quinta-feira, 2 de junho de 2011

O MUNDO FÊMEO DAS CORES

— Rospo, veja aquela sapa...
— O que tem ela?
— Vejo mais o que falta...
— Que papo estranho, Sapabela...
— Só parece estranho, mas é profundo...
— Diz então, destrincha...
— Ela está usando cinza... Veja a sua saia, é cinza...
— Eu a conheço, ela segue uma doutrina... E sempre se veste assim, cinza, marrom...
— Entendo, são as cores da maioria dos ternos dos sapos "sérios", os sapos de negócios...
— Diga logo o que está necessitando dizer, Sapabela. Sinto quando tem algo que não quer se calar... Sinto o formigamento...
— Primeiro o corpo, depois o espírito, é esse o caminho. Para você abotoar o espírito, para você neutralizar, aferrar, prender, sufocar, pôr num porão... Você tem que dominar, segurar, amarrar o corpo... Neutralizando a força indomável, explosiva, do corpo, você chega ao espírito...
— Mais clareza, Sapabela. Mais clareza...
— Isso mesmo. Se você tirar da sapa a vaidade, a formosura, e as cores, você consegue neutralizar, abafar o espírito... E como você faz isso? Ela não irá se enfeitar...
— Eu adoro quando uma sapa se enfeita... Adoro olhar para os brincos, para o sorriso rodeado de cores discretas... Vestidinhos azuis, vermelhos, lilases, floridos, festeiros...
— Então, se botam a sapa num vestido cinza, frio, acinzentado, você começa a neutralizar essa força que não tem jeito e terá condições de anular a grandeza de seu espírito...
— Ora... Cinza geralmente é a cor dos uniformes militares...
— Pois é, uma sapa precisa ser desprovida de seu espírito para poder lidar com a brutalidade urbana... Tem que ser rígida, dura,  inflexível... diante do mal...
— Estou começando a entender. Se a sapa for desprovida de seu espírito jovial e deslumbrante, de sua força motriz que se alimenta e reveza nas cores, nas flores e nas luzes, ela está apta a ter seu espírito capturado... E quando se aprisiona essa força ancestral, a dominação se impõe e supremacias se instalam...
— Então convenhamos. A primeira atitude é retirar das roupas da sapa o colorido, as cores, a alegria e a festa de viver e ser fêmea... O mundo afinal em todo o seu esplendor é fêmeo... No sentido, inclusive, de que nele a vida brota de forma incessante e um dos atributos do feminino é a vida...
— Nossa, Sapabela! Tudo isso? Apenas porque viu uma sapa com vestido cinza?Cada um se veste como quer...
— Às vezes o querer é introjetado...
— Lá está ela, naquele banco...
— Queria tanto falar com ela, Rospo, mas não posso interrompê-la, pois está orando.
— Sapabela, já que está com esse vestidinho de outono florido, com essa expressão permanente de sorriso espontâneo, que tal um sorvete?
— Rospo, reparou naquelas folhas que caem das árvores e se espalham no solo?
— Sim, o que tem elas?
— Que vontade de valsar sobre elas! Já pensou, nós, dançando, bailando sobre as folhas de outono...
— Certamente o nosso bailar seria simbólico, não é?
— Como assim?
— Que as folhas caem, mas a primavera dança sobre elas anunciando que a vida não tem jeito, ela é em si o eterno renascer...
— Vamos, Rospo?
— Ao sorvete?
— Não! Vamos dançar sobre as folhas de outono....
— Você me ensina?
— A minha vocação de Eurídice é o estatuto do feminino...


HISTÓRIAS DO ROSPO 2011 — 599
Marciano Vasques
Leia em CIANO

Um comentário:

  1. Adoreo ler as histórias do Rospo que muito têm para adultos.
    Um abraço
    oa.s

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