
O aprendiz ultrapassa o mestre. Isso às vezes causa ciúmes.
Talos, 12 anos, filho da jovem Policasta, irmã de Dédalo, o construtor de labirintos.
O garoto mostrou maior destreza com as invenções. A criatividade do sobrinho irritou Dédalo.
O desenvolvimento do garoto devia deixar o tio orgulhoso, mas a alma de Dédalo não tinha um décimo da grandeza de qualquer de suas invenções. O ciúme começou a corroer a sua mente infeliz, como o ácido gástrico perfurando a parede elástica do estômago.
Passava horas olhando o menino, que a cada dia se aperfeiçoava mais, sem desconfiar que a sua inventividade incomodava o tio.
Dédalo alimentava o monstruoso ciúme e adoecia, enquanto Talos inventava coisas, como a roda do oleiro.
A mãe, Policasta, orgulhosa, elogiava o menino para o irmão, sem sentir no silêncio de Dédalo a maldade tomando forma.
Talos inventou o primeiro par de compassos.
A alma de Dédalo começou a ser corroída pelo ciúme.
Essa espécie de ciúme trás em seu bojo a tragédia que se enrosca feito serpente no coração, tornando a pessoa prisioneira da própria malignidade dos seus pensamentos.
Dédalo se emaranhava em sua perversidade, enquanto Talos crescia em sua habilidade.
Talos foi levado pelo tio para o alto de um templo.
- Venha! Vamos olhar os astros!
O inocente garoto acreditou.
Ao chegarem ao topo, Dédalo empurrou o pobre sobrinho para a morte.
Muitas pessoas viram quando Dédalo do alto do templo, empurrou o menino.
Policasta, ao receber a notícia da morte do filho, suicidou-se.
Dédalo foi expulso de Atenas, junto com o filho Ícaro.
Os atenienses quiseram apedrejá-lo, mas as autoridades preservaram a sua vida.
Ao chegarem em Creta, Dédalo passou a servir ao rei Minos, que se encantou com as habilidades do inventor.
Construiu o labirinto para prender o Minotauro, ser monstruoso nascido da união amorosa de Pasífae com um touro.
A construção do labirinto aumentou o prestígio de Dédalo junto ao rei.
Dédalo foi condecorado e tornou-se o inventor oficial do reino, passando assim a usufruir privilégios.

Porém, o jovem Teseu desafiou o talento de Dédalo.
Conseguiu, com a ajuda do novelo de Ariadne, penetrar no labirinto e matou o Minotauro.
O inventor caiu em desgraça.
Minos não perdoou.
Dédalo foi atirado com Ícaro numa prisão.
Passou o resto da vida tentando escapar e fugir da ilha, mas com o passar do tempo descobriu que a fuga era impossível.
No entanto, a sua mente de arquiteto nunca parou.
Concebeu um plano, talvez o mais audacioso de sua vida.
Construiu um par de asas.
Pacientemente teceu as penas e juntou-as com cera.
Dezenas de pássaros matou. Com as penas construídas, chamou o filho e disse:
- Toma! Coloque-as, mas, tome cuidado, não voe perto do Sol. Com essas asas estará livre, mas seja prudente!
Os dois alçaram vôo.
Enquanto Minos se ocupava com as coisas de Creta, pai e filho voavam rumo à liberdade.
A juventude nasceu para o vôo e não conhece as suas medidas.
Ícaro esqueceu o conselho do pai.
O vôo em si trás uma sensação de liberdade e Ícaro abandonou a prudência.
Voou cada vez mais alto, em direção ao Sol.
Quem olhasse para o alto pensaria tratar-se de um pássaro, tal a distância da terra estava o jovem Ícaro.
A cera que ligava as penas começou a derreter.
Uma menina brincava num campo e viu quando o corpo de Ícaro começou a despencar. As penas foram levadas pelo vento.
Dédalo desesperado continuou a voar em círculos.
Se olhasse para baixo veria um rodamoinho nas águas do mar.
Na praia chegavam algumas penas.
ÍCARO - RECONTADO POR MARCIANO VASQUES
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