
Numa bela manhã ensolarada, Laio tomou por esposa a filha de Meneceu, a bela rainha Epicasta, apelidada de Jocasta.
Laio, ao receber a notícia da gravidez da esposa, foi ao Oráculo de Delfos para saber sobre o destino do filho.
O Oráculo deu a notícia que um pai jamais queria ouvir:
- Ela terá um filho que o matará e se casará com a própria mãe.
O choro de Jocasta invadiu o ar e entristeceu o dia.
Insuportável acreditar que o fruto de seu ventre teria um destino tão trágico, melhor não acreditar nos deuses, pois tal previsão é injustificada.
Tentou abortar.
- Vamos aguardar, não é justo você matar o próprio filho. Talvez a previsão não se cumpra ou talvez nasça uma menina. Sim, uma menina evitaria a tragédia, não faça nada, querida, vamos esperar...
Vendo o quanto o pensamento de Laio era prudente e sensato, Jocasta decidiu seguir a sua vontade e desistiu do aborto. Não mataria mais o filho antes do nascimento.
No parto, o pai pega o filho e não deixa Jocasta ver, entrega-o para um escravo, após colocar a criança num cesto.
- Era um menino! – disse, ao ver que Jocasta procurava ansiosamente ver o filho.
As lágrimas da mãe encheram de dor o coração de Laio, mas não havia outra alternativa. Precisava se livrar daquela criança, para evitar a tragédia anunciada pelo Oráculo.
O escravo levou a criança para o monte Citéron. A cada passo, a sua indecisão aumentava. O seu coração apertava. Não se conformava com a missão que recebera do amo. Como poderia matar uma pobre e indefesa criança? Como poderia tirar a vida de alguém que nenhum mal fez ao mundo?
Não poderia cumprir tal tarefa.
Não teve coragem de matar o bebê.
O bondoso escravo, com os olhos marejados, perguntava ao pequeno:
- Como posso fazer para salvá-lo? Diga, meu querido! Por favor... Não faça isso com esse pobre homem...
Como não teve a coragem de matar a criança, decidiu aleijá-la.
- Sim, querido, vou aleijá-lo para salvá-lo...
Perfurou os calcanhares da criança.
Abandonou-a no cesto, na beira do rochedo.
Prometeu, atrás de uma rocha via tudo.
- “Como são tolos os homens!” – pensou o titã.
- “A vontade modifica a profecia. A vontade divina pode ser modificada pela ação do homem, mas ele não sabe, e se entrega, se abandona diante de uma simples profecia, mal sabe que com essa atitude, traça o rumo da profecia. Se quiser, pode invalidá-la”.
Um pastor aparece.
Prometeu observa.
O pastor recolhe a criança. Entrega-a para a esposa, que a amamenta.
O bebê é amamentado pela esposa de Forbas, o pastor.
- Ele se chamará Édipo.
A criança trouxe dias de felicidade para o casal, mas, impossibilitado de criá-la, decidem entregá-la para alguém. Vão à Corinto.
O pastor entrega o pequeno Édipo para Pólibo, rei de Corinto.
Acreditando que a criança fora enviada pelos deuses, Pólibo a recebe e providencia os cuidados. O pequeno é tratado pelos médicos da corte, e cresce amado pelos pais e pelo povo de Corinto.
Pólibo e Mérope não descuidam um só dia da educação e do desenvolvimento afetivo de Édipo.
Na adolescência, Édipo foi ao Oráculo de Delfos.
O que ouve acaba prematuramente com a sua paz. O que fazer diante de uma previsão como a que o Oráculo lhe revela?
Melhor não acreditar, mas Édipo acreditou.
- “Você está condenado a matar o próprio pai e se casar com a mãe!”.
Apavorado, Édipo quis contornar o destino anunciado pelo oráculo.
Não voltou mais ao Corinto.
Decidiu tomar outro caminho. Montou em seu cavalo e seguiu rumo oposto ao da sua cidade.
No caminho encontrou uma carruagem.
Seu bastão caiu. Ele parou o cavalo e desceu.
Como sempre, enfrentou dificuldades para montar no animal.
O cocheiro o maltratou e quis afastá-lo.
- Seu manco desgraçado! Saia do caminho!
Furioso, Édipo o matou.
O rei Laio saltou da carruagem e o atacou.
Com um bastão matou o rei e um escravo, que desceu em sua defesa.
O último dos passageiros, um escravo, conseguiu fugiu e, covardemente, abandonou os outros.
Ao chegar em Tebas, o escravo, para ocultar a sua covardia, adulterou o acidente e forjou uma narrativa. Inventou os bandoleiros, dizendo que a carruagem fora atacada por um grupo em vez de apenas uma pessoa.
O protagonista das mortes da carruagem decide tomar o caminho para Tebas. Encontra um ancião.
- Não vá para Tebas!
- Por que não devo ir para Tebas?
- Por causa da esfinge.
- Esfinge?
- Um monstro que guarda a entrada de Tebas. Metade mulher, metade leão, com alto poder destrutivo. Propõe enigmas indecifráveis. É terrível! Ninguém decifra os seus enigmas. Todos os jovens que tentam entrar em Tebas são mortos.
Ao chegar nos portões da cidade, Édipo encontra a terrível criatura que lhe propõe um enigma.
Édipo consegue decifrá-lo.
A esfinge derrotada se atira de um rochedo. Édipo destruiu o monstro.
Entra em Tebas aclamado pelo povo.
Levado à presença de Creonte, o irmão de Jocasta, que assumira o trono após a morte de Laio, o recém-chegado se apresenta:
- Sou Édipo, de Corinto.
- Você será condecorado. Além disso, a mão de Jocasta estava prometida para aquele que conseguisse matar a Esfinge.
Édipo e Jocasta se casam.
Festa simples por causa da recente morte de Laio.
Nos aposentos, Édipo é seduzido pela beleza da mulher que ignora ser a própria mãe.
- “Como é bela! Como é atraente!”
- “Procure a mulher dentro de si!” – ouve uma estranha voz.
- O que foi, querido?
- Devo estar perturbado com a sua beleza...
- “Você é muito jovem. Deve ter sido enviado pelos deuses!”
Os amantes vivem a sua primeira noite.
Felicidade.
A felicidade às vezes é um enigma indecifrável.
Tiveram filhos: Polinice, Ismênia, Etéocles e Antígona.
Todos os filhos são iguais em amor, mas Édipo sempre foi muito apegado à Antígona.
Prosperidade em Tebas.
A cidade se desenvolveu e o povo viveu em felicidade.
Um dia algo terrível desabou sobre todos.
Uma peste arrasou a cidade.
O povo foi dizimado. A fome se alastrou como um monstro voraz, a aridez a tudo assolou.
Destruição.
O Oráculo: - “A peste é uma vingança divina. Um alerta”
- “O que isso significa?”- perguntou, Édipo, incrédulo.
- “Não foi vingada a morte de Laio”- resposta do Oráculo.
Édipo foi ao adivinho Tirésias.
- “Édipo, rei de Tebas, matou o rei Laio, seu pai, e se casou com a própria mãe.”
O adivinho nunca falhou.
Édipo discute com Tirésias. Creonte interfere. Jocasta conciliadora, afasta Édipo de Tirésias e Creonte e termina com a discussão.
À noite, Édipo conta a Jocasta sobre a previsão do Oráculo e sobre as palavras de Tirésias.
- Laio matou o próprio filho no monte Citéron e recentemente foi assassinado por um grupo de bandoleiros saqueadores.- retruca Jocasta.
Édipo, intrigado com a previsão do Oráculo e com a revelação do famoso adivinho, manda chamar o escravo que contou a história dos bandoleiros que atacaram a carruagem e mataram o rei.
O escravo é buscado no campo.
Um mensageiro de Corinto chega anunciando a morte de Pólibo.
- “Sua mãe Mérope quer a sua volta, o seu retorno.
- Não posso retornar. Aqui é o meu lugar, ao lado de Jocasta, ao lado dos tebanos, meus fieis amigos.
- Você não é filho de Pólibo. Foi recolhido por ele das mãos de um pastor".
Édipo estremece.
O escravo chega.
- Jamais disse a alguém que foi o meu amado rei que matou Laio. Fui um covarde abandonando os companheiros mortos e para esconder essa minha covardia, inventei a história dos bandoleiros.
Transtornado, Édipo principia a chorar.
- Fui eu que fiz essas marcas nos seus pés! – disse o escravo.
- Chega! Já não me bastam as outras dores? O que mais tem para me revelar? Saia daqui. Deixe-me em dores.
- Perdão. Não pude matá-lo! Como pode ver, sempre me faltou a coragem. Naquele dia não suportei o seu choro e não tive coragem de matar um pobre bebê e o deixei abandonado num cesto, porém fiz as marcas em seus pés para que nunca fosse identificado. Perdão.
Com o rosto encharcado de lágrimas, foi ao encontro de Jocasta, passando pela amada filha Antígona, que o olhou com olhar invadido por uma profunda tristeza.
Encontrou Jocasta sobre o leito. Ao se aproximar viu que estava morta, enforcada.
Antígona, que o seguiu, banhou o rosto de pavor ao ver a cena mais cruel da sua vida: um homem manco, desesperado, chorando inconsolável diante do corpo sem vida da mãe. Desesperado, arrancou um broche de Jocasta e rasgou os próprios olhos.
Aquele que nunca conseguiu ver as coisas que se apresentavam em sua vida, agora estava cego.
- Sou um incestuoso assassino!
- Não! Você é meu pai. É isso que você é, o meu pai querido.
Pai e filha se abraçam num charco de lágrimas que almas feridas costumam presentear aos olhos.
- Irei com você,- diz Antígona, decidida-, irei com você, meu querido pai! Estarei sempre ao seu lado. Onde você estiver, estará Antígona.
A fortaleza da voz da filha perfura o bloqueio da dor de seu coração e Édipo se reanima.
Passam pela multidão, que num comovido silêncio, abrem passagem para um manco cego abraçado com uma moça que a cidade aprendera a respeitar.
Antígona e Édipo deixam Tebas.
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ÉDIPO: Recontado por Marciano Vasques
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