- Rospo, você precisa obedecer ao seu coração.
- O que é obedecer?
- É...Alguém mandar e você cumprir. Na obediência total, você perde o direito ao pensamento. Uns desobedecem e outros obedecem. Quem aprendeu a obedecer costuma se dar bem, mas perdeu a sua própria alma...Pois nasceu para obedecer...
- Fale mais, Sapabela...
- Tem Sapa obedecendo ao marido, jovem obedecendo ao namorado, irmã obedecendo ao irmão...
- Estou percebendo que sempre o Poder masculino prevalece...Mas quero saber mais sobre obedecer...
- O Sapo que obedece pode se dar bem...Estamos cheios de sapos que obedeceram e se deram bem e de sapos que desobedeceram e se deram mal, pagaram caro por isso. E você, vai obedecer?
- Sapabela, pelo que entendi, você deixa de ter autonomia e passa a viver em função do outro, ou seja, depende da vontade do outro, você se torna obediente, como um cãozinho, um animal que foi domesticado, é assim?
- De certa forma sim. Quando você obedece, sua alma perde o sentido, pois você aceita ser guiado, você se torna aquele que obedeceu...
- Sapabela, mas eu sou livre!, tenho um cérebro, um coração, uma mente, uma alma. Sou independente de pensamento. Se eu começar a obedecer morrerei. Para mim, pelo que me explicou, obedecer é morrer. E eu quero viver, pois tenho muito amor para dar, muita amizade, e muita coisa boa e bela para construir. E aprendi que para construir coisas belas, primeiro preciso construir a mim mesmo a cada dia, a cada manhã...Renasço diariamente, Sapabela...
- Eu sei, Rospo...Se você fosse obediente, nem seria o Rospo...
- Quem inventou a obediência, Sapabela?
- É coisa muito antiga. Desde que os sapos existem, existe o poder e uns querem exercê-lo sobre outros, para isso precisam da submissão e da obediência do outro. Se você é submisso e obediente, você será feliz, porque seu olhar se encurtará e você não precisará de distâncias... Milhões de ideais morreram para que a obediência pudesse triunfar...
- Mas tem algo que me intrigou, Sapabela. Você pediu para que eu obedecesse ao meu coração.
- Exatamente.
- Mas eu sou o meu coração! Sou o meu coração por inteiro, o meu coração está em mim, de forma integral. Sou o coração. Não há separação entre o Rospo e o coração. Entendeu?
- É um grave e maravilhoso problema anatômico: um coração que ocupa todo o ser.
- Não sou o único, Sapabela...
- Sendo assim, você poderá obedecer ao seu coração, pois ele é todo você...
- Isso eu já faço, não é? Sigo em frente, tentando acertar e no caminho vou espalhando a poesia e o amor...O amor entre os Sapos, e o respeito de cada um por todas as criaturas...E tentando transmitir uma luz aos obedientes...
- Rospo...
- O que foi, Sapabela?
- Obrigado! Foi tão bom conversar com um coração. Vamos tomar um sorvete?
- Isso é um convite?
- É uma ordem.
- Obedeço imediatamente.
HISTÓRIAS DO ROSPO 2010 - 226
Marciano Vasques