terça-feira, 11 de junho de 2013

A PRIMEIRA VEZ DESNECESSÁRIA

—Rospo!
—Sapabela! Saudades! Estava necessitando mesmo de uma fábula!
—Lindo!
—O que tem para conversar?
—Pra conservar?
—Isso! Que conversa conserva!
—E se conversa com verso, melhor ainda!
—Então, vamos!
—Queria falar sobre a primeira vez.
—Esse assunto me interessa muito!
—Mas pode tirar o corcel do temporal. O que quero falar é sobre a primeira vez na rotina das coisas que são... E você sabe, precisa de uma boa retina para esmiuçar a rotina.
—Uma palavra aconchegante sempre retine em nossas conversas.
—E não se esqueça: aconchegante é sinônimo de precioso.
—Menina!
—Pois quero então falar sobre a primeira vez no cotidiano.
—Comece, por favor.
—Um sapo jamais deveria xingar uma sapa pela primeira vez num relacionamento amoroso ou rotineiro.
—E nem a sapa gritar.
—Com efeito. Eis ai dois exemplos de acontecimentos que jamais deveriam ter a sua primeira vez. Um  simples descaso... Não suporto descaso! Se caso e tem descaso descaso.
—Prossiga minha colorida amiga.
—Aprecia minhas roupas, Rospo?
—Sim, demais. Porém, prossiga.
—Descaso, gritos, xingares, desatenção, enfim, os venenosos estilhaços do abandono na rotina dos dias...
—Todavia, e se aconteceu, Sapabela?
—O sapo ou a sapa não devem ficar se remoendo. Lástima é última opção. Veja só: Se aconteceu é preciso que o sapo ou ela passem a zelar...
—Azular?
—A zelar, meu caro!, a cuidar do prosseguimento da vida, pois bem sabe, é uma trepadeira que segue estrada afora, sem pedir licença vai adentrando a névoa do tempo,  esmiuçando - se nas nódoas de uma existência. Mas antes passa pelo turbilhão de rios cujas águas refletem o chamamento do mergulho essencial, que é o da alma...
—Inspirada hoje, querida.
—Claro, nossas conversas foram para os quadrinhos!
—Adoro metalinguagem!
—Eu também. Mas, como bem dizia, caso pela primeira vez tenha ocorrido o desgaso, a agressão, o abandono, o xingamento, o sapo ou a sapa devem cuidar para que não se acostumem, não façam de tal coisa um acontecimento que de tão áspero nem esporádico merece ser. As  esporas são parentes das algemas... Que não são coisas triviais.
—Continue, está bom demais.
—Você é esfomeado de diálogos, não é, amigo?
—Sim, insaciável fome, como devem ser sempre as fomes essenciais.
—Pois bem, a primeira vez pode ser um marco, uma dura e implacável erosão nos relacionamentos, nas amizades, nos amores, ou simplesmente nas convivências... Porém, o importante é que cada qual possa assimilar o que de fato interessa. Só o presente vivemos. E é no presente que cada um deve tocar a sua vida. Gritou? Xingou? Berrou? Tudo isso deve ser reduzido à fuligem da alma que deve ser removida. O resto é tocar em frente, e compensar agindo em retidão para com o outro.
—É bonito isso. Nenhuma sapa merece a falta de respeito!
—E nenhum sapo!
—Então, me disse que o perdão é essencial?
—Perdão é sempre uma perda imensa, no sentido de que a sua necessidade é a tristeza de uma vida, mas todos somos providos para enfrentá-lo, e se abrir para ele é a gloriosa façanha da alma.
—Gostei, gostei. Eu pensava que o sapo devesse viver se amargurando pela vida.
—Primeiro de tudo, sapo não é nem boldo nem losna. Então, amargura demais enjoa, como já bem disse alguém. Agora, vamos em frente, e o rigor na reflexão deve servir apenas como bússola no aperfeiçoamento do sapo, que não deve jamais se esquecer de que sapos de ferro só no cinema, e no gibi.
—Sapabela, viva o presente!
—Que presente, Rospo?
—O hoje, o instante que vemos.

ROSPO 2013 — 877
Marciano Vasques

quinta-feira, 30 de maio de 2013

E VIVA A CONVERSA BOA!

—Rospo! Que linda noite de sábado!
—Hoje é quinta, feriado, lembra?
—É mesmo!

terça-feira, 21 de maio de 2013

A MENININHA E OS NAMORADOS

—Novamente!
—Novamente, o quê?
—Sapo! Outra vez? Pode se mandar?
—Nem cheguei!

—Qual é o problema?
—Estava beijando a sua namorada na boca, ardorosamente. 
—E daí?
—Viu quem está do seu lado? Por acaso reparou que ao seu lado está a irmãzinha dela? Uma sapinha ainda? Uma menininha? Gosta de livro infantil?
—Não sou mais criança!
—Já foi?
—Está tirando um sarro comigo?

—E gibi?
—Sapo, esqueci o seu nome.
—Esqueceu de bobeira. É Rospo.
—Pronto! Já está satisfeito? Pode ir agora?
—Compreendo que essencialmente o amor romântico tenha uma dose de egoísmo. Porém aprendi desde cedo que uma dose geralmente não faz mal. Ocorre que o amor não suporta a estupidez, não atingiu ainda um grau de idiotice tão imenso. O amor não é uma máquina de fazer alienados...
—Posso bater nele?
—Não, querido, é apenas um sapo qualquer.
—Quase acertou em tudo, só errou no "qualquer". Mas, e então? Não vai melhorar?
—Como é? Está perguntando pra ela ou pra mim?

—Tanto faz. Por acaso não sabe que melhorar só tem um efeito colateral?
—Qual?
—Faz bem para todos os que estão ao seu redor.
—Esse sapo já encheu!
—Está perturbando o meu namorado! Por que não diz logo o que quer?
—As marcas da infância são indeléveis.
—O que é isso? 
—Elas não se apagam por completo jamais.
—O que estamos fazendo de errado, sapo?
—Rospo, por gentileza.
—Então diga, seu Rospo!
—O que estão fazendo de errado é o beijo.
—É louco!
—No mundo de hoje a lucidez virou loucura.
—Qual o problema com o nosso beijo? É muito erótico? Perturbou você que não tem ninguém para beijar hoje?
—Isso, meu bem. Tasca nele!
—Olhe, vou dizer qual é o problema. Não posso competir com a cegueira.
—Diga logo, pois estou dando muita atenção para você.
—O problema é ela, aí, do seu lado.
—A menina?
—Sim, ela está constrangida. Não sabe onde esconder os olhos. Ela tem que passar por isso? A sua inconsequência, a sua insensatez faz isso?

—CHEGA!
—Quem beija também berra o grito dos tolos.
—Agora ele apanha!
—Já contou uma história de Andersen pra ela?
—Pra minha namorada?
—Pra menina!
—Não, não contei. Quem é esse cara?
—O que mais você não fez?

—Rospo, você está incomodado pelo fato que eu posso beijar a minha "mina" na hora que eu quiser, nos lugares que eu quiser.
—Meu querido. Está enganado. Um belo engano, por sinal. Você não pode beijar, da forma como beijava, a sua menina quando ela traz a irmãzinha dela para ficar ao lado.
—Essa menininha deve até assistir novela!
—Não justifique você pela multidão.
—Pode traduzir essa frase?
—Não, não posso. Mas, preste atenção: a menininha está ao seu lado e vocês num estendido beijo retorcido... E você não trouxe sequer um gibi para a pequena, nem um livro. Ora! É realmente muito romântico, não é? Pois eu digo: tem a namorada que merece!

—É moralista, Sapo?
—Não, querida, nem pensar. Mas, alguém já disse a você que a criatura mais pura do planeta é a menina?
—Não, ninguém disse.

—Mas alguém certamente já disse isso para o mundo.  Alguém que participou do rompimento da mudez para estabelecer o diálogo com a surdez....
—Sei lá do que está falando! Quem disse isso para o mundo?
—Que tal Nietzsche?
—Não foi esse cara que morreu louco?
—Bem, preciso ir. Mas, por favor, não prejudiquem a menina.
—Ninguém vai prejudicar ninguém com um beijo.
—O que mais quero é que todos os namorados sejam felizes. Aliás, quando as praças do mundo voltarem a ser dos namorados poderemos voltar a sonhar com um mundo feliz.
—Então, Rospo, viu? Namorados nas praças.
—Sim, e criancinhas também, menininhas.
—Meu Deus, não se pode nem namorar em paz!
—A paz de cada um não pode causar estragos no outro.
—Estragos? Amanhã ela nem vai lembrar desse beijo na boca, senhor Rospo!
—Pois é, antes fosse.

ROSPO 2103 —875
Marciano Vasques

terça-feira, 14 de maio de 2013

O QUE SE PERDE PARA SEMPRE

Na nervura da tarde um casual encontro:
—Sapabela! Saudades!
—Rospo, feliz demais por vê-lo!
—Sapabela, vamos...?
—Aceito!
—Nem terminei o convite! Como pode ter tanta confiança assim em mim?
—Rospo, sabe qual a única coisa que quando se perde jamais se encontra de volta?
—Não!
—A confiança! Perdeu, perdeu para sempre. Nunca mais será retomada. Adianta não vasculhar o fundo do rio, perseguir cordilheiras, atravessar vales... Pode procurar no mundo inteiro, nos dois mundos, e verá que não verá jamais...
—Sapabela, que dois mundos?
—O mundo tem duas dimensões, temos portanto, dois mundos. Um é o da memória, o mundo do Eu, no qual um vasto universo se agita todos os dias, a cada novo instante, e quando um instante passou, outro já chegou. E esse mundo prossegue, num turbilhão de sensações, de neurônios, neuroses, lágrimas, gargalhadas, desventuras e aventuras de ventanias num avental de sonhos ou dissabores que não se dissipam. Cada vida é um complexo universo que some na poeira, na fumaça, mas ficará para sempre na semeadura do inatingível Eu, onde tudo se mescla e os sentidos se fundem, pois tudo é imenso demais para se perder.
—Entendi.
—Rápido!
—Aprendi com Sapabela! Quero ser sempre rápido...
—Não diga bobagem, Rospo!
—Está bem, sua danadinha. Mas, compreendi. Tem dois mundos: o real, que é o mundo exterior, e o que está dentro de você, que é o da memória, dos sentimentos, o das histórias que precisam ser narradas. A vida que clama pelo destino literário.
—Muito bem. E assim é a confiança: Perdeu, perdeu para sempre. Jamais se recupera a confiança perdida.
—Bem radical isso, nega.
—Que saudades!
—Do que?
—Desse "nega"...
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Isso é bom demais da conta. É uma coisa tão amorosa...
—Pois então...
—Mas você parece que tem uma confiança cega...
—Tal coisa é profundamente pleonástica, Rospo! Não existe confiança cega. Existe confiança.
A confiança só age na luz. A confiança não é cega. E a fonte de confiança, aquele que gera a confiança, aquele que promove a fonte, esse deve se preocupar diariamente. Deve ser zeloso, cuidadoso, pois afinal ele é a fonte, a confiança é dele. A confiança é sempre um bumerangue. Quando você se torna uma fonte geradora de confiança, você está cativado por essa fonte, e se torna responsável por aquele que confia.
—E quem confia?
—Quem confia deve permanecer tranquilo. Quem deve viver a força sugadora da confiança é quem gerou a fonte da própria. Pois afinal, bem sabe agora, perdeu, perdeu.
——Os políticos não merecem confiança!
—Rospo, um belo corte, embora desnecessário aqui. Mas vamos lá: isso é um estereótipo. Tem político que merece sim a confiança da população do brejo.
—Cadê? Cadê? Onde estão esses políticos?
—Rospo, vai dar muito trabalho ficar procurando um agora, mas sei que eles existem sim. Porém. para fechar a conversa, quero dizer que a confiança plena também é uma ideia pleonástica, pois confiança é ou não é. Não existe esse negócio de plena. Ou confia ou não confia. No mais, é como eu disse: Perdeu, dançou. Vai ver escapar entre os dedos o mais precioso tesouro. Quem deixou de confiar vai sofrer com a desilusão, mas a perda incomparável, a medonha perda, essa é de quem gerou a fonte da confiança. Esse vai amargar uma perda sem retorno.
—Sapabela, que coisa! Deixe-me agora completar o convite: vamos tomar um licorzinho de anis?
—Vamos! Um licorzinho hoje abre as luzes outonais de junho, que anunciam a força junina da nova estação que aporta...
—Sapabela, como estou feliz! Chegamos! A padaria Rubi está brilhante. As luzes cacheadas num alegre esplendor. Será que outros sapos estão vendo assim?
—Dividir a felicidade é o maior ensinamento da Filosofia, Rospo, mas esperar que o conceito de felicidade esteja em cada coração da mesma forma, é pois acreditar que se possa uniformizar aquilo que é universalmente livre...

ROSPO 2013 —874
Marciano Vasques


domingo, 12 de maio de 2013

FALANDO DE MÃES E OUTROS ASSUNTOS

—Rospo! Dia das Mães!
—Não tenho mãe, Sapabela.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O SAPO E O TELESCÓPIO

—Rospo, você sabia?...
—Adoro isso!
—Que um mero eleitor pode ser um esmero de consciência?
—Claro, amiga!

terça-feira, 7 de maio de 2013

ROSPO IMPRESSIONADO

—Boa noite, deputado!
—Eu o conheço?
—Certamente não. Sou um eleitor.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

FAMINTOS FANTASMAS

—Fantasmas são famintos. Não ofereça a eles um banquete, um banquete chamado você, a sua alma.

domingo, 5 de maio de 2013

FALAR E ESCREVER

—O que não se falou, faliu.
—Nem bem é assim, querido amigo. Ás vezes o que se fala é falácia. Nem sempre a fala é fálica, às vezes é frágil, e às vezes se oculta, como nas noites clandestinas nos países onde vigoram ditaduras, quando então se desfaz o "mito" proverbial de que "quem cala consente".
—Sapabela, você vai fundo!

sexta-feira, 3 de maio de 2013

O BEIJO HISTÓRICO


VULTO


Nem roupa feminina em varal eu posso ver...
Sou o namorado esquecido
Na pressa da cidade...
Sofrer de amor
É a velha novidade.

A LUNETA E A MULETA

—Sapabela!
—Rospo! Que saudades!

O LADRÃO DE LÁPIS

Sou
O ladrão de lápis
Lápis de cor.

Cores escorrendo
Perdidas
Nas calçadas.

Sou o ladrão
De lápis
Roubando esquecimentos
Descasos
Abandonos.

Achado não é roubado!

Quantos lápis...

Crianças!

Onde estará
Cada criança
Que esqueceu...

Que abandonou
Toquinhos de cores?

Que vou recolhendo
Passageiro
Cigano
Na distraída cidade.


Marciano Vasques

sábado, 27 de abril de 2013

A CANÇÃO

http://youtu.be/oGbfttFYpXk

RESERVADO

Tentei falar com você.
Só dava caixa postal.
E ameaçando um temporal.

Tão tarde, esperando num ponto.
Isso ainda vai render um conto.

Só passava reservado, meu bem.
Nem a carona de um amigo,

E estava sem guarda-chuva.
Sem abrigo.



Marciano Vasques


sexta-feira, 26 de abril de 2013

MADEIXAS

Nas espumas santistas
Na alma dos artistas
Ela toma vulto
E seu problema é ser demais.

Esfomeada que não tem 
Regalo que atenue a sua alma...
A poesia, minha amiga,
Medra sem medo e madruga...

Então, melhor é tê-la
Com suas queixas, 
Madeixas,
Sua cristaleira interior.




Marciano Vasques

PALHAÇO

Quem é você?
—Descubra se quiser.
Sou o palhaço
Ladrão de mulher.

 A luz das estrelas

Atravessa a lona.

Lá estava no sorriso

De uma dona
Na calçada da Pamplona.
Catando versos
Desacatando universos
No meu caminho
Empoeirado
De vento alegre
Ventando forte.

Fogueiras salpicadas

Ns conversas dos bares.

Gente do nordeste.

Gente do norte.

Menina na sorte

De sonhos avulsos
Sonhando altares.

Moço tórax aberto

Cantarolando Roberto
Na fartura bêbada
Das ilusões.
Lancinante amparo
Das solidões.


Vago

Na fluência transparente
De uma tarde
No ocaso
Nas flores de Outono.
Buscando a mera
Quimera
Nas luzes de Itaquera.
Aconchego de abandono.

Nem acha graça

Nem se toca
A moça
Da tapioca
Quando na praça
Sigo cigano
Na fértil força
Do picadeiro
Da minha vida.

Num lampejo

De lembrar ferida.
Sinceras dores.
Incicatrizáveis amores.


Marciano Vasques


quinta-feira, 25 de abril de 2013

ME DEIXE MUDO

http://youtu.be/VghSIww2UVc

WALTER FRANCO

http://youtu.be/VghSIww2UVc

CONVERSA NA QUINTA

—Viva!
—Que entusiasmo é esse, Sapabela?
—Hoje é quinta!
—Verdade, e está frio, isso pede aconchego, pede...
—Pede tudo de bom, Rospo! E repare nas minhas roupas, elas não combinam, como sempre. E sou mesma atrapalhada. Sempre fui. Uau! Adoro ser-me.Assim, meio estabanada, um muitíssimo espalhafatosa, mas só de espalhar os fatos realmente essenciais... Sou assim, atrapalhada, mas não tem jeito.
—"Mas não faz mal, eu gosto é mesmo assim".
—Rospo, olha! Isso é verso do Erasmo e daquele cara!
—Eu sei, minha querida, é para tornar a quinta mais aconchegante. Você sabe, quem fica apenas sentado à beira do caminho pode até perder o bonde da história.
—Perder o bonde da história é desentender o "Trem das Onze"... Direi ao mundo que estou feliz hoje. Digo isso a você aqui, e quero dizer numa conversa de blog, e também aos meus "caros amigos".
—Sapabela, isso é nome de um disco do Chico nos belos dias clandestinos; hoje, veja só, nossa conversa está muito musical. Às vezes isso acontece. Saudades de ouvir Walter Franco...
Sapabela, vamos comemorar a quinta com um licor de anis.
—Aceito!
—Nossa, que rapidez!
—Sapa, né! E tem mais.
—Com você sempre tem.
—Para mim não são necessárias frases mirabolantes, palavras elaboradas, discurso requintado...
—Entendi isso não.
—Aceito as frases mais simples. E você sabe, o que é simples mas nasceu no coração bate de longe declarações formuladas.
—A que está se referindo?
—Para me conquistar basta ser simples.
—Gosto de você.
—Isso!
—Sapabela, ganhei a minha quinta.
—Então vamos ao licor que o dia quem faz é quem vive.
—Que audácia linda é viver!

ROSPO 2013 — 867
Marciano Vasques


segunda-feira, 22 de abril de 2013

CONTO DE PARÁGRAFO



NOITES

 Na noite em que o presidente da República jantava com a cúpula do governo do Panamá e com a diretoria da empreiteira naquele país, eu relia o poema "Cantiga para Não Morrer", de Ferreira Gullar, o mesmo que escreveu o "Poema Sujo", que li num livro que ganhei de aniversário, comprado no Círculo do livro, nos tempos do Tarancón, lá pelas tantas dos anos 70, quando ouvi pela primeira vez Parabien de La Paloma. Mas, na noite do jantar do presidente com o governo panamenho e com o diretor da empreiteira que financiou a sua viagem, por aqui acontecia uma coisa assim, de meninas caminhando nas empoeiradas ruas da vila da invasão, no vinco da periferia de nervuras e lágrimas latejantes cravejando sorrisos desbotados: meninas operárias, domésticas e balconistas, cadenciadas ao som do Funk numa tarde ensolarada de azul perdido, caminhando em névoas em plena alvorada.

CONTO DE PARÁGRAFO
Marciano Vasques

domingo, 14 de abril de 2013

CHICO

quarta-feira, 10 de abril de 2013

NOVO SÍMBOLO NA CASA AZUL

Homenagem à artista Teresa Senda Galindo

terça-feira, 9 de abril de 2013

SEMIÓTICA DO OLHAR

Encontro especial numa noite de terça-feira:
—Rospo!
—Sapabela! Que alegria!
—Rospo, quando pensa na Política partidária nacional aqui do brejo, tem algum título de filme que ela faz você lembrar?
—Pergunta inesperada, Sapabela. Mas, tem sim. Tem...
—Diga, meu amigo... Já quero o ingresso... para entrar nessa conversa...
—A conversa é sua, minha querida.
—Qual é o título do filme?
—"O Silêncio dos Inocentes"!
—Supimpa! Quer falar?
—Só um punhadinho, um tiquinho.
—Manda bala!
—Não pode dizer uma coisa dessas aqui no brejo, Sapabela. Alguém pode ouvir e levar a sério.
—Faça-me rir, amigo. Noutro dia me pus a rir só de pensar naquela história de que a profissão do diabo é padeiro. Nem sabia que o cara trabalhava em padaria...
—É que quando eu era um menino, bem sapinho ainda,  ouvia meu pai dizer que "comia o pão que o diabo amassou"...
—Muito bem, mas fale o nome do filme que a política nacional do brejo faz você se lembrar.
—Eu já disse; "O Silêncio das Inocentes"...
—É mesmo! Fale então o tal bocadinho. Um exemplo, só um exemplo...
—A Sapa pediu, o universo parou para atender...
—Antes fosse...
—Querida, não se esqueça: O que parece geral não desfaz o que é bonito de se viver...
—Manda ver.
—Ocorre que diante do silêncio de partidos e políticos e militantes do brejo diante de uma revelação de corrupção e de desvio e uso do dinheiro público e da máquina administrativa em benefício próprio,  só se pode pensar que, além dos compromissos partidários que sacrificam a ética e o intelecto, realmente tem algo além...
—Rospo, gostei desse punhadinho, mas, diga algo sobre aquilo que falou no último licor...
—Sim?
—Semiótica do olhar, ou do amor...
—Sim, vamos lá: conversando, que é versar junto  a  vida, ou não apenas co-versando, mas versando com alguém, ou seja,  com versando, reparei que o amigo nem olhava para o meu rosto enquanto me falava, isto é, parecia que não conseguia mais olhar de frente para alguém...
—Certa vez estive com o Sérgio Bianchi e ele falou sobre o fato de que o hábito da televisão desviou o olhar. E, penso eu, agora o tablet...
—Justamente: e eu disse : "Não sou tela! Exijo uma semiótica do amor! Precisa consertar o olhar para que se manifestar possa o concerto da alma."
—E o que ele disse?
—Nem sei, eu já nem estava mais na ribalta. Eu estava mesmo era na ribanceira da vida, na rua, com todo o seu glamour...
—Glamour?
—Sim, a poeira, a pureza dos sapos que cavam com suor e força o pão e a seiva da vida...
—Fez bem, Rospo, fez bem. Inútil querer implantar a consciência de supetão... o importante, penso eu, é que você fale com alguém olhando firme no rosto, nos olhos... Assim devemos agir, Rospo... Lembre-se, no vendaval empoeirado, temos que estar bem no eixo, no eixo da tempestade... E fazer a nossa parte...
—A conversa está boa, Sapabela, mas vamos até a Padaria Rubi?
—Licor de anis? Já indo, Rospo, já indo...
—Yupiiii!


ROSPO 2013  —866

Marciano Vasques

domingo, 7 de abril de 2013

O IMPIEDOSO CARGUEIRO

—Rospo!
—Sapabela!
—Que alegria! E tem uma conversa tinindo em mim. Posso começar? Prometo que não tomarei o seu tempo, amigo.
—Você jamais toma o meu tempo, querida. Ao contrário, me dá a oportunidade de compartilhá-lo com você...Mas, a conversa, por favor! Já estou esticando a corda, isto é, o barbante... que isso é próprio de conversa...
—Então, vamos lá: O que lembra, para você, Rospo, um Cargueiro?
—Carga, navio de carga. Carga pesada...
—O cargueiro da vida é implacável, impiedoso, imperdoável!...
—Prossiga, por favor!
—Não adianta "choro nem vela"...
—Vela?
—Sim, velejar, nem terá a chance...
—Do que está falando, querida? Nem tomou licor de anis hoje!
—Olha!...
—Brincadeira, prossiga.
—Rospo, o cargueiro da alma é formado por vários fatores, se me entende. Um dos pesos do "carregamento" é a arrogância intelectual.
—Fale disso! Fale disso!
—Sim, a arrogância intelectual por si só já quase enche o cargueiro...
—Poderia, minha sapíssima, dar um exemplo?
—Darei dois.
—"Ela é demais!"
—O que pensou?
—Esqueça, por enquanto. E dê os exemplos, por favor...
—Um poeta escreveu-me uma carta e nela ele disse algo chocante.
—Sim?
—Que você nem deveria lutar pela sua carreira literária se não tiver a chancela acadêmica...
—Como é?
—Só com a chancela acadêmica um poeta tem a chance de se perpetuar, ou de passar para a história da Literatura. Para esse meu amigo, só com citações em trabalhos acadêmicos você terá a chance de chancelar a sua arte, a sua escrita. Fora da Universidade não tem validade, sem o reconhecimento da Universidade nada feito, disse ele...
—É?
—Hoje ele está na Rede Social...
—Dê o segundo exemplo.
—Outro amigo me escreveu que devemos todos lutar pela cultura erudita, na qual ele transita com a sua produção...
—E daí?
—Referiu-se aos quadrinhos como uma  manifestação de uma forma de lixo que é a tal cultura de massa, algo assim...
—Nossa! Que erro grave! Pois nos quadrinhos encontrei a mais pura arte nos traços de nanquim, em obras como a de Harold Foster, a de Alex Raymond, e outros tantos, e aqui no brejo, Júlio Shimamoto, e também tantos outros... Nada enriqueceu tanto a minha estética quando sapinho como esses artistas e suas produções...
—Além da arrogância, também o preconceito...
—Geralmente esses dois andam de mãos dadas.
—Que nada! Eles se beijam na boca!
—São assim tão íntimos?
—Eis um caso em que dois formam um. Arrogância e Preconceito.


ROSPO 2013    — 865
Marciano Vasques






quinta-feira, 28 de março de 2013

POEMA

Falo da vida não vivida
Às vezes....
Ela que pulsa
Na urgência 
Da tarde
Que repousa
Entre os varais
...

quarta-feira, 27 de março de 2013

COMO QUALQUER FRAGMENTO...

Nos fundos olhos da menina 
Um raso riso ou riacho,
Uma lágrima miúda
Que fugiu num vento leve.

Busque o meu coração,

Refaça o regaço da saudade
E não me abandone....

Que azul! 

Que azulcrinou
As crinas mais douradas
Num entardecer que eu vi.

Eu era tão menino!
Hoje pudesse só beijar
Um centelha sequer
Do tempo que em sua perdição
Diz não...


Nem sei, 

Mas quem dera ter enlouquecido
Um décimo 
do que  mereço...
Nas ruas
Dos bêbados de poesia,
Sei lá,
Nervuras que acalento...
Num esquecido
Verso 
De ferido acalanto

Marciano Vasques


domingo, 24 de março de 2013

CONVERSANDO NA ALVORADA

—Aeeeeeeeeeeeeeeeeeeeê!
—Sapabela, o que pode ser mais esplêndido e resplandecente para um sapo do que encontrar a sua amiga na alvorada dominical? Erga os pulmões, alise o tórax, e deixe entrar o domingo com toda a sua força de mil parlendas, de alegrias sem patrocínio.
—Rospo, está cheio de sapo perdendo isso. Aliás, seria bom se pudêssemos resgatar as coisas essenciais da vida. O perigo, que me assombra, pela sua visibilidade tão descarada é...
—Estou curioso, Sapabela, estou curioso. Prossiga!
—Sapo curioso já ganhou metade da estrada. Eu estava a dizer que, Rospo, lembrei-me de algo. Vá lá em casa!
—Já estou entrando...
—Estou falando sério, vá lá hoje que tenho licor de Jabuticaba...
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
—Rospo? Tudo isso é pelo licor?
—É pelo "entrar " também. 

—Rospo, por favor, poderia se comportar um pouquinho para que eu possa prosseguir?
—Que hora será?
—Que hora será, o quê?
—O licor de Jabuticabal...
—Jabuticaba, meu querido. À tarde, hoje estou tão alegre, uma alegria intraduzível, mas que no seu bojo tem cantoria de cordelistas, as múltiplas cores dos ciganos, a alegria de "Beatles", tem tudo de bom que nos ronda a vida,  e por mil vieses não nos regem. Posso prosseguir?
—Que demora, Sapabela!

—O que me assombra é a facilidade com que os sapos e as sapas se deixam tragar pelas incessantes intempéries do marasmo cotidiano. Lembre-se, meu querido. A lei do menor esforço vem com selo de permanência, de intocabilidade nas vidas.
—Sapabela, sabe que me esforço, mas quando uma fêmea chamada você resolve expôr o pensamento em suja inerência da velocidade espanto-me...Como algo tão brilhante e poderoso pôde ser sufocado, soterrado em dois mil anos?
—Mas agora, nego, ninguém me segura!
—Viva!
—Pois é, meu amigo. a tal lei do imobilismo ela tem uma característica ilusória, que é a garantia do conforto, mas se o sujeito acredita que conforto é para sentar ao sofá, ligar a TV e permanecer ali, deixe o pobre ser mesmo tragado pelo cotidiano. ..
—Eu gosto de sofá para...
—Rospo, não me interrompa, por favor, e respeite a plateia dos pequenos...
—Eu só ia falar do ócio contemplativo... 
—Bem sei, mas, concluindo: O sapo tem que erguer o seu mundo sonhado. É ele que vale. Você tem que garantir a sua suspensão do cotidiano. É ela que o favorecerá...
—Adoro esse verbo: favorecer. é um favo de mel puro que acontecerá, que facilitará o escoamento da vida que precisa acontecer... Favorecer é o acontecer de um favo. É o florescer da dialógica.
—Muito bem, meu grande.Mas é isso, nada se de deixar tragar nem soterrar, nem jamais entrar num túnel que lá no mais fundo subterrâneo se ramificará em mil vias de se imobilizar a alma. Erga-se: o cotidiano, se por acaso o sufoca, se o espreme, faça o seguinte: desfaça essa vocação para bagaço e vá a luta. Leve consigo a sua espada de mil luzes.
—Que espada é essa, Sapabela?
—Os seus sonhos, são eles que brilham e rebrilham, eles simbolizam a sua espada. Basta chegar e dizer: "Eu tenho sonhos!"
—Nossa! Pareceu Nietzsche, pela beleza do estilo de escrever no ar...
—Escrever no ar?
—É, falar.

—É só impressão, Rospo, o estilo é genuíno de Sapabela. Mas é claro que jamais nos livramos por completo de nossas leituras.
—Querida, que forma linda de alvorecer! Adorei encontrá-la agora cedo. Está esplêndida.
—Você vai ver à tarde com o licor de Jabuticaba.
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

ROSPO 2013 — 684

Marciano Vasques

sábado, 23 de março de 2013

ENCONTRO NA NOITE DE SÁBADO

—Aeeeeeeeeeeeeeeeeeeeê!
—Que alegria é essa, Sapabela?

domingo, 17 de março de 2013

A PERDA MAIOR DO SAPO

—Rospo!
—Sapabela!
—O meu coração estremecia sempre que eu pensava que você andava sumido... Eu ficava sem mim, e vagava ao lume da solidão... Nem via o reflexo da alegria que sempre nos moveu. Mas agora está aqui, e é domingo! E ainda é cedo! A Padaria Rubi nos espera... Já vejo a luz translúcida do verde claro do licor de anis...

sexta-feira, 8 de março de 2013

O DIA INTERNACIONAL DA SAPA

—Rospo! Hoje é o "Dia Internacional da Sapa"... Vai ter licor de anis?
—Yupiiii!
—Não é para se assanhar tanto!

DE CARLOS GOMES

http://youtu.be/rcwqKJ8vCaw

quinta-feira, 7 de março de 2013

PIQUES E PIQUES


—Rospo, por onde anda? Que tal falar desses piques de afastamento?
—Afastamento é coisa impensável, Sapabela. Esses tais piques são apenas fragmentos necessários das andanças...
—Tem viajado?
—Andança interior também vale, minha belinha.
—Que bonito! Mas eu adoro mesmo aquele "Nega"... É demais, fico toda envaidecida quando essa manifestação amorosa oriunda de nossa oralidade infinitamente rica...Mas fale, algo está acontecendo?
—Às vezes, Sapabela, é preciso acionar o eixo, no mergulho essencial...
—Compreendo, e soube que anda meio chateado? É verdade?
—Não, não, em absoluto. Você sabe que somos fontes de onde jorra a alegria... E sua amizade é o pique do arrebatamento das coisas essenciais e ludicamente floridas da vida... Com você ao meu lado, em nossas conversas trançadas, a alegria está sempre presente. A conversa é uma das mais expressivas formas de felicidade do sapo, parodiando o Borges, que disse algo semelhante se referindo ao livro...Para ele o livro sempre existirá em sua forma de objeto de culto, de amor... Curioso, não é? Ele imaginava a biblioteca infinita, e, você sabe, a Internet...
—Está desviando o assunto, Rospo! Fale mais dessa suposta não chateação.
—Ora, Sapabela, bem sabe que neste mundo o que mais encontramos são as oferendas de sentimentos entristecidos, banhados no polimento do ciúme e da inveja...
—Você é um "positivista", acredita no "Poder do Pensamento Positivo"?
—Sapabela, nem positivista nem Positivista. Acredito, entretanto, que  "É sim preciso ordem para o progresso interior, isto é, harmonia para que a alma possa destravar seus empecilhos"...
—Essas oferendas  vêm dos inimigos?
—Nem pensar, Sapabela! Acreditar que um inimigo possa nos decepcionar é atribuir muita força a ele. Isso é privilégio de amigo. Só o amigo faz isso. Ou seja, só ele tem o dom, o poder, de nos oferecer um tapete, o tal ardilosamente tecido tapete, que pode ser habilmente puxado pela traição.
—Mas então não é amigo, Rospo!
—Nem é inimigo. É uma fôrma de fazer capeta que alguns abrigam na fornalha de suas almas. Porém, verdadeiramente, o amigo está onde qualquer infecção da amizade possa penetrar...
—Infecção da amizade? Roubou de Espinosa esse termo?
—Você está afiada hoje, nega.
—Uau Uau Uau! Viva! Eu era feliz e não sabia...
—Sapabela, considero muito profundo essa sua última frase. Complexidade pura.
—Prossiga, Rospo.
—Infecção da amizade é causada por descuidos, desapegos, nem precisa desaforamentos.   Basta uma faísca assim desse tamanhinho de descaso...
—Que faísca, Rospo? Isso é um fiapinho, uma doidice só, um descuido... Faísca lampeja, por menor que seja, atiça...
—Pois é, querida...
—Você nunca me convidou para almoçar...
—Que tal...
—Aceito!
—Em meia hora nos encontraremos...
—Ótimo, é o que eu precisava para me arrumar. Um minuto.
—Prefere dois minutos? Ou seja, Uma hora?
—Não seja maldoso, Rospo. Além do mais, você bem sabe que...
—Vale a pena esperar.
—Então daqui a pouco. Eu adoro isso. Minhas roupas não combinam. Você sabe. Mas eu adoro me vestir de Sapabela. E aqui mando um beijo para a Violeta, e outro para a Lady Garça...
—A Lady eu conheço, mas quem é a Violeta?...
—A protagonista de um seriado juvenil argentino, da Disney...
—Certo, certo, certo. Vá querida, que já estou faminto.
—Vá pensando só no almoço, bonitinho.
—Mas estou  faminto de palavras, de conversas, de letras...
—Pois é, Rospo, pois é.  Bem, lá vou eu.
—Yupiiii!


ROSPO 2013 — 860
Marciano Vasques

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

NAMORAR O LIVRO...

Manhã azul de céu varrido, e lá ia o Rospo rospeando quando encontrou a velha amiga:
—Sapabela!
—Rospo!
—Feliz de ver você.
—Meu lindo, é "Feliz por ver você".
—Feliz de ver você é diferente. É algo assim como "Feliz de Poesia", como se um sapo estivesse pleno de algo, que desencadearia uma súbita felicidade. Poderia ser uma referência, um refletor da memória. Uma característica de algo vivido ou intensificadamente desejado, então, poderia ser "Feliz de Santos"...
—Sábio o provérbio popular que diz que "Santo de Casa não faz milagres".
—Eu me referi à cidade de Santos. Mas também poderíamos dizer: "Feliz de rabanadas", "Feliz de macela"...
—Macela?
—Sim, talvez sintomatizado por uma caminhada inesquecível na infância entre anis, alecrim, beirinha de riachinho, gafanhotos saltitantes, orvalho refletindo o arco nas teias que ligam pedras, seixos lisos e úmidos...
—E buscando macela para fazer travesseiro...
—Quem sabe.
—Então hoje você está feliz de mim.
—São meus referenciais, que atuam de forma balsâmica em minha inquieta alma ... Entre eles, você. Sim, estou feliz de ver você, estou feliz de você.
—Rospo, sempre precisamos conhecer alguém de forma mais profunda...
—Gostei disso.
—Sei, sei.  Para conhecer alguém de verdade  é preciso namorar esse alguém. Não é?
—Sim. É Mia Couto quem disse?
—Não, deve ter sido a ventania, um alvoroço de necessidades conversadeiras, não sei. Mas em algum momento alguém deve ter dito isso.
—Concordo plenamente. Para conhecer alguém é preciso namorar esse alguém... 
—Da mesma forma, para conhecer um livro é preciso afagar o livro, encostá-lo ao peito, ao tórax, senti-lo, ler. Só é possível conhecer um livro verdadeiramente após lê-lo, tocá-lo. Um livro ultrapassa a si mesmo... Um livro não é camaleônico, ele se supera porque a história do leitor muda, adquire novos momentos e novos sentires, por isso o livro parece sempre se superar, pois a história do leitor mudou... Dessa forma, insisto, para se conhecer um livro é preciso namorá-lo...E namoro, bem sabe, é ritualístico. Transita da distração, do acaso, para o querer inexplicável...
—Pelo que diz, Sapabela, para sentir é preciso namorar... Sentir no conceito de conhecimento. Não dá para sentir algo desconhecido. No desconhecido só o medo tem vez... A travessia começa no namoro.
—Sim, a grande travessia do Ser... Assim é com tudo que nos é essencial. Namorar a Língua, você sabe...
—Sei, isso um moçambicano falou...
—Pois é, namorar a língua é se apaixonar pelas suas parlendas, pelas suas cantigas, pelas suas ironias,  suas figuras, suas metonímias, suas... Enfim, pelos tesouros que só ela nos traz, com sua oralidade e suas escrituras, Língua, você sabe, não aceita opressão, de nada, menos de Gramática, que é sim, sua organização da alma. Mas não alcança jamais a beleza nascida na oralidade dos vilarejos de poeira, nuvens, fumaças azuladas, orvalhos e mormaços... É a necessidade que só é possível na doçura. Gramática que prende só perde, pois as andanças da Língua são invencíveis. 
—E o livro?
—Já disse, o livro só pode ser conhecido se existir o namoro. Só o namoro leva ao conhecimento, e só o conhecimento leva ao amor. O verdadeiro amor surge triunfante no conhecimento. O desconhecimento, já mencionei, leva ao temor. Uma vez um menino perguntou  a um padre porque deveria temer em vez de apenas amar.
—Sapabela, conversar com você enriquece o meu dia, é como coar o café com palavras...
—Mas fale, querido, dessa coisa de "Estou feliz de você, de ver você"...
—É que levo você comigo. Eu a encontro na manhã, num encantro...
—Encontro, Rospo!
—Encantro, pois é mescla de encanto com encontro...
—Prossiga.
—Encantro você na manhã e a levo comigo. Entendeu? Levar você é o eixo da magia, é a semente. 
—Você me leva?
—Levo, pois vai no meu pensamento dia afora, e até quando o anoitecer descer o seu manto lá estará você e essa conversa ressonante em meu coração, em meu pensamento, em minha "necessidade"...
—Fico feliz de saber. Mas nem sei se você me leva, Rospo. Tenho a impressão de que eu o acompanho , eu vou com você, em você, pois afinal permanece em mim também.
—Com a impressão de sapa imprimo todos os ângulos da atenção e do cuidado.
—Rospo, que bom! Que alegria poder conversar com você.
—Viu como só escolho referenciais imensos?

ROSPO 2013  — 859
Marciano Vasques


sábado, 23 de fevereiro de 2013

A VOZ EMBARCADA

—Sapabela, estou com a voz embarcada...
—Rospo! É voz embargada!
—No meu caso, agora, é embarcada mesmo. Sabe aquela catacrese?
—Pois fale então...
—Embargada é voz emocionada, encharcada de água na sonoridade. A voz embargada tem o timbre do pranto...
—Mas a sua está embarcada...
—Isso! Minha voz já embarcou, está embarcando, está pronta para a conversa. Está rogando pela sua natureza navegante. Acostumou-se com as asas mergulhadoras. Uma voz embarcada é a voz laçada pela conversa. É a voz içada....
—Que lindo, Rospo!
—Sabadoficou?
—Está sonhando? Já é noite de sábado! Daqui a pouco estaremos no domingo da parlenda.
—Noite de sábado! Amo a imensidão sobre nós.
—Pascal!
—Nem tanto, Sapabela. Mas, preciso dizer algo. Tudo que se quer dizer é mais do que apenas vontade, é precisão...
—Precisão é se dizer, se calar permanecerá apenas como necessidade. E você sabe, o que é preciso é retidão, veja os argonautas.
—Minha querida amiga. Você sempre se supera...
—Nem tanto, mas diga o que tanto necessita e transforme seu dizer numa precisão.
—Sobre embarcar na conversa me fez pensar na solicitude da palavra. Como a palavra é arada! Seu sulco é a própria alegria da vida...
—Rospo, diga algo sobre a palavra...
—A palavra é a voz dos tempos a nos dizer que somos mais fortes por cultivá-la...Ela nos remete ao mundo do pensamento, e nos arremessa para a sincronização universal...Seu sumo é a glorificação das angústias que se expandem na edificação da alegria que se expressa. 
—Você por acaso bebe nalguma fonte estelar?
—Não, nada. Apenas sigo a orientação inefável.
—Rospo!
—Quer dizer. As noites em que o pensamento viajava na imensidão foram os alicerces de um Ser cujo coração se apega ao que de imenso não se dissipa...
—Rospo, está muito profunda essa conversa. Sinto que se a voz está embarcada, a alma está embargada...
—É, vamos para a alegria. Afinal, uma noite de sábado é sempre única.
—Penso que todas as noites são assim...
—Sapabela, que tal?
—Diga...
—Vamos....
—Aceito!
—Mas nem falei! Eu ia convidá-la para um licor de anis...
—Veja, lá está a padaria Rubi. Olhe como as luzes despencam nas fagulhas de fulgores...
—Minha querida... hoje sua beleza interior está resplandecente...
—E quando se choca com a beleza exterior um alarido de cores e luzes abrilhantam a fonte dos olhares...
—Yupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!


ROSPO 2013 — 858
Marciano Vasques

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O MAIOR DOUTOR DA VIDA

—Rospo!
—Sapabela!
—Sexta! Viva! Já sabodificando. Mas, preciso falar algo.
—Diga, nega.
—Que gostosura isso! Mas, estou preocupada com a Colibrã.
—O que está acontecendo com ela?
—Anda triste, cabisbaixa, melancólica. 
—Diga a ela que deixe para o grande doutor, que passará. As coisas têm uma irresistível tendência para as resoluções.
—É mesmo, Rospo?
—O requisito primordial é acreditar. Mas é crença firme. Rochedo, fortaleza, sobre algo palpável.
—Diga então, quem é esse "grande Doutor"?
—O maior de todos. Seu currículo atravessa gerações, séculos e séculos e séculos.
—Muito bem, a quem se refere?
—Esse doutor cura as mazelas da alma, abre cicatrizes nas fendas mais doloridas, e atenua o impagável sofrimento...
—Sei, certamente está se referindo ao tempo. Nem sabia que ele era um doutor, e assim tão amplamente poderoso.
—O doutor autêntico é humilde, humildade não é negar nem esconder o seu próprio valor. Humildade é despojar-se de toda arrogância, todo estrelismo...
—Compreendo. Então, o doutor é mesmo um grande especialista em dissipar as tristezas, curar as dores da alma... Apagar todos os sofrimentos...
—Não é bem assim, Sapabela. Mas... ele é mesmo bom. Porém, certas dores jamais se vão... Como o sofrimento pela perda de um ser amado. Isso jamais desaparece...O Grande doutor simplesmente acomoda a dor num recanto de tal forma que ela não impeça o renascimento e a sobrevivência do Ser... Mas essa dor jamais se desapegará do coração, apenas ficará "protegida" pelo manto do Doutor Tempo, que a tudo resolve, no seu devido tempo. O Ser é cíclico, palimpsesto, lembra? Nunca mais pronuncie quimeras como "Nunca Mais"...
—Jamais se esquece um amor verdadeiro, não é, Rospo?
—O Doutor Tempo, embora o maior doutor de todos os tempos, ainda não tem esse poder... A dor de uma perda do coração é insubstituível, é indelével. Mesmo nos traços contemporâneos, quando vivemos dias de "amores" descartáveis, acredite, quem perdeu o seu amor, aquele que diz: "Eu sou!", certamente jamais dessa dor irá se desprender. 
—Avisarei a Colibrã, para que toque a sua vida e entregue tudo nos braços, isto é, nas asas desse tal Doutor...
—Sim, tudo se ajeitará como a própria vida, que sempre se ajeita.
—A minha vida não tem jeito, Rospo!
—Por isso adoro você.

ROSPO 2013 — 857
Marciano Vasques

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