vamos viver como ciganos brilhantes bailando num campo...
—Tudo é possível, meu bem. Quando se quer, só não pode se esquecer de que o querer é irmão do agir, do lutar, o querer só, por si, é inócuo, é ilusório. Ele é forte sim, por isso se diz: "Querer é poder!", isso só vale para quem entender que querer é sinônimo de fazer, de buscar, de lutar...Chegamos! Cá estamos na Padaria Rubi. Vai, Rospo!
—Ô camarada! Meu querido! Um licor de anis aqui pra sapa e um para mim.
—E não se esqueça, hoje é sábado: é noite de de canções, abraços, beijos, e muita doçura, muita amizade e muita alegria.
—É isso aí! Noite de sábado imita as outras noites da semana.
—Essa moça é forte, amigo.
—Sapabela, simplesmente Sapabela...
—Eu mesma!
ROSPO 2013 — 855
Marciano Vasques
—Rospo, gostei desse começo.
—Foi a fecundação, agora a conversa é gestada pelo interesse e o resto é só crescer, de forma educada.
—Forma educada? Gosto disso, pois sei que no seu entendimento não é recusar as belezas e as alegrias do mundo.
—Nem pensar, querida. Quero mesmo é viver intensamente cada alegria. A alegria que a amizade traz, o caminhar, o gosto de tecer...
—Prossiga, meu nego.
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
—Rospo!
—Está bem, prossigo, é que fiquei subitamente feliz com a forma amorosa com a qual me tratou.
—Certo, mas fala do livro.
—O livro é sempre mais. Sempre! Ele é muito mais. Antes de seu destino que é o olhar sedento da aventura de crescer, pois para isso é ele, e não para ser empoeirado...
—Muito bem. Um livro entrelaça vários momentos...
—Ele é sempre muito, muito mais. Sempre, ele é como um sapo, uma sapa: você vê aquele rosto e aquele sapo não é apenas aquele momento... ele é uma trajetória, uma história...
—Isso me lembrou Ecléa Bosi.
—Que bom! Por isso adoro conversar com você. Conversas são tesouros preciosos, acumulados na memória afetiva de alguém. Conversa, eu diria, é altamente revolucionária. Se você realmente embarcar numa conversa....
—Adoro essa catacrese...
—Pois então, como é benéfico conversar! Como é produtivo e como é saudável para o intelecto!...
—A conversa educa uma vida, não é?
—Tece rumos, reorganiza...
—Para uma conversa precisa audácia...
—Ampliação de repertório...
—Desvencilhar-se da preguiça... O repertório existe, pois uma vida é feita de entrelaçamentos que representam a seiva de um vocabulário amoroso e amplo...
—Vai fundo, Rospo!
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
—Por que fui falar isso?
—Sapabela, a conversa conduz, representa a própria voz daquele que conduz, essa voz é voz cega, que vai tateando os assuntos que vão surgindo e abrindo o dourado brilho do Sol feito rabanada nos olhos apaixonadinhos da meninazinha diante do aroma soberano de sua infância, ou o bolo feito com amor, destreza e delicadeza pela sapa ou pelo sapo responsável pela condução sensível da infância... Tem um ditado que diz: "Na boa conversa que converso até a rudeza vira verso"
—Um pouquinho mais, Rospo!, que sou criança também.
—Aletria, alfenim... lá vou, lá vou, trançar minha conversa na cabocla gentileza de um anoitecer de sábado.
—Não sei onde vive, Rospo! Ouça lá fora: não é tilintar das estrelas, não é o grilo, não é o som da canção que o vento despeja em nossa alma, é o quê? É o som raivoso, persistente e insensato de um motoqueiro, um som cada vez mais arrogante, que em círculos vai atazanando... Ah, Rospo, a rua nem é mais da ciranda faz tempo!...
—Sapabela, certas coisas só voltam se brotarem ou se instalarem em você, e só em você elas podem vicejar. O poder da transformação é infinito. Mas esse infinito, já diziam os mestres nas vozes dos tempos... Esse infinito está em você, pois em você erguem-se todos os reinos.
—Rospo, essa conversa atiçou um licor de anis...
—Licor de anis? Oh, que sapo feliz eu sou.
—Sei lá, é meio maluco...
—Lua minha, minha lua, vamos viver como ciganos brilhantes bailando num campo...
—Tudo é possível, meu bem. Quando se quer, só não pode se esquecer de que o querer é irmão do agir, do lutar, o querer só, por si, é inócuo, é ilusório. Ele é forte sim, por isso se diz: "Querer é poder!", isso só vale para quem entender que querer é sinônimo de fazer, de buscar, de lutar...Chegamos! Cá estamos na Padaria Rubi. Vai, Rospo!
—Ô camarada! Meu querido! Um licor de anis aqui pra sapa e um para mim.
—E não se esqueça, hoje é sábado: é noite de de canções, abraços, beijos, e muita doçura, muita amizade e muita alegria.
—É isso aí! Noite de sábado imita as outras noites da semana.
—Essa moça é forte, amigo.
—Sapabela, simplesmente Sapabela...
—Eu mesma!
ROSPO 2013 — 855
Marciano Vasques
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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
LAÇAROTE PARA O SÁBADO
—Rospo, hoje é sexta! Viva!
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
—Comece com o verbo, que minha alma já está sabadoficando de tanto almejar conversa. Isso é uma alegria sem tamanho> Não haverá remorsos entre os justos.
—O ébrio do brio.
—Fale, querido, fale.
—Muitas vezes, no breu das incertezas e das indecisões são os sapos arrastados...E se deixam embaralhar no ébrio do brio, quando estão pois bêbados de si. Orgulho, raça, alegria e força. Viva o vento na face, viva o poema lusitano e o poema de todos os povos. A confusão se dá por que a varejeira do cotidiano deixa o olhar empoeirado ou nublado, e então se diz que é ego ou vaidade coisas como a fortaleza da crença em sua própria altivez, e o orgulho pela obra que o amor produz.
—Muito bem, aplaudo e já vou compreender...
—Para você, que um dia encontrei num semáforo da Avenida dos Pêssegos distribuindo folhetos falando de meu novo livro, na mais clara e linda demonstração de amizade, para você eu posso falar.
—Não vejo de outra forma, Rospo. Quando um amigo lança um livro, ou um disco, isso é de uma importância extraordinária. E temos sim que ampará-lo e divulgar entre todos esse acontecimento brilhante. Se ficarmos em silêncio, sem ao menos "curtir", na Rede, isso demonstrará uma criatura medonha, que insiste em sobreviver. Temos sempre que ultrapassar os nossos bloqueios em função não apenas da Literatura, da Música, da Arte, mas sim pela preservação de algo inestimável, que é o sentido real da amizade. Tudo é importante, uma festinha de aniversário, tudo, tudo e tudo, e o lançamento de um livro é algo que merece todo esforço e toda dedicação de nossa parte.
—Muito bem, Sapabela, sua palavra está tinindo hoje.
—A palavra abre.
—A conversa é altamente revolucionária, linda. Se os sapos soubessem, voltariam para a conversa.
—É preciso como uma retidão norteadora a precisão necessária da conversa. Solta, festa no ar. Flor da manhã. A precisão necessária é o rogo imperativo. Que falta nos faz!
—Pois eu adoro conversa, e vou nessa!
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
—Rospo, Viva!
ROSPO 2013 — 854
Marciano Vasques
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
—Comece com o verbo, que minha alma já está sabadoficando de tanto almejar conversa. Isso é uma alegria sem tamanho> Não haverá remorsos entre os justos.
—O ébrio do brio.
—Fale, querido, fale.
—Muitas vezes, no breu das incertezas e das indecisões são os sapos arrastados...E se deixam embaralhar no ébrio do brio, quando estão pois bêbados de si. Orgulho, raça, alegria e força. Viva o vento na face, viva o poema lusitano e o poema de todos os povos. A confusão se dá por que a varejeira do cotidiano deixa o olhar empoeirado ou nublado, e então se diz que é ego ou vaidade coisas como a fortaleza da crença em sua própria altivez, e o orgulho pela obra que o amor produz.
—Muito bem, aplaudo e já vou compreender...
—Para você, que um dia encontrei num semáforo da Avenida dos Pêssegos distribuindo folhetos falando de meu novo livro, na mais clara e linda demonstração de amizade, para você eu posso falar.
—Não vejo de outra forma, Rospo. Quando um amigo lança um livro, ou um disco, isso é de uma importância extraordinária. E temos sim que ampará-lo e divulgar entre todos esse acontecimento brilhante. Se ficarmos em silêncio, sem ao menos "curtir", na Rede, isso demonstrará uma criatura medonha, que insiste em sobreviver. Temos sempre que ultrapassar os nossos bloqueios em função não apenas da Literatura, da Música, da Arte, mas sim pela preservação de algo inestimável, que é o sentido real da amizade. Tudo é importante, uma festinha de aniversário, tudo, tudo e tudo, e o lançamento de um livro é algo que merece todo esforço e toda dedicação de nossa parte.
—Muito bem, Sapabela, sua palavra está tinindo hoje.
—A palavra abre.
—A conversa é altamente revolucionária, linda. Se os sapos soubessem, voltariam para a conversa.
—É preciso como uma retidão norteadora a precisão necessária da conversa. Solta, festa no ar. Flor da manhã. A precisão necessária é o rogo imperativo. Que falta nos faz!
—Pois eu adoro conversa, e vou nessa!
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
—Rospo, Viva!
ROSPO 2013 — 854
Marciano Vasques
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
CORAÇÕES DESPREPARADOS
—Rospo! Como vai o seu coração?
—Despreparado...
—Como assim?
—O meu coração não está preparado para certas coisas...
—Por exemplo?
—Despreparado...
—Como assim?
—O meu coração não está preparado para certas coisas...
—Por exemplo?
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domingo, 10 de fevereiro de 2013
sábado, 9 de fevereiro de 2013
REVENDO SAPABELA
—Um vinco na vida precisamos ter às vezes. Vinco, vinho, tudo de bom...
—Uau! Nos trinques! Chegou sabadoficado coração já na sexta...
—Uau! Nos trinques! Chegou sabadoficado coração já na sexta...
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ROSPO 2013
sábado, 26 de janeiro de 2013
REENCONTRO
—Pra regozijo pequeno vale a pena não.
—Essa voz!
—Só vale para alegria imensa.
—Rospo!
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
—Essa voz!
—Só vale para alegria imensa.
—Rospo!
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
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ROSPO 2013
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
MANEQUIM
MANEQUIM
Manequim, olhe pra mim!
Você não sente raiva nem dor,
Alegria, temor...
Não fica triste nem chora assim.
Não faz pergunta nem incomoda.
Não leva bronca nem cara feia.
E ainda veste roupa da moda
—Bonito blazer, bonita meia.
Não sente fome nem faz pirraça.
Nem tem nome e nem insiste.
Pensando bem, você não tem graça.
Acho até que nem existe!
Não faz sequer xixi na cama.
Não tem irmão para brigar.
Não sofre e nem reclama.
Não salta, não cai. Nem sabe escorregar!
Parece até zombar de mim!
Chamando mais a atenção
Do que um menino triste assim,
Parado no calçadão.
Esta vitrine toda sua,
Recebe chuva de olhares.
Dos que vão na rua,
De volta aos seus lares...
Nunca tem nada a dizer.
Não pisca nem lágrimas tem.
Você não é pra valer.
É um boneco. Não é ninguém.
Desconhece o que é dar valor.
Seus olhos não ardem na poluição.
Mas eu só peço um favor:
—Não me abandone na solidão!
Marciano Vasques
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PALAVRAS AZUIS 2013
domingo, 13 de janeiro de 2013
ALFABETIZAÇÃO DE SI
—Sapabela!
—Rospo! Que bom que ligou! Alguma novidade, além do frio?
—Está mesmo um pouco frio. Sapabela, que tal se fôssemos...
—Eu topo!
—Que rápidez!
—Você passa em meu portão?
—Já estou indo!
—Vou só pôr um vestidinho lilás e...
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
—Rospo! Pare com isso!, e venha logo. Esqueci de perguntar: aonde iremos?
—Esqueci de perguntar também. Mas, que tal um licor assim de anis, afinal o frio entardece inspirado...
—Pode vir, que quando chegar já estarei no portão.
****
—Rospo!
—Linda! Vamos, que o frio pede uma caminhada. A padaria Rubi deve estar repleta de luzes...
—Rospo, estive pensando: um sapinho é batizado com a palavra do mundo, e nela, ele encontra a poesia, que estará sempre piscando para ele, que se tiver as condições e as circunstâncias adequadas, poderá tê-la em si como a testemunha mais sagrada de seu batismo poético tal como sussurram as vozes do tempo...
—Por isso gosto do frio. A alma se busca e rebusca em seus próprios recursos... Prossiga.
—Depois, o sapinho cresce, e precisa colher as sementes da poesia na chuva, nas deslizantes gotas da vidraça, no som dos grilos, nos laçarotes do luar e no chamamento das estrelas.
—Vai fundo, Sapabela!
—Eu?
—Faça-me rir.
—Pois bem, a luta será terrível e gigantesca a vida inteira, pois o que é a vida senão luta? Por isso o sapo precisa aprender a organizar o lazer. Esse será o seu aprendizado de uma vida inteira...
—Essa coisa de "Uma vida inteira" está me fazendo pensar em Manuel Bandeira...
—Esses caras estarão sempre presente, se você se descuida está roçando em Guimarães Rosa... Em Manuel Bandeira, em...
—Prossiga, minha nega...
—Como é lindo isso!, como é amoroso esse "Minha nega"!... Adoro isso, essa face da história amorosa do Brejo...
—Prossiga.
—Pois bem, a chuva, a delicadeza, a oportunidade de observar as coisas que repousam, que se perdem, que estão ao redor, em todas as partes, e o sorriso de uma criança, o olhar da companheira, a palavra serena do amigo, a gentileza, a ternura, o giz, os corações de gizes por esses sertões afora, a poesia latente, as mais doces canções, as cantigas nas vozes suaves da infância, as amizades, em cada a amigo o trago, e o trigo a nos lembrar do campo, dos canaviais, e Roberto Piva, e Eugénio de Andrade, e tudo isso, Rospo, tudo isso...
—Sim, Sapabela?
—É a alfabetização de si.
—Alfabetização de si?
—Sim, a partir do batismo poético no riacho das águas da palavra do mundo, o sapo tem que se preparar a vida inteira para alfabetizar o mundo, fazer jorrar através de si a força generosa da poesia...
—E então?
—Então, a partir da observação e da assimilação ou da escolha do que é para si a poesia, que é o grau primeiro da liberdade, então, a partir do que é simples, e que a vida oferece com ternura, como o bolo preparado com carinho e seu aroma invadindo as ruas dos vilarejos mais distantes, e também a flor que enfeita o cabelo da menina e a amizade sincera, a partir dessas coisas, com certeza o sapo está efetuando, isto é, rasgando o seu peito e abrindo o seu coração para a alfabetização de si, que é o princípio generoso de tudo.
—Sapabela, você é uma amplitude que não posso resistir...
—Como assim?
—Além da sua presença, a presença do que através de você me ensina...
—Rospo! Chegamos!
—Viva! Sapabela, lindo seu vestidinho...
—Fico feliz que tenha gostado...
—Essas nuances verdes, uma beleza...
—Espere um pouco amigo!: nuance verdes? O que está vendo de verde sou eu. O vestidinho é lilás...
—É mesmo! Bem, chegamos, viva a padaria Rubi! Viva o licor de anis! E viva a sua conversa... Vou levá-la comigo, pois assim que tem que ser: uma conversa boa de um amigo é presente que se leva para casa.
—Rospo, obrigado por ser meu amigo.
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
—Sem escarcéu, por favor!
ROSPO 2013 — 849
Marciano Vasques
—Rospo! Que bom que ligou! Alguma novidade, além do frio?
—Está mesmo um pouco frio. Sapabela, que tal se fôssemos...
—Eu topo!
—Que rápidez!
—Você passa em meu portão?
—Já estou indo!
—Vou só pôr um vestidinho lilás e...
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
—Rospo! Pare com isso!, e venha logo. Esqueci de perguntar: aonde iremos?
—Esqueci de perguntar também. Mas, que tal um licor assim de anis, afinal o frio entardece inspirado...
—Pode vir, que quando chegar já estarei no portão.
****
—Rospo!
—Linda! Vamos, que o frio pede uma caminhada. A padaria Rubi deve estar repleta de luzes...
—Rospo, estive pensando: um sapinho é batizado com a palavra do mundo, e nela, ele encontra a poesia, que estará sempre piscando para ele, que se tiver as condições e as circunstâncias adequadas, poderá tê-la em si como a testemunha mais sagrada de seu batismo poético tal como sussurram as vozes do tempo...
—Por isso gosto do frio. A alma se busca e rebusca em seus próprios recursos... Prossiga.
—Depois, o sapinho cresce, e precisa colher as sementes da poesia na chuva, nas deslizantes gotas da vidraça, no som dos grilos, nos laçarotes do luar e no chamamento das estrelas.
—Vai fundo, Sapabela!
—Eu?
—Faça-me rir.
—Pois bem, a luta será terrível e gigantesca a vida inteira, pois o que é a vida senão luta? Por isso o sapo precisa aprender a organizar o lazer. Esse será o seu aprendizado de uma vida inteira...
—Essa coisa de "Uma vida inteira" está me fazendo pensar em Manuel Bandeira...
—Esses caras estarão sempre presente, se você se descuida está roçando em Guimarães Rosa... Em Manuel Bandeira, em...
—Prossiga, minha nega...
—Como é lindo isso!, como é amoroso esse "Minha nega"!... Adoro isso, essa face da história amorosa do Brejo...
—Prossiga.
—Pois bem, a chuva, a delicadeza, a oportunidade de observar as coisas que repousam, que se perdem, que estão ao redor, em todas as partes, e o sorriso de uma criança, o olhar da companheira, a palavra serena do amigo, a gentileza, a ternura, o giz, os corações de gizes por esses sertões afora, a poesia latente, as mais doces canções, as cantigas nas vozes suaves da infância, as amizades, em cada a amigo o trago, e o trigo a nos lembrar do campo, dos canaviais, e Roberto Piva, e Eugénio de Andrade, e tudo isso, Rospo, tudo isso...
—Sim, Sapabela?
—É a alfabetização de si.
—Alfabetização de si?
—Sim, a partir do batismo poético no riacho das águas da palavra do mundo, o sapo tem que se preparar a vida inteira para alfabetizar o mundo, fazer jorrar através de si a força generosa da poesia...
—E então?
—Então, a partir da observação e da assimilação ou da escolha do que é para si a poesia, que é o grau primeiro da liberdade, então, a partir do que é simples, e que a vida oferece com ternura, como o bolo preparado com carinho e seu aroma invadindo as ruas dos vilarejos mais distantes, e também a flor que enfeita o cabelo da menina e a amizade sincera, a partir dessas coisas, com certeza o sapo está efetuando, isto é, rasgando o seu peito e abrindo o seu coração para a alfabetização de si, que é o princípio generoso de tudo.
—Sapabela, você é uma amplitude que não posso resistir...
—Como assim?
—Além da sua presença, a presença do que através de você me ensina...
—Rospo! Chegamos!
—Viva! Sapabela, lindo seu vestidinho...
—Fico feliz que tenha gostado...
—Essas nuances verdes, uma beleza...
—Espere um pouco amigo!: nuance verdes? O que está vendo de verde sou eu. O vestidinho é lilás...
—É mesmo! Bem, chegamos, viva a padaria Rubi! Viva o licor de anis! E viva a sua conversa... Vou levá-la comigo, pois assim que tem que ser: uma conversa boa de um amigo é presente que se leva para casa.
—Rospo, obrigado por ser meu amigo.
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
—Sem escarcéu, por favor!
ROSPO 2013 — 849
Marciano Vasques
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ROSPO 2013
sábado, 12 de janeiro de 2013
O AMIGO DAS COISAS
Rospo encontra um colega.
—Como vai, Sapoter?
—Estou pensando em comprar um carro.
—Outro?
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ROSPO 2013
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
A PROPAGANDA É A ALMA DA ÉPOCA
Propaganda é a alma do negócio. E é a alma da época. Essa segunda afirmativa inventei nos velhos idos.
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CASA AZUL DE PALAVRAS
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
A CARTILHA DO AMOR
—Com licença, senhora!
—Eu o conheço, Sapo?
—É Rospo o meu nome.
—E daí?
—Eu o conheço, Sapo?
—É Rospo o meu nome.
—E daí?
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HISTÓRIAS DO ROSPO 2012
sábado, 5 de janeiro de 2013
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
AS GARATUJAS DA SAPINHA
—Sapabela! Sei que adora pintura e é uma grande apreciadora da arte, mas não entendi esse quadro.
—Qual, Rospo?
—Qual, Rospo?
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terça-feira, 1 de janeiro de 2013
ANUNCIANDO A DESINTOXICAÇÃO
—Desintoxicar a alma. Urgente! Nova modalidade: 2013.
—Rospo, aonde está indo com essa tabuleta? Por acaso está vendendo algum produto? Algum elixir? Um livro novo?
—Não estou vendendo nada, Sapabela. Estou apenas anunciando...
—Desintoxicação da alma? O que é isso?
—Rospo, aonde está indo com essa tabuleta? Por acaso está vendendo algum produto? Algum elixir? Um livro novo?
—Não estou vendendo nada, Sapabela. Estou apenas anunciando...
—Desintoxicação da alma? O que é isso?
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